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25 abril, 2016

Capítulos nacionais da Dialética do Iluminismo


1- 
Deu na Globo, deu na Veja, deu nos jornalões, deu na cúpula do PSDB:
- Zé de Abreu tendo espaço para defender-se e defender o PT.
- Bolsonaro sendo citicado por defender um torturador.
- Veja agora pedindo a cabeça de Cunha.

O que deu neles? Medo do que vem por aí. Eles estão percebendo que os setores de extrema direita estão crescendo demais e podem sair do controle. 

Vão logo, logo perder o controle sobre o que é razoável. Alimentaram o fascismo e agora rejeitam seus filhotes. Não querem levar a culpa pela escalada de violência entre civis que se seguirá.

Mas há algo mais. Isso pode minar, a médio e longo prazo, o projeto de uma sociedade liberal-conservadora e "democrática" de tipo americano ou europeu. 

O medo inclui também a perda da audiência em relação às novelas e à programação minimamente progressista (pautas populares, minorias étnicas, gays etc.), que tem nos concorrentes variantes em ascensão.

Um capítulo nacional da novela chamada "dialética do iluminismo": a extrema racionalidade  da indústria cultural se inverte nas trevas do autoritarismo protofascista.

 **

2- 

Mudança de paradigmas na CASA VERDE 

A campanha de desconstrução de BOZONAGRO é ambígua e tem dois resultados ainda incompletos: de um lado, tem despertado ainda mais fantasmas de direita, divulgando o nome desse ser bovino, e capturando ainda mais audiência e eleitores. Ele capta e canaliza o ódio e o ressentimento do "Zé Ninguém" protofascista.

Por outro lado, ela vai revelando o fundo protofascista da massa neoliberalizada, ou seja, o fundo inconsciente do sujeito de "apartheid neoliberal", machista, branco e eurocêntrico. Isso pode ter um potencial efeito de despertar para uma certa classe média que ainda preza os valores como paz, harmonia civilizacional, tolerância e democracia. 

Eles envergonham os liberais-democratas e isto é muito bom. Talvez eles percebam, nesses zumbis de ultradireita que perderam totalmente a capacidade de pensar junto a Olasno e Bozonagro, qual é o limite do seu antipetismo ferrenho, notando que, se bobear, eles podem se transformar em um deles.


Bob Klausen 

( 24-04-16)

23 abril, 2016

Torturadores de 64 x Resistência Armada

Publico a seguir dois textos instrutivos de nossos companheiros a fim de  combater falácias fascistas de bolsominions e olavéticos paranoicos.



Da diferença entre resistência armada e Terrorismo de Estado
por Alexandre Vasilenskas

- As organizações de resistência armada contra a ditadura empresarial-militar de 1964 não torturaram ninguém. Não há acusações nesse sentido.
- Esses resistentes enfrentaram um Estado enormemente mais poderoso e ilegítimo (fruto de um golpe de Estado). Quando mataram o fizeram em situação de batalha ou correlatos.
- Tortura é crime internacional. Resistência armada contra governos tirânicos não.
- Sim. Eram comunistas. Da mesma forma que a resistência francesa ou os partisans italianos. Nesses lugares são considerados heróis e ninguém ousa (sob ameaça de prisão) compará-los a Gestapo.
- Como lembrou o amigo Gustavo Castañon o direito a resistência armada contra governos ilegítimos não surge com Marx: está presente em Tomás de Aquino e Locke (um dos fundadores do liberalismo).






SOBRE A EQUIPARAÇÃO ENTRE UM TORTURADOR E UM GUERRILHEIRO.

    Alexandre Avelar 

Entre os defensores do Bolsonaro, pululou a defesa da menção ao Cel. Brilhante Ustra, feita durante a votação do impeachment. Se outros parlamentares citaram "terroristas", como Marighella, Lamarca, entre outros, então Bolsonaro poderia citar o torturador e homenageá-lo. Este "argumento" nada tem de novo, ressalte-se. É a antiga cantilena de que "o país estava em guerra", "todos os lados usavam as armas que tinham" e por aí vai. Resumindo, a velha tentativa, dos defensores do regime militar, de igualar os lados. Vou tentar aqui explicar porque essa tese não se sustenta para qualquer um que deseje compreender razoavelmente o que se passou. Somente simpáticos da ditadura ou do deputado (o que, no final das contas, quase sempre dá no mesmo) podem aceitar isso, ao sacrifício, é claro, do mínimo de reflexão mais elaborada. Mínimo mesmo. Apesar do estilo "textão", tentei ser o mais direto possível. Acho a intervenção necessária e o espaço das redes sociais tem se mostrado potencialmente produtivo. Os historiadores precisam ser cada vez mais atentos a ele.
São dois os pontos de partida. Pontos cristalinos e que parecem, em meio a tanto ódio e escalada autoritária, esquecidos:


1) Qualquer setor da sociedade civil, por mais organizado que possa ser, não se equipara à força da autoridade estatal. O estado, lembremos, controla os principais instrumentos de repressão. Sob este ponto de vista, qualquer tentativa de igualar a força militar do estado e de grupos civis não se sustenta.
2) O regime implantado em 64 nasceu de um golpe que destituiu um governo legitimamente eleito. Um golpe militar que ancorava-se, entre tantas razões, na defesa da nação brasileira contra o perigo comunista. Fomos salvos da ameaça vermelha, disseram os militares, ao menos naquele momento. Mas como a utopia autoritária precisava recriar a todo momento o inimigo, a ditadura foi se consolidando a partir de sucessivos instrumentos de violação institucional. É interessante como os novos donos do poder jamais conseguiram apresentar qualquer evidência sustentável de que Goulart pretendia dar um golpe comunista em 64. João Goulart caiu sem resistência. Os comunistas não apareceram no encontro marcado para o golpe. Por outro lado, a preparação para o golpe militar da direita, todas as suas articulações, inclusive no exterior, são bem documentadas e conhecidas. Resumindo: o regime militar nasce sob o signo da ilegitimidade.

A partir daí dá para colocar na mesa os outros argumentos.
- Há relação, sim, entre os grupos de esquerda e o AI-5. O AI-5 decretou o fim das liberdades civis no Brasil. Para muitos indivíduos, o canal possível de contestação passou a ser o campo armado. A maior parte destes grupos surge no pós-68.
- Assim mesmo, as esquerdas armadas não eram os únicos alvos dos militares. Faz parte da estratégia de igualar os lados produz uma simplificação da realidade, em que dois polos se antagonizam. De um lado os militares e defensores da ordem e, do outro, a temida guerrilha armada e comunista. Ora, muitas pessoas sem qualquer envolvimento com a guerrilha foram presas, interrogadas coercitivamente, torturadas e mortas. Isso sem falar nos exílios, nas perseguições nos postos de trabalho e tudo o mais. A luta armada nunca foi o alvo exclusivo dos militares.
- Diante de um governo ilegítimo, a resistência dos cidadãos, mesmo armada, é legitima. Não é preciso ler o manual do Marighella para essa constatação. Ela está lá nos liberais. Ela está em John Locke. Não é invenção de comunista.
- Terrorista é quem usa a população civil como alvo para a realização de suas aspirações políticas. Os grupos de esquerda armada, neste sentido e com todas as justas críticas que possam receber, não eram terroristas. Seus alvos eram os agentes do estado. Estes grupos não perseguiam deliberadamente a população civil. Não há acusações de tortura a civis praticadas por grupos da esquerda armada.
- De fato, entre as inspirações ideológicas destes grupos estava a revolução socialista. Daí achar que o comunismo era uma possibilidade concreta, é um salto gigantesco. Estes grupos armados eram fragmentados, pouco integrados e com uma condição militar tremendamente inferior. O que entendiam por democracia e revolução recriava-se a todo momento, no calor das lutas. E, lembremos, eram combatentes contra um regime ilegítimo. Alguém questionou as preferências ideológicas dos que combateram o nazismo? Estamos falando de muitos que abandonaram o conforto da vida de classe média universitária para ingressarem em uma luta inglória e com reduzidíssimas chances de vitória. Estas pessoas, muitas delas mortas na luta, merecem respeito.
- Os integrantes da guerrilha e tantos outros que não fizeram a opção armada foram sim punidos e responsabilizados pelo regime militar. Esqueceram-se das prisões, condenações, exílios e assassinatos? Existe um único lado que nunca foi responsabilizado legalmente pelo que fez. E este é o lado dos torturadores, defendidos pelo Bolsonaro. Estes foram os grandes vitoriosos da Anistia, cuja vigência até hoje é um dos grandes entraves à consolidação da democracia. E também é falsa a afirmação de que a Anistia beneficiou os "terroristas". Muitos continuaram presos por terem cometidos os tais crimes de sangue. Ustra morreu sem ser responsabilizado pela Justiça.
- A autocrítica já foi feita há tempos pelos próprios integrantes da esquerda armada. Eu escreveria um textão do tamanho deste com minhas críticas a estes grupos, baseadas apenas no que li. Quando veremos a autocrítica dos torturadores e dos seus defensores?

