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23 abril, 2016

A máquina de omissão e amnésia social


Sobre a lista da Odebrecht e a operação abafa que provavelmente se seguirá:

"Os meios de comunicação industriais se beneficiam de uma singular depravação das leis democráticas... nossa legislação lhes concede o poder exorbitante de mentir por omissão, censurando e vetando aquelas notícias que não lhes convêm ou possam prejudicar os seus interesses. (...) o verdadeiro problema da imprensa e da televisão não é mais tanto o que elas são capazes de mostrar, mas o que ainda podem apagar, esconder, e que constituiu até aqui o essencial de sua força".
(PAUL VIRILIO, A arte do motor, 1993).

 Não é delírio do Virilio: o golpe midiático-parlamentar de 2016 jamais seria possível sem doses cavalares de omissão e amnésia social.

Bob Klausen (26-03-16)

19 novembro, 2014

A linguagem da nova direita brasileira

O nível de reificação e de empobrecimento da linguagem atingiu o grau máximo nesses grupos de extrema-direita (olavianos, revoltados on line, neoliberais, ultraconservadores, adoradores da Rota e reacionários pró-intervenção militar).
Quem não conhece, sugiro que entrem em pelo menos um desses grupos para conhecer algumas tendências sociais profundas, da maneira mais purificada e destilada, e que aparecem menos desenvolvidas em outros grupos sociais da classe média "informada". O texto abaixo ajuda a caracterizar essa linguagem.
Parecem zumbis, que apenas repetem fraseologias e ditos mágicos, de preferência em caixa alta, sem temer colocar todo o seu preconceito e seu ódio incontido para fora, pregando não apenas golpe militar, mas assassinatos em massa de qualquer coisa que lhes pareça com o petismo e com a esquerda em geral. Para eles, absolutamente tudo está ligado aos "petralhas" -- e essa ligação sistemática inabalável é um forte índice de paranoia coletiva protofascista. É uma lógica muito parecida com a do bode expiatório judeu e a subversão comunista. Imaginam que só uma intervenção militar sanguinária bastaria, sem reflexão alguma, sem medir as consequências desse ato, as revoltas que se seguiriam etc. Absolutamente tudo é culpa do PT. Quando você percebe que é isso que está em jogo
O estarrecedor é perceber que a grande mídia direitista (Veja, Estadão entre outros) não é mais do que uma versão mais elaborada da mesma reificação.
Duvido que isso, essa regressão, ocorria nos anos de guerra fria e de lacerdismo, nos 1950 e 60. É algo para se pesquisar.

Bob Klausen 

15 outubro, 2014

Teoria do golpe a conta-gotas: sobre a crise da água em São Paulo

Os golpes modernos são feitos a conta-gotas. As pessoas aguardam, passivamente, colocando a culpa nas forças divinas. 

"Se seca continuar, a água termina em novembro, admite o presidente da SABESP. "

Só agora o Estadão resolve avisar seus leitores da seca e do racionamento?! Cinismo esclarecido é assim que funciona. 

O fato é que o governador provavelmente ordenou que a Sabesp fechasse o bico sobre o tema espinhoso. Na submanchete do jornal, a verdade sórdida, que o jornal evitou o quanto pôde: "Presidente da Sabesp diz que Justiça Eleitoral barrou propagandas e que não podia falar a palavra 'seca' e sobre gravidade da situação" (O Estado de São Paulo,15.10.14)

E assim saem todos impunes. Esperam a impunidade. O governador dá o golpe, os jornais repassam o golpe aos eleitores. Exatamente há duas semanas depois do primeiro turno. Curioso: ninguém diz que o PSDB aparelhou a SABESP.

