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23 abril, 2016

A tecnologia do golpeachment

A tecnologia do golpeachment é um novo meio de golpe: um golpe suave, golpe branco, golpe parlamentar-midiático, ou golpe hondurenho ou paraguaio. 


Para quem não entendeu ainda a questão da defesa da legalidade democrática: depois da derrubada da presidente Dilma, nestas condições, nenhum governo de esquerda se sustentará na presidência por muito tempo. O caminho aberto pela força hoje irá inaugurar uma nova tecnologia de manutenção do poder oligárquico, o modelo de manobras Cunha, somado ao golpismo midiático tradicional, que dá a cobertura necessária para iludir aquela fração zumbi do eleitorado conservador.

A outra manobra, para breve, se chama parlamentarismo + voto distrital.

Acabou a era dos golpes militares, com tiro, sangue e torturas. A tecnologia agora é mais inteligente, menos traumática e provavelmente mais barata. Tudo dentro da nova "legalidade": interpretação das leis ao arrepio dos fatos e das provas concretas. 

Basta uma interpretação distorcida da lei de responsabilidade fiscal, uma campanha midiática sistemática durante literalmente 24 horas, um congresso e um judiciário conservadores e uma massa de manobra para ocupar as ruas dando aquela falsa noção de hegemonia. Se precisar compre parte do congresso e até institutos de pesquisas. Se bobear obtenha ajuda do Tio Sam. 

Depois do Impeachment - não será a festa da democracia.


Depois do Impeachment - não será a festa da democracia. 
                                                                                                                                 Bob Klausen

Amanhã, talvez, será o começo do reaparecimento da luta de classes no país. E de maneira contra-intuitiva, acirrada não pelo lulismo, mas pelo campo da direita hidrofóbica e golpista. Luta que será feita parcialmente pelos canais institucionais, outra parte nas ruas e espaços sociais em geral.

Teremos então o ressurgimento daquilo que a democracia burguesa e seus governos de coalizão sempre esconderam ou bloquearam: o antagonismo social, envolvendo os estratos de classe que se polarizaram em torno do reformismo fraco do PT ou das forças conservadoras e reacionárias. Dentre estes últimos, nas grandes cidades, as camadas médias ultra-individualistas e com interesses claramente elitistas do sujeito neoliberal. ("A classe média não quer direitos, ela quer privilégios, custe os direitos de quem custar." Milton Santos)

Não há o que temer, no entanto. Essa cisão será essencial para escancarar os interesses em jogo. Caso perca, a esquerda será sacudida pelo golpe, e terá de remobilizar a sociedade e reinventar saídas. Não será a ordem que veremos restituída, mas a abertura e o remexer das feridas do esbulho diário que sofremos. Se o governo ganhar, ele terá de se reinventar totalmente, ou convocar uma nova eleição, aumentando a tensão, a necessidade do esclarecimento dos projetos em luta, escancarando o antagonismo de classes. No final desse túnel: um novo golpe militar? Não eliminaria essa hipótese, pois a crise política tem por trás uma economia mundial em colapso e um tecido social totalmente esgarçado. Não há mais como fechar essa ferida depois da ascensão de uma certa classe trabalhadora, que conquistou direitos mínimos nos últimos anos. Eis a dialética histórica que a direita não conta, mas que é real. Essa dialética só será paralisada pela intervenção da força de um golpe militar? ou de um movimento de superação da política institucional por parte da esquerda: com mobilizações em massa, plebiscitos populares, greves gerais etc.?

Setores da direita já falam em sacrifícios e repressão aos movimentos sociais de base. De que não há reformas sem ruptura das legalidades instituídas (CLT, constituição de 88 etc.). Por outro lado, os setores populares ou simpáticos a eles perceberam que não haverá paz. Para reforçar esse argumento, uma impressão minha das redes. O projeto neoliberal da direita ficou claro já para certos estratos da classe média, e vai ficar claro até mesmo para os zumbis antidilma, que vivem sob a mais pura ideologia midiática, assim que os decretos-lei a la Macri começarem a quebrar o feitiço. Uma parte da classe média tenho certeza que é incurável e tirará a fantasia democrática fazendo aparecer os chifres do neofascismo. Outra parte entenderá que o mundo do capital do jeito que foi até aqui está chegando ao fim e que eles não têm como defender o capital. Nesse caso, é toda a superestrutura ideológica que virá de encontro com a base real reduzida desses estratos, expondo a céu aberto a espoliação e a dominação social que sofre a maioria.

28 setembro, 2014

NEODESENVOLVIMENTISMO COMO CATÁSTROFE

Neodesenvolvimentismo como catástrofe 


Cláudio R. Duarte



O sistema capitalista mundial está em profunda crise. Mais do que isso, creio que devemos trabalhar com a hipótese marxiana fundamental, retomada por grupos alemães de crítica do valor (Krisis e Exit), de que esta não se trata mais de uma crise passageira, mas de uma crise estrutural, uma crise radical, que mais cedo ou mais tarde, muito provavelmente nas próximas décadas, levará ao colapso do sistema mundial. Sem dúvida, a sociedade de acumulação “pacificada” dos assim chamados “30 anos gloriosos” chegou ao fim. O Welfare State, a estrutura que havia sido montada no centro sob o guarda chuva nuclear do Warfare State e da mobilização total fordista (Marcuse), vai sendo desmanchado. O consenso de classes construído pelo keynesianismo de guerra chegou ao seu limite no final dos anos 70, mediante a hegemonia do neoliberalismo, da flexibilização do trabalho, da desregulamentação do mercado financeiro e do fim do socialismo de caserna. Isso levou a crises sucessivas nos anos 80 e 90 (na periferia do capitalismo: Brasil, México, Rússia, Leste europeu), e atingiu o seu ápice na crise de 2008 e 2010.


-Crise econômica e financeira: na base do processo vigente, temos a desvalorização do valor. A crise do fundamento social moderno, a crise do dinheiro, a crise do trabalho abstrato. A 3ª revolução industrial desvalorizou o trabalho de maneira radical e já só pode descartar o trabalho de uma imensa massa de trabalho. O trabalho se complexificou, se virtualizou, passa por cadeias de serviços imateriais, mas por isso mesmo já não pode ser um trabalho produtivo no sentido preciso de que seus custos de produção e reprodução explodem e só podem ser resgatados por mais incorporação de trabalho, mais produção e ampliação de mercados, o que exigiria longos períodos de tempo, tudo isso numa economia que se moderniza e se tecnifica fortemente e portanto tende a economizar trabalho vivo. Não há massa salarial nem mercado consumidor efetivo para realizar essa gigantesca avalanche de mercadorias, exigindo por um lado imensas quantidades de capital fixo (infraestrutura) para sua produção e enorme crédito para continuar expandindo a produção e o consumo. Todos estão endividados: famílias, empresas e países, como os EUA, o Japão, a União Europeia, a China e todos os "emergentes". 


