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25 abril, 2016

Capítulos nacionais da Dialética do Iluminismo


1- 
Deu na Globo, deu na Veja, deu nos jornalões, deu na cúpula do PSDB:
- Zé de Abreu tendo espaço para defender-se e defender o PT.
- Bolsonaro sendo citicado por defender um torturador.
- Veja agora pedindo a cabeça de Cunha.

O que deu neles? Medo do que vem por aí. Eles estão percebendo que os setores de extrema direita estão crescendo demais e podem sair do controle. 

Vão logo, logo perder o controle sobre o que é razoável. Alimentaram o fascismo e agora rejeitam seus filhotes. Não querem levar a culpa pela escalada de violência entre civis que se seguirá.

Mas há algo mais. Isso pode minar, a médio e longo prazo, o projeto de uma sociedade liberal-conservadora e "democrática" de tipo americano ou europeu. 

O medo inclui também a perda da audiência em relação às novelas e à programação minimamente progressista (pautas populares, minorias étnicas, gays etc.), que tem nos concorrentes variantes em ascensão.

Um capítulo nacional da novela chamada "dialética do iluminismo": a extrema racionalidade  da indústria cultural se inverte nas trevas do autoritarismo protofascista.

 **

2- 

Mudança de paradigmas na CASA VERDE 

A campanha de desconstrução de BOZONAGRO é ambígua e tem dois resultados ainda incompletos: de um lado, tem despertado ainda mais fantasmas de direita, divulgando o nome desse ser bovino, e capturando ainda mais audiência e eleitores. Ele capta e canaliza o ódio e o ressentimento do "Zé Ninguém" protofascista.

Por outro lado, ela vai revelando o fundo protofascista da massa neoliberalizada, ou seja, o fundo inconsciente do sujeito de "apartheid neoliberal", machista, branco e eurocêntrico. Isso pode ter um potencial efeito de despertar para uma certa classe média que ainda preza os valores como paz, harmonia civilizacional, tolerância e democracia. 

Eles envergonham os liberais-democratas e isto é muito bom. Talvez eles percebam, nesses zumbis de ultradireita que perderam totalmente a capacidade de pensar junto a Olasno e Bozonagro, qual é o limite do seu antipetismo ferrenho, notando que, se bobear, eles podem se transformar em um deles.


Bob Klausen 

( 24-04-16)

23 abril, 2016

GOLPE À VISTA (E TAMBÉM A CRÉDITO)

GOLPE À VISTA (E TAMBÉM A CRÉDITO)

O que vem por aí é o golpe branco, suave, midiático-parlamentar, cheio de moral seletiva e amnésia de classe fabricada por manchetes dos jornais, que hoje substituíram totalmente a leitura e a reflexão crítica. O golpe baixo dos que não toleram as classes populares na política e vieram preparando sua vingança a quase uma década.



 
O que vem por aí, depois disso, é a legitimação midiática das medidas neoliberais que pensávamos que estariam destruídas depois da crise de 2008. Nas discussões nas redes sociais, em caixas de jornais, é isto: além do preconceito de classe, do moralismo seletivo e do ódio monumental devotado à esquerda, querem ou aceitam encolher a política e o estado a um mínimo em favor das forças reificadas do mercado. Aceitam privatizações e sucateamento geral do serviço público. Não querem nada mais que dólar barato e menos impostos. 

Individualismo liberal de massas. Eis o monstrengo que se criou às nossas costas, no seio dessas novas classes médias extremamente consumistas e politicamente semianalfabetas. Aceitam o governo Temer aparentemente sem nenhuma noção do desastre que virá para os trabalhadores. O espírito empreendedor se generalizou, e ninguém mais se vê como trabalhador espoliado e dominado. É da falência da consciência de classe, que chegou a se esboçar em certo momento nos anos 60, 70 e 80, é da amnésia feita pela indústria da notícia, que impede toda acumulação de experiência histórica, que o golpe tira seu combustível. 

Ao passo que a periferia silencia, descrente de salvadores à esquerda ou direita, pois tem de ganhar a vida agravada pelo governo que também a traiu. 

Contudo, o golpe também será a crédito. Crédito com juros estratosféricos, como condição de reprodução dos serviços básicos e alimentação do capital financeiro hegemônico. Crédito - PURA CRENÇA - na estabilidade de um governo que vai plantar o caos social... para colher a guerra de classes a médio prazo.

                                                                                                         Bob Klausen (março de 2016)

Sobre o FORA TODOS!





Pois é, não pode ser esquerda dócil, comportada e domesticada linha auxiliar do PT. Tem que ser a esquerda que contribui indiretamente para a aprovação da PEC da terceirização, a PEC da teocracia, o fim dos direitos trabalhistas, a entrega do pré-Sal aos estrangeiros,a nova Alca e outras atrocidades que serão certas nessa avalanche conservadora que vivemos num governo Temer ou mesmo num governo PSDB. Em outras palavras: tem que ser linha auxiliar sim, mas da direita, porque do PT não pode, menos por coerência com a teoria critica, que manda sempre pensar na crítica imanente do que por idealismo e voluntarismo prático.
Com a vantagem que sendo linha auxiliar da direita você ganha o bônus de poder posar de radical, puro e revolucionário de padoca. Na boa, o timing político e estratégico desse povo me dá uma enorme tristeza, mais que a da continuação de um governo Dilma, que sabemos que não tem mais força alguma para barrar a avalanche e cortar os elos podres com a direitona. Mesmo assim, dá pra barrar alguma coisa antes do impacto inevitável. 

Em suma, a alternativa efetiva nessa avalanche ultraconservadora é... O Zé Maria? A Luciana? O timing político e estratégico dessa gente criada em centro acadêmico é uma piada.

(Misturando ideias minhas e de Eduardo Fontoura)

Depois do Impeachment - não será a festa da democracia.


Depois do Impeachment - não será a festa da democracia. 
                                                                                                                                 Bob Klausen

Amanhã, talvez, será o começo do reaparecimento da luta de classes no país. E de maneira contra-intuitiva, acirrada não pelo lulismo, mas pelo campo da direita hidrofóbica e golpista. Luta que será feita parcialmente pelos canais institucionais, outra parte nas ruas e espaços sociais em geral.