Enfim, equiparar torturador e vítima nunca será um exercício intelectual honesto. E, ao contrário de muitos colegas, não acho que esta desonestidade seja fruto necessariamente da ignorância histórica. Pode ser, em alguns casos. Acho que nunca falamos tanto do passado. Em outros casos, pode ser simplesmente uma opção pelo fascismo e pela falta de compromisso com a humanidade.

03 dezembro, 2015

EPÍLOGO - o fim de uma novela política insossa

EPÍLOGO
                                                                                      por Bob Klausen

O Brasil virou um pôquer numa novela mexicana ou num "big brother".

Cunha blefando que tem poder dentro da casa, congresso conservador todinho comprado almejando apenas desmoralizar ainda mais o PT e daqui a pouco chantageando o governo para obter mais concessões, e o governo Dilma fingindo-se "de esquerda" colocando Levy e Tombini na pilotagem recessiva, enquanto o ditadorzinho juiz-milionário do Paraná faz o serviço seletivo da difamação e empurra ainda mais o governo para as cordas ("governabilidade") e a economia para o precipício.


Tudo filmado e arquitetado por uma mídia conservadora até o último fio de cabelo, mas a tal ponto que conserva o país na lama e o empurra ainda mais para trás, arrastando o enredo insosso da novela que já deveria ter terminado, interessada em vender manchetes-bomba para não acabar de falir, enquanto sabe que o final da novela será necessariamente um governo eleito que terá de permanecer (seja com Dilma ou com Temer). Com Temer, carta aberta para terminar de destruir direitos conquistados. No enredo da peça apenas isso: situações-limite, provas de resistência para ver quem é mais corrupto e mais calhorda, muita difamação moral, alguns barracos armados com boatos sobre o filho do amigo, e no final um país à beira da guerra civil, a se desenrolar nos capítulos finais, seja pela renúncia forçada seja pelo impeachment arrancado (que só sai se o país melhorar um pouco e a audiência demonstrar que não foi tão afetada assim pela mentalidade golpista e autoritária, enfim, que não gostou do programa reacionário e até vai votar na esquerda que restou em 2016 e em 2018).

Quem apoiar o golpe apoia esse novelão mexicano, esse big brother, esse pôquer no teatrinho de farsantes. Quem quiser o seu fim lutará para reconstruir a esquerda para fora e mais além do PT, como se vem ensaindo há duas décadas já. Chegou a hora de escolher e de fazer.

Depois de terminar essa peça, demissão: acabou o papel de quem se fingia de esquerda.

25 outubro, 2015

As reações ao ENEM 2015: revelações de um certo caráter autoritário brasileiro

As reações ao ENEM 2015: revelações de um certo caráter autoritário brasileiro

Como não ficar chocado com as reações da direita sobre o ENEM-2015? Com InFeliciano e Bolsomico como capitães gerais da reação.

Isso vai desde a gente blasé gargalhando dos atrasados, comemorando com cerveja em punho na frente das escolas, até aqueles que não toleram nem mesmo pensar nas violências e desigualdades do mundo contemporâneo, ao contrário, defendendo-as junto ao sistema que as enquadra. Fontes de esquerda? Ora, primeiro exigiu-se interpretação de texto, ou seja, objetividade, imparcialidade e respeito pela autonomia do pensamento alheio. Em segundo lugar, o que é Tomás de Aquino, Hume, Nietzsche ou Weber na mesma prova que teve Beauvoir, Harvey, M. Santos, Sérgio Buarque e Zizek?

(E não, não há nada de "marxismo cultural" nisso, já que ataca problemas concretos, que ajudam a fundar relações sociais no país - ao contrário de certo lukácsianismo tosco que também li na internet, que vê na cultura mera superestrutura de fenômenos).

De repente se tornou banal ostentar ódio, burrice, machismo enrustido ou aberto e muito, muito cinismo. Mas isso tem definitivamente um caráter de classe e de nacionalidade.

É um surto geral de desrecalque de ódio, agressão e de pulsões arcaicas -- que não vem da elite, certamente, mas de uma certa classe média idiotizada, insegura, mal colocada no mercado, em crise, super tradicional e católica e claramente ressentida com o discurso da igualdade para todos, independente da origem social.

Por fim, parece haver um corte nacional: um fundo brasileiro, de origem colonial-escravista, e aqui para ser breve: o de uma cultura da vingança, a de um povo sádico, que adora brutalizar o outro e não suporta olhar a realidade de um ponto de vista estranho a si mesmo. Duvido que esse caráter autoritário aconteceria da mesma forma em outros países.

Mas nem tudo está perdido. Detalhe dialético da matéria: a grande maioria, principalmente as mulheres, ridicularizou os machistinhas de plantão, incluindo os capitães do reacionarismo nacional. Porque quando a estupidez se torna escandalosa ela também encontra seus limites.

Bob Klausen


04 setembro, 2015

As máscaras do discurso conservador brasileiro



Depois de anos acompanhando debates virtuais nas redes sociais, uma coisa fica cada vez mais clara, apesar de se tornar cada vez mais naturalizada e por isso mesmo opaca, não-dita, sem expressão.


É muito impactante ver o entendimento de economia e política de conservadores brasileiros nas redes. Isso vem de muito longe - e é claro que saiu às ruas em 64 e retorna a elas nesses últimos tempos. Mostra bem o nível da educação geral que o país consolidou, seja no setor público, seja no setor privado, principalmente se levarmos em conta o embuste de cursos que são um pouco de tudo, menos universitários.


Por um lado, temos os eternos comentários moralistas seletivos, a paixão securitária, o comentário calhorda, machista ou raivoso sobre qualquer coisa que saia de seus costumes e de sua esfera de pensamento moral. Daí o apoio maciço à polícia mesmo quando da evidência das maiores barbaridades. Uma tolerância canina para com os crimes da elite ou dos poderosos em geral, menos da elite política (hoje sinônimo de "petismo" e "comunismo") - mas defesa total de milionários de todo tipo (artistas, empresários, religiosos ou simplesmente gente da alta). Sua paixão de consumo seria pertencer a um mundo "liberal" de brancos, ricos e "belos", com o mínimo de impostos, e com o menor governo possível (reduzido à polícia) -- coisa que aprenderam nos últimos tempos a admirar em suas leituras de Veja, em suas idas e vindas por Miami ou nos livros de história de Leandro Narloch ou Olavo de Carvalho. Para isso invocam Jesus, a família cristã, a Veja ou a mão invisível do mercado e o utópico "trabalho em equipe". A moral do trabalho é o seu norte, embora não tenham muito o trabalho de pensar em nada a sério. No fundo, estão interessados em fazer seu primeiro milhão e que os outros se explodam.

Mas assim que o governo começa a cortar gastos, programas sociais ou serviços essenciais e assim mostrar-se frágil para manter o Capital funcionando... eles são os primeiros a invocar que isso não pode acontecer e que a culpa de tudo é do governo "comunista". O conceito de capital e capitalismo simplesmente não existem em seu vocabulário. Só existe "o governo" malvadão. Mas se o governo corta ou reduz seus gastos e vai por isso mesmo gerando o caos para a classe trabalhadora -- que eles mesmos são mas não podem e não querem admitir que são, preferindo seu lugar de cães de guarda do sistema que os escraviza, mas que também os "liberta" imaginariamente segundo os ideólogos da ralé subintelectual -- ficamos sem saber o que poderia significar uma utopia "neoliberal" tal qual tais setores defendem.


Em síntese: no Brasil, conservadores são liberais apenas em discurso. Conservam apenas a máscara de um desejo de autoconservação na selva da concorrência. Quanto mais a crise aperta, mais esse discurso se afirma como última ratio.