No editorial da Folha de São Paulo (http://naofo.de/1lph): ricos entre si, conflitando. A mídia cobra medidas do governador e da SABESP, sem maquiar o cenário catastrófico que se avizinha. Incrível. A desfaçatez e a estupidez atingem as raias do absurdo. Usam até mesmo os argumentos da esquerda nesse editorial, os argumentos que evitaram o tempo todo: "a incúria das gestões tucanas que comandam o estado desde 1995. E os seus pressupostos, além da seca atípica: os relatórios técnicos que avisaram sistematicamente sobre a insegurança hídrica da região metropolitana, a irresponsabilidade do governador que privatizou a empresa pública ou a fez funcionar segundo a lógica do lucro e da distribuição de dividendos para acionistas. 

O golpe eleitoral, no entanto, está consumado. Com a ajuda do golpe midiático de sempre.

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Parêntese teórico: "Pois bem, de 2005 a 2013, os lucros da Sabesp, em valores corrigidos, atingem R$ 13,7 bilhões.Seu patrimônio líquido, R$ 12,9 bilhões. O que significa rentabilidade média neste período  (lucro frente ao patrimônio líquido) foi  de 11,86%. Os dados são de balanços da própria empresa.
A Sabesp, portanto, é altamente lucrativa e poderia reaplicar os ganhos na ampliação dos serviços à população.
RENTABILIDADE DA SABESP
Os lucros de 2005 a 2013 dariam para construir seis vezes o Sistema Produtor de Água São Lourenço, cujas obras tiveram início somente em 10 de abril deste ano."

http://www.viomundo.com.br/denuncias/governo-alckmin-embolsa-50-dos-lucros-da-sabesp-e-ainda-reduz-investimentos-em-agua.html

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Está para ser escrita, então, uma nova teoria do golpe a conta-gotas. 

Penúltimo capítulo: SABESP mete o loco no Cantareira. 
"SABESP desobedece Justiça e retira do Cantareira água sem aval, aponta vistoria" (Estadão, 15.10.14). 

Último capítulo, a provável gota d´água: "sem aval", a população organizada invade o palácio do governo e a câmara e pede o impeachment desse governador privateiro irresponsável. 



Restam-nos 15 ou 20 dias de reservas, senão menos. 

Gota derradeira: "Vereadores e diretor da SABESP rezam por chuva em Franca" (OESP, idem).

Vão rezar também para a massa crítica se calar engolindo seu próprio sangue, suor e lágrimas? 

A ver. 

Bob Klausen 

23 março, 2014

O FIASCO DA MARCHA DOS REAÇAS COM DEUS PELA DITADURA É REAL, MAS TAMBÉM APARENTE

Cláudio R. Duarte



 

 
TOTAL FIASCO. Em algumas cidades a "Marcha da Família com Deus pela Liberdade - O retorno"(!) não teve nem cerca de 20 manifestantes. Em São Paulo, entre 500 e 700, esbravejando com a ajuda de um carro de som seus slogans non-sense tirados da velha propaganda anticomunista, provinda do velho udenismo, e mais recentemente, dos cursos paranoicos de Olavo de Carvalho e do caldo de cultura antiesquerda, alimentado por Veja, Globo, jornalões-jornalecos diários e organizações protofascistas de todo tipo nas redes sociais.
 
Por que o fiasco? Primeiramente, porque um golpe não interessa à atual classe dominante e a seus associados no mundo. Aliás, a elite empresarial brasileira - conservadora sim, mas liberal e cosmopolita, até por obrigação de seus negócios - tem nojo dessa gente semianalfabeta, reacionária, carola e provinciana, que foi ontem às ruas. O sonho de um novo golpe é simplesmente um delírio coletivo dessa massa "zé ninguém" (Reich), o resultado direto de um desespero diante da hegemonia petista, que parece por enquanto inabalável. Como não há candidato de direita, ou melhor, de extrema-direita que os represente, apelam brutalmente para o golpe. Não faltou quem defendesse a violência da PM, as execuções sumárias de bandidos, a pura e simples eliminação das organizações de esquerda e mesmo o louvor à civilização meritocrática dos "brancos" e suas organizações reacionárias secretas (como apareceu no link direto do Mídia Ninja, entrevistando a dita senadora biônica "Dulce Holanda").
 