Assim, a acumulação real de mais-valia tende a se reduzir ao mínimo necessário para manter o sistema crível, concebível e aparentemente rentável. Por um lado, o sistema funciona à base de crédito público e de especulação (financeira e rentista), por outro, da conquista de mais territórios de mercantilização da força de trabalho de custos miseráveis na periferia, realizando-se a articulação da extração de mais-valia absoluta e relativa. Em terceiro lugar, apela-se para a obsolescência planejada e perceptiva (moda), acelerando a destruição ambiental. Por fim, a acumulação real – descontada as dívidas trilionárias mundiais a serem pagas nos próximos anos --- atinge assim o seu limite absoluto --- ou quase absoluto, sendo sua expansão cada vez menos possível. No fundo, só passa a ocorrer sob a força coercitiva do Estado, como fuga para a frente, do modo mais selvagem possível: pela conquista territorial e produção do espaço (meio de absorção de trabalho vivo), ao mesmo tempo em que ocorrem cortes nos gastos estatais na área social, o que impõe a generalização do trabalho precarizado, da terceirização, do auto-empresariamento, da autoexploração, do retorno à escravidão, e principalmente de privatizações de fundos públicos ou recursos naturais comuns (água, solos, florestas), no limite, atingindo guerras civis de pilhagem, como já ocorre um pouco por toda a periferia do sistema (África, Ásia e América Latina) etc. "Não há mais planos de integração para grandes maiorias" (Robert Kurz). O capitalismo é um espetáculo para poucos. A concentração da renda atinge níveis "indecentes" (segundo o termo de Obama). O chamado neoliberalismo é nada mais do que uma estratégia de classe para ampliar a valorização do capital à fórceps, em grande parte de maneira fictícia, nesse momento de crise (com taxas de lucro em declínio), avançando sobre os direitos dos trabalhadores e sobre os bens comuns. A partir dessa crise, e de maneira sincrônica a ela, temos processos de catástrofe encadeados:



-Crise social: Essa crise econômica deflagra conflitos sociais no campo e na cidade: enorme proletarização, expulsão de populações do campo, avanço sobre recursos naturais, ampliação de favelas etc. 


-Crise ambiental: nos anos 80, o agravamento de questões como o aquecimento global, a destruição de recursos hídricos e dos solos (desertificação, salinização), com a grave destruição, sem retorno, de ecossistemas etc. 


-Crise política: a guerra civil camuflada torna a política cada vez mais oligárquica, dominada por grandes grupos de poder e influência, e, no momento de crise, aparece claramente como um estado de emergência global real, enquanto virtualidade sempre prestes a se realizar. 



A crise permanente da formação brasileira 


Na base do processo social brasileiro, temos uma estrutura eternamente em crise. Um país moldado pela precariedade, a volubilidade, a falta de perspectiva. O que os clássicos sempre tiveram dificuldade para nomear: subdesenvolvimento industrializado, modernização conservadora, formação eternamente inconclusa, em que se conjugam o mais arcaico ao mais adiantado (o país-ornitorrinco) em todos os níveis e dimensões. Tudo o que aqui se forma tem a marca da violência, da alienação e da morte. Vivemos sob o compasso de uma “dialética rarefeita entre o não-ser e o ser-outro” (Paulo Emílio S. Gomes). Na base de tudo, temos uma fraca ou falsa distinção entre Sujeito e Objeto, o eu e o outro, o público e o privado, a ordem e a desordem, o real e a ideologia ou o real e a mais brutal irrealidade, que surge a partir do esquema escravista básico de casa-grande e senzala e da economia de plantations. Eis o que destrói todo limite, toda análise, todo ser propriamente configurado, todo projeto de desenvolvimento social de grande fôlego. Na realidade, no Brasil, temos economia, temos território, mas não temos povo, sociedade, vida urbana e vida política democrática propriamente ditas. O povo é um apêndice do território econômico, as instituições públicas são uma extensão do poder oligárquico "eleito" pelo grande capital. A ideia de civilização torna-se aqui menos um conjunto de formas de desenvolvimento cultural ampliado e criação do sujeito autônomo e emancipado do que o louco império do mundo dos negócios – o reino absoluto da forma celular da alienação: a forma-mercadoria, que demole todo limite civilizatório. 



O neodesenvolvimentismo como catástrofe


O desenvolvimentismo brasileiro foi uma forma social de tentar resolver a questão da acumulação por meio de uma modernização conservadora, numa palavra: uma religião do crescimento sem contrapartidas sociais equivalentes; um processo que une o getulismo, o trabalhismo aos militares e ao lulismo. O neodesenvolvimentismo petista aliou mais uma vez investimento estatal e privado na produção de grandes espaços (estradas, hidrelétricas, estádios, transporte etc.), grande expansão da mineração e do agronegócio, da indústria de bens de consumo duráveis, obtendo assim, num círculo inédito, mais incorporação das massas no trabalho, na educação e em programas emergenciais mínimos (que não devem ser confundidos com "conquistas sociais"). O preço a pagar imediatamente é um violento processo de degradação ambiental (Cerrado e Amazônia) e de reprodução da população como mera força de trabalho -- diante da possibilidade soterrada de superação do trabalho e de pacificação da existência. 


O "avanço" econômico se dá, como no passado, ao preço de retrocessos sociais e ambientais e de acúmulo de novas contradições. Houve a ascensão de uma massa proletária anteriormente marginal -- mas sem trabalho de base: portanto despolitizada -- ao mercado de trabalho e de consumo, que assim foi facilmente seduzida pelo mundo das mercadorias, enquanto a classe média vai sendo possuída pelos valores individualistas e "meritocráticos" do neoliberalismo -- a forma natural de afirmação selvagem de distinções imaginárias, no limite, entrelaçadas ao racismo e ao etnocentrismo, em meio à larga padronização promovida pela esfera do consumo. Por outro lado, ampliou-se assim o circuito das dívidas públicas e privadas, que aguardam mais um ciclo de desenvolvimento econômico acelerado para serem pagas. Uma catástrofe é assim anunciada: nessas condições, o modelo cava o seu próprio fim, mais ou menos previsível para os próximos anos, que deve ser o mesmo das sociedades do centro mais avançado do capitalismo mundial. Fenômeno que pode já ser observado na Europa e no Japão e, por outras mediações, em emergentes como a China. A superacumulação mundial, em condições de avanço da produção poupadora de mão de obra e desemprego estrutural, não pode ser mais desfeita, a não ser por meio de mais cortes nos gastos do Estado, de mais privatizações, de desregulamentação dos mercados e das leis ambientais, ou de mais créditos, cada vez mais inacreditáveis. A sociedade torna-se mais rica e produtiva, mas atola-se em dívidas, na miséria e na destruição. O oposto aconteceria se o valor de uso tivesse a prioridade e superasse o valor e a lógica do lucro. Enquanto discutimos algumas perfumarias eleitorais, alguns tópicos graves e gravíssimos vão se acumulando como contradições do "neodesenvolvimentismo", que certamente surgem das coerções do próprio processo econômico mundial em curso:


a) A crise da água em São Paulo, resultado do crescimento da metrópole nas últimas décadas e da falta de investimentos hídricos adequados, uma crise que provavelmente não terá solução nos próximos anos e irá praticamente paralisar a principal região metropolitana (e produtiva) do país, com dez ou vinte milhões de pessoas envolvidas. 