Teremos então o ressurgimento daquilo que a democracia burguesa e seus governos de coalizão sempre esconderam ou bloquearam: o antagonismo social, envolvendo os estratos de classe que se polarizaram em torno do reformismo fraco do PT ou das forças conservadoras e reacionárias. Dentre estes últimos, nas grandes cidades, as camadas médias ultra-individualistas e com interesses claramente elitistas do sujeito neoliberal. ("A classe média não quer direitos, ela quer privilégios, custe os direitos de quem custar." Milton Santos)

Não há o que temer, no entanto. Essa cisão será essencial para escancarar os interesses em jogo. Caso perca, a esquerda será sacudida pelo golpe, e terá de remobilizar a sociedade e reinventar saídas. Não será a ordem que veremos restituída, mas a abertura e o remexer das feridas do esbulho diário que sofremos. Se o governo ganhar, ele terá de se reinventar totalmente, ou convocar uma nova eleição, aumentando a tensão, a necessidade do esclarecimento dos projetos em luta, escancarando o antagonismo de classes. No final desse túnel: um novo golpe militar? Não eliminaria essa hipótese, pois a crise política tem por trás uma economia mundial em colapso e um tecido social totalmente esgarçado. Não há mais como fechar essa ferida depois da ascensão de uma certa classe trabalhadora, que conquistou direitos mínimos nos últimos anos. Eis a dialética histórica que a direita não conta, mas que é real. Essa dialética só será paralisada pela intervenção da força de um golpe militar? ou de um movimento de superação da política institucional por parte da esquerda: com mobilizações em massa, plebiscitos populares, greves gerais etc.?

Setores da direita já falam em sacrifícios e repressão aos movimentos sociais de base. De que não há reformas sem ruptura das legalidades instituídas (CLT, constituição de 88 etc.). Por outro lado, os setores populares ou simpáticos a eles perceberam que não haverá paz. Para reforçar esse argumento, uma impressão minha das redes. O projeto neoliberal da direita ficou claro já para certos estratos da classe média, e vai ficar claro até mesmo para os zumbis antidilma, que vivem sob a mais pura ideologia midiática, assim que os decretos-lei a la Macri começarem a quebrar o feitiço. Uma parte da classe média tenho certeza que é incurável e tirará a fantasia democrática fazendo aparecer os chifres do neofascismo. Outra parte entenderá que o mundo do capital do jeito que foi até aqui está chegando ao fim e que eles não têm como defender o capital. Nesse caso, é toda a superestrutura ideológica que virá de encontro com a base real reduzida desses estratos, expondo a céu aberto a espoliação e a dominação social que sofre a maioria.

Torturadores de 64 x Resistência Armada

Publico a seguir dois textos instrutivos de nossos companheiros a fim de  combater falácias fascistas de bolsominions e olavéticos paranoicos.



Da diferença entre resistência armada e Terrorismo de Estado
por Alexandre Vasilenskas

- As organizações de resistência armada contra a ditadura empresarial-militar de 1964 não torturaram ninguém. Não há acusações nesse sentido.
- Esses resistentes enfrentaram um Estado enormemente mais poderoso e ilegítimo (fruto de um golpe de Estado). Quando mataram o fizeram em situação de batalha ou correlatos.
- Tortura é crime internacional. Resistência armada contra governos tirânicos não.
- Sim. Eram comunistas. Da mesma forma que a resistência francesa ou os partisans italianos. Nesses lugares são considerados heróis e ninguém ousa (sob ameaça de prisão) compará-los a Gestapo.
- Como lembrou o amigo Gustavo Castañon o direito a resistência armada contra governos ilegítimos não surge com Marx: está presente em Tomás de Aquino e Locke (um dos fundadores do liberalismo).






SOBRE A EQUIPARAÇÃO ENTRE UM TORTURADOR E UM GUERRILHEIRO.

    Alexandre Avelar 

Entre os defensores do Bolsonaro, pululou a defesa da menção ao Cel. Brilhante Ustra, feita durante a votação do impeachment. Se outros parlamentares citaram "terroristas", como Marighella, Lamarca, entre outros, então Bolsonaro poderia citar o torturador e homenageá-lo. Este "argumento" nada tem de novo, ressalte-se. É a antiga cantilena de que "o país estava em guerra", "todos os lados usavam as armas que tinham" e por aí vai. Resumindo, a velha tentativa, dos defensores do regime militar, de igualar os lados. Vou tentar aqui explicar porque essa tese não se sustenta para qualquer um que deseje compreender razoavelmente o que se passou. Somente simpáticos da ditadura ou do deputado (o que, no final das contas, quase sempre dá no mesmo) podem aceitar isso, ao sacrifício, é claro, do mínimo de reflexão mais elaborada. Mínimo mesmo. Apesar do estilo "textão", tentei ser o mais direto possível. Acho a intervenção necessária e o espaço das redes sociais tem se mostrado potencialmente produtivo. Os historiadores precisam ser cada vez mais atentos a ele.
São dois os pontos de partida. Pontos cristalinos e que parecem, em meio a tanto ódio e escalada autoritária, esquecidos:


1) Qualquer setor da sociedade civil, por mais organizado que possa ser, não se equipara à força da autoridade estatal. O estado, lembremos, controla os principais instrumentos de repressão. Sob este ponto de vista, qualquer tentativa de igualar a força militar do estado e de grupos civis não se sustenta.
2) O regime implantado em 64 nasceu de um golpe que destituiu um governo legitimamente eleito. Um golpe militar que ancorava-se, entre tantas razões, na defesa da nação brasileira contra o perigo comunista. Fomos salvos da ameaça vermelha, disseram os militares, ao menos naquele momento. Mas como a utopia autoritária precisava recriar a todo momento o inimigo, a ditadura foi se consolidando a partir de sucessivos instrumentos de violação institucional. É interessante como os novos donos do poder jamais conseguiram apresentar qualquer evidência sustentável de que Goulart pretendia dar um golpe comunista em 64. João Goulart caiu sem resistência. Os comunistas não apareceram no encontro marcado para o golpe. Por outro lado, a preparação para o golpe militar da direita, todas as suas articulações, inclusive no exterior, são bem documentadas e conhecidas. Resumindo: o regime militar nasce sob o signo da ilegitimidade.