Acontece que um golpe não se faz assim, de improviso. Isso é ingenuidade de gente despolitizada e sem conhecimento histórico algum. A ignorância política que foi às ruas é o fruto do próprio regime militar, dos anos de deseducação e desinformação. O golpe de 64, como mostrou René A. Dreifuss (1964: a conquista do Estado), foi o fruto de uma longa conspiração de classe, unindo forças da burguesia nacional e internacional, dos militares, de institutos como IPES e IBAD e, é claro, da CIA, envolvendo diretamente o embaixador norte-americano e o presidente Kennedy. É óbvio que o lulismo não assombra mais nenhum pouco as elites atuais, que vêm ganhando muito com o governo conservador e fiel aos investidores de todo o mundo. Além disso, o modus operandi fascista da PM e as leis de exceção (o novo AI-5 da Copa) estão em pleno curso. Não precisa de ditadura alguma para controlar a massa trabalhadora e a ralé dentro de certos limites. Basta o atual bota pra quebrar da PM e a criminalização dos movimentos em geral (é o que dá para sentir perfeitamente numa das últimas capas da revista Veja do mês de março).
 
Alguns colegas de esquerda dizem então que temos de parar de falar nisso e passarmos ao que interessa. Pois é. Só que não é bem assim. Se a ideologia fosse só o que aparece como fato nas ruas, seria muito fácil "transformar o mundo".
 
O "fascismo à brasileira" tem uma raiz autoritária e religiosa vinda do colonialismo escravista português. Este "formou" negativamente, a seu modo, a cultura e o povo brasileiros. Uma espécie de fascismo que, por isso mesmo, não consegue aparecer solidamente nas ruas. Daí também ele aparecer como uma massa tosca, dispersiva, cuja frágil unidade só pode ser a de um grito irracional por Ordem. 
 
Ou seja, na base, a mesma e velha necessidade reacionária de forma, diagnosticadas pela melhor literatura nacional (Machado de Assis, Mário, Drummond etc.), uma forma que essa gente sente estar ausente do país. Jamais perceberão eles que isso é o resultado da forma coisificada do mercado e do Estado vigentes, o fruto perverso de nossa formação capitalista singular, herdeira do vale-tudo escravista. Eles apelam então para o uniforme militar: a forma absoluta, ditatorial, aquilo que subjaz à ideia de um gigante nacional integralista. E isso talvez desde os primeiros anos da República, com a chamada República da Espada. A massa protofascista nacional não costuma vir às ruas apenas devido a fatores casuais, de organização ou falta de liderança etc., mas por razões objetivas, intrínsecas à sua de-formação cultural, num amplo sentido. Essa deformação constitui o espírito da massa popular brasileira, principalmente das classes médias, como um todo.

Trata-se de uma cultura essencialmente antipública, familista e privatista. Herdeiras da casa-grande e senzala, ela teme a ideia de socialização como se fosse o Capeta. A socialização aparece a ela como a ausência final da forma - a erosão de seu casulo de segurança, só possível em seus bunkers de classe. Daí o seu ódio irracional da política em geral, sua paranoia securitária, a quase impossibilidade de tomada de posições claras em praça pública e o desejo de retorno à ditadura ("intervenção militar constitucional" dizem eles, de maneira alucinada, sem nenhum respaldo jurídico-legal). O desejo dessa massa é reacionário em sentido integral: o de servir a um grande Pai autoritário que colocaria fim às suas angústias, trazidas pela desvalorização do trabalho, o desemprego, a falta de prazer na vida adulta há muito sacrificada, enfim, o medo da proletarização.
 
Assim, uma coisa é contar essa meia dúzia de "revoltados on line" que tiveram o despudor de ir para a rua defender o horror e que felizmente foram ridicularizados até pela mídia mainstream, bem outra é compreender o HORROR instalado na cultura e no psiquismo do cidadão médio (o mal-estar da civilização brasileira, aqui, para situarmos o conceito de Freud), embutido na ideologia racista e meritocrática (aliás, não havia praticamente negros nessas passeatas), enfim, implantado no modo de ser de instituições patriarcais e autoritárias do país, cuja maior expressão é essa glorificação cínica da violência da PM e dos torturadores de 64, em nome de Jesus. A caixa de comentários da Veja e do Uol saiu às ruas, mas continua em casa, como uma massa reacionária invisível, com ódio de toda luta pela emancipação.
 
