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23 abril, 2016

GOLPE À VISTA (E TAMBÉM A CRÉDITO)

GOLPE À VISTA (E TAMBÉM A CRÉDITO)

O que vem por aí é o golpe branco, suave, midiático-parlamentar, cheio de moral seletiva e amnésia de classe fabricada por manchetes dos jornais, que hoje substituíram totalmente a leitura e a reflexão crítica. O golpe baixo dos que não toleram as classes populares na política e vieram preparando sua vingança a quase uma década.



 
O que vem por aí, depois disso, é a legitimação midiática das medidas neoliberais que pensávamos que estariam destruídas depois da crise de 2008. Nas discussões nas redes sociais, em caixas de jornais, é isto: além do preconceito de classe, do moralismo seletivo e do ódio monumental devotado à esquerda, querem ou aceitam encolher a política e o estado a um mínimo em favor das forças reificadas do mercado. Aceitam privatizações e sucateamento geral do serviço público. Não querem nada mais que dólar barato e menos impostos. 

Individualismo liberal de massas. Eis o monstrengo que se criou às nossas costas, no seio dessas novas classes médias extremamente consumistas e politicamente semianalfabetas. Aceitam o governo Temer aparentemente sem nenhuma noção do desastre que virá para os trabalhadores. O espírito empreendedor se generalizou, e ninguém mais se vê como trabalhador espoliado e dominado. É da falência da consciência de classe, que chegou a se esboçar em certo momento nos anos 60, 70 e 80, é da amnésia feita pela indústria da notícia, que impede toda acumulação de experiência histórica, que o golpe tira seu combustível. 

Ao passo que a periferia silencia, descrente de salvadores à esquerda ou direita, pois tem de ganhar a vida agravada pelo governo que também a traiu. 

Contudo, o golpe também será a crédito. Crédito com juros estratosféricos, como condição de reprodução dos serviços básicos e alimentação do capital financeiro hegemônico. Crédito - PURA CRENÇA - na estabilidade de um governo que vai plantar o caos social... para colher a guerra de classes a médio prazo.

                                                                                                         Bob Klausen (março de 2016)

19 novembro, 2014

Legenda para uma foto




"Meritocracia: aqueles meninos no escorregador trabalharam muito no passado e agora podem brincar. O outro, preguiçoso, não fez nada e agora é forçado pela justíssima e poderosa mão invisível". (Thiago Lion)





19 outubro, 2014

DISTOPIA HÍDRICA PAULISTA

Crise hídrica em São Paulo: em tempos de colapso generalizado do desenvolvimento, a utopia cede lugar à distopia

Pois, nesse exato momento, não estaríamos sujeitos a uma política do silêncio? O governo estadual não vem calando abertamente a Sabesp e a mídia? Muito provavelmente. Tudo para se reeleger em primeiro turno e apoiar o presidente para completar as obras do Tucanistão. 

O silêncio, no entanto, é bem mais radical do que isso. Porque podemos imaginar o que está por trás desse cenário preocupante: uma espécie de apocalipse.

Nessa hipótese distópica, a estratégia do silêncio serviria a um propósito claro: evitar o pânico, prevenir uma rebelião e mesmo uma guerra civil, que já começam a se esboçar em alguns lugares.


(Caminhão pipa escoltado pela polícia em Itú-SP).

Imaginemos a falta de água por meses seguidos, ou até anos, na maior região metropolitana e produtiva do país. Escolas, fábricas, empresas paralisadas. Manifestações generalizadas e polícia prendendo e descendo o cacete, com afinco, como de costume. Saques em supermercados. Estado de exceção e toque de recolher nas ruas. Massacres de pobres e excluídos. Presídios lotados -- e em rebelião. Invasões, roubos de água, enquanto as classes dominantes terminam seu processo de bunkerização, podendo comprar e armazenar água para si. Pobres vivendo em áreas de encostas de morro sem quase nenhuma água, ou com água contaminada. Surtos de doenças contagiosas por falta de higiene básica. Hospitais lotados. Poços artesianos insuficientes, secando rápido, assaltados ou em disputa selvagem. Milícias privadas escoltando carros pipa, o crime organizado respondendo à polícia. Ondas maciças de desemprego e de revolta, sem movimentos sociais organizados capazes de ordená-las, o que promete ser a reedição do individualismo de massas nas ruas de Junho. E pior, num país que elegeu um congresso conservador e reacionário. Apoiado pela grande mídia, esse governo esconde a estratégia tucana até o final, buscando deslegitimar toda tentativa de rebelião popular de massas não conformistas e não alinhadas (digamos: proto-socialistas). Cada um por si, todos contra todos. Ondas de refugiados e migrações  para fora ou para outras partes da cidade. Preço da água potável e dos alimentos em rápida elevação. A falência de empresas conduz o capital a saltar para mercados financeiros ou produtivos para fora da região metropolitana, inclusive para fora do estado. Miséria e arrocho salarial pelas mãos de um candidato neoliberal que vai governar para a elite privilegiada, supostamente meritocrática, e que ameaça mais privatização. E tudo isso num país que cedo ou tarde vai entrar em crise nos  próximos anos, devido aos reajustes de preço de eletricidade e combustíveis. 