A partir daí dá para colocar na mesa os outros argumentos.
- Há relação, sim, entre os grupos de esquerda e o AI-5. O AI-5 decretou o fim das liberdades civis no Brasil. Para muitos indivíduos, o canal possível de contestação passou a ser o campo armado. A maior parte destes grupos surge no pós-68.
- Assim mesmo, as esquerdas armadas não eram os únicos alvos dos militares. Faz parte da estratégia de igualar os lados produz uma simplificação da realidade, em que dois polos se antagonizam. De um lado os militares e defensores da ordem e, do outro, a temida guerrilha armada e comunista. Ora, muitas pessoas sem qualquer envolvimento com a guerrilha foram presas, interrogadas coercitivamente, torturadas e mortas. Isso sem falar nos exílios, nas perseguições nos postos de trabalho e tudo o mais. A luta armada nunca foi o alvo exclusivo dos militares.
- Diante de um governo ilegítimo, a resistência dos cidadãos, mesmo armada, é legitima. Não é preciso ler o manual do Marighella para essa constatação. Ela está lá nos liberais. Ela está em John Locke. Não é invenção de comunista.
- Terrorista é quem usa a população civil como alvo para a realização de suas aspirações políticas. Os grupos de esquerda armada, neste sentido e com todas as justas críticas que possam receber, não eram terroristas. Seus alvos eram os agentes do estado. Estes grupos não perseguiam deliberadamente a população civil. Não há acusações de tortura a civis praticadas por grupos da esquerda armada.
- De fato, entre as inspirações ideológicas destes grupos estava a revolução socialista. Daí achar que o comunismo era uma possibilidade concreta, é um salto gigantesco. Estes grupos armados eram fragmentados, pouco integrados e com uma condição militar tremendamente inferior. O que entendiam por democracia e revolução recriava-se a todo momento, no calor das lutas. E, lembremos, eram combatentes contra um regime ilegítimo. Alguém questionou as preferências ideológicas dos que combateram o nazismo? Estamos falando de muitos que abandonaram o conforto da vida de classe média universitária para ingressarem em uma luta inglória e com reduzidíssimas chances de vitória. Estas pessoas, muitas delas mortas na luta, merecem respeito.
- Os integrantes da guerrilha e tantos outros que não fizeram a opção armada foram sim punidos e responsabilizados pelo regime militar. Esqueceram-se das prisões, condenações, exílios e assassinatos? Existe um único lado que nunca foi responsabilizado legalmente pelo que fez. E este é o lado dos torturadores, defendidos pelo Bolsonaro. Estes foram os grandes vitoriosos da Anistia, cuja vigência até hoje é um dos grandes entraves à consolidação da democracia. E também é falsa a afirmação de que a Anistia beneficiou os "terroristas". Muitos continuaram presos por terem cometidos os tais crimes de sangue. Ustra morreu sem ser responsabilizado pela Justiça.
- A autocrítica já foi feita há tempos pelos próprios integrantes da esquerda armada. Eu escreveria um textão do tamanho deste com minhas críticas a estes grupos, baseadas apenas no que li. Quando veremos a autocrítica dos torturadores e dos seus defensores?

Enfim, equiparar torturador e vítima nunca será um exercício intelectual honesto. E, ao contrário de muitos colegas, não acho que esta desonestidade seja fruto necessariamente da ignorância histórica. Pode ser, em alguns casos. Acho que nunca falamos tanto do passado. Em outros casos, pode ser simplesmente uma opção pelo fascismo e pela falta de compromisso com a humanidade.

03 dezembro, 2015

EPÍLOGO - o fim de uma novela política insossa

EPÍLOGO
                                                                                      por Bob Klausen

O Brasil virou um pôquer numa novela mexicana ou num "big brother".

Cunha blefando que tem poder dentro da casa, congresso conservador todinho comprado almejando apenas desmoralizar ainda mais o PT e daqui a pouco chantageando o governo para obter mais concessões, e o governo Dilma fingindo-se "de esquerda" colocando Levy e Tombini na pilotagem recessiva, enquanto o ditadorzinho juiz-milionário do Paraná faz o serviço seletivo da difamação e empurra ainda mais o governo para as cordas ("governabilidade") e a economia para o precipício.


Tudo filmado e arquitetado por uma mídia conservadora até o último fio de cabelo, mas a tal ponto que conserva o país na lama e o empurra ainda mais para trás, arrastando o enredo insosso da novela que já deveria ter terminado, interessada em vender manchetes-bomba para não acabar de falir, enquanto sabe que o final da novela será necessariamente um governo eleito que terá de permanecer (seja com Dilma ou com Temer). Com Temer, carta aberta para terminar de destruir direitos conquistados. No enredo da peça apenas isso: situações-limite, provas de resistência para ver quem é mais corrupto e mais calhorda, muita difamação moral, alguns barracos armados com boatos sobre o filho do amigo, e no final um país à beira da guerra civil, a se desenrolar nos capítulos finais, seja pela renúncia forçada seja pelo impeachment arrancado (que só sai se o país melhorar um pouco e a audiência demonstrar que não foi tão afetada assim pela mentalidade golpista e autoritária, enfim, que não gostou do programa reacionário e até vai votar na esquerda que restou em 2016 e em 2018).

Quem apoiar o golpe apoia esse novelão mexicano, esse big brother, esse pôquer no teatrinho de farsantes. Quem quiser o seu fim lutará para reconstruir a esquerda para fora e mais além do PT, como se vem ensaindo há duas décadas já. Chegou a hora de escolher e de fazer.

Depois de terminar essa peça, demissão: acabou o papel de quem se fingia de esquerda.

19 novembro, 2014

A linguagem da nova direita brasileira

O nível de reificação e de empobrecimento da linguagem atingiu o grau máximo nesses grupos de extrema-direita (olavianos, revoltados on line, neoliberais, ultraconservadores, adoradores da Rota e reacionários pró-intervenção militar).
Quem não conhece, sugiro que entrem em pelo menos um desses grupos para conhecer algumas tendências sociais profundas, da maneira mais purificada e destilada, e que aparecem menos desenvolvidas em outros grupos sociais da classe média "informada". O texto abaixo ajuda a caracterizar essa linguagem.
Parecem zumbis, que apenas repetem fraseologias e ditos mágicos, de preferência em caixa alta, sem temer colocar todo o seu preconceito e seu ódio incontido para fora, pregando não apenas golpe militar, mas assassinatos em massa de qualquer coisa que lhes pareça com o petismo e com a esquerda em geral. Para eles, absolutamente tudo está ligado aos "petralhas" -- e essa ligação sistemática inabalável é um forte índice de paranoia coletiva protofascista. É uma lógica muito parecida com a do bode expiatório judeu e a subversão comunista. Imaginam que só uma intervenção militar sanguinária bastaria, sem reflexão alguma, sem medir as consequências desse ato, as revoltas que se seguiriam etc. Absolutamente tudo é culpa do PT. Quando você percebe que é isso que está em jogo
O estarrecedor é perceber que a grande mídia direitista (Veja, Estadão entre outros) não é mais do que uma versão mais elaborada da mesma reificação.
Duvido que isso, essa regressão, ocorria nos anos de guerra fria e de lacerdismo, nos 1950 e 60. É algo para se pesquisar.