Nesse sentido, o fiasco não foi total. Eles foram à rua e trouxeram à tona demandas reacionárias que calam fundo na "alma" da classe média, a classe que saiu às ruas em Junho e que a esquerda otimista existente insiste em não querer compreender em seu profundo reacionarismo.

Basta assistir a este vídeo do FACEBOOK para reconhecer o reacionário em seu habitat original:
 
 
 
Isso vale como uma micrologia do fenômeno em pauta. Esse cidadão não foi para a Marcha, deve estar cuidando de seu carrão aqui ou nos EUA, mas é o idiota protofascista nacional típico, que apoiaria qualquer intervenção militar que aparecesse no horizonte. Não nos enganemos quanto ao fenômeno de rua. Uma crise maior na reprodução do capital trará à tona esses mesmos sentimentos reacionários à praça. Ele é muito mais latente e radical do que se imagina. Por isso mesmo sua manifestação é se dá de dentro das casas, das redes sociais e, aqui, dentro de um automóvel.
 
 
Subestimar o ovo da serpente autoritária nacional é um positivismo ingênuo. A ação antifascista, que reuniu seus 1500 manifestantes em São Paulo, fez a sua parte ontem. Fascistas não passarão!
 
























































10 setembro, 2013

O fetichismo na mídia virtual e a regressão da leitura


O fetichismo na mídia virtual e a regressão da leitura



por Cláudio R. Duarte




Quem utiliza a internet todo dia, em especial as redes sociais, já percebeu o modelo de percepção e de capacidade intelectual solicitado, incentivado, exigido e imposto pelo meio. Os traços básicos são conhecidos: predomínio da imagem sobre o texto, grande fragmentação da informação, proliferação de publicidade e de mensagens diretas do tipo “memes”, “palavras de ordem” ou "hashtags", redução de mensagens a poucos caracteres, resultando em: atenção fluída ou baixo nível de concentração, baixa retenção espontânea do que foi lido, ouvido ou visto, grande isolamento do espectador ou leitor. Quem entra em sala de aula todo dia também já percebeu que algo ainda muito mais complicado parece estar ocorrendo a partir disso: essa mesma forma de percepção e consciência fragmentada domina a consciência e a sensibilidade de crianças e jovens, aparentemente os moldando desde a primeira infância.

Na literatura de negócios vão aparecendo títulos como: “3 minutos para o sucesso”, “Como apresentar as suas ideias em 30 segundos – ou menos”, “Por que as pessoas de negócios falam como idiotas”, “Apresentações eletrizantes”, “Ideias que colam: por que algumas ideias pegam e outras não”, “Como fazer apresentações espetaculares”, “Detalhes que são mágicos para o sucesso da comunicação”...

Quando Theodor W. Adorno escreveu "O fetichismo na música e a regressão da audição" na década de 30, ele descortinava uma tendência universal de regressão dos sentidos e da experiência social, que esboçava de modo certeiro as linhas de uma grande mudança antropológica. A música se fetichizava como mercadoria do entretenimento e do marketing e os homens perdiam a capacidade de ouvir composições complexas. O material de Adorno era a música no rádio e no cinema, ambos correspondendo, em termos de estruturas sociais mais fundas, à vivência apropriada e arruinada pelo trabalho alienado nas fábricas e nos serviços desqualificados.[1]

 

Na verdade, o ensaio adorniano compartilhava do diagnóstico elaborado pelas pesquisas de Walter Benjamin sobre a Paris do Segundo Império napoleônico: o diagnóstico da "atrofia da experiência”, tal como formalizada pela lírica de Baudelaire. Nesta cidade sitiada, bombardeada pela propaganda, esquartejada pelas reformas urbanas do barão de Haussman, sob o domínio da censura da imprensa e da pura informação, a experiência coletiva se reduzia cada vez mais à mera "sensação" e à "recepção de choques”.[2]