b) A crise do setor elétrico, que acumula dívidas bilionárias e parece que vai exigir socorro em breve, desviando recursos do orçamento.


c) A crise do orçamento de mais de R$ 1 trilhão, em 2015, comprometido a pagar juros e amortizações da dívida pública, e consequentemente a provável redução de recursos para as áreas sociais, numa sociedade em guerra civil não declarada.


d) A balança comercial negativa e a desindustrialização relativa em pleno curso, balança que tenderá ainda mais ao déficit com medidas de ajuste ultraneoliberais de Marina e Aécio (possíveis vencedores da eleição presidencial), com a consequente reprimarização da economia, a paralisação da reforma agrária e mais impactos ambientais sobre os principais biomas brasileiros e as populações mais frágeis (indígenas, quilombolas, ribeirinhos etc.). [Vide o mapa da destruição do cerrado até 2009]:




e) A crise habitacional e a bolha especulativa imobiliária nas grandes metrópoles, que aumentará a pressão social nas cidades e as questões de "segurança pública", o que significa, nas mãos de Alckimin e Pezão, por exemplo, mais massacres policiais -- a base para a ascensão de ideologias protofascistas na classe média e nos setores ultraconservadores (Datena e cia.).



f) O contexto de crise mundial do capital, com Europa, EUA, Japão e China passando para aprofundamento da recessão ou, talvez, à bancarrota conjunta nos próximos anos ou décadas.


Diante desse cataclisma social já à vista, nacional e global, é urgente pensar num modelo de superação do capital global. Para a esquerda viva, teórica ou prática, real e atuante, sem dogmatismos e tendo a paciência do conceito e do tempo em mente (que só é tempo da urgência para as forças reacionárias ou espontaneístas a la Negri), vejo duas ou três alternativas não excludentes: 


a) lutar pela formação política da massa não-organizada de Junho (não falamos obviamente dos movimentos sociais reais, já organizados, que foram às ruas) e das periferias, em todos os âmbitos (sindicatos, escolas, movimentos sociais, redes, opinião pública); 


b) crítica do modelo neodesenvolvimentista petista pela esquerda (com todas as suas implicações: crítica ecológica, do trabalho, do Estado e da economia capitalista como alienações), que precisa, quando eventual governo, ser pressionado a enfrentar sem medo a mídia corporativa e os setores conservadores, politizando essas questões fundamentais de modelo econômico; 


c) luta pela formação de uma ampla frente de esquerda para superar o PT a curto ou médio prazo, com os movimentos sociais mais fortes e partidos de esquerda à frente (pelo que percebo nos últimos meses o PSOL teria grande chance de criar um caminho e formar lideranças entre a massa jovem).


A curto prazo, é preciso se preparar para as próximas lutas nas ruas (principalmente se o governo federal cair na mão de PSDB ou "Marina vai com as outras"), pois o Brasilzão conservador e reacionário de 64 está em ascensão no país inteiro e irá lutar pela manutenção de seus privilégios com a força da ideologia e do cinismo da mídia corporativa. Ao lado dessas, algumas forças populares vieram à tona em Junho, mas são praticamente silenciadas e pré-moldadas ideologicamente pela indústria cultural. Criar uma esfera pública paralela aos monopólios, amplamente articulada com os movimentos sociais efetivos, é um dos primeiros passos da esquerda.


O ponto grave, na situação, é que de maneira alguma tais setores estarão dispostos a tolerar a insurgência de junho novamente, principalmente se ela acumular experiências e tiver dessa vez efeito politizador de massas menos organizadas (tomada de assembleias legislativas, pressão sobre prefeituras, universidades, casas, fábricas e terras abandonados etc.). 


Contudo, o estado policial está montado e preparado para a contra-insurgência, com o auxílio fundamental do PT. E se este estado policial e de vigilância falhar, sem dúvida a classe média e os evangélicos em ascensão apoiarão novamente um golpe militar a médio prazo. O sr. Merval Pereira, um dos chefões das organizações Globo, falou nesta semana na rádio CBN, em uma provável “crise institucional” nos próximos quatro anos, caso Dilma seja reeleita.

Pós-escrito - Após o 1º turno:


O TEMPO DE JUNTAR OS CACOS QUE RESTAM

Agora que a grande mídia golpista, as forças conservadoras e até as de uma suposta esquerda camaleônica (Marina e PSB, Jorge e PV) se uniram em torno de Aécio, com um congresso horrendamente parecido com o de 64 (com uma maioria absoluta de ruralistas e/ou fundamentalistas), é bom já irmos nos acostumando com o ajuste neoliberal, o desmanche da política social/salarial mínima e com o Estado policial-carcerário que serão instituídos a partir de 2015.
Um modelo perfeito para privatizar muito mais, fazer crescer o PIB a curto prazo (apenas momentaneamente) e rifar o futuro para os setores mais avançados e competitivos do capital e das classes médias. Não adianta esconder o sol com a peneira. No turbocapitalismo da hiperconcorrência e da falência dos projetos coletivos irá vencer quem tem a ideologia e o projeto político mais turbocapitalista e mais violentamente excludente. Irá emergir um Brasil plenamente burguês e neoliberal, amigo das megaempresas, do agronegócio e dos trabalhadores convertidos em microempresários terceirizados. O orçamento público trilionário, até então comandado pela burocracia petista, será rifado, com alguns bilhetes premiados dados de presente para os amigos da propina camarada (Petrobrás, Banco do Brasil, portos, aeroportos e hidrovias, escolas privadas, planos de saúde, USP, Unicamp e Unesp etc.).
Tudo isso numa economia que irá em direção inescapável do desemprego estrutural e da crise social e ambiental de grande envergadura. O caos tucano em São Paulo é só o laboratório do que pode advir em plano nacional.
Vai ser pedagógico para a esquerda, incluindo os que insistem que não há diferença nenhuma entre o que restou do PT e o campo conservador-reacionário, além daqueles que querem apostar apenas na força abstrata da multidão ou de movimentos apartidários ou micropontuais -- e não da organização social de maior fôlego, com formação de bases militantes ativas e de um partido de esquerda realmente viável.
À esquerda teremos o fim da linha: o fim do PT a médio prazo, a demonização da esquerda e de toda pauta popular na grande mídia. É o mesmo curso da Europa. A médio prazo, contudo, a crise econômica, social e ambiental provavelmente irá se transformar numa crise política grave, e o estado de exceção sairá da virtualidade para se tornar uma realidade sangrenta explícita.