Bob Klausen 

Meritocracia no Brasil: um novo grande mal entendido

Segundo a fórmula célebre de Sérgio Buarque de Hollanda, no Brasil a "democracia sempre foi um grande mal entendido". O mesmo poderia ser dito sobre a ideia de "meritocracia" no país. 

Na verdade, há algo de profundamente autoritário na ideia de meritocracia em geral, que é multiplicada por dez no Brasil patriarcal, autoritário, da gente proprietária. Como se sabe "cracia" é poder: o poder de uns sobre outros, que na democracia sai relativizado como o poder da maioria, ou como a capacidade de discussão e decisão coletiva entre iguais, para além do poder econômico de cada um.

Na meritocracia o poder está com o sujeito econômico de destaque. Ela corresponde diretamente, enquanto ideologia, à forma cega e fetichista do valor. Mas quem define o que é mérito aqui? O mercado, a concorrência, as leis do darwinismo social, e, no Brasil, em especial, a cadeia de privilégios sociais dinásticos, o racismo velado e principalmente a lógica do favor e a regra personalista.

País de meritocratas sem mérito, pior, de escravos historicamente defendendo a própria cela meritocrática, sempre prestes a rebaixá-los a um mero pedaço de natureza "inepta" e "preguiçosa".

Bob Klausen

11 novembro, 2014

"O Brasil vai virar Cuba! - e tudo mais que o fascismo quiser

Não, o neoliberalismo não faliu em 2008. Ele é a substância da ideologia mundial do capitalismo globalizado. Não é preciso defender o modelo cubano nem em partes, muito menos integralmente para perceber que frases como "O Brasil está virando outra Venezuela ou outra Cuba" são ignorância e despreparo intelectual no mais alto grau. Quem diz isso simplesmente desconhece que a economia atual é feita de monopólios privados, e que mesmo as empresas estatais funcionam sob a lógica do lucro.

É bem mais simples que isso, no entanto: quem pensa que o Brasil virará socialista em breve desconhece que o neoliberalismo tem a hegemonia ideológica total sobre a sociedade, os meios de comunicação e a consciência. Um atestado de burrice política: é desconhecer que a economia capitalista não tem mais volta e ruirá, se um dia ruir, por suas próprias contradições internas.


O neoliberalismo não morre mais -- ao menos enquanto o sistema capitalista existir --, pois ele brota do cerne da forma do valor, que é também a protoforma da consciência reificada. Basta a ideologia para sustentar o sistema, mas a ideologia se fundiu à base produtiva (Adorno), e é uma coisa só com o sistema global. 

Como células isoladas de dispêndio de trabalho abstrato e consumo, os indivíduos desta sociedade provavelmente nunca abandonarão seu modo de vida produtivista e consumista e jamais pensarão que um modelo como o cubano, que garante a mínima igualdade de condições básicas (apesar do autoritarismo e da concentração do poder), pode ser um feixe de luz de experiências acumuladas num contexto de escassez de recursos naturais e de pós-escassez de bens fundamentais, numa eventual economia pós-capitalista.

AUm dos índices mais fortes de protofascismo provavelmente é essa nuvem de mentiras, boatos, acusações falsas e enganações descaradas que ficam impunes na mídia e na opinião pública. No novo clima de macarthismo em que estamos, nada passa de ideologia em estado bruto, de preferência cristalizada em memes de facebook. 

O fascismo em tudo isso? Está pressuposto nessa lógica do poder de dobrar, violentar e inverter tudo, metarmofosear todo conteúdo para um fim autoritário e falso. Como dizia Guy Debord: na sociedade do espetáculo o verdadeiro é um momento do que é falso.
Bob Klausen 

A imprensa a favor da privatização da Universidade Pública

Está aí a notícia do elitismo desavergonhado: "Folha de S. Paulo volta a defender cobrança de mensalidade na USP". (http://spressosp.com.br/2014/11/08/folha-de-s-paulo-volta-defender-cobranca-de-mensalidade-na-usp/)

No Tucanistão os serviços básicos como água, saúde e educação serão sucateados e praticamente privatizados ou de acesso individual conforme a renda. É um projeto de poder. Tem gente que aplaude. Tem gente que sai na rua em defesa desse governo.

Seu esporte é colocar a culpa no governo federal, ou no PT, mesmo desconhecendo as mediações históricas e econômicas do processo social. Passam no vestibular, são ótimos nas exatas, mas desprezam profundamente a dimensão histórica e sociológica dos problemas.

Mas eu não diria que são ingênuos. Por trás disso há uma espécie de vontade de ser elite, de duplo preço a ser pago para ser top. Um elitismo anticaipira quatrocentão, também localista e "acaipirado" ao seu modo, avesso aos direitos sociais fundamentais e a toda noção de igualdade de fato ou até de condições, que quer excluir definitivamente as camadas médias e pobres dos cursos visados pelas elites. Cursos que, aliás, é o mercado quem escolhe por elas, e gera sofrimentos imensos em seus alunos pela falta de sentido em todo o percurso universitário (sem verdadeira universalidade).

O que pensar? Para nós, talvez, mais um caso gritante de masoquismo histórico. Mas tudo bem, para a classe média em geral nunca se tratou de outra coisa: o que importa não é ser pisado e eventualmente esmagado pela concorrência, mas pisar em alguém, com alguma honra ao "mérito". Continuarão fiéis ao governador e a seu partido. Pois em São Paulo a hegemonia deles se tornou quase total. 
Bob Klausen

Sobre Luís Nassif: O Xadrez da batalha do impeachment

Um bom texto de Luis Nassif (http://jornalggn.com.br/noticia/o-xadrez-do-jogo-do-impeachment-por-luis-nassif) de sociologia do poder e da mídia, com uma forte pitada de "futurologia" para os próximos dois anos.