Para saldar os gastos, mais medidas de emergência, mais cortes em investimentos estatais, mais privatizações, mais repressão contra essa guerra civil canibal-nuclear-zumbi que se avizinha em nossa imaginação distópica.

28 setembro, 2014

NEODESENVOLVIMENTISMO COMO CATÁSTROFE

Neodesenvolvimentismo como catástrofe 


Cláudio R. Duarte



O sistema capitalista mundial está em profunda crise. Mais do que isso, creio que devemos trabalhar com a hipótese marxiana fundamental, retomada por grupos alemães de crítica do valor (Krisis e Exit), de que esta não se trata mais de uma crise passageira, mas de uma crise estrutural, uma crise radical, que mais cedo ou mais tarde, muito provavelmente nas próximas décadas, levará ao colapso do sistema mundial. Sem dúvida, a sociedade de acumulação “pacificada” dos assim chamados “30 anos gloriosos” chegou ao fim. O Welfare State, a estrutura que havia sido montada no centro sob o guarda chuva nuclear do Warfare State e da mobilização total fordista (Marcuse), vai sendo desmanchado. O consenso de classes construído pelo keynesianismo de guerra chegou ao seu limite no final dos anos 70, mediante a hegemonia do neoliberalismo, da flexibilização do trabalho, da desregulamentação do mercado financeiro e do fim do socialismo de caserna. Isso levou a crises sucessivas nos anos 80 e 90 (na periferia do capitalismo: Brasil, México, Rússia, Leste europeu), e atingiu o seu ápice na crise de 2008 e 2010.


-Crise econômica e financeira: na base do processo vigente, temos a desvalorização do valor. A crise do fundamento social moderno, a crise do dinheiro, a crise do trabalho abstrato. A 3ª revolução industrial desvalorizou o trabalho de maneira radical e já só pode descartar o trabalho de uma imensa massa de trabalho. O trabalho se complexificou, se virtualizou, passa por cadeias de serviços imateriais, mas por isso mesmo já não pode ser um trabalho produtivo no sentido preciso de que seus custos de produção e reprodução explodem e só podem ser resgatados por mais incorporação de trabalho, mais produção e ampliação de mercados, o que exigiria longos períodos de tempo, tudo isso numa economia que se moderniza e se tecnifica fortemente e portanto tende a economizar trabalho vivo. Não há massa salarial nem mercado consumidor efetivo para realizar essa gigantesca avalanche de mercadorias, exigindo por um lado imensas quantidades de capital fixo (infraestrutura) para sua produção e enorme crédito para continuar expandindo a produção e o consumo. Todos estão endividados: famílias, empresas e países, como os EUA, o Japão, a União Europeia, a China e todos os "emergentes". 


Assim, a acumulação real de mais-valia tende a se reduzir ao mínimo necessário para manter o sistema crível, concebível e aparentemente rentável. Por um lado, o sistema funciona à base de crédito público e de especulação (financeira e rentista), por outro, da conquista de mais territórios de mercantilização da força de trabalho de custos miseráveis na periferia, realizando-se a articulação da extração de mais-valia absoluta e relativa. Em terceiro lugar, apela-se para a obsolescência planejada e perceptiva (moda), acelerando a destruição ambiental. Por fim, a acumulação real – descontada as dívidas trilionárias mundiais a serem pagas nos próximos anos --- atinge assim o seu limite absoluto --- ou quase absoluto, sendo sua expansão cada vez menos possível. No fundo, só passa a ocorrer sob a força coercitiva do Estado, como fuga para a frente, do modo mais selvagem possível: pela conquista territorial e produção do espaço (meio de absorção de trabalho vivo), ao mesmo tempo em que ocorrem cortes nos gastos estatais na área social, o que impõe a generalização do trabalho precarizado, da terceirização, do auto-empresariamento, da autoexploração, do retorno à escravidão, e principalmente de privatizações de fundos públicos ou recursos naturais comuns (água, solos, florestas), no limite, atingindo guerras civis de pilhagem, como já ocorre um pouco por toda a periferia do sistema (África, Ásia e América Latina) etc. "Não há mais planos de integração para grandes maiorias" (Robert Kurz). O capitalismo é um espetáculo para poucos. A concentração da renda atinge níveis "indecentes" (segundo o termo de Obama). O chamado neoliberalismo é nada mais do que uma estratégia de classe para ampliar a valorização do capital à fórceps, em grande parte de maneira fictícia, nesse momento de crise (com taxas de lucro em declínio), avançando sobre os direitos dos trabalhadores e sobre os bens comuns. A partir dessa crise, e de maneira sincrônica a ela, temos processos de catástrofe encadeados:



-Crise social: Essa crise econômica deflagra conflitos sociais no campo e na cidade: enorme proletarização, expulsão de populações do campo, avanço sobre recursos naturais, ampliação de favelas etc. 