05 setembro, 2014

Terror econômico, político e midiático: o Gigante integral da “ditadura”.

Terror econômico, político e midiático: o Gigante integral da “ditadura”. 


Últimas variações sobre o tema da formação, no país da eterna emergência.


(Elaborado para a Mesa: Terrorismo de estado, mídias e informação, no Seminário “Terrorismo de Estado, Direitos Humanos e Movimentos Sociais, FE/USP, 2, 3 e 4 setembro de 2014).

Cláudio R. Duarte

1-

Um olhar para a conjuntura, no Brasil, nunca pode se descolar de sua estrutura, que é sempre determinante. Vamos rever aqui os "acontecimentos de Junho" sob o prisma do conceito de formação – a partir da singularidade desse conceito no país.

Por que as Jornadas de Junho aparentemente malograram ou não tiveram a continuidade esperada dentro de um movimento de massas sonhado pela esquerda mais atuante e valorosa nessas mesmas jornadas? Ao que tudo indica, aliás, não teremos algo como um Novo Junho, pois as brechas para isso estão sendo sistematicamente fechadas pelo Estado policial-carcerário construído sob o guarda chuva dos governos existentes, culminando no evento da última Copa do Mundo.

E por que, ao contrário de um Novo Junho, estamos prestes a eleger, com forte apoio no voto jovem e supostamente inconformista, uma candidatura feita de improvisos, tergiversações, de fragmentos de ideologias em decomposição, sem base, sem estrutura, sem forma, sem programa – a não ser, por certo, os de uma agenda neoliberal, fundada na flexibilização, na privatização, nas Ongs e no auto-empresariamento? Ou, como alternativa, estamos na iminência de reeleger o Partido das alianças e conciliações difíceis de engolir, o Partido que, supostamente feito por trabalhadores, pôs o crescimento do capital em primeiro lugar, como condição para programas baratos de inclusão social e de respingos de orçamento para as questões sociais, mantendo a máquina econômica capitalista funcionando com base em dívidas cada vez maiores? Sem mencionar que ambos pautados em identificações ou concessões enormes ao senso comum reacionário. Se há um legado palpável de Junho -- apesar de contraditório -- eis aí o Gigante Coxinha como saldo.
**
2-

Partimos do diagnóstico feito pelos bons pensadores do Brasil: o país é uma formação social moderna, capitalista, definitivamente incompleta, uma formação evanescente ou uma espécie de pseudo-formação de âmbito social nacional. Foi o que veio a se chamar subdesenvolvimento periférico (ou modernização conservadora, acelerada e forçada em 64, não obstante retardatária, hipertardia, dependente, e assim por diante).

Vale lembrar, uma formação moldada pelo traço negativo herdado do escravismo colonial: o que se forma aqui aparece sempre já em ruína, daí a marca de sangue e morte, exalando por todos os poros. Aquilo que se forma no país – seja em âmbito social, econômico, político, cultural, estético ou subjetivo -- dá sempre sinais de falta de substância, de inconsistência, de miséria. Uma ausência de forma propriamente dita, que marca o objeto formado com o signo do precário, do improviso, do insubsistente. Uma eterna emergência que leva a nada ou à ruína iminente. Uma “formação supressiva”, enfim, segundo o termo de José Antonio Pasta ("Volubilidade e ideia fixa", Sinal de Menos 5, 2010).

Não que falte qualquer forma. Há um processo particularmente moderno de formação em curso, avançado e vanguardista a seu modo, que se inverte em produção do retrocesso. Naquilo que se forma, portanto, talha-se a marca da violência, o horror de uma desfiguração incurável do conteúdo. Daí a fugacidade, a morte iminente, a descontinuidade em toda linha e em toda dimensão. Na economia, o sistema de plantations e a produção voltada para a exportação primária; na política, o Estado oligárquico; na sociedade, a rígida hierarquia, a desigualdade e o racismo brutal etc. É o oposto de um movimento bem logrado e enraizado de constituição dialética. Daí a busca das "raízes do Brasil" (Sérgio Buarque de Holanda), se é que esse empreendimento comercial tinha alguma. Um ser social que não se constitui é um ser que, passando no Outro, não volta enriquecido de seu processo de reflexão e alienação, mas um ser que se perde no Outro, e resta na “dialética rarefeita entre o não-ser e o ser-outro” (Paulo Emílio Salles Gomes, Cinema: trajetória do subdesenvolvimento, 1973).

Na base dessa lógica de alienação e morte, portanto, temos uma fraca distinção entre Sujeito e Objeto, o eu e o outro, o público e o privado, a ordem e a desordem, o real e a ideologia ou o real e a mais brutal irrealidade. Eis o que destroi todo limite, toda análise, todo ser propriamente configurado. Essa falta estrutural de limites vem da célula matriz do domínio colonial: Casa-Grande e Senzala. Aqui, desde sempre, a dimensão do Outro, da Diferença, do Tempo, e do Direito, o elemento que regula e impõe limites à fusão do mesmo e do outro, é como que posta entre parênteses e virtualmente suspensa, podendo ser sempre eliminada sob o capricho dos poderes e potentados do momento. Brás Cubas é o protótipo dessa formação supressiva e desse sujeito deformado, que tem na cultura apenas uma casca vazia e um meio para a transgressão da norma (Cf. Roberto Schwarz, Um mestre na periferia do capitalismo - Machado de Assis, 1990).

As ideias modernas de cultura e civilização sempre tiveram a ver com a cidade, com o urbano, com os direitos de cidadania, num mundo ameaçador modelado pela guerra social instituída pelo capital. Ora, no Brasil, o que se pôs foi a cidade comercial, agroexportadora, depois a cidade industrial, finalmente explodida e implodida como uma espécie de anticidade (Henri Lefebvre, O direito à cidade, 1967), isto é, como repressão de demandas sociais, anticivilização ou cidadania restrita. A ideia de civilização torna-se aqui menos um conjunto de formas de desenvolvimento cultural ampliado e criação do sujeito autônomo e emancipado do que o louco império do mundo dos negócios – o reino absoluto da forma celular da alienação: a forma-mercadoria, que demole todo limite civilizatório. No pecado de origem, os indivíduos aqui não vendem “livremente” o "seu" tempo de trabalho, mas são vendidos por inteiro, como escravos. Da tortura e do estupro nas senzalas às salas de tortura nas ditaduras, à repressão policial militarizada e truculenta e à criminalização das lutas sociais, sem esquecer das mediação produtiva, feita de espoliação integral de recursos e descartabilidade do trabalhador nas grandes obras, eis o resultado dessa forma coisificada de socialização. Noutras palavras: no país, é como se a forma da economia suplantasse toda forma civilizacional (não puramente dedutível do sistema capitalista). 