Uma mentalidade em que se mistura religião, familismo e ultra-individualismo de tipo brasileiro, de origem colonial-patriarcal-clientelista. Posição ideológica clássica, principalmente de setores médios, confusos por sua posição social objetiva no sistema (nem proletariado, nem elite), mas seduzidos pelo poder do dinheiro e dos privilégios.


Bob Klausen

19 novembro, 2014

A linguagem da nova direita brasileira

O nível de reificação e de empobrecimento da linguagem atingiu o grau máximo nesses grupos de extrema-direita (olavianos, revoltados on line, neoliberais, ultraconservadores, adoradores da Rota e reacionários pró-intervenção militar).
Quem não conhece, sugiro que entrem em pelo menos um desses grupos para conhecer algumas tendências sociais profundas, da maneira mais purificada e destilada, e que aparecem menos desenvolvidas em outros grupos sociais da classe média "informada". O texto abaixo ajuda a caracterizar essa linguagem.
Parecem zumbis, que apenas repetem fraseologias e ditos mágicos, de preferência em caixa alta, sem temer colocar todo o seu preconceito e seu ódio incontido para fora, pregando não apenas golpe militar, mas assassinatos em massa de qualquer coisa que lhes pareça com o petismo e com a esquerda em geral. Para eles, absolutamente tudo está ligado aos "petralhas" -- e essa ligação sistemática inabalável é um forte índice de paranoia coletiva protofascista. É uma lógica muito parecida com a do bode expiatório judeu e a subversão comunista. Imaginam que só uma intervenção militar sanguinária bastaria, sem reflexão alguma, sem medir as consequências desse ato, as revoltas que se seguiriam etc. Absolutamente tudo é culpa do PT. Quando você percebe que é isso que está em jogo
O estarrecedor é perceber que a grande mídia direitista (Veja, Estadão entre outros) não é mais do que uma versão mais elaborada da mesma reificação.
Duvido que isso, essa regressão, ocorria nos anos de guerra fria e de lacerdismo, nos 1950 e 60. É algo para se pesquisar.

Bob Klausen 

15 outubro, 2014

Reificação e desreificação da consciência

Como é que a classe dos "informados" vai entender as implicações do monetarismo do seu candidato neoliberal? Será que desenhando ela entende?

Alguém dirá: o raciocínio é impenetrável também para a classe trabalhadora. Será mesmo? Os trabalhadores já compreendem primeiro no bolso e depois no modo de vida cotidiano a mudança e a possível destruição de tudo que foi conquistado. A classe trabalhadora foi abalada e sabe que pode perder tudo tal qual "ganhou" pelo trabalho --- daí grande parte se assustar com o ataque midiático que prega o puro caos econômico -- e assim, ela também vota inconscientemente no inimigo de classe. O PT, dizem alguns, prega o medo. Não é bem assim. As circunstâncias reais são desfavoráveis na economia mundial atual. E são de meter medo, caso um modelo neoliberal vença. A crise é objetiva, mas alguns a transformam em terrorismo econômico e em caos espetacular-midiático no contexto de um governo que tem adiado a crise, com reservas internacionais razoáveis (350 bilhões de dólares). As estruturas sociais estão abaladas, a representação não representa mais nada. Por outro lado, a divisão social das classes começa se esboçar, e assim surge ao mesmo tempo a brecha para a ascensão conservadora e reacionária, para a cegueira, o irracionalismo e o fundamentalismo mais estúpidos, tanto quanto para uma verdadeira unidade de classe entre os de baixo. No entanto, essa dialética patina e se esfuma momentaneamente.

Isso posto, é importante ver o outro lado da história: a classe trabalhadora também sabe comparar o passado ossificado ao presente recém transformado e aberto à mudança. Ela sentiu a história, desnaturalizou parte dos processos coisificados e assim também, em parte, politizou o debate (percebeu que a política interfere sim na economia, que deixa então de ser um puro fetiche de cartas marcadas). Se o PT tivesse forçado uma politização do debate histórico e formado um consenso democrático contra as elites ele ganharia a hegemonia que conquistou no final dos anos 2000, trazendo essa classe média conservadora para o seu lado, contra-a-corrente mundial neoliberal e agora francamente anti-socialista.

Bob Klausen 

05 setembro, 2014

Terror econômico, político e midiático: o Gigante integral da “ditadura”.

Terror econômico, político e midiático: o Gigante integral da “ditadura”. 


Últimas variações sobre o tema da formação, no país da eterna emergência.


(Elaborado para a Mesa: Terrorismo de estado, mídias e informação, no Seminário “Terrorismo de Estado, Direitos Humanos e Movimentos Sociais, FE/USP, 2, 3 e 4 setembro de 2014).

Cláudio R. Duarte

1-

Um olhar para a conjuntura, no Brasil, nunca pode se descolar de sua estrutura, que é sempre determinante. Vamos rever aqui os "acontecimentos de Junho" sob o prisma do conceito de formação – a partir da singularidade desse conceito no país.

Por que as Jornadas de Junho aparentemente malograram ou não tiveram a continuidade esperada dentro de um movimento de massas sonhado pela esquerda mais atuante e valorosa nessas mesmas jornadas? Ao que tudo indica, aliás, não teremos algo como um Novo Junho, pois as brechas para isso estão sendo sistematicamente fechadas pelo Estado policial-carcerário construído sob o guarda chuva dos governos existentes, culminando no evento da última Copa do Mundo.

E por que, ao contrário de um Novo Junho, estamos prestes a eleger, com forte apoio no voto jovem e supostamente inconformista, uma candidatura feita de improvisos, tergiversações, de fragmentos de ideologias em decomposição, sem base, sem estrutura, sem forma, sem programa – a não ser, por certo, os de uma agenda neoliberal, fundada na flexibilização, na privatização, nas Ongs e no auto-empresariamento? Ou, como alternativa, estamos na iminência de reeleger o Partido das alianças e conciliações difíceis de engolir, o Partido que, supostamente feito por trabalhadores, pôs o crescimento do capital em primeiro lugar, como condição para programas baratos de inclusão social e de respingos de orçamento para as questões sociais, mantendo a máquina econômica capitalista funcionando com base em dívidas cada vez maiores? Sem mencionar que ambos pautados em identificações ou concessões enormes ao senso comum reacionário. Se há um legado palpável de Junho -- apesar de contraditório -- eis aí o Gigante Coxinha como saldo.
**
2-

Partimos do diagnóstico feito pelos bons pensadores do Brasil: o país é uma formação social moderna, capitalista, definitivamente incompleta, uma formação evanescente ou uma espécie de pseudo-formação de âmbito social nacional. Foi o que veio a se chamar subdesenvolvimento periférico (ou modernização conservadora, acelerada e forçada em 64, não obstante retardatária, hipertardia, dependente, e assim por diante).

Vale lembrar, uma formação moldada pelo traço negativo herdado do escravismo colonial: o que se forma aqui aparece sempre já em ruína, daí a marca de sangue e morte, exalando por todos os poros. Aquilo que se forma no país – seja em âmbito social, econômico, político, cultural, estético ou subjetivo -- dá sempre sinais de falta de substância, de inconsistência, de miséria. Uma ausência de forma propriamente dita, que marca o objeto formado com o signo do precário, do improviso, do insubsistente. Uma eterna emergência que leva a nada ou à ruína iminente. Uma “formação supressiva”, enfim, segundo o termo de José Antonio Pasta ("Volubilidade e ideia fixa", Sinal de Menos 5, 2010).

Não que falte qualquer forma. Há um processo particularmente moderno de formação em curso, avançado e vanguardista a seu modo, que se inverte em produção do retrocesso. Naquilo que se forma, portanto, talha-se a marca da violência, o horror de uma desfiguração incurável do conteúdo. Daí a fugacidade, a morte iminente, a descontinuidade em toda linha e em toda dimensão. Na economia, o sistema de plantations e a produção voltada para a exportação primária; na política, o Estado oligárquico; na sociedade, a rígida hierarquia, a desigualdade e o racismo brutal etc. É o oposto de um movimento bem logrado e enraizado de constituição dialética. Daí a busca das "raízes do Brasil" (Sérgio Buarque de Holanda), se é que esse empreendimento comercial tinha alguma. Um ser social que não se constitui é um ser que, passando no Outro, não volta enriquecido de seu processo de reflexão e alienação, mas um ser que se perde no Outro, e resta na “dialética rarefeita entre o não-ser e o ser-outro” (Paulo Emílio Salles Gomes, Cinema: trajetória do subdesenvolvimento, 1973).