-Crise ambiental: nos anos 80, o agravamento de questões como o aquecimento global, a destruição de recursos hídricos e dos solos (desertificação, salinização), com a grave destruição, sem retorno, de ecossistemas etc. 


-Crise política: a guerra civil camuflada torna a política cada vez mais oligárquica, dominada por grandes grupos de poder e influência, e, no momento de crise, aparece claramente como um estado de emergência global real, enquanto virtualidade sempre prestes a se realizar. 



A crise permanente da formação brasileira 


Na base do processo social brasileiro, temos uma estrutura eternamente em crise. Um país moldado pela precariedade, a volubilidade, a falta de perspectiva. O que os clássicos sempre tiveram dificuldade para nomear: subdesenvolvimento industrializado, modernização conservadora, formação eternamente inconclusa, em que se conjugam o mais arcaico ao mais adiantado (o país-ornitorrinco) em todos os níveis e dimensões. Tudo o que aqui se forma tem a marca da violência, da alienação e da morte. Vivemos sob o compasso de uma “dialética rarefeita entre o não-ser e o ser-outro” (Paulo Emílio S. Gomes). Na base de tudo, temos uma fraca ou falsa distinção entre Sujeito e Objeto, o eu e o outro, o público e o privado, a ordem e a desordem, o real e a ideologia ou o real e a mais brutal irrealidade, que surge a partir do esquema escravista básico de casa-grande e senzala e da economia de plantations. Eis o que destrói todo limite, toda análise, todo ser propriamente configurado, todo projeto de desenvolvimento social de grande fôlego. Na realidade, no Brasil, temos economia, temos território, mas não temos povo, sociedade, vida urbana e vida política democrática propriamente ditas. O povo é um apêndice do território econômico, as instituições públicas são uma extensão do poder oligárquico "eleito" pelo grande capital. A ideia de civilização torna-se aqui menos um conjunto de formas de desenvolvimento cultural ampliado e criação do sujeito autônomo e emancipado do que o louco império do mundo dos negócios – o reino absoluto da forma celular da alienação: a forma-mercadoria, que demole todo limite civilizatório. 



O neodesenvolvimentismo como catástrofe


O desenvolvimentismo brasileiro foi uma forma social de tentar resolver a questão da acumulação por meio de uma modernização conservadora, numa palavra: uma religião do crescimento sem contrapartidas sociais equivalentes; um processo que une o getulismo, o trabalhismo aos militares e ao lulismo. O neodesenvolvimentismo petista aliou mais uma vez investimento estatal e privado na produção de grandes espaços (estradas, hidrelétricas, estádios, transporte etc.), grande expansão da mineração e do agronegócio, da indústria de bens de consumo duráveis, obtendo assim, num círculo inédito, mais incorporação das massas no trabalho, na educação e em programas emergenciais mínimos (que não devem ser confundidos com "conquistas sociais"). O preço a pagar imediatamente é um violento processo de degradação ambiental (Cerrado e Amazônia) e de reprodução da população como mera força de trabalho -- diante da possibilidade soterrada de superação do trabalho e de pacificação da existência. 


O "avanço" econômico se dá, como no passado, ao preço de retrocessos sociais e ambientais e de acúmulo de novas contradições. Houve a ascensão de uma massa proletária anteriormente marginal -- mas sem trabalho de base: portanto despolitizada -- ao mercado de trabalho e de consumo, que assim foi facilmente seduzida pelo mundo das mercadorias, enquanto a classe média vai sendo possuída pelos valores individualistas e "meritocráticos" do neoliberalismo -- a forma natural de afirmação selvagem de distinções imaginárias, no limite, entrelaçadas ao racismo e ao etnocentrismo, em meio à larga padronização promovida pela esfera do consumo. Por outro lado, ampliou-se assim o circuito das dívidas públicas e privadas, que aguardam mais um ciclo de desenvolvimento econômico acelerado para serem pagas. Uma catástrofe é assim anunciada: nessas condições, o modelo cava o seu próprio fim, mais ou menos previsível para os próximos anos, que deve ser o mesmo das sociedades do centro mais avançado do capitalismo mundial. Fenômeno que pode já ser observado na Europa e no Japão e, por outras mediações, em emergentes como a China. A superacumulação mundial, em condições de avanço da produção poupadora de mão de obra e desemprego estrutural, não pode ser mais desfeita, a não ser por meio de mais cortes nos gastos do Estado, de mais privatizações, de desregulamentação dos mercados e das leis ambientais, ou de mais créditos, cada vez mais inacreditáveis. A sociedade torna-se mais rica e produtiva, mas atola-se em dívidas, na miséria e na destruição. O oposto aconteceria se o valor de uso tivesse a prioridade e superasse o valor e a lógica do lucro. Enquanto discutimos algumas perfumarias eleitorais, alguns tópicos graves e gravíssimos vão se acumulando como contradições do "neodesenvolvimentismo", que certamente surgem das coerções do próprio processo econômico mundial em curso:


a) A crise da água em São Paulo, resultado do crescimento da metrópole nas últimas décadas e da falta de investimentos hídricos adequados, uma crise que provavelmente não terá solução nos próximos anos e irá praticamente paralisar a principal região metropolitana (e produtiva) do país, com dez ou vinte milhões de pessoas envolvidas. 