No Brasil, o processo de "subsunção formal e real do trabalho ao capital" (Marx) tende, assim, a se tornar quase absoluta. É com ela que se instaura o estado de exceção permanente, que não precisa se converter em uma "ditadura" política em sentido técnico estrito do conceito. Mas se trata de um estado de exceção virtual, sempre iminente, enraizado numa base econômica violenta. Seu ideal ou finalidade seria flexibilizar toda forma contratual ou legislação social, política e ambiental, no limite eliminar todo contrato coletivo de trabalho e toda lei de regulação da exploração econômica. Na base social elementar, não temos uma "sociedade salarial" integrada como classe trabalhadora, constituída como camadas médias remediadas, tal como formada na Europa dos chamados "anos dourados", mas uma "superpopulação relativa" singular: um "proletariado precarizado" ou "precariado" permanente (Ruy Braga, A política do precariado, 2012, p.18), informal, flexível, móvel, migrante, social e politicamente instável, dificilmente constituindo-se como “classe” para si, como classe em luta. O "material humano" excelente para uma ótima extração de mais-valia absoluta, em composição com a mais-valia relativa. Segundo Chico de Oliveira, o capitalismo ornitorrinco brasileiro tornaria quase todo o tempo de trabalho em trabalho não-pago, em que “desaparecem os tempos de não-trabalho”, num entrelaçamento dessas duas formas de extração de mais-valor (Francisco de Oliveira, O Ornitorrinco, 2003, p. 136).

Nesse contexto, dominação pessoal e impessoal compõem um todo entrelaçado, de modo que os donos do capital são também os “donos do poder” (o Estado patrimonialista, de R. Faoro).

3-

Nossa tese é esta: por trás do terror político desse estado policial que se montou, herança da ditadura de 64, e dessa mídia monopolista e conservadora, que aterroriza a todos dizendo que o PT é “comunista”, a mídia monopolista que agora dirige a massa informe a mais quatro anos de consenso neoliberal, há uma espécie de totalitarismo ou terrorismo econômico de base. É este que ameaça e destrói toda forma antagônica, toda oposição, toda consistência política da esquerda.

Daí a persistência do "gigante" da ditadura: repressão política de movimentos sociais, coerção estatal sobre o todo, monopólio estatal ou privado da economia, incluindo monopólio midiático, moral conservadora e familista, abertura ao capital estrangeiro, industrialização em marcha forçada, sem liquidação das oligarquias regionais, endividamento externo, degradação ambiental monstruosa. O conceito de terrorismo, aqui antevisto, é o mesmo que Henri Lefebvre (A vida cotidiana no mundo moderno, 1967) anteviu no estado burocrático francês pré-maio de 68: um "terror difuso", que esconde sua violência latente e a guarda como último recurso supremo. O terror da economia política: um Estado que programa e codifica as necessidades sociais enquanto necessidades econômicas de crescimento e acumulação de capital, e que, para isso, bloqueia de saída o próprio pensamento de alternativas a tudo isso. Crescer, acumular, ampliar – mesmo saúde, educação ou moradia nada mais são, dessa ótica, do que meios de reprodução da força de trabalho, vale dizer: instrumentos de gestão biopolítica do precariado (escolas técnicas, moradias e saúde primários, abertura de frentes de trabalho selvagens, programas sociais emergenciais etc.) e de possível inserção do país como potência regional subimperialista na América do Sul. 

O “terror” instaurado pelo PT e pela mídia é nada mais, assim, do que o terror da economia autonomizada: o fetiche do crescimento cego, imposto pela globalização do capital, fundado em produção acelerada e destrutiva do espaço, em dívidas bilionárias e ganhos assegurados para as elites do agronegócio, da indústria e do setor financeiro, rentista e especulativo. Mas como sabemos, para o capital e sua mídia reacionária, isso nunca é o bastante. 0,9 de crescimento do PIB é pouco comparado ao patamares chineses, indianos ou chilenos, o dos 5, 7 ou 12% anuais. Como se 1% de US$ 2,5 trilhões, da maneira como é gerado, não tivesse impactos sociais e ambientais gigantescos (cf. os índices de desmatamento e poluição recentes na Amazônia, Nordeste e Centro-Oeste). Mais uma vez estamos imersos no "mito do desenvolvimento econômico", há muito apontado por Celso Furtado (1974), quando dizia durante a crise do milagre econômico brasileiro: "Cabe, portanto, afirmar que a ideia de desenvolvimento econômico é um simples mito. Graças a ela, tem sido possível desviar as atenções da tarefa básica de identificação das necessidades fundamentais da coletividade e das possibilidades que abrem ao homem o avanço da ciência, para concentrá-las em objetivos abstratos, como são os investimentos, as exportações e o crescimento". Além disso, é como se a crise estrutural do capital não estivesse instaurada e posta em nosso próprio horizonte, já tomando a própria América como um todo, a Europa e o Japão, como se os lucros e sobrelucros monopolistas pudessem ser mantidos a longo prazo sem uma brutal exclusão da massa e sem mais desemprego, políticas neoliberais, privatizações etc. A isso, o Estado responde com sua política de administração da pobreza, tomando a população como objeto político.

Ora, a grande mídia pressiona e aterroriza ainda mais os governos e a população se as metas econômicas absurdas não são cumpridas. Para ela, o céu é o limite. O que importa é fazer a roda da acumulação girar mais velozmente sempre. A corrupção petista, como se sabe, é apenas um álibi, para estigmatizar de vez os partidos de esquerda em geral – para tirar qualquer demanda social da agenda puramente neoliberal e economicista das classes dominantes (em que se encaixa confortavelmente parte das classes médias). Como se sabe, nesse Estado patrimonialista a corrupção é estrutural, ainda maior quando a direita o controla. Este então o terror econômico que elimina o dissenso político, no limite se tornando, como propõe Agamben, uma “guerra civil legal que permite a eliminação física não só dos adversários políticos, mas também de categorias inteiras de cidadãos que, por qualquer razão, pareçam não integráveis ao sistema político”. “O estado de exceção apresenta-se como um patamar de indeterminação entre democracia e absolutismo” (G. Agamben, Homo sacer, 1994, p. 13). Essa eliminação não precisa ser física, nem a democracia chegar de fato ao absolutismo. Ela tende a ser anulação política da oposição, o que é aliás bem mais "produtivo" para o sistema, que pode contar com massas permanentes no exército de reserva de trabalho precário e assim continuar a comprimir salários, obter consumo, manter sua máquina eleitoral, suas promessas de acumulação etc. (Cf. o argumento de Paulo Arantes, Extinção, 2007 e O novo tempo do mundo e outros estudos sobre a era da emergência, 2014). 

Desde 64, nunca se governou tanto com medidas provisórias, na estratégia de fuga para a frente: tanto para a aceleração do crescimento como para apagar incêndios sociais emergenciais, visando neutralizar a oposição anticapitalista, toda semente de anticapitalismo, com mais crescimento do capital.