Sinta o buraco ou o campo efetivo das lutas, que é mais embaixo ou mais amplo do que aquele jargão velho de guerra sobre as massas, as multidões ou "as ruas", que sempre foram um mero peão marginal dentro do campo de batalha entre elites, a mídia, a classe média e seus gestores. Em suma, as grandes peças do xadrez político nacional ainda são as forças reificadas nas altas esferas.

Porém, o sujeito que tem pouco peso nessa análise é o o capital, em processo de crise, a economia real entre inflação, ajustes de preços e concorrência global. Vai ser quase impossível governar à esquerda nesse momento, confirmando a paralisia da política.

Por outro lado, ainda, vai ser difícil para a mídia conciliar o seu denuncismo moral com falta de verbas publicitárias por parte de governos e empresas. No fundo, tudo vai depender do que sair de fato concreto da operação Lava a Jato. E parece que vai ser pouco, pois os partidos fizeram o famoso "acordão" para não jogar merda no ventilador coletivo.

Bob Klausen

02 novembro, 2014

A espuma, a onda e o mar conservador brasileiro (e mundial)


A tese da onda conservadora precisa ser criticada, mediada e superada. A dialética permite ver a mediação dos opostos dentro da práxis do que poderíamos denominar "homo economicus liberal": o mesmo no outro, o outro no mesmo, principalmente em países de modernização conservadora como o Brasil. 

1- 
As manifestações de hoje -- FORA PT - Impeachment - Intervenção militar -- foram minguadas, principalmente as de fora da capital reacionária maior, São Paulo. Mas, para eles, colocar 3 mil na avenida Paulista foi um verdadeiro sucesso. Inacreditável a dois anos atrás.

Estão comemorando loucamente pois nem eles creem que foram capazes de suspender seu individualismo de massa ordeira e passiva e gerar alguma coisa coletiva e (re)ativa. Disseram ser 35 mil nas ruas hoje. No Brasil, 125 mil, outros dizem 300 mil (!). Gostaram da coisa. Botam fotos de manifestações de junho como se fossem de hoje; a praga mitomaníaca os leva longe no delírio.

A mídia golpista que os alimenta (globo, veja, estadão, band) praticamente os desprezou, pois sua bandeira é demais agressiva, demais explícita neste momento. Mas servirão como um bom ensaio do que pode advir na sequência com o possível processo de impeachment.

Doravante, se provas forem urdidas, ela poderá destravar a língua e incitar a massa abertamente ao "fora PT" mundial. Numa imagem aproximada, os reacionários de extrema-direita foram hoje uma espécie de "gasolina incendiada" sobre o mar de óleo conservador da direita. Falta pouco para esse mar oleoso pegar fogo. Basta a chama -- e o chamamento --- da grande imprensa para atiçar o fogo do ódio e destruir tudo: não só o PT, mas desmoralizar e escorraçar a esquerda em geral para as catacumbas sociais. Combustível reforçado ainda mais por outros pontos de incêndio, assim que vierem os aumentos da energia (combustíveis e eletricidade).

Nessa hipótese, a esquerda não-petista pode se preparar de duas formas: enfrentar as manifestações mais brutas do fascismo e da direita nas ruas, distinguindo-se do governismo, e de maneira organizada, com apoio de bases ampliadas das classes espoliadas. O segundo ponto é o mais decisivo, porém: o ataque tem de ser dirigido menos ao céu da política do que ao chão da economia/ecologia política. A crise hídrica será o estopim desse confronto. Como em Junho foi o transporte público.

2- 

Mas, sem precipitações: não há fascismo algum nas ruas. Paremos diante desta obviedade. Esses setores de extrema direita são a minoria da minoria da sociedade. Deram vexame ontem e serão logo esquecidos nos submundos da internet, donde tramarão pela milésima vez seu golpe militar imaginário.

Analistas de esquerda do mainstream estarão hoje desprezando tais fenômenos micrológicos residuais, decantados e refinados a partir de tendências sociais profundas, como sendo mera superfície social.

Ora, não foi exatamente pela intervenção militar ou o separatismo (apenas a minoria folclórica sem noção radicalizou desse jeito), mas pelo "fora PT" que eles saíram às ruas.  Nesse sentido são sim representativos de algo muito maior. Basta ver os cartazes. Ecoam uma enorme insatisfação com o PT, o enorme desgaste da política, a vontade de poder do homem ressentido e das elites da casa grande contra as pautas populares e da esquerda, e coisas desse tipo.

Em termos nacionais, tais microfascismos e reacionarismos foram representados por bolsonaro e os nanicos Fidelix e Everaldo. Mas é bom lembrar: votaram fervorosamente em Aéreo e cogitaram até mesmo em Marinar. Suas bandeiras principais ontem eram as da revista Veja, ecoando o ódio moralista histórico da UDN: "Dilma sabia de tudo", "fora petralhas", "fraudes nas urnas" e "impeachment". Reinaldo Azevedo, no blog da revista do chrorume semanal, defendeu o golpismo do impeachment e o fora pt, mas disse que eles foram distorcidos pela mídia . Mas de fato, no palanque o filho de Bolsonaro, Lobão, Coronel Telhada e Paulo Martins vociferaram suas sandices golpistas. Eduardo Bolsonaro se superou: “Ele [seu pai] teria fuzilado Dilma Rousseff se fosse candidato esse ano. Ele tem vontade de ser candidato mesmo que tenha de mudar de partido”. E emendou: “Dizia na minha campanha: voto no Marcola, mas não em Dilma. Pelo menos ele tem palavra”.   

Nesses termos, parecem todos eles no momento muito mais parte de um microfenômeno imaginário e ideológico do que prático e concreto. Isto é, são irracionais e inconsequentes do ponto de vista imediato.

Mas e a esquerda e a extrema esquerda? São outra minoria, embora organizada e politicamente orientada por uma estratégia mínima comum. Mas é, sim, outro fenômeno muito mais imaginário, teórico-ideológico do que prático, queiramos ou não, sem larga base social ampla. Em alguns setores, a "ideologia do movimento" confina com simples ilusões de grêmio estudantil.