Na base dessa lógica de alienação e morte, portanto, temos uma fraca distinção entre Sujeito e Objeto, o eu e o outro, o público e o privado, a ordem e a desordem, o real e a ideologia ou o real e a mais brutal irrealidade. Eis o que destroi todo limite, toda análise, todo ser propriamente configurado. Essa falta estrutural de limites vem da célula matriz do domínio colonial: Casa-Grande e Senzala. Aqui, desde sempre, a dimensão do Outro, da Diferença, do Tempo, e do Direito, o elemento que regula e impõe limites à fusão do mesmo e do outro, é como que posta entre parênteses e virtualmente suspensa, podendo ser sempre eliminada sob o capricho dos poderes e potentados do momento. Brás Cubas é o protótipo dessa formação supressiva e desse sujeito deformado, que tem na cultura apenas uma casca vazia e um meio para a transgressão da norma (Cf. Roberto Schwarz, Um mestre na periferia do capitalismo - Machado de Assis, 1990).

As ideias modernas de cultura e civilização sempre tiveram a ver com a cidade, com o urbano, com os direitos de cidadania, num mundo ameaçador modelado pela guerra social instituída pelo capital. Ora, no Brasil, o que se pôs foi a cidade comercial, agroexportadora, depois a cidade industrial, finalmente explodida e implodida como uma espécie de anticidade (Henri Lefebvre, O direito à cidade, 1967), isto é, como repressão de demandas sociais, anticivilização ou cidadania restrita. A ideia de civilização torna-se aqui menos um conjunto de formas de desenvolvimento cultural ampliado e criação do sujeito autônomo e emancipado do que o louco império do mundo dos negócios – o reino absoluto da forma celular da alienação: a forma-mercadoria, que demole todo limite civilizatório. No pecado de origem, os indivíduos aqui não vendem “livremente” o "seu" tempo de trabalho, mas são vendidos por inteiro, como escravos. Da tortura e do estupro nas senzalas às salas de tortura nas ditaduras, à repressão policial militarizada e truculenta e à criminalização das lutas sociais, sem esquecer das mediação produtiva, feita de espoliação integral de recursos e descartabilidade do trabalhador nas grandes obras, eis o resultado dessa forma coisificada de socialização. Noutras palavras: no país, é como se a forma da economia suplantasse toda forma civilizacional (não puramente dedutível do sistema capitalista). 

No Brasil, o processo de "subsunção formal e real do trabalho ao capital" (Marx) tende, assim, a se tornar quase absoluta. É com ela que se instaura o estado de exceção permanente, que não precisa se converter em uma "ditadura" política em sentido técnico estrito do conceito. Mas se trata de um estado de exceção virtual, sempre iminente, enraizado numa base econômica violenta. Seu ideal ou finalidade seria flexibilizar toda forma contratual ou legislação social, política e ambiental, no limite eliminar todo contrato coletivo de trabalho e toda lei de regulação da exploração econômica. Na base social elementar, não temos uma "sociedade salarial" integrada como classe trabalhadora, constituída como camadas médias remediadas, tal como formada na Europa dos chamados "anos dourados", mas uma "superpopulação relativa" singular: um "proletariado precarizado" ou "precariado" permanente (Ruy Braga, A política do precariado, 2012, p.18), informal, flexível, móvel, migrante, social e politicamente instável, dificilmente constituindo-se como “classe” para si, como classe em luta. O "material humano" excelente para uma ótima extração de mais-valia absoluta, em composição com a mais-valia relativa. Segundo Chico de Oliveira, o capitalismo ornitorrinco brasileiro tornaria quase todo o tempo de trabalho em trabalho não-pago, em que “desaparecem os tempos de não-trabalho”, num entrelaçamento dessas duas formas de extração de mais-valor (Francisco de Oliveira, O Ornitorrinco, 2003, p. 136).

Nesse contexto, dominação pessoal e impessoal compõem um todo entrelaçado, de modo que os donos do capital são também os “donos do poder” (o Estado patrimonialista, de R. Faoro).

3-

Nossa tese é esta: por trás do terror político desse estado policial que se montou, herança da ditadura de 64, e dessa mídia monopolista e conservadora, que aterroriza a todos dizendo que o PT é “comunista”, a mídia monopolista que agora dirige a massa informe a mais quatro anos de consenso neoliberal, há uma espécie de totalitarismo ou terrorismo econômico de base. É este que ameaça e destrói toda forma antagônica, toda oposição, toda consistência política da esquerda.

Daí a persistência do "gigante" da ditadura: repressão política de movimentos sociais, coerção estatal sobre o todo, monopólio estatal ou privado da economia, incluindo monopólio midiático, moral conservadora e familista, abertura ao capital estrangeiro, industrialização em marcha forçada, sem liquidação das oligarquias regionais, endividamento externo, degradação ambiental monstruosa. O conceito de terrorismo, aqui antevisto, é o mesmo que Henri Lefebvre (A vida cotidiana no mundo moderno, 1967) anteviu no estado burocrático francês pré-maio de 68: um "terror difuso", que esconde sua violência latente e a guarda como último recurso supremo. O terror da economia política: um Estado que programa e codifica as necessidades sociais enquanto necessidades econômicas de crescimento e acumulação de capital, e que, para isso, bloqueia de saída o próprio pensamento de alternativas a tudo isso. Crescer, acumular, ampliar – mesmo saúde, educação ou moradia nada mais são, dessa ótica, do que meios de reprodução da força de trabalho, vale dizer: instrumentos de gestão biopolítica do precariado (escolas técnicas, moradias e saúde primários, abertura de frentes de trabalho selvagens, programas sociais emergenciais etc.) e de possível inserção do país como potência regional subimperialista na América do Sul. 

O “terror” instaurado pelo PT e pela mídia é nada mais, assim, do que o terror da economia autonomizada: o fetiche do crescimento cego, imposto pela globalização do capital, fundado em produção acelerada e destrutiva do espaço, em dívidas bilionárias e ganhos assegurados para as elites do agronegócio, da indústria e do setor financeiro, rentista e especulativo. Mas como sabemos, para o capital e sua mídia reacionária, isso nunca é o bastante. 0,9 de crescimento do PIB é pouco comparado ao patamares chineses, indianos ou chilenos, o dos 5, 7 ou 12% anuais. Como se 1% de US$ 2,5 trilhões, da maneira como é gerado, não tivesse impactos sociais e ambientais gigantescos (cf. os índices de desmatamento e poluição recentes na Amazônia, Nordeste e Centro-Oeste). Mais uma vez estamos imersos no "mito do desenvolvimento econômico", há muito apontado por Celso Furtado (1974), quando dizia durante a crise do milagre econômico brasileiro: "Cabe, portanto, afirmar que a ideia de desenvolvimento econômico é um simples mito. Graças a ela, tem sido possível desviar as atenções da tarefa básica de identificação das necessidades fundamentais da coletividade e das possibilidades que abrem ao homem o avanço da ciência, para concentrá-las em objetivos abstratos, como são os investimentos, as exportações e o crescimento". Além disso, é como se a crise estrutural do capital não estivesse instaurada e posta em nosso próprio horizonte, já tomando a própria América como um todo, a Europa e o Japão, como se os lucros e sobrelucros monopolistas pudessem ser mantidos a longo prazo sem uma brutal exclusão da massa e sem mais desemprego, políticas neoliberais, privatizações etc. A isso, o Estado responde com sua política de administração da pobreza, tomando a população como objeto político.