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4-

As jornadas de junho podem malograr à medida que não conseguem, como exceção momentânea instaurada, se tornar a regra, ganhar não somente as ruas como acontecimento, mas inverter as regras do jogo de maneira permanente, polarizando a sociedade em campos antagônicos e instituindo novas formas de “governo” anticapitalistas. Hoje, tensionar o Estado exigindo re-formas radicais levaria, no limite, à explosão da forma vazia da mercadoria e da gestão estatal burocrática da miséria. O social contra o econômico e o político instituídos.

Em seu lugar, infelizmente, o gigante que se erige é o gigante de uma falsa unidade “nacionalista”, conciliatória, de fundo evangélico, neoliberal e/ou protofascista.(Cf. Cláudio R. Duarte, "O gigante que acordou - ou o que resta da ditadura? Protofascismo, a doença senil do conservadorismo", Revista Sinal de Menos, edição especial, 2013, on line). No fundo dessa falta de antagonismos explícitos, encontra-se o nosso velho problema de formação: ausência do trabalho de base e de politização das massas insurgentes de junho, que, assim, são mais ou menos facilmente capturadas pelo espetáculo midiático-partidário-oligárquico contínuo. O meio informacional hoje apenas reproduz o informe de nossa má formação constitutiva.

Como diz um companheiro militante simpático ao PT, sem descurar a autocrítica necessária do processo instalado:

“A verdade é que, apesar da retórica, a esquerda abandonou a luta ideológica e política militante com o povão. Para muitos militantes de partidos de esquerda, falar de mobilização de massas populares, numa perspectiva concreta, é grego. Para outros é melhor ficar esperando por explosões conjunturais como junho de 2013, pois em “tempos normais” não conseguem mobilizar quase ninguém para luta social. O resultado é que o povo brasileiro se encontra desorganizado, desinformado e desmobilizado, apesar de ter melhores condições para lutar hoje. 


Se tinha a faca e o queijo na mão para construir uma grande força social e política com as classes populares e parte das camadas médias,  percebe-se que a esquerda não teve prioridade no trabalho de base e encontra-se sem raízes nas comunidades, vilas, associações comunitárias e outras formas de vivencia das camadas trabalhadoras e populares. E só de luta ideológica e retórica de esquerda não se mobiliza ninguém”. (Fernando Marcelino ). 


Bibliografia

Giorgio Agamben, Homo sacer, Ed. UFMG, 1994.

Paulo Arantes, Extinção, Boitempo, 2007 e O novo tempo do mundo e outros estudos sobre a era da emergência, Boitempo, 2014.

Ruy Braga, A política do precariado, Boitempo, 2012. 

Cláudio R. Duarte, "O gigante que acordou - ou o que resta da ditadura? Protofascismo, a doença senil do conservadorismo", Revista Sinal de Menos, edição especial, 2013.

Celso Furtado, O mito do desenvolvimento econômico, Paz e Terra, 1974.

Paulo Emílio Salles Gomes, Cinema: trajetória do subdesenvolvimento, 1973.

Sérgio Buarque de Holanda, Raízes do Brasil, José Olympio, [1936], 1973.

Henri Lefebvre, A vida cotidiana no mundo moderno, Ática, [1967], 1991 e O direito à cidade, Documentos, [1967], 1969.

Francisco de Oliveira, Crítica da razão dualista/ O ornitorrinco, Boitempo, 2003. 

José Antonio Pasta. "Volubilidade e ideia fixa", Sinal de Menos 5, 2010.

Roberto Schwarz, Um mestre na periferia do capitalismo - Machado de Assis, Duas Cidades, 1990.

23 março, 2014

O FIASCO DA MARCHA DOS REAÇAS COM DEUS PELA DITADURA É REAL, MAS TAMBÉM APARENTE

Cláudio R. Duarte



 

 
TOTAL FIASCO. Em algumas cidades a "Marcha da Família com Deus pela Liberdade - O retorno"(!) não teve nem cerca de 20 manifestantes. Em São Paulo, entre 500 e 700, esbravejando com a ajuda de um carro de som seus slogans non-sense tirados da velha propaganda anticomunista, provinda do velho udenismo, e mais recentemente, dos cursos paranoicos de Olavo de Carvalho e do caldo de cultura antiesquerda, alimentado por Veja, Globo, jornalões-jornalecos diários e organizações protofascistas de todo tipo nas redes sociais.
 
Por que o fiasco? Primeiramente, porque um golpe não interessa à atual classe dominante e a seus associados no mundo. Aliás, a elite empresarial brasileira - conservadora sim, mas liberal e cosmopolita, até por obrigação de seus negócios - tem nojo dessa gente semianalfabeta, reacionária, carola e provinciana, que foi ontem às ruas. O sonho de um novo golpe é simplesmente um delírio coletivo dessa massa "zé ninguém" (Reich), o resultado direto de um desespero diante da hegemonia petista, que parece por enquanto inabalável. Como não há candidato de direita, ou melhor, de extrema-direita que os represente, apelam brutalmente para o golpe. Não faltou quem defendesse a violência da PM, as execuções sumárias de bandidos, a pura e simples eliminação das organizações de esquerda e mesmo o louvor à civilização meritocrática dos "brancos" e suas organizações reacionárias secretas (como apareceu no link direto do Mídia Ninja, entrevistando a dita senadora biônica "Dulce Holanda").
 
Acontece que um golpe não se faz assim, de improviso. Isso é ingenuidade de gente despolitizada e sem conhecimento histórico algum. A ignorância política que foi às ruas é o fruto do próprio regime militar, dos anos de deseducação e desinformação. O golpe de 64, como mostrou René A. Dreifuss (1964: a conquista do Estado), foi o fruto de uma longa conspiração de classe, unindo forças da burguesia nacional e internacional, dos militares, de institutos como IPES e IBAD e, é claro, da CIA, envolvendo diretamente o embaixador norte-americano e o presidente Kennedy. É óbvio que o lulismo não assombra mais nenhum pouco as elites atuais, que vêm ganhando muito com o governo conservador e fiel aos investidores de todo o mundo. Além disso, o modus operandi fascista da PM e as leis de exceção (o novo AI-5 da Copa) estão em pleno curso. Não precisa de ditadura alguma para controlar a massa trabalhadora e a ralé dentro de certos limites. Basta o atual bota pra quebrar da PM e a criminalização dos movimentos em geral (é o que dá para sentir perfeitamente numa das últimas capas da revista Veja do mês de março).
 
Alguns colegas de esquerda dizem então que temos de parar de falar nisso e passarmos ao que interessa. Pois é. Só que não é bem assim. Se a ideologia fosse só o que aparece como fato nas ruas, seria muito fácil "transformar o mundo".
 
O "fascismo à brasileira" tem uma raiz autoritária e religiosa vinda do colonialismo escravista português. Este "formou" negativamente, a seu modo, a cultura e o povo brasileiros. Uma espécie de fascismo que, por isso mesmo, não consegue aparecer solidamente nas ruas. Daí também ele aparecer como uma massa tosca, dispersiva, cuja frágil unidade só pode ser a de um grito irracional por Ordem. 
 