b) A crise do setor elétrico, que acumula dívidas bilionárias e parece que vai exigir socorro em breve, desviando recursos do orçamento.


c) A crise do orçamento de mais de R$ 1 trilhão, em 2015, comprometido a pagar juros e amortizações da dívida pública, e consequentemente a provável redução de recursos para as áreas sociais, numa sociedade em guerra civil não declarada.


d) A balança comercial negativa e a desindustrialização relativa em pleno curso, balança que tenderá ainda mais ao déficit com medidas de ajuste ultraneoliberais de Marina e Aécio (possíveis vencedores da eleição presidencial), com a consequente reprimarização da economia, a paralisação da reforma agrária e mais impactos ambientais sobre os principais biomas brasileiros e as populações mais frágeis (indígenas, quilombolas, ribeirinhos etc.). [Vide o mapa da destruição do cerrado até 2009]:




e) A crise habitacional e a bolha especulativa imobiliária nas grandes metrópoles, que aumentará a pressão social nas cidades e as questões de "segurança pública", o que significa, nas mãos de Alckimin e Pezão, por exemplo, mais massacres policiais -- a base para a ascensão de ideologias protofascistas na classe média e nos setores ultraconservadores (Datena e cia.).



f) O contexto de crise mundial do capital, com Europa, EUA, Japão e China passando para aprofundamento da recessão ou, talvez, à bancarrota conjunta nos próximos anos ou décadas.


Diante desse cataclisma social já à vista, nacional e global, é urgente pensar num modelo de superação do capital global. Para a esquerda viva, teórica ou prática, real e atuante, sem dogmatismos e tendo a paciência do conceito e do tempo em mente (que só é tempo da urgência para as forças reacionárias ou espontaneístas a la Negri), vejo duas ou três alternativas não excludentes: 


a) lutar pela formação política da massa não-organizada de Junho (não falamos obviamente dos movimentos sociais reais, já organizados, que foram às ruas) e das periferias, em todos os âmbitos (sindicatos, escolas, movimentos sociais, redes, opinião pública); 


b) crítica do modelo neodesenvolvimentista petista pela esquerda (com todas as suas implicações: crítica ecológica, do trabalho, do Estado e da economia capitalista como alienações), que precisa, quando eventual governo, ser pressionado a enfrentar sem medo a mídia corporativa e os setores conservadores, politizando essas questões fundamentais de modelo econômico; 


c) luta pela formação de uma ampla frente de esquerda para superar o PT a curto ou médio prazo, com os movimentos sociais mais fortes e partidos de esquerda à frente (pelo que percebo nos últimos meses o PSOL teria grande chance de criar um caminho e formar lideranças entre a massa jovem).


A curto prazo, é preciso se preparar para as próximas lutas nas ruas (principalmente se o governo federal cair na mão de PSDB ou "Marina vai com as outras"), pois o Brasilzão conservador e reacionário de 64 está em ascensão no país inteiro e irá lutar pela manutenção de seus privilégios com a força da ideologia e do cinismo da mídia corporativa. Ao lado dessas, algumas forças populares vieram à tona em Junho, mas são praticamente silenciadas e pré-moldadas ideologicamente pela indústria cultural. Criar uma esfera pública paralela aos monopólios, amplamente articulada com os movimentos sociais efetivos, é um dos primeiros passos da esquerda.


O ponto grave, na situação, é que de maneira alguma tais setores estarão dispostos a tolerar a insurgência de junho novamente, principalmente se ela acumular experiências e tiver dessa vez efeito politizador de massas menos organizadas (tomada de assembleias legislativas, pressão sobre prefeituras, universidades, casas, fábricas e terras abandonados etc.). 


Contudo, o estado policial está montado e preparado para a contra-insurgência, com o auxílio fundamental do PT. E se este estado policial e de vigilância falhar, sem dúvida a classe média e os evangélicos em ascensão apoiarão novamente um golpe militar a médio prazo. O sr. Merval Pereira, um dos chefões das organizações Globo, falou nesta semana na rádio CBN, em uma provável “crise institucional” nos próximos quatro anos, caso Dilma seja reeleita.