 

Nos anos 60, Herbert Marcuse aprofundava ainda mais esse diagnóstico frankfurtiano observando, nas tendências do capitalismo avançado, o novo papel da tecnologia como racionalidade administrativa:
“a dominação se transfigura em administração” (...) Com o progresso técnico como seu instrumento, a não-liberdade – no sentido da sujeição humana ao seu aparelho produtivo – é perpetuada e intensificada na forma de várias liberdades e confortos. A nova característica é a racionalidade irresistível nessa empresa irracional, e a profundidade do precondicionamento que modela as pulsões e as aspirações dos indivíduos e obscurece a diferença entre a falsa e a verdadeira consciência.”[3]

 

O diagnóstico dos pensadores de Frankfurt estaria ultrapassado? Para alguns ideólogos de nosso tempo, o mundo “pós-industrial” teria instaurado uma nova “era das redes” e uma nova “sociedade do conhecimento”, estando em vias de superar a problemática da alienação e dessa espécie de mutação antropológica regressiva. Após o apogeu do jornal impresso e da televisão, as mídias virtuais prometeriam, por meio da radical descentralização de sua produção e consumo, a sonhada emancipação do seu espectador como produtor de cultura. No entanto, é possível questionar se aquela tendência regressiva não se completa ainda mais gravemente, em muitos pontos, através desse novo meio técnico.

 

Isto menos por causa da nova técnica, que certamente contém boas possibilidades de comunicação e aprendizagem, e muito mais pela hegemonia das relações sociais coisificadas e espetacularizadas no coração da sociedade capitalista mundial. Essas relações ainda geram muito provavelmente a alienação cognitiva e psíquica, a partir do alto das hierarquias empresariais e do controle sobre a forma de organização do novo meio, isto é, moldando o formato das redes sociais e condicionando estruturalmente a percepção e a formação do juízo crítico. Isso sem falar na alienação dos trabalhadores da sociedade da informação e das redes, que impera do mesmo jeito que na sociedade industrial. A despolitização das recentes manifestações de junho de 2013 é somente a ponta desse iceberg da pseudoformação.
 

Como apontou Adorno, o fetichismo musical consiste na perda da experiência da música como síntese compositiva. A totalidade de uma peça rebaixa-se à mera coisa isolada, fragmentada, desconectada das ligações complexas da chamada música séria. Esta mesma pode se degradar em adaptações e arranjos palatáveis para o grande público. A música popular perde também o seu caráter artesanal, rústico, resistente. Uma música que, no final das contas, nem mais é usufruída e consumida como tal, mas simplesmente celebrada por seu valor de face, seu valor publicitário. No limite, consome-se o valor de troca do ingresso e o status social de ter presenciado um concerto clássico. Na internet, a difusão de mensagens que podem ser “curtidas” e “compartilhadas” à vontade, segundo a lógica do status e do simples sinal de positivo (o like ou  curtir) tem um forte ar de semelhança com esse processo de degradação da música.
 

Quanto ao momento da produção, conforme Adorno, a construção musical qualitativa é substituída pelo "emudecimento dos homens", pela "morte da linguagem como expressão", pela "incapacidade de comunicação", reduzindo-se a esquemas repetitivos, a linhas melódicas adocicadas, encantatórias e ofuscantes, levando à liquidação da dissonância e da tensão entre as partes da composição, em suma, à predominância do efeito, exemplificado pelo refrão de fácil absorção. Aqui, a comparação da internet com a indústria cultural há muito degradada, por exemplo, o meio jornalístico, é arrasadora: a internet passa à fetichização de segundo grau, ao reencantamento do coisificado pela mera informação ou pelo empirismo e o positivismo científicos, no início do século XX.