Estes setores de ultradireita são a espuma de uma onda conservadora de classe média dentro de um mar conservador nacional, que eu diria de dimensões mundiais. Não se ganha nada em diagnosticar que são mera miragem, e que juntos os venceremos. Aliás, contra Alckimin e a crise hídrica em São Paulo, no mesmo dia, tivemos 150 pessoas. Está aí o resultado das eleições na Europa, e está aqui o nosso congresso e os governadores de centro-direita. Está aí, sintomaticamente, sob o ataque especulativo midiático e financeiro, a direitização esperada de Dilma logo na primeira semana após as eleições. Não há mar conservador? Falta dialética nessa miopia teórica: a capacidade de ver além do imediato, segundo a lógica do tempo, a mediação de opostos, e sobretudo a reversão do outro no mesmo, típica de nossa modernização conservadora.

Vi jovens imaturos. Politicamente desorganizados e inconsequentes nas ruas. Mas não vi só jovens, não. Vi setores simpáticos à extrema direita, de meia idade e saudosos do regime de 64. Mas vi também setores da classe média antipetistas ferrenhos, esses que se declararam de maneira agressiva e virulenta nas redes quando Dilma venceu. É um rastilho de pólvora, ou a gasolina incendiada dentro do tonel de óleo cru. Pode incendiar os Jardins e os bairros de classe média como em Junho. Basta o comando dos meios midiáticos golpistas, como foi com Collor. São assim um germe de outra coisa, que não será evidentemente a radicalização à extrema-direita, ao golpismo de 64. O capital não precisa disso por enquanto.

Mas vi aí o ensaio para uma possível campanha pelo impeachment, se provas forem urdidas ou forjadas, em que estará posto a completa hegemonia da direita no país. No entanto, segundo corre nos bastidores, essa campanha levaria vários políticos e partidos, inclusive da oposição, ao mar de lama conjunta da direita e do estado burguês, colocando a legitimidade do governo da República em xeque.

E com todas as suas consequências - desastrosas em termos de reconstrução da política a partir de uma nação alienada, em frangalhos, isto é, alijada de bases teóricas críticas e da práxis política enraizada. Está aí a Ucrânia como exemplo: uma massa nacionalista, liberal-individualista unida a uma extrema direita neonazista clamando por se integrar no matadouro da União Europeia com autonomia nacional. Está aí a nova direita populista europeia (ver sobre isso o dossiê esquerda.net: http://www.esquerda.net/topics/dossier-221-nova-direita-populista-europeia). Esta aí a Venezuela dividida entre elites neoliberais, a massa popular e um governo social-populista muito frágil, está aí a Grécia patinando entre esquerda e direita neonacionalista, ou o republicanismo americano, e muitos outros países recentes, como exemplos. Do quê?

Exemplos de frutos maduros de um homo economicus liberal sem raízes ou que perdeu suas raízes na globalização, que se inverte à direita e espuma na costa como fenômenos coligados a tendências de protofascismo. O protofascismo é a tendência maior neste mar. E tendência a não se desenvolver por completo. Tendência à fragmentação de manifestações parecidas com as fascistas. O fascismo pode não desabrochar nunca mais. E de fato creio que será o caso. Basta legitimar um Estado autoritário, penal-carcerário, que impeça toda transformação social, principalmente nos tempos de crise e urgência que se seguirão. 

É isso que os analistas ainda não perceberam em casos como estes: não o liberalismo se subordinando a um conservadorismo de direita, que seria externo a ele, mas o liberalismo se transformando no que ele sempre traz em germe: o conservadorismo. Em suma, o individualismo esclarecido do homem-tempo-trabalho-dinheiro liberal revertendo-se em seu contrário: obscurantismo, elitismo, machismo, racismo, autoritarismo, fascismo.

19 outubro, 2014

DISTOPIA HÍDRICA PAULISTA

Crise hídrica em São Paulo: em tempos de colapso generalizado do desenvolvimento, a utopia cede lugar à distopia

Pois, nesse exato momento, não estaríamos sujeitos a uma política do silêncio? O governo estadual não vem calando abertamente a Sabesp e a mídia? Muito provavelmente. Tudo para se reeleger em primeiro turno e apoiar o presidente para completar as obras do Tucanistão. 

O silêncio, no entanto, é bem mais radical do que isso. Porque podemos imaginar o que está por trás desse cenário preocupante: uma espécie de apocalipse.

Nessa hipótese distópica, a estratégia do silêncio serviria a um propósito claro: evitar o pânico, prevenir uma rebelião e mesmo uma guerra civil, que já começam a se esboçar em alguns lugares.


(Caminhão pipa escoltado pela polícia em Itú-SP).

Imaginemos a falta de água por meses seguidos, ou até anos, na maior região metropolitana e produtiva do país. Escolas, fábricas, empresas paralisadas. Manifestações generalizadas e polícia prendendo e descendo o cacete, com afinco, como de costume. Saques em supermercados. Estado de exceção e toque de recolher nas ruas. Massacres de pobres e excluídos. Presídios lotados -- e em rebelião. Invasões, roubos de água, enquanto as classes dominantes terminam seu processo de bunkerização, podendo comprar e armazenar água para si. Pobres vivendo em áreas de encostas de morro sem quase nenhuma água, ou com água contaminada. Surtos de doenças contagiosas por falta de higiene básica. Hospitais lotados. Poços artesianos insuficientes, secando rápido, assaltados ou em disputa selvagem. Milícias privadas escoltando carros pipa, o crime organizado respondendo à polícia. Ondas maciças de desemprego e de revolta, sem movimentos sociais organizados capazes de ordená-las, o que promete ser a reedição do individualismo de massas nas ruas de Junho. E pior, num país que elegeu um congresso conservador e reacionário. Apoiado pela grande mídia, esse governo esconde a estratégia tucana até o final, buscando deslegitimar toda tentativa de rebelião popular de massas não conformistas e não alinhadas (digamos: proto-socialistas). Cada um por si, todos contra todos. Ondas de refugiados e migrações  para fora ou para outras partes da cidade. Preço da água potável e dos alimentos em rápida elevação. A falência de empresas conduz o capital a saltar para mercados financeiros ou produtivos para fora da região metropolitana, inclusive para fora do estado. Miséria e arrocho salarial pelas mãos de um candidato neoliberal que vai governar para a elite privilegiada, supostamente meritocrática, e que ameaça mais privatização. E tudo isso num país que cedo ou tarde vai entrar em crise nos  próximos anos, devido aos reajustes de preço de eletricidade e combustíveis. 