Pós-escrito - Após o 1º turno:


O TEMPO DE JUNTAR OS CACOS QUE RESTAM

Agora que a grande mídia golpista, as forças conservadoras e até as de uma suposta esquerda camaleônica (Marina e PSB, Jorge e PV) se uniram em torno de Aécio, com um congresso horrendamente parecido com o de 64 (com uma maioria absoluta de ruralistas e/ou fundamentalistas), é bom já irmos nos acostumando com o ajuste neoliberal, o desmanche da política social/salarial mínima e com o Estado policial-carcerário que serão instituídos a partir de 2015.
Um modelo perfeito para privatizar muito mais, fazer crescer o PIB a curto prazo (apenas momentaneamente) e rifar o futuro para os setores mais avançados e competitivos do capital e das classes médias. Não adianta esconder o sol com a peneira. No turbocapitalismo da hiperconcorrência e da falência dos projetos coletivos irá vencer quem tem a ideologia e o projeto político mais turbocapitalista e mais violentamente excludente. Irá emergir um Brasil plenamente burguês e neoliberal, amigo das megaempresas, do agronegócio e dos trabalhadores convertidos em microempresários terceirizados. O orçamento público trilionário, até então comandado pela burocracia petista, será rifado, com alguns bilhetes premiados dados de presente para os amigos da propina camarada (Petrobrás, Banco do Brasil, portos, aeroportos e hidrovias, escolas privadas, planos de saúde, USP, Unicamp e Unesp etc.).
Tudo isso numa economia que irá em direção inescapável do desemprego estrutural e da crise social e ambiental de grande envergadura. O caos tucano em São Paulo é só o laboratório do que pode advir em plano nacional.
Vai ser pedagógico para a esquerda, incluindo os que insistem que não há diferença nenhuma entre o que restou do PT e o campo conservador-reacionário, além daqueles que querem apostar apenas na força abstrata da multidão ou de movimentos apartidários ou micropontuais -- e não da organização social de maior fôlego, com formação de bases militantes ativas e de um partido de esquerda realmente viável.
À esquerda teremos o fim da linha: o fim do PT a médio prazo, a demonização da esquerda e de toda pauta popular na grande mídia. É o mesmo curso da Europa. A médio prazo, contudo, a crise econômica, social e ambiental provavelmente irá se transformar numa crise política grave, e o estado de exceção sairá da virtualidade para se tornar uma realidade sangrenta explícita.

20 agosto, 2013

Leandro Narloch - O "guia correto" do Idiota burguês neoliberal do Brasil

Leandro Narloch - O "guia correto" do Idiota* burguês neoliberal do Brasil



por Cláudio R. Duarte

                                        "Nunca houve um monumento da cultura que não fosse também um monumento da barbárie. E, assim como a cultura não é isenta de barbárie, não o é, tampouco, o processo de transmissão da cultura. Por isso, na medida do possível, o materialista histórico se desvia dela. Considera sua tarefa escovar a história a contrapelo." (Walter Benjamin,  Sobre o conceito da história, Tese 7, 1940).


A direita liberal -- protofascista desde as suas mais profundas raízes -- vem renascendo com vigor no mundo todo nas últimas décadas, principalmente após a derrocada do socialismo de caserna no Leste e do triunfo da ideologia neoliberal.



Como é de se esperar em tempos sombrios e regressivos como esses, o livro do jornalista Leandro Narloch -- Guia politicamente incorreto da história do Brasil [1] -- tem todos os ingredientes para se tornar, como vem se tornando, um best-seller do marketing reacionário. Com a força de outros “intelectuais” da direita militante (Reinaldo de Azevedo, Augusto Nunes, Marco Antônio Villa, Bolsonaro, Olavo de Carvalho, Diogo Mainardi, Luiz F. Pondé, Eliane Catanhêde), ele vem gerando muitos entusiastas e sequazes, encorajando-os a mostrar a sua careta incivil, apolítica, individualista e concorrencial sem freios.



Nada de novo no front se contarmos o liberalismo como a forma mais natural e mais pura da consciência coisificada do sujeito burguês moderno, aprisionado ao caráter fetichista das relações sociais mercantilizadas. O que é novo no neoliberalismo, talvez, é a sua fé cretina incondicional na selvageria do mercado como a única alternativa de vida possível. É esse o pano de fundo mais ou menos confesso do livro, reduzindo a esquerda à burrice e ao pesadelo totalitário.

 