Ora, a grande mídia pressiona e aterroriza ainda mais os governos e a população se as metas econômicas absurdas não são cumpridas. Para ela, o céu é o limite. O que importa é fazer a roda da acumulação girar mais velozmente sempre. A corrupção petista, como se sabe, é apenas um álibi, para estigmatizar de vez os partidos de esquerda em geral – para tirar qualquer demanda social da agenda puramente neoliberal e economicista das classes dominantes (em que se encaixa confortavelmente parte das classes médias). Como se sabe, nesse Estado patrimonialista a corrupção é estrutural, ainda maior quando a direita o controla. Este então o terror econômico que elimina o dissenso político, no limite se tornando, como propõe Agamben, uma “guerra civil legal que permite a eliminação física não só dos adversários políticos, mas também de categorias inteiras de cidadãos que, por qualquer razão, pareçam não integráveis ao sistema político”. “O estado de exceção apresenta-se como um patamar de indeterminação entre democracia e absolutismo” (G. Agamben, Homo sacer, 1994, p. 13). Essa eliminação não precisa ser física, nem a democracia chegar de fato ao absolutismo. Ela tende a ser anulação política da oposição, o que é aliás bem mais "produtivo" para o sistema, que pode contar com massas permanentes no exército de reserva de trabalho precário e assim continuar a comprimir salários, obter consumo, manter sua máquina eleitoral, suas promessas de acumulação etc. (Cf. o argumento de Paulo Arantes, Extinção, 2007 e O novo tempo do mundo e outros estudos sobre a era da emergência, 2014). 

Desde 64, nunca se governou tanto com medidas provisórias, na estratégia de fuga para a frente: tanto para a aceleração do crescimento como para apagar incêndios sociais emergenciais, visando neutralizar a oposição anticapitalista, toda semente de anticapitalismo, com mais crescimento do capital.

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4-

As jornadas de junho podem malograr à medida que não conseguem, como exceção momentânea instaurada, se tornar a regra, ganhar não somente as ruas como acontecimento, mas inverter as regras do jogo de maneira permanente, polarizando a sociedade em campos antagônicos e instituindo novas formas de “governo” anticapitalistas. Hoje, tensionar o Estado exigindo re-formas radicais levaria, no limite, à explosão da forma vazia da mercadoria e da gestão estatal burocrática da miséria. O social contra o econômico e o político instituídos.

Em seu lugar, infelizmente, o gigante que se erige é o gigante de uma falsa unidade “nacionalista”, conciliatória, de fundo evangélico, neoliberal e/ou protofascista.(Cf. Cláudio R. Duarte, "O gigante que acordou - ou o que resta da ditadura? Protofascismo, a doença senil do conservadorismo", Revista Sinal de Menos, edição especial, 2013, on line). No fundo dessa falta de antagonismos explícitos, encontra-se o nosso velho problema de formação: ausência do trabalho de base e de politização das massas insurgentes de junho, que, assim, são mais ou menos facilmente capturadas pelo espetáculo midiático-partidário-oligárquico contínuo. O meio informacional hoje apenas reproduz o informe de nossa má formação constitutiva.

Como diz um companheiro militante simpático ao PT, sem descurar a autocrítica necessária do processo instalado:

“A verdade é que, apesar da retórica, a esquerda abandonou a luta ideológica e política militante com o povão. Para muitos militantes de partidos de esquerda, falar de mobilização de massas populares, numa perspectiva concreta, é grego. Para outros é melhor ficar esperando por explosões conjunturais como junho de 2013, pois em “tempos normais” não conseguem mobilizar quase ninguém para luta social. O resultado é que o povo brasileiro se encontra desorganizado, desinformado e desmobilizado, apesar de ter melhores condições para lutar hoje. 


Se tinha a faca e o queijo na mão para construir uma grande força social e política com as classes populares e parte das camadas médias,  percebe-se que a esquerda não teve prioridade no trabalho de base e encontra-se sem raízes nas comunidades, vilas, associações comunitárias e outras formas de vivencia das camadas trabalhadoras e populares. E só de luta ideológica e retórica de esquerda não se mobiliza ninguém”. (Fernando Marcelino ). 


Bibliografia

Giorgio Agamben, Homo sacer, Ed. UFMG, 1994.

Paulo Arantes, Extinção, Boitempo, 2007 e O novo tempo do mundo e outros estudos sobre a era da emergência, Boitempo, 2014.

Ruy Braga, A política do precariado, Boitempo, 2012. 

Cláudio R. Duarte, "O gigante que acordou - ou o que resta da ditadura? Protofascismo, a doença senil do conservadorismo", Revista Sinal de Menos, edição especial, 2013.

Celso Furtado, O mito do desenvolvimento econômico, Paz e Terra, 1974.

Paulo Emílio Salles Gomes, Cinema: trajetória do subdesenvolvimento, 1973.

Sérgio Buarque de Holanda, Raízes do Brasil, José Olympio, [1936], 1973.

Henri Lefebvre, A vida cotidiana no mundo moderno, Ática, [1967], 1991 e O direito à cidade, Documentos, [1967], 1969.

Francisco de Oliveira, Crítica da razão dualista/ O ornitorrinco, Boitempo, 2003. 

José Antonio Pasta. "Volubilidade e ideia fixa", Sinal de Menos 5, 2010.

Roberto Schwarz, Um mestre na periferia do capitalismo - Machado de Assis, Duas Cidades, 1990.

23 março, 2014

O FIASCO DA MARCHA DOS REAÇAS COM DEUS PELA DITADURA É REAL, MAS TAMBÉM APARENTE

Cláudio R. Duarte



 

 
TOTAL FIASCO. Em algumas cidades a "Marcha da Família com Deus pela Liberdade - O retorno"(!) não teve nem cerca de 20 manifestantes. Em São Paulo, entre 500 e 700, esbravejando com a ajuda de um carro de som seus slogans non-sense tirados da velha propaganda anticomunista, provinda do velho udenismo, e mais recentemente, dos cursos paranoicos de Olavo de Carvalho e do caldo de cultura antiesquerda, alimentado por Veja, Globo, jornalões-jornalecos diários e organizações protofascistas de todo tipo nas redes sociais.
 
Por que o fiasco? Primeiramente, porque um golpe não interessa à atual classe dominante e a seus associados no mundo. Aliás, a elite empresarial brasileira - conservadora sim, mas liberal e cosmopolita, até por obrigação de seus negócios - tem nojo dessa gente semianalfabeta, reacionária, carola e provinciana, que foi ontem às ruas. O sonho de um novo golpe é simplesmente um delírio coletivo dessa massa "zé ninguém" (Reich), o resultado direto de um desespero diante da hegemonia petista, que parece por enquanto inabalável. Como não há candidato de direita, ou melhor, de extrema-direita que os represente, apelam brutalmente para o golpe. Não faltou quem defendesse a violência da PM, as execuções sumárias de bandidos, a pura e simples eliminação das organizações de esquerda e mesmo o louvor à civilização meritocrática dos "brancos" e suas organizações reacionárias secretas (como apareceu no link direto do Mídia Ninja, entrevistando a dita senadora biônica "Dulce Holanda").
 
Acontece que um golpe não se faz assim, de improviso. Isso é ingenuidade de gente despolitizada e sem conhecimento histórico algum. A ignorância política que foi às ruas é o fruto do próprio regime militar, dos anos de deseducação e desinformação. O golpe de 64, como mostrou René A. Dreifuss (1964: a conquista do Estado), foi o fruto de uma longa conspiração de classe, unindo forças da burguesia nacional e internacional, dos militares, de institutos como IPES e IBAD e, é claro, da CIA, envolvendo diretamente o embaixador norte-americano e o presidente Kennedy. É óbvio que o lulismo não assombra mais nenhum pouco as elites atuais, que vêm ganhando muito com o governo conservador e fiel aos investidores de todo o mundo. Além disso, o modus operandi fascista da PM e as leis de exceção (o novo AI-5 da Copa) estão em pleno curso. Não precisa de ditadura alguma para controlar a massa trabalhadora e a ralé dentro de certos limites. Basta o atual bota pra quebrar da PM e a criminalização dos movimentos em geral (é o que dá para sentir perfeitamente numa das últimas capas da revista Veja do mês de março).
 
Alguns colegas de esquerda dizem então que temos de parar de falar nisso e passarmos ao que interessa. Pois é. Só que não é bem assim. Se a ideologia fosse só o que aparece como fato nas ruas, seria muito fácil "transformar o mundo".
 
O "fascismo à brasileira" tem uma raiz autoritária e religiosa vinda do colonialismo escravista português. Este "formou" negativamente, a seu modo, a cultura e o povo brasileiros. Uma espécie de fascismo que, por isso mesmo, não consegue aparecer solidamente nas ruas. Daí também ele aparecer como uma massa tosca, dispersiva, cuja frágil unidade só pode ser a de um grito irracional por Ordem. 
 