Para saldar os gastos, mais medidas de emergência, mais cortes em investimentos estatais, mais privatizações, mais repressão contra essa guerra civil canibal-nuclear-zumbi que se avizinha em nossa imaginação distópica.

15 outubro, 2014

Teoria do golpe a conta-gotas: sobre a crise da água em São Paulo

Os golpes modernos são feitos a conta-gotas. As pessoas aguardam, passivamente, colocando a culpa nas forças divinas. 

"Se seca continuar, a água termina em novembro, admite o presidente da SABESP. "

Só agora o Estadão resolve avisar seus leitores da seca e do racionamento?! Cinismo esclarecido é assim que funciona. 

O fato é que o governador provavelmente ordenou que a Sabesp fechasse o bico sobre o tema espinhoso. Na submanchete do jornal, a verdade sórdida, que o jornal evitou o quanto pôde: "Presidente da Sabesp diz que Justiça Eleitoral barrou propagandas e que não podia falar a palavra 'seca' e sobre gravidade da situação" (O Estado de São Paulo,15.10.14)

E assim saem todos impunes. Esperam a impunidade. O governador dá o golpe, os jornais repassam o golpe aos eleitores. Exatamente há duas semanas depois do primeiro turno. Curioso: ninguém diz que o PSDB aparelhou a SABESP.

No editorial da Folha de São Paulo (http://naofo.de/1lph): ricos entre si, conflitando. A mídia cobra medidas do governador e da SABESP, sem maquiar o cenário catastrófico que se avizinha. Incrível. A desfaçatez e a estupidez atingem as raias do absurdo. Usam até mesmo os argumentos da esquerda nesse editorial, os argumentos que evitaram o tempo todo: "a incúria das gestões tucanas que comandam o estado desde 1995. E os seus pressupostos, além da seca atípica: os relatórios técnicos que avisaram sistematicamente sobre a insegurança hídrica da região metropolitana, a irresponsabilidade do governador que privatizou a empresa pública ou a fez funcionar segundo a lógica do lucro e da distribuição de dividendos para acionistas. 

O golpe eleitoral, no entanto, está consumado. Com a ajuda do golpe midiático de sempre.

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Parêntese teórico: "Pois bem, de 2005 a 2013, os lucros da Sabesp, em valores corrigidos, atingem R$ 13,7 bilhões.Seu patrimônio líquido, R$ 12,9 bilhões. O que significa rentabilidade média neste período  (lucro frente ao patrimônio líquido) foi  de 11,86%. Os dados são de balanços da própria empresa.
A Sabesp, portanto, é altamente lucrativa e poderia reaplicar os ganhos na ampliação dos serviços à população.
RENTABILIDADE DA SABESP
Os lucros de 2005 a 2013 dariam para construir seis vezes o Sistema Produtor de Água São Lourenço, cujas obras tiveram início somente em 10 de abril deste ano."

http://www.viomundo.com.br/denuncias/governo-alckmin-embolsa-50-dos-lucros-da-sabesp-e-ainda-reduz-investimentos-em-agua.html

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Está para ser escrita, então, uma nova teoria do golpe a conta-gotas. 

Penúltimo capítulo: SABESP mete o loco no Cantareira. 
"SABESP desobedece Justiça e retira do Cantareira água sem aval, aponta vistoria" (Estadão, 15.10.14). 

Último capítulo, a provável gota d´água: "sem aval", a população organizada invade o palácio do governo e a câmara e pede o impeachment desse governador privateiro irresponsável. 



Restam-nos 15 ou 20 dias de reservas, senão menos. 

Gota derradeira: "Vereadores e diretor da SABESP rezam por chuva em Franca" (OESP, idem).

Vão rezar também para a massa crítica se calar engolindo seu próprio sangue, suor e lágrimas? 

A ver. 

Bob Klausen 

Reificação e desreificação da consciência

Como é que a classe dos "informados" vai entender as implicações do monetarismo do seu candidato neoliberal? Será que desenhando ela entende?

Alguém dirá: o raciocínio é impenetrável também para a classe trabalhadora. Será mesmo? Os trabalhadores já compreendem primeiro no bolso e depois no modo de vida cotidiano a mudança e a possível destruição de tudo que foi conquistado. A classe trabalhadora foi abalada e sabe que pode perder tudo tal qual "ganhou" pelo trabalho --- daí grande parte se assustar com o ataque midiático que prega o puro caos econômico -- e assim, ela também vota inconscientemente no inimigo de classe. O PT, dizem alguns, prega o medo. Não é bem assim. As circunstâncias reais são desfavoráveis na economia mundial atual. E são de meter medo, caso um modelo neoliberal vença. A crise é objetiva, mas alguns a transformam em terrorismo econômico e em caos espetacular-midiático no contexto de um governo que tem adiado a crise, com reservas internacionais razoáveis (350 bilhões de dólares). As estruturas sociais estão abaladas, a representação não representa mais nada. Por outro lado, a divisão social das classes começa se esboçar, e assim surge ao mesmo tempo a brecha para a ascensão conservadora e reacionária, para a cegueira, o irracionalismo e o fundamentalismo mais estúpidos, tanto quanto para uma verdadeira unidade de classe entre os de baixo. No entanto, essa dialética patina e se esfuma momentaneamente.

Isso posto, é importante ver o outro lado da história: a classe trabalhadora também sabe comparar o passado ossificado ao presente recém transformado e aberto à mudança. Ela sentiu a história, desnaturalizou parte dos processos coisificados e assim também, em parte, politizou o debate (percebeu que a política interfere sim na economia, que deixa então de ser um puro fetiche de cartas marcadas). Se o PT tivesse forçado uma politização do debate histórico e formado um consenso democrático contra as elites ele ganharia a hegemonia que conquistou no final dos anos 2000, trazendo essa classe média conservadora para o seu lado, contra-a-corrente mundial neoliberal e agora francamente anti-socialista.

Bob Klausen 

A audição materialista da política eleitoral

Debate sob audição materialista:

Ouvido direito: "eu quero fazer o governo da convergência, da solidariedade, da família cristã, blablablablá"

Ouvido esquerdo: "neoliberalismo, cortes nos gastos sociais, Armínio Fraga, privatização, meritocracia, elitismo, tecnocracia, racismo, agronegócio, nova Alca, heliococracia"...