No livro de Narloch, os homens são e serão o que sempre foram na sociedade burguesa: acumuladores de dinheiro e poder -- tudo sem muita angústia, muito menos drama --, embora sempre com alguns laivos de um tênue espírito de cidadania ou mesmo de nacionalismo, confundido com a admiração pelos feitos da elite nacional. Com o que estamos muito próximos do ideal da nação grandiosa (o gigante verde-amarelo) há muito desbotado pela globalização, e que a introdução da obra prometia engavetar. Apesar do título do livro, afinal, o que pode haver de incorreto em tudo isso? A pretensão de ser politicamente incorreto é puro marketing. O que há é a propaganda ostensiva do conservadorismo e da normalidade capitalista, isto é, a glorificação dos velhos temas da história oficial positivista retomados de maneira polêmica, em chave revisionista, contra a crítica social da esquerda.
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Assim, o que haveria de incorreto com os bons colonizadores portugueses, que mesmo sendo escravistas nem sempre “levavam a melhor” sobre os seus escravos?!; ou com os valentes bandeirantes paulistas, que, miscigenados e muita vez maltrapilhos, ajudaram a formar a grande terra brasilis e a civilizar os índios (estes sim, derrubadores de floresta); ou ainda com a Inglaterra, a maior interessada no fim do tráfico negreiro por motivos humanitários!? Aliás, ficamos sabendo por meio de Narloch que os portugueses aprenderam e desenvolveram efetivamente o tráfico de escravos com os africanos, além do fato que no longo processo de sua abolição estes lutaram contra o fim da escravidão... O que isso significa em termos de reversão do sentido funesto do escravismo colonial? Em que isso desmentiria a dominação europeia sobre a África? Para o autor isso tudo não vem ao caso, o que importa é trazer dados supostamente novos e desconsiderados pelas correntes críticas das ciências sociais (que na verdade são bem conhecidos, sim, desde pelos menos os anos 1960). E o que haveria de incorreto com o nosso Segundo Reinado, com D. Pedro II e com a elite liberal-conservadora, que evitou "revoluções e reformas radicais", garantiu as "liberdades individuais"(p.274) e a "liberdade gradual dos escravos" (p. 288)?! Sim, por que não, a liberdade de senhores patriarcais, os donos de capital humano, sem vergonha de pertencerem à sua classe... O que pode haver de indigno, enfim, com a "ditabranda" (sic, p. 324), segundo as versões altamente suspeitas da Folha, do Coronel Brilhante Ustra, chefe do Doi-Códi, ou de Marco Antônio Villa (o historiador predileto da Veja), todos citados como fontes fidedignas – um regime militar que torturou “apenas” uns 2 mil bandidos e desocupados, matando só mais uns 380 membros da esquerda “violenta” e “autoritária” de vocação stalinista e polpotiana, uma ditadura que "foi uma das menos atrozes de todo o século 20"(!, p. 324), e que enrijeceu somente após 68, como mera reação à guerrilha revolucionária, enfim, um regime modernizador e portanto progressista, que teria feito aumentar e redistribuir a renda nacional na época do milagre brasileiro!?[2]

Desse modo, muito pouco há de politicamente incorreto em tudo o que essa versão requentada da História Oficial, escrita pelos vencedores de sempre, sempre nos contou. Daí a conclusão do livro há muito deduzida e esperada pelo leitor crítico: "Viva o Brasil capitalista" (p. 336).
O pressuposto cego desse livro que se quer “tão sábio” e “tão esperto” (com algo mesmo da cegueira nietzscheana) é que as relações sociais fundamentais só podem existir de fato como relações entre as coisas no mercado, como troca coisificada entre pessoas privadas, entre mônadas funcionais que despendem e fazem circular trabalho humano homogêneo, igual, abstrato. Assim, tudo e todos praticamente se equivalem somente na medida em que são seres que trabalham, embora uns valham mais e tenham justamente mais liberdade do que outros. A elite conservadora do país seria então exemplar, mesmo sendo o paradigma máximo do privilégio da vida ociosa fundada na dominação de classe e do capital. Por isso, ainda, para o jornalista, o tráfico negreiro parece ser no fundo uma troca justa entre potentados europeus e reinos africanos, que preservavam interesses autônomos iguais – ou pior, é como se a gênese do processo de acumulação capitalista tivesse realmente mais a ver com a vontade de lucro e de luxo dos reis africanos do que com as leis capitalistas da acumulação e as imposições do sistema de plantations, ou seja, é como se a África fosse um parceiro comercial soberano, não submetido à Europa e ao controle do Capital, enfim, como se o trato negreiro não constituísse parte fundamental da lógica alienada da valorização, que no limite inverteu os termos entre produção colonial e o comércio altamente lucrativo de escravos.[3] Tudo se passa como se a colonização não fosse um processo de exploração e pilhagem do Brasil e da África regido por decretos e leis administrativas, aliás, o tempo todo suspensas e sujeitas ao arbítrio e ao capricho dos proprietários, um laboratório do atual estado de exceção normativo do capitalismo mundializado. Como se aqui, então, os índios e os negros transformados em escravos fossem, via de regra, bons "amigos"(sic!) de seus senhores e não tivessem resistido e lutado contra o seu cativeiro, um raciocínio esdrúxulo, na pior tradição freyriana reabilitação da escravidão.
 