Ou seja, na base, a mesma e velha necessidade reacionária de forma, diagnosticadas pela melhor literatura nacional (Machado de Assis, Mário, Drummond etc.), uma forma que essa gente sente estar ausente do país. Jamais perceberão eles que isso é o resultado da forma coisificada do mercado e do Estado vigentes, o fruto perverso de nossa formação capitalista singular, herdeira do vale-tudo escravista. Eles apelam então para o uniforme militar: a forma absoluta, ditatorial, aquilo que subjaz à ideia de um gigante nacional integralista. E isso talvez desde os primeiros anos da República, com a chamada República da Espada. A massa protofascista nacional não costuma vir às ruas apenas devido a fatores casuais, de organização ou falta de liderança etc., mas por razões objetivas, intrínsecas à sua de-formação cultural, num amplo sentido. Essa deformação constitui o espírito da massa popular brasileira, principalmente das classes médias, como um todo.

Trata-se de uma cultura essencialmente antipública, familista e privatista. Herdeiras da casa-grande e senzala, ela teme a ideia de socialização como se fosse o Capeta. A socialização aparece a ela como a ausência final da forma - a erosão de seu casulo de segurança, só possível em seus bunkers de classe. Daí o seu ódio irracional da política em geral, sua paranoia securitária, a quase impossibilidade de tomada de posições claras em praça pública e o desejo de retorno à ditadura ("intervenção militar constitucional" dizem eles, de maneira alucinada, sem nenhum respaldo jurídico-legal). O desejo dessa massa é reacionário em sentido integral: o de servir a um grande Pai autoritário que colocaria fim às suas angústias, trazidas pela desvalorização do trabalho, o desemprego, a falta de prazer na vida adulta há muito sacrificada, enfim, o medo da proletarização.
 
Assim, uma coisa é contar essa meia dúzia de "revoltados on line" que tiveram o despudor de ir para a rua defender o horror e que felizmente foram ridicularizados até pela mídia mainstream, bem outra é compreender o HORROR instalado na cultura e no psiquismo do cidadão médio (o mal-estar da civilização brasileira, aqui, para situarmos o conceito de Freud), embutido na ideologia racista e meritocrática (aliás, não havia praticamente negros nessas passeatas), enfim, implantado no modo de ser de instituições patriarcais e autoritárias do país, cuja maior expressão é essa glorificação cínica da violência da PM e dos torturadores de 64, em nome de Jesus. A caixa de comentários da Veja e do Uol saiu às ruas, mas continua em casa, como uma massa reacionária invisível, com ódio de toda luta pela emancipação.
 
Nesse sentido, o fiasco não foi total. Eles foram à rua e trouxeram à tona demandas reacionárias que calam fundo na "alma" da classe média, a classe que saiu às ruas em Junho e que a esquerda otimista existente insiste em não querer compreender em seu profundo reacionarismo.

Basta assistir a este vídeo do FACEBOOK para reconhecer o reacionário em seu habitat original:
 
 
 
Isso vale como uma micrologia do fenômeno em pauta. Esse cidadão não foi para a Marcha, deve estar cuidando de seu carrão aqui ou nos EUA, mas é o idiota protofascista nacional típico, que apoiaria qualquer intervenção militar que aparecesse no horizonte. Não nos enganemos quanto ao fenômeno de rua. Uma crise maior na reprodução do capital trará à tona esses mesmos sentimentos reacionários à praça. Ele é muito mais latente e radical do que se imagina. Por isso mesmo sua manifestação é se dá de dentro das casas, das redes sociais e, aqui, dentro de um automóvel.
 
 
Subestimar o ovo da serpente autoritária nacional é um positivismo ingênuo. A ação antifascista, que reuniu seus 1500 manifestantes em São Paulo, fez a sua parte ontem. Fascistas não passarão!
 
























































09 março, 2014

A greve dos garis no Rio: são as lutas de março fechando o verão sangrento com vitória

Cláudio R. Duarte
 
 
"Que mesmo no tempo mais sombrio temos o direito de esperar alguma iluminação, e que tal iluminação pode bem provir, menos das teorias e conceitos, e mais da luz incerta, bruxuleante e frequentemente fraca que alguns homens e mulheres, nas suas vidas e obras, farão brilhar em quase todas as circunstâncias e irradiarão pelo tempo que lhes foi legado na Terra (...). Olhos tão habituados às sombras, como os nossos, dificilmente conseguirão dizer se sua luz era de uma vela ou a de um sol resplandecente." (Hannah Arendt)
 
"Toda vez que alguém falar que vivemos uma democracia racial, mostre essa foto"
(Garis em greve no centro do Rio de Janeiro - Foto: Mídia Ninja)
 
Durante essa semana de carnaval, os garis do Rio de Janeiro, após uma longa jornada de lutas difíceis sob a coação da prefeitura (apelando até mesmo para o uso vergonhoso de milicianos como novos capitães do mato) e da grande mídia, deram uma grande lição para as esquerdas neófitas na rua e para as velhas lideranças sindicais pelegas, totalmente arcaicas, alienadas e comprometidas apenas com o seu próprio umbigo.

Na boa análise de Idelber Avelar:

"Eles enfrentaram: um sindicato pelego, um prefeito truculento, uma das polícias que mais mata no mundo, o maior império de comunicação da América do Sul (que hoje dedicou três páginas inteiras de seu jornal a desqualificar a greve e puxar saco do prefeito) e as tradicionais milícias governistas, que disseminaram mentiras de todo tipo, como a de que a greve era ação de uma minoria de 300 pessoas.
...
E venceram! Obrigado, garis do Rio de Janeiro, por ensinar de novo o mapa da luta! Pelegos em todo o Brasil estão, neste momento, tremendo, porque sabem a enormidade do precedente que se abriu nesta semana. Notem que a derrota do governo foi tão retumbante que a reunião que selou a vitória dos garis aconteceu no TRT. Paes jamais os recebeu.

Que aqueles que desqualificaram luta tão justa se recolham agora à sua vergonha. E vem mais por aí!"


Gostaria ainda de somar a esta bela análise de Avelar a questão da força "ética" e "política" do trabalho proletário dos garis. Sim, o trabalho proletário - pois é disso mesmo que se trata e que infelizmente quase não ousa mais dizer o seu nome. Como sempre foi, esse trabalho é o inferno do negativo, e que se colocou de novo como negação em praça pública. Não se trata de moral privada, nem de amor a uma tarefa alienada, muito menos da vocação protestante para "servir". E com esse elemento decisivo que entra em jogo e que a esquerda tem esquecido. Trata-se do plano da ética, pois todos que os apoiaram sabem ou intuem muito bem o que se trata: uma luta autônoma, madura, independente. Segundo ponto: um trabalho público, necessário, árduo, sujeito à total invisibilidade e a condições e salários vis; enfim, terceiro ponto, um movimento vindo de gente "humilde", de baixo, que soube se articular contra o peleguismo. E venceu a sua vitória apertada, jamais redentora. Antes que os amigos kurzianos reclamem, diga-se que não é de modo algum a emancipação do mercado e do trabalho, mas uma ruptura intempestiva do continuum de servidão e coisificação. Algo que lembra a "Grande Recusa" marcuseana.