Ou seja, na base, a mesma e velha necessidade reacionária de forma, diagnosticadas pela melhor literatura nacional (Machado de Assis, Mário, Drummond etc.), uma forma que essa gente sente estar ausente do país. Jamais perceberão eles que isso é o resultado da forma coisificada do mercado e do Estado vigentes, o fruto perverso de nossa formação capitalista singular, herdeira do vale-tudo escravista. Eles apelam então para o uniforme militar: a forma absoluta, ditatorial, aquilo que subjaz à ideia de um gigante nacional integralista. E isso talvez desde os primeiros anos da República, com a chamada República da Espada. A massa protofascista nacional não costuma vir às ruas apenas devido a fatores casuais, de organização ou falta de liderança etc., mas por razões objetivas, intrínsecas à sua de-formação cultural, num amplo sentido. Essa deformação constitui o espírito da massa popular brasileira, principalmente das classes médias, como um todo.

Trata-se de uma cultura essencialmente antipública, familista e privatista. Herdeiras da casa-grande e senzala, ela teme a ideia de socialização como se fosse o Capeta. A socialização aparece a ela como a ausência final da forma - a erosão de seu casulo de segurança, só possível em seus bunkers de classe. Daí o seu ódio irracional da política em geral, sua paranoia securitária, a quase impossibilidade de tomada de posições claras em praça pública e o desejo de retorno à ditadura ("intervenção militar constitucional" dizem eles, de maneira alucinada, sem nenhum respaldo jurídico-legal). O desejo dessa massa é reacionário em sentido integral: o de servir a um grande Pai autoritário que colocaria fim às suas angústias, trazidas pela desvalorização do trabalho, o desemprego, a falta de prazer na vida adulta há muito sacrificada, enfim, o medo da proletarização.
 
Assim, uma coisa é contar essa meia dúzia de "revoltados on line" que tiveram o despudor de ir para a rua defender o horror e que felizmente foram ridicularizados até pela mídia mainstream, bem outra é compreender o HORROR instalado na cultura e no psiquismo do cidadão médio (o mal-estar da civilização brasileira, aqui, para situarmos o conceito de Freud), embutido na ideologia racista e meritocrática (aliás, não havia praticamente negros nessas passeatas), enfim, implantado no modo de ser de instituições patriarcais e autoritárias do país, cuja maior expressão é essa glorificação cínica da violência da PM e dos torturadores de 64, em nome de Jesus. A caixa de comentários da Veja e do Uol saiu às ruas, mas continua em casa, como uma massa reacionária invisível, com ódio de toda luta pela emancipação.
 
Nesse sentido, o fiasco não foi total. Eles foram à rua e trouxeram à tona demandas reacionárias que calam fundo na "alma" da classe média, a classe que saiu às ruas em Junho e que a esquerda otimista existente insiste em não querer compreender em seu profundo reacionarismo.

Basta assistir a este vídeo do FACEBOOK para reconhecer o reacionário em seu habitat original:
 
 
 
Isso vale como uma micrologia do fenômeno em pauta. Esse cidadão não foi para a Marcha, deve estar cuidando de seu carrão aqui ou nos EUA, mas é o idiota protofascista nacional típico, que apoiaria qualquer intervenção militar que aparecesse no horizonte. Não nos enganemos quanto ao fenômeno de rua. Uma crise maior na reprodução do capital trará à tona esses mesmos sentimentos reacionários à praça. Ele é muito mais latente e radical do que se imagina. Por isso mesmo sua manifestação é se dá de dentro das casas, das redes sociais e, aqui, dentro de um automóvel.
 
 
Subestimar o ovo da serpente autoritária nacional é um positivismo ingênuo. A ação antifascista, que reuniu seus 1500 manifestantes em São Paulo, fez a sua parte ontem. Fascistas não passarão!
 
























































20 agosto, 2013

Leandro Narloch - O "guia correto" do Idiota burguês neoliberal do Brasil

Leandro Narloch - O "guia correto" do Idiota* burguês neoliberal do Brasil



por Cláudio R. Duarte

                                        "Nunca houve um monumento da cultura que não fosse também um monumento da barbárie. E, assim como a cultura não é isenta de barbárie, não o é, tampouco, o processo de transmissão da cultura. Por isso, na medida do possível, o materialista histórico se desvia dela. Considera sua tarefa escovar a história a contrapelo." (Walter Benjamin,  Sobre o conceito da história, Tese 7, 1940).


A direita liberal -- protofascista desde as suas mais profundas raízes -- vem renascendo com vigor no mundo todo nas últimas décadas, principalmente após a derrocada do socialismo de caserna no Leste e do triunfo da ideologia neoliberal.



Como é de se esperar em tempos sombrios e regressivos como esses, o livro do jornalista Leandro Narloch -- Guia politicamente incorreto da história do Brasil [1] -- tem todos os ingredientes para se tornar, como vem se tornando, um best-seller do marketing reacionário. Com a força de outros “intelectuais” da direita militante (Reinaldo de Azevedo, Augusto Nunes, Marco Antônio Villa, Bolsonaro, Olavo de Carvalho, Diogo Mainardi, Luiz F. Pondé, Eliane Catanhêde), ele vem gerando muitos entusiastas e sequazes, encorajando-os a mostrar a sua careta incivil, apolítica, individualista e concorrencial sem freios.



Nada de novo no front se contarmos o liberalismo como a forma mais natural e mais pura da consciência coisificada do sujeito burguês moderno, aprisionado ao caráter fetichista das relações sociais mercantilizadas. O que é novo no neoliberalismo, talvez, é a sua fé cretina incondicional na selvageria do mercado como a única alternativa de vida possível. É esse o pano de fundo mais ou menos confesso do livro, reduzindo a esquerda à burrice e ao pesadelo totalitário.

 


No livro de Narloch, os homens são e serão o que sempre foram na sociedade burguesa: acumuladores de dinheiro e poder -- tudo sem muita angústia, muito menos drama --, embora sempre com alguns laivos de um tênue espírito de cidadania ou mesmo de nacionalismo, confundido com a admiração pelos feitos da elite nacional. Com o que estamos muito próximos do ideal da nação grandiosa (o gigante verde-amarelo) há muito desbotado pela globalização, e que a introdução da obra prometia engavetar. Apesar do título do livro, afinal, o que pode haver de incorreto em tudo isso? A pretensão de ser politicamente incorreto é puro marketing. O que há é a propaganda ostensiva do conservadorismo e da normalidade capitalista, isto é, a glorificação dos velhos temas da história oficial positivista retomados de maneira polêmica, em chave revisionista, contra a crítica social da esquerda.
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Assim, o que haveria de incorreto com os bons colonizadores portugueses, que mesmo sendo escravistas nem sempre “levavam a melhor” sobre os seus escravos?!; ou com os valentes bandeirantes paulistas, que, miscigenados e muita vez maltrapilhos, ajudaram a formar a grande terra brasilis e a civilizar os índios (estes sim, derrubadores de floresta); ou ainda com a Inglaterra, a maior interessada no fim do tráfico negreiro por motivos humanitários!? Aliás, ficamos sabendo por meio de Narloch que os portugueses aprenderam e desenvolveram efetivamente o tráfico de escravos com os africanos, além do fato que no longo processo de sua abolição estes lutaram contra o fim da escravidão... O que isso significa em termos de reversão do sentido funesto do escravismo colonial? Em que isso desmentiria a dominação europeia sobre a África? Para o autor isso tudo não vem ao caso, o que importa é trazer dados supostamente novos e desconsiderados pelas correntes críticas das ciências sociais (que na verdade são bem conhecidos, sim, desde pelos menos os anos 1960). E o que haveria de incorreto com o nosso Segundo Reinado, com D. Pedro II e com a elite liberal-conservadora, que evitou "revoluções e reformas radicais", garantiu as "liberdades individuais"(p.274) e a "liberdade gradual dos escravos" (p. 288)?! Sim, por que não, a liberdade de senhores patriarcais, os donos de capital humano, sem vergonha de pertencerem à sua classe... O que pode haver de indigno, enfim, com a "ditabranda" (sic, p. 324), segundo as versões altamente suspeitas da Folha, do Coronel Brilhante Ustra, chefe do Doi-Códi, ou de Marco Antônio Villa (o historiador predileto da Veja), todos citados como fontes fidedignas – um regime militar que torturou “apenas” uns 2 mil bandidos e desocupados, matando só mais uns 380 membros da esquerda “violenta” e “autoritária” de vocação stalinista e polpotiana, uma ditadura que "foi uma das menos atrozes de todo o século 20"(!, p. 324), e que enrijeceu somente após 68, como mera reação à guerrilha revolucionária, enfim, um regime modernizador e portanto progressista, que teria feito aumentar e redistribuir a renda nacional na época do milagre brasileiro!?[2]