Aos trocadores de mercadorias, como mostrou Marx, o valor aparece como uma propriedade natural das coisas (incluindo aí a própria força de trabalho), assim como o mercado aparece como um sistema que serve verdadeiramente aos homens de maneira totalmente justa, conforme o que cada um exige e tem a oferecer ao mercado. O neoliberal radicaliza a crença idiota nessa justiça (supra)terrena, praticamente excluindo o campo dos ideais e a aura burguesa dos direitos e da civilidade, o que Narloch e a mídia em geral entendem pelo que é socialmente justo ou politicamente correto, que nada mais é que um ressentimento dos pobres, que adotam o falso "papel de vítimas ou bons mocinhos"(p.26). Narloch suaviza o terror capitalista, tendendo a tomar a exceção pela regra, o caso contingente e singular pela essência. Se o neoliberalismo é o pensamento e a prática que afirmam secamente a concorrência, reduplicando de modo cínico a ideologia materializada pelas relações sociais naturais do sistema produtor de mercadorias, o jornalista cria uma série de álibis para ele, com vários graus de hipocrisia e cinismo, para justificar uma hegemonia de classe e um novo conformismo histórico.
Não há nada de politicamente errado com o sistema existente. Para o neoliberal não pode haver injustiça no mercado ou nos empreendimentos comerciais em si, que geram a acumulação social de riqueza (-- como capital privado, é verdade). O injusto é sempre um justo resultado das ações livres de cada um: o resultado do empenho diferencial e naturalmente desigual de cada competidor no mercado. Eis o que o converte em um neodarwinista social radical ou potencialmente radical e, assim, em um protofascista. Para tal caráter autoritário, como escreveram os frankfurtianos, “a celebração do poder e a irresistibilidade do mero existir são as condições que levam ao desencanto. A ideologia já não é um envoltório mas a imagem ameaçadora do mundo”, restando então “o pensamento estereotipado, o sadismo encoberto, a adoração da força, o reconhecimento cego de tudo o que é eficaz”.[4] Os portugueses e os bandeirantes foram muito eficazes em sua empresa, mais que os índios nativos, isso é o que importa. Também os índios buscavam vantagens o tempo todo, e “o extermínio e a escravidão indígenas”, segundo o autor, “não seriam possíveis sem o apoio dos próprios índios, de tribos inimigas” (p. 39), com o que praticamente desaparece a sua coisificação e sujeição aos interesses capitalistas dos colonizadores.


Também o golpe militar e até a tortura rotinizada tornam-se mais ou menos justificáveis porque foram eficazes em preservar o mercado e a propriedade privada: “Alguém poderá dizer que a reação dos militares ao terrorismo foi exagerada. (...) Isso pode ser verdade, mas não era seguro pensar assim naquela época. Qualquer notícia de movimentação comunista era um motivo razoável de preocupação” (p. 321). O “trator” da ditadura sai legitimado: “Se o governo e a sociedade brasileira mantiveram o país longe dos comunistas, existe aí um motivo para nos sentirmos aliviados: o país pôde avançar livre dos perigosos profetas da salvação terrena” (p. 336-7). A injustiça social surge apenas quando o Estado ou as estratégias políticas intervêm no mercado ou este último é regulamentado por normas sociais universais – em suma, por algum tipo de relação social totalizante exterior ao mercado, que pode bloquear ou impedir os negócios. A injustiça seria apenas o que interfere na livre iniciativa -- ou antes, no capricho dos proprietários. (E por que não?, aquilo que interfere no capricho dos jornalistas que podem também retrabalhar e remendar à vontade os processos históricos, a fim de criar, como fofocas da vida privada, as suas próprias versões da história).
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Não é que o livro de Narloch trabalhe com fatos mentirosos ou fantasiosos. Sua interpretação é que é uma lástima. Ocorre que a verdade objetiva e contraditória do processo não conta: o que vale é a narrativa apimentada a partir de fatos isolados, retirados de seu contexto e do sentido geral do processo, que é profundamente negativo. O que merece crédito é a provocação, o dado sensacional e de fácil digestão no mercado, já sem o pau chutado da barraca das estruturas históricas fundamentais. Tudo seria uma questão relativa de ponto de vista -- e já não há qualquer visão de totalidade possível, qualquer distinção entre essência e aparência, regra e exceção, que permita revelar processos sociais contraditórios, que confirmam os fenômenos e as aparências diversas, mas não os toma como a essência ou como capazes de dissolver o sentido mais geral do processo capitalista de acumulação. De resto, o livro é bom em levantar falsas polêmicas como as do jovem Machado de Assis como “censor do Império” (como se este não fosse o maior crítico dos costumes da burguesia nacional e do próprio Império), ou sobre qual era o “verdadeiro” caráter de Zumbi, Euclides da Cunha ou José de Alencar (como se as suas obras se reduzissem à biografia dos autores), qual a validade estética e a quem atribuir as muitas obras de excelência do escultor Aleijadinho (segundo Rodrigo Naves, um dos maiores artistas plásticos brasileiros), ou qual é a “verdadeira origem" do samba e da feijoada (como se eles não tivessem se desenvolvido e proliferado precisamente entre as camadas populares -- e não a partir de ações da elite ou do fascismo de Vargas).

O livro funciona, assim, como guia de mistificação para os típicos leitores há muito cegos da revista Veja. Como sempre, eles estão sedentos pela justiça da troca de equivalentes. À consciência fetichista segue-se o discurso apologético de que tudo se deu no final das contas de maneira racional e progressista desde a colonização -- a não ser por distúrbios da lógica da equivalência, como no caso do Acre, p.ex., que paga muito menos impostos do que recebe de investimentos do governo federal: "Já o Acre, produtor de uma borracha mais cara, nunca mais daria dinheiro" (p.235). E o mesmo para outros Acres vagabundos, parasitas da nação: “Rondônia, Roraima, Amapá, Tocantins, Alagoas...” (p. 239); com o que o velho desejo separatista do Sul e Sudeste ganha novo alento. Aliás, o exemplo citado dos quilômetros de metrô que poderiam ter sido feitos em São Paulo com esse dinheiro hoje vem bem a calhar no livro de Narloch, que não esconde suas preferências tucanas. 