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O tique Bráscubiano de Aético: o sorrisinho ensaiado, cínico, escarnecedor. O povo percebe que isso é fake, uma estratégia de marketeiro. Repetido roboticamente torna-se efeito oposto, revelando o feitiço. Machado de Assis usou e abusou dessa técnica. 

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Como um dos editores da revista Veja   fabula a cena:


"Aécio Neves é articulado e trata o idioma com carinhoso respeito. Dilma Rousseff  tortura a gramática, desfere pontapés na ortografia e não consegue convencer o sujeito a andar de mãos dadas com o predicado.
Provido de uma cabeça sem avarias, ele se expressa com clareza, raciocina com agilidade e lida muito bem com improvisos. Portadora de um cérebro baldio, ela amontoa frases que não fazem sentido porque vivem procurando inutilmente o verbo que sumiu, um adjetivo arredio ou o ponto final que teima em não chegar e, sobretudo." (http://naofo.de/1m2p)

Sobretudo o quê? A frase termina abruptamente. Mimese de seu objeto ou falha do articulista? Não parece mais um ato falho que aponta quem é o verdadeiro caos sintático a ser regrado? O que o blogueiro sente é o triunfo da superfície retórica, da prática ensaiada por marketeiros, com seu sorrisinho malévolo de classe dominante. Assim, não é de espantar que praticamente nenhuma palavra é feita sobre o conteúdo do debate. Ao contrário, aqui ele adentra o "terreno perigoso da lenda": 
"De bem com a vida, Aécio sorri e acha graça com naturalidade. Amargurada com o que vê no espelho, Dilma é uma carranca prenunciando permanentemente outro chilique e pertence à tribo que não entende a piada. 
Aécio quer fazer em escala ampliada o que fez em Minas [!!]. Dilma promete fazer o que poderia ter feito nos últimos quatro anos." 
Sofisma que se revela na valorização final da imagem do homem feito para ser naturalmente presidente:
"Quem assistiu ao debate viu um homem com jeito de presidente e uma mulher com cara de quem desconfia do desemprego iminente. O debate na Band pode ter consumado a demissão".
A única demissão assegurada, no entanto, é a da inteligência crítica. A mídia menos oligofrênica reconheceu a força dos ataques de Dilma. A bolsa caiu. A fala desarticulada de Dilma é a marca dos desvalidos da cultura em sua luta contra as forças obscuras.
Bob Klausen

13 outubro, 2014

A Zumbilândia Eleitoral

1-


O clima político-eleitoral no Tucanistão (ex-São Paulo), em bairros de classe média alta em que eu trabalho, tornou-se angustiante e mesmo perigoso. Nunca vi coisa parecida, talvez só na campanha de caça às bruxas de 89. Imagino como deve ter sido a campanha anti-jango em 1964.


2-

Aécio aparece como um campeão da ética e da boa gestão. Ninguém desconfia de que ele é um boneco de papelão criado pelo marketing. Simplesmente nem imaginam que seu governo em Minas foi um desastre e um fiasco em relação aos serviços públicos mais essenciais, nem conhecem sua atuação antipopular como senador (contra a valorização de salário mínimo, atuação nula etc.).


3-

"Votar em Dilma" aparece nesses meios quase como se confessar como adepto de uma seita satânica. As pessoas não acreditam que pessoas "pensantes" votem a favor da "quadrilha petista". A economia parece um caos, e o clima de terror impõe o FMI, o Financial Times e as Bolsas como a voz da Razão na história. O ódio foi destilado pela mídia no mais puro grau, partindo do conservadorismo estrutural, do autoritarismo e do protofascismo do atual estágio da socialização mercantil.



4-

Aqui o centro de gravidade da política para uma crítica à esquerda do próprio PT: formar os jovens -- em boa parte "marineiros" de primeira viagem, que foram às ruas em Junho nas capitais do país (sem esquecer a massa passiva e ausente) --, jovens que caem facilmente no discurso anti-corrupção insuflado pela mídia. Repetem chavões na mídia como zumbis cheios de ódio. O humor é puramente reativo, pleno de influxos de um superego rígido que manda gozar "em ordem", gozar da lei "dentro da lei", em um país que não tem lei aparente, a não ser a lei neoliberal, que eles no entanto desejam para si enquanto sujeitos da concorrência total.

5-

São muito inocentes para perceberem a pauta moralista seletiva e a luta de classes em curso nesse momento. Desconhecem por inteiro conceitos como neoliberalismo, dominação social ou luta de classes. O público médio dos jornais e desses bairros citados não tem noção adequada de economia e de política, desconhece história, ou tem acesso apenas a versões ideológicas da história criadas pela direita. E se acham cheios de si, meritocratas, num país aparentemente imerso no puro caos econômico. Os jornais reforçam o ódio mapeando que quem vota em Dilma ganha mais bolsa família mesmo. Ou seja, é ignorante e tem um voto comprado.



6-

Contudo, se há alguma coisa como uma negação dialética implicada nesse processo, ela está sob o nosso nariz: o jovem quer mais educação. Duvido muito que a manipulação que estamos vivendo aconteceria se a discussão democrática na mídia estivesse de fato instaurada. Uma lei de democratização dos meios de comunicação é urgente, bem como a requalificação do ensino em geral. Pois bem: os investimentos razoáveis em educação dos últimos anos são um ponto de comparação que combatem a campanha do PSDB, fundada veladamente em cortes nos gastos sociais nesse campo.



7-


Outra coisa: o paulista médio, criatura das práticas neoliberais e "meritocráticas", reproduz o preconceito contra o pobre nordestino que vota em Dilma, mas sabe reconhecer na hora h que isso não passa de elitismo tosco e pode acabar em fascismo. Ele tem vergonha de se reconhecer no espelho. Não poderia ser diferente num povo herdeiro de uma tradição católica e caipira, profundamente arraigada: o povo que apoia a ditadura de 64 mas se arrepende assim que os porões da tortura começam a gritar. O conservadorismo das elites e de parte dessa massa é a essência obscena, mas a fachada "cool", "cosmopolita", "politicamente correta" nessas horas pode ajudar a trazer as pessoas para a razão e para a sensibilidade diante dessa essência fascista moderna. Quebrar um intelecto abstrato como esse é uma tarefa de Hércules.


8-

Esses dois caminhos podem ser ingênuos, mas é o que eu vejo por enquanto como o possível.


Bob Klausen