Desse modo, muito pouco há de politicamente incorreto em tudo o que essa versão requentada da História Oficial, escrita pelos vencedores de sempre, sempre nos contou. Daí a conclusão do livro há muito deduzida e esperada pelo leitor crítico: "Viva o Brasil capitalista" (p. 336).
O pressuposto cego desse livro que se quer “tão sábio” e “tão esperto” (com algo mesmo da cegueira nietzscheana) é que as relações sociais fundamentais só podem existir de fato como relações entre as coisas no mercado, como troca coisificada entre pessoas privadas, entre mônadas funcionais que despendem e fazem circular trabalho humano homogêneo, igual, abstrato. Assim, tudo e todos praticamente se equivalem somente na medida em que são seres que trabalham, embora uns valham mais e tenham justamente mais liberdade do que outros. A elite conservadora do país seria então exemplar, mesmo sendo o paradigma máximo do privilégio da vida ociosa fundada na dominação de classe e do capital. Por isso, ainda, para o jornalista, o tráfico negreiro parece ser no fundo uma troca justa entre potentados europeus e reinos africanos, que preservavam interesses autônomos iguais – ou pior, é como se a gênese do processo de acumulação capitalista tivesse realmente mais a ver com a vontade de lucro e de luxo dos reis africanos do que com as leis capitalistas da acumulação e as imposições do sistema de plantations, ou seja, é como se a África fosse um parceiro comercial soberano, não submetido à Europa e ao controle do Capital, enfim, como se o trato negreiro não constituísse parte fundamental da lógica alienada da valorização, que no limite inverteu os termos entre produção colonial e o comércio altamente lucrativo de escravos.[3] Tudo se passa como se a colonização não fosse um processo de exploração e pilhagem do Brasil e da África regido por decretos e leis administrativas, aliás, o tempo todo suspensas e sujeitas ao arbítrio e ao capricho dos proprietários, um laboratório do atual estado de exceção normativo do capitalismo mundializado. Como se aqui, então, os índios e os negros transformados em escravos fossem, via de regra, bons "amigos"(sic!) de seus senhores e não tivessem resistido e lutado contra o seu cativeiro, um raciocínio esdrúxulo, na pior tradição freyriana reabilitação da escravidão.
 
Aos trocadores de mercadorias, como mostrou Marx, o valor aparece como uma propriedade natural das coisas (incluindo aí a própria força de trabalho), assim como o mercado aparece como um sistema que serve verdadeiramente aos homens de maneira totalmente justa, conforme o que cada um exige e tem a oferecer ao mercado. O neoliberal radicaliza a crença idiota nessa justiça (supra)terrena, praticamente excluindo o campo dos ideais e a aura burguesa dos direitos e da civilidade, o que Narloch e a mídia em geral entendem pelo que é socialmente justo ou politicamente correto, que nada mais é que um ressentimento dos pobres, que adotam o falso "papel de vítimas ou bons mocinhos"(p.26). Narloch suaviza o terror capitalista, tendendo a tomar a exceção pela regra, o caso contingente e singular pela essência. Se o neoliberalismo é o pensamento e a prática que afirmam secamente a concorrência, reduplicando de modo cínico a ideologia materializada pelas relações sociais naturais do sistema produtor de mercadorias, o jornalista cria uma série de álibis para ele, com vários graus de hipocrisia e cinismo, para justificar uma hegemonia de classe e um novo conformismo histórico.
Não há nada de politicamente errado com o sistema existente. Para o neoliberal não pode haver injustiça no mercado ou nos empreendimentos comerciais em si, que geram a acumulação social de riqueza (-- como capital privado, é verdade). O injusto é sempre um justo resultado das ações livres de cada um: o resultado do empenho diferencial e naturalmente desigual de cada competidor no mercado. Eis o que o converte em um neodarwinista social radical ou potencialmente radical e, assim, em um protofascista. Para tal caráter autoritário, como escreveram os frankfurtianos, “a celebração do poder e a irresistibilidade do mero existir são as condições que levam ao desencanto. A ideologia já não é um envoltório mas a imagem ameaçadora do mundo”, restando então “o pensamento estereotipado, o sadismo encoberto, a adoração da força, o reconhecimento cego de tudo o que é eficaz”.[4] Os portugueses e os bandeirantes foram muito eficazes em sua empresa, mais que os índios nativos, isso é o que importa. Também os índios buscavam vantagens o tempo todo, e “o extermínio e a escravidão indígenas”, segundo o autor, “não seriam possíveis sem o apoio dos próprios índios, de tribos inimigas” (p. 39), com o que praticamente desaparece a sua coisificação e sujeição aos interesses capitalistas dos colonizadores.


Também o golpe militar e até a tortura rotinizada tornam-se mais ou menos justificáveis porque foram eficazes em preservar o mercado e a propriedade privada: “Alguém poderá dizer que a reação dos militares ao terrorismo foi exagerada. (...) Isso pode ser verdade, mas não era seguro pensar assim naquela época. Qualquer notícia de movimentação comunista era um motivo razoável de preocupação” (p. 321). O “trator” da ditadura sai legitimado: “Se o governo e a sociedade brasileira mantiveram o país longe dos comunistas, existe aí um motivo para nos sentirmos aliviados: o país pôde avançar livre dos perigosos profetas da salvação terrena” (p. 336-7). A injustiça social surge apenas quando o Estado ou as estratégias políticas intervêm no mercado ou este último é regulamentado por normas sociais universais – em suma, por algum tipo de relação social totalizante exterior ao mercado, que pode bloquear ou impedir os negócios. A injustiça seria apenas o que interfere na livre iniciativa -- ou antes, no capricho dos proprietários. (E por que não?, aquilo que interfere no capricho dos jornalistas que podem também retrabalhar e remendar à vontade os processos históricos, a fim de criar, como fofocas da vida privada, as suas próprias versões da história).
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Não é que o livro de Narloch trabalhe com fatos mentirosos ou fantasiosos. Sua interpretação é que é uma lástima. Ocorre que a verdade objetiva e contraditória do processo não conta: o que vale é a narrativa apimentada a partir de fatos isolados, retirados de seu contexto e do sentido geral do processo, que é profundamente negativo. O que merece crédito é a provocação, o dado sensacional e de fácil digestão no mercado, já sem o pau chutado da barraca das estruturas históricas fundamentais. Tudo seria uma questão relativa de ponto de vista -- e já não há qualquer visão de totalidade possível, qualquer distinção entre essência e aparência, regra e exceção, que permita revelar processos sociais contraditórios, que confirmam os fenômenos e as aparências diversas, mas não os toma como a essência ou como capazes de dissolver o sentido mais geral do processo capitalista de acumulação. De resto, o livro é bom em levantar falsas polêmicas como as do jovem Machado de Assis como “censor do Império” (como se este não fosse o maior crítico dos costumes da burguesia nacional e do próprio Império), ou sobre qual era o “verdadeiro” caráter de Zumbi, Euclides da Cunha ou José de Alencar (como se as suas obras se reduzissem à biografia dos autores), qual a validade estética e a quem atribuir as muitas obras de excelência do escultor Aleijadinho (segundo Rodrigo Naves, um dos maiores artistas plásticos brasileiros), ou qual é a “verdadeira origem" do samba e da feijoada (como se eles não tivessem se desenvolvido e proliferado precisamente entre as camadas populares -- e não a partir de ações da elite ou do fascismo de Vargas).