Pelo lado do consumidor, ainda segundo Adorno, a música nem mais conseguia “entreter”; antes virava mero fundo musical para uma audição atomística e desconcentrada, que rejeitava tudo o que saía do costumeiro:
 
“se é verdade que, em se tratando da música superior, a audição atomística significa decomposição progressiva, também é inquestionável que no caso da música inferior já nada mais existe que seja suscetível de decomposição. Com efeito, as formas dos sucessos musicais são tão rigidamente normalizadas e padronizadas, até quanto ao número de compassos e à sua duração, que em uma determinada peça isolada nem sequer aparece uma forma específica. A emancipação das partes em relação ao todo e em relação a todos os momentos que ultrapassam a sua presença imediata inaugura o deslocamento do interesse musical para o atrativo particular, sensual. É significativa a atenção que os ouvintes dispensam não somente a determinadas habilidades acrobáticas instrumentais, mas também aos diversos coloridos dos instrumentos enquanto tais”.[4]

Como na internet, há quase nada mais a decompor ou, com perdão da ironia, ler en abyme: as partes de um “meme” se tornam via de regra imediatamente inteligíveis, padronizadas por uma verdadeira indústria de rótulos, frases feitas e gracinhas, remetendo às vezes a velhos ícones da indústria cultural, variando somente detalhes insignificantes, destacando-se a técnica ou o traço isolado em si mesmo. A grande incomunicação cotidiana sai “tecnicamente enobrecida" por essa comunicação aviltada, com o plus prazeroso do “véu tecnológico” para as mesmas relações de dominação de sempre. Por meio do “fetichismo tecnológico”, Marcuse dirá mais tarde, os homens perpetuam o reino da necessidade, dos meios, do trabalho alienado, do capital.[5]

Por outro lado, o ouvinte “regressivo”, tentando fugir à pura coisificação do espírito, contido no bem cultural, se caracterizaria segundo Adorno pela “pseudoatividade” e pela identificação masoquista com o poder ou com as estrelas do espetáculo. Na internet, o meio sugere uma nova democracia do estrelato: tornando-se aficionados, experts ou amadores, alguns sonham com o sucesso repentino de uma megacompartilhamento ou megacurtida – o sucesso por definição de uma “estrela cadente” do veloz espetáculo da desleitura ou da leitura "em diagonal", que se sucede diariamente.  

Na música ligeira, coisificada, o espaço abstrato predomina sobre o tempo qualitativo da música séria. A questão para o crítico é sempre objetiva, contudo, pois a música serial teve de internalizar essa experiência social do choque e fragmentar-se no espaço, abrindo tensões e cicatrizes na composição tradicional. O mesmo parece se pôr para Adorno com a forma do ensaio, que já não pode ter nem a forma positiva do tratado ou do sistema acabado. Não obstante, o ensaio visa ainda ao todo antagônico, por meio da visão hiperconcentrada do particular. As redes sociais levam ao paroxismo a vivência de choque como vivência do espaço e da imagem – mas desconectadas, descontraídas, relaxadas pela recepção basicamente isolada (mas não individualística).

A tarefa do crítico, do ensaísta, do prosador, do professor, do educador talvez seja, como no gesto lírico heroico de Baudelaire, transformar esse espaço de voragem do leitor crítico, sob a coação dessas vivências de choque, ainda uma vez numa experiência do negativo, a começar pela crítica do meio tecnológico como um fim em si, seu desvelamento como meio efetivo atual de dominação social e adiamento da “pacificação da existência”[6].



Notas:




[1] Theodor W. Adorno, “O fetichismo na música e a regressão da audição” [1938] in:___. Textos

 escolhidos (Os pensadores). 2ª ed. São Paulo: Abril Cultural, 1983.

[2] Walter Benjamin, “Sobre alguns temas em Baudelaire” [1938] in: Textos escolhidos, op. cit., p. 31 e 33.


[3] Herbert Marcuse, One-Dimensional Man – Studies in the ideology of advanced industrial society [1964]. London/New York: Routledge, 2002, p. 35.


[4] ADORNO, ibidem, p. 184.


[5] MARCUSE, ibidem, p. 239.

[6] Idem, ibidem.