 

A emancipação social pressupõe essa formação, que o sistema existente suprime. E assim o faz começando pela supressão da memória social. Para nós, deve ela ficar na lembrança, tal como o MPL em junho e o enquadramento policial arbitrário de fevereiro passado.

 
Em tempos sombrios, à teoria que se perdeu, ou foi suprimida, só resta mergulhar na práxis alienada, negativa, escura. É lá que está a fonte da negatividade, é de lá que pode emergir em ato a negação determinada.
 
(Março de 2014)


 

23 fevereiro, 2014

De Junho a Junho: rumo ao pleno estado de exceção

Cláudio R. Duarte
 
Após a morte acidental do cinegrafista em fevereiro de 2014, a mídia burguesa rotinizou o que sempre foi sua especialidade, desde junho de 2013, data do início de todos os protestos: incriminou, julgou e convocou a polícia para descer o sarrafo em quem quer que estivesse na rua. Alckimin e sua polícia entenderam muito bem o recado e passaram à ação. Apareceu na rua, pronto, é black bloc, é baderneiro, vândalo, vagabundo comunista ou - que ironia sem graça - "petralha".
 
O que se seguiu ontem então, sábado 22 de fevereiro, uma data que sem dúvida vai entrar para a história, é mais uma vez o velho "estado de exceção preventivo". Uma espécie de ensaio contra as manifestações durante a Copa de Junho de 2014 - ensaio de uma suspensão do direito de se reunir e de se manifestar nas ruas, seja qual for o motivo ou forma da ação. Não só manifestantes, mas também jornalistas e advogados foram presos ou coagidos pela polícia - pois a ideia é claramente aterrorizar a todos para expulsar toda "desordem" das ruas.  Enquanto isso, o cinismo midiático vai glorificando as manifestações que ocorrem lá fora, na Ucrânia e na Venezuela, como se reformas democráticas radicais estivessem realmente em curso, armadilha em que parte da esquerda brasileira mais cega ou mais brucutu também cai, como se houvesse algum lado realmente positivo para aderir. (1*)
 
Segundo um jornal, a polícia confirma cinicamente que irá continuar a agir da mesma forma daqui para diante. Com o que se conclui que o estado de exceção só não foi decretado e declarado abertamente - porém rege na surdina todo o corpo social. Na mídia, nas redes sociais, a vigilância ostensiva continua a suprimir qualquer conteúdo virtualmente subversivo. Quarenta lideranças foram convocadas no Deic, exatamente no dia e na hora dessa última manifestação.
 
Ontem, 22 de fevereiro, mais de 200 pessoas, ao que se sabe, foram presas no centro de São Paulo, sem motivo justificável. Em junho de 2013, como se sabe, a polícia foi arbitrária e violenta, socando o pau antes de ver ou perguntar qualquer coisa. Ontem, a mesma coisa se repetiu, de forma ainda mais clara. E dessa vez havia mais polícia do que manifestantes nas ruas. Conhecemos muito bem este filme da tela quente...


 
 
O que pensar e fazer a partir disso? Para onde vamos? Cenas assim, iguais ou piores que as de junho de 2013, vão virando rotina e se naturalizando. Infelizmente. É preciso reconhecer que o movimento insurgente, sem apoio da massa da classe trabalhadora nas ruas, vai inexoravelmente perdendo a legitimidade, sendo confundido irracionalmente com o desatino de moleques sem nenhuma  pauta concreta, senão o estilingue, a bola de gude e a paçoca inflamável. A tática black bloc, espontaneísta e voluntarista, parece que finalmente se esgotou, porque sem dúvida o inimigo de classe tem muito mais força. A estratégia estatal de desmonte dos movimentos sociais é clara: prender e autuar qualquer um de agora em diante para acuar a massa e afugentar qualquer oposição, pelo menos até junho de 2014. Enquanto na esfera federal, vale lembrar, vai sendo tecido o novo AI-5 que transformará manifestantes em terroristas.

 

Também é preciso reconhecer que o estado de exceção facilmente se justificará em termos ideológicos para as classes conservadoras da ordem - o que inclui o grosso da classe média e boa parte da classe trabalhadora despolitizada - enquanto não criarmos uma verdadeira alternativa política ao PT e à reaçada restante no poder. Noutras palavras, eles vencerão através da prática violenta, mas também através do discurso deles, mobilizado pela imprensa conservadora, que preenche sozinha a nossa ausência de discurso e de práxis política coerentes.

 
O começo dessa virada poderá ser aproveitada se a esquerda souber estudar as consequências e as reações possíveis à nova rodada de crise global que vai se afirmando no cenário internacional. União Europeia, Estados Unidos, Japão  - nenhum país ou região "vencedora" está seguro(a) de sair realmente da recessão, principalmente quando os próprios "emergentes" - e o megaendividamento chinês (mais de 220 trilhões de dólares!) é o barril de pólvora mais explosivo para o futuro - já dão sinais de desaceleração e de patinação no gelo da nova fase da crise estrutural. A crise ambiental, além do mais, ainda vai bater à nossa porta, mais cedo ou mais tarde. Nesse contexto, o modelo neokeynesiano de Dilma, assentado em gastos com obras públicas e crédito popular, irá fatalmente se esgotar, assim que as exportações caírem.

Para a esquerda, resta retomar as pautas radicais ligadas às necessidades da área social, da saúde, da educação, do transporte e da moradia e a retificação da carga tributária regressiva e injusta, que penaliza os mais pobres. O que demanda renovarmos a política partidária articulada aos movimentos sociais radicais, através da criação de um projeto claro e inventivo. Esta, a meu ver, a verdadeira pauta para a esquerda que ainda resta, que traria novamente a classe trabalhadora para as ruas, criando um novo consenso radical socialista, ou antes, "comunista" - pois o termo precisa realmente ser reinventado, para além de toda a mácula antidemocrática e antilibertária produzida pelo "socialismo real". O passo seguro para a crítica da sangria da dívida pública e a ruptura com o capital internacional, como estratégia de transição para além do capital.

O mais lamentável é constatar que o estado de exceção vem à tona com a condescendência ou mesmo pelas mãos das forças da velha esquerda decrépita, exatamente no aniversário de 50 anos do golpe de 64.

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Nota
(*1) Ver o texto de Joelton Nascimento, "Há saídas em disputa?", fev. de 2014, http://diariodocolapso.blogspot.com.br/2014/02/ha-saidas-em-disputa.html