O livro funciona, assim, como guia de mistificação para os típicos leitores há muito cegos da revista Veja. Como sempre, eles estão sedentos pela justiça da troca de equivalentes. À consciência fetichista segue-se o discurso apologético de que tudo se deu no final das contas de maneira racional e progressista desde a colonização -- a não ser por distúrbios da lógica da equivalência, como no caso do Acre, p.ex., que paga muito menos impostos do que recebe de investimentos do governo federal: "Já o Acre, produtor de uma borracha mais cara, nunca mais daria dinheiro" (p.235). E o mesmo para outros Acres vagabundos, parasitas da nação: “Rondônia, Roraima, Amapá, Tocantins, Alagoas...” (p. 239); com o que o velho desejo separatista do Sul e Sudeste ganha novo alento. Aliás, o exemplo citado dos quilômetros de metrô que poderiam ter sido feitos em São Paulo com esse dinheiro hoje vem bem a calhar no livro de Narloch, que não esconde suas preferências tucanas. 


O mesmo para o caso dos guerrilheiros-terroristas contra a Ditadura, que apenas sangram os cofres públicos com indenizações, sendo verdadeiros heróis os militares, que defenderam a nação contra o espectro do comunismo (claro que distorcendo o processo real em curso, meramente reformista, legitimando assim a contrarrevolução preventiva e silenciando toda a conspiração imperialista arquitetada por Washington no caso). Narloch, como os liberais desde Adam Smith, recalca e esquece, assim, que o que se ergue a partir de suas honoráveis relações coisificadas só pode ser um processo social autonomizado, alheio ao controle de todos -- essa a verdadeira ditadura sanguinária, que ganha a vida própria de um deus-fetiche da acumulação – e que foi recuperado e reempossado manu militari através do golpe de 1964. Um processo objetivo que os neoliberais simplesmente idolatram e transfiguram fantasiosamente como a "mão invisível"... não da escravidão e do infortúnio coletivos, mas da justiça e da democracia...
Para o neoliberalismo, tudo isso tem seu ponto de partida nos atos livres do indivíduo burguês. Eis então um modo relativamente simples de equacionar os processos sociais opacos e hipercomplexos: as estruturas são redutíveis a ações individuais, a atos voluntários, a interesses particulares - ou, na versão de Narloch, a feitos individuais bem-sucedidos ou malogrados (a guerra do Paraguai como culpa de um tirano, p. ex., ou as bandeiras como empreendimentos heroicos de gente chã e pedestre -- dois massacres históricos aliás praticamente inexistentes, segundo sua visão “alternativa” dos fatos etc. A estrutura desaparece sob indivíduos e fatos contingentes ou evanescentes. Como dizia Margareth Thatcher, a sociedade é uma ficção, o que existe são indivíduos isolados e suas ações independentes -- que podem ser interpretados ao bel-prazer do historiador.
 
Da mesma maneira, o fracasso é sempre individual, ou seja, é culpa dos próprios indivíduos que não deram duro o bastante para afirmar a sua liberdade -- nunca é o resultado de um mecanismo social cego, alienado, monstruoso, que corre por trás das costas dos envolvidos. O que se afirma é a eternidade do atual curso do mundo, tido como o melhor dos mundos possíveis. O que se afirma é, como viu Chico de Oliveira, uma "subjetividade antipública" e uma ideologia da "impossibilidade do dissenso"[5] -- aqui, sob as vestes esfarrapadas do jovem rebelde que só aparentemente destrói o grande consenso, já que apenas o simula destruindo a objetividade da história e a universalidade da luta pelos direitos sociais. Num outro texto, aliás, após a eleição de Dilma, o autor exala todo o seu preconceito antipobre: "seria ótimo não precisar conviver com os 30% de eleitores que, segundo o Datafolha, não se lembravam, duas semanas depois da eleição, em quem tinham votado para deputado" ("Sim, eu tenho preconceito", Folha de São Paulo, 11/11/2010). Ocorre que também a classe média idolatrada não sabe em quem vota, quando vota na quadrilha campeã em corrupção de FHC, Serra, Alckimin e Aécio, como vem se revelando nos últimos anos.

A hegemonia cultural da esquerda, segundo Roberto Schwarz operante em determinado momento dos anos 60, foi há muito desfeita.[6] O clima difuso do livro é um profundo sentimento reacionário e antipopular. Um sentimento de um povo, que, vitimizado e heroicizado pela historiografia populista ou crítica -- na verdade teria sido um povo reacionário como seu autor: um povo feito de índios exterminadores de índios, de escravos traficantes de escravos, mais tarde malandros da trapaça e do parasitismo social. Um sentimento, em suma, de que esse povo foi via de regra estúpido e patético. E que formaria hoje um exército disfuncional para o sistema -- aqueles 40 milhões, metade da PEA nacional, que o então presidente FHC chamou de “inempregáveis”.


De fato, tão inempregáveis quanto o capital improdutivo, que "vagabundeia" especulativamente de bolsa em bolsa, apartado do mundo, no contexto da crise estrutural do capital -- a verdade "desagradável" maior, que o livro furioso de Narloch desconhece totalmente. A direita, com sua idiotia congênita mais uma vez revelada, louva a si própria como mero Capital personificado, e assim vai consolidando o seu "sonho de um apartheid total"[7].
Notas:



* Do latim idiota, originado do grego antigo ἴδιώτης (idhiótis), "um cidadão privado, individual", derivado de ἴδιος (ídhios) , "privado". Usado depreciativamente na antiga Atenas para se referir a quem se apartasse da vida pública.

[1] NARLOCH, Leandro. Guia politicamente incorreto da história do Brasil. 2.ª ed. revista e ampliada. São Paulo: Leya, 2011. Doravante, cito as páginas no corpo do próprio texto.
[2] Há momentos no livro de franco disparate no uso e na interpretação de números estatísticos. Como no exemplo do milagre brasileiro (p.332-3). Em 1970, os melhores críticos já viam que, apesar dos progressos urbano-industriais qualitativos, o processo autoritário de modernização era desigual e conservador, combinando “altas taxas de incorporação [de trabalho], expulsão e marginalização [social]”, concentrando a renda e “visando implícita ou explicitamente ampliar o mercado das classes médias, intensificar a capitalização e promover uma nova onda de expansão” fundada necessariamente nessa desigualdade (TAVARES, Maria da Conceição. Da substituição de importações ao capitalismo financeiro. Rio de Janeiro: Zahar, 1975, p. 194). Ou ainda, como apontava Paul Singer: “Não há como desconhecer que a política trabalhista posta em prática após 1964 foi um importante fator para que a economia alcançasse elevadas taxas de crescimento de 1968 em diante. Os autores da proeza – os trabalhadores – sofreram sensível piora em suas condições de vida”, vale lembrar, assentadas no “arrocho salarial”, na “intensificação da exploração”, no “avultado número de acidentes de trabalho”, enfim, na “maior subordinação e controle do trabalhador à disciplina da empresa e da polícia”, e que ao longo das décadas levou à superconcentração do capital, à superinflação e ao megaendividamento do país. (Singer, Paul. A crise do ‘milagre’. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1976, 77-88). Para Narloch, o milagre brasileiro teria muitos “números saborosos” e seu mérito “não é tanto dos militares e sim dos empresários, dos trabalhadores e da multinacionais” (p. 333). Ou seja, aqui, os trabalhadores são apenas mais um elemento da equação montada por verdadeiros parceiros sociais, postos em igualdade abstrata com o capital e a classe dominante, agentes que teriam sido beneficiados amplamente – sim, pode-se rebater, basicamente a classe média e o empresariado, que constituem hoje o público alvo de seu livro, as classes ainda hoje saudosas do regime que fez crescer os seus privilégios.
[3] Cf. Novais, Fernando. Portugal e Brasil na crise do Antigo Sistema Colonial. São Paulo: Hucitec, 1979. Cf. Alencastro, Luiz Felipe. O trato dos viventes. Formação do Brasil no Atlântico Sul – séculos XVI e XVII. São Paulo: Cia. das Letras, 2000.

[4] Adorno, Thedor W. & Horkheimer, Max. “XI-Preconceito” e “XII-Ideologia” in:__. (org.). Temas básicos da Sociologia. São Paulo: Cultrix, 1973, pp. 203 e 176, respectivamente.

[5] OLIVEIRA, Francisco de. Os direitos do antivalor. (A economia política da hegemonia imperfeita). Petrópolis: Vozes, 1998, pp. 220-1.
[6] SCHWARZ, Roberto. "Cultura e política - 1964-1969" (n:__. O pai de família e outros estudos. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1978.
[7] OLIVEIRA, op. cit., p. 203.