O mesmo para o caso dos guerrilheiros-terroristas contra a Ditadura, que apenas sangram os cofres públicos com indenizações, sendo verdadeiros heróis os militares, que defenderam a nação contra o espectro do comunismo (claro que distorcendo o processo real em curso, meramente reformista, legitimando assim a contrarrevolução preventiva e silenciando toda a conspiração imperialista arquitetada por Washington no caso). Narloch, como os liberais desde Adam Smith, recalca e esquece, assim, que o que se ergue a partir de suas honoráveis relações coisificadas só pode ser um processo social autonomizado, alheio ao controle de todos -- essa a verdadeira ditadura sanguinária, que ganha a vida própria de um deus-fetiche da acumulação – e que foi recuperado e reempossado manu militari através do golpe de 1964. Um processo objetivo que os neoliberais simplesmente idolatram e transfiguram fantasiosamente como a "mão invisível"... não da escravidão e do infortúnio coletivos, mas da justiça e da democracia...
Para o neoliberalismo, tudo isso tem seu ponto de partida nos atos livres do indivíduo burguês. Eis então um modo relativamente simples de equacionar os processos sociais opacos e hipercomplexos: as estruturas são redutíveis a ações individuais, a atos voluntários, a interesses particulares - ou, na versão de Narloch, a feitos individuais bem-sucedidos ou malogrados (a guerra do Paraguai como culpa de um tirano, p. ex., ou as bandeiras como empreendimentos heroicos de gente chã e pedestre -- dois massacres históricos aliás praticamente inexistentes, segundo sua visão “alternativa” dos fatos etc. A estrutura desaparece sob indivíduos e fatos contingentes ou evanescentes. Como dizia Margareth Thatcher, a sociedade é uma ficção, o que existe são indivíduos isolados e suas ações independentes -- que podem ser interpretados ao bel-prazer do historiador.
 
Da mesma maneira, o fracasso é sempre individual, ou seja, é culpa dos próprios indivíduos que não deram duro o bastante para afirmar a sua liberdade -- nunca é o resultado de um mecanismo social cego, alienado, monstruoso, que corre por trás das costas dos envolvidos. O que se afirma é a eternidade do atual curso do mundo, tido como o melhor dos mundos possíveis. O que se afirma é, como viu Chico de Oliveira, uma "subjetividade antipública" e uma ideologia da "impossibilidade do dissenso"[5] -- aqui, sob as vestes esfarrapadas do jovem rebelde que só aparentemente destrói o grande consenso, já que apenas o simula destruindo a objetividade da história e a universalidade da luta pelos direitos sociais. Num outro texto, aliás, após a eleição de Dilma, o autor exala todo o seu preconceito antipobre: "seria ótimo não precisar conviver com os 30% de eleitores que, segundo o Datafolha, não se lembravam, duas semanas depois da eleição, em quem tinham votado para deputado" ("Sim, eu tenho preconceito", Folha de São Paulo, 11/11/2010). Ocorre que também a classe média idolatrada não sabe em quem vota, quando vota na quadrilha campeã em corrupção de FHC, Serra, Alckimin e Aécio, como vem se revelando nos últimos anos.

A hegemonia cultural da esquerda, segundo Roberto Schwarz operante em determinado momento dos anos 60, foi há muito desfeita.[6] O clima difuso do livro é um profundo sentimento reacionário e antipopular. Um sentimento de um povo, que, vitimizado e heroicizado pela historiografia populista ou crítica -- na verdade teria sido um povo reacionário como seu autor: um povo feito de índios exterminadores de índios, de escravos traficantes de escravos, mais tarde malandros da trapaça e do parasitismo social. Um sentimento, em suma, de que esse povo foi via de regra estúpido e patético. E que formaria hoje um exército disfuncional para o sistema -- aqueles 40 milhões, metade da PEA nacional, que o então presidente FHC chamou de “inempregáveis”.


De fato, tão inempregáveis quanto o capital improdutivo, que "vagabundeia" especulativamente de bolsa em bolsa, apartado do mundo, no contexto da crise estrutural do capital -- a verdade "desagradável" maior, que o livro furioso de Narloch desconhece totalmente. A direita, com sua idiotia congênita mais uma vez revelada, louva a si própria como mero Capital personificado, e assim vai consolidando o seu "sonho de um apartheid total"[7].
Notas:



* Do latim idiota, originado do grego antigo ἴδιώτης (idhiótis), "um cidadão privado, individual", derivado de ἴδιος (ídhios) , "privado". Usado depreciativamente na antiga Atenas para se referir a quem se apartasse da vida pública.

[1] NARLOCH, Leandro. Guia politicamente incorreto da história do Brasil. 2.ª ed. revista e ampliada. São Paulo: Leya, 2011. Doravante, cito as páginas no corpo do próprio texto.
[2] Há momentos no livro de franco disparate no uso e na interpretação de números estatísticos. Como no exemplo do milagre brasileiro (p.332-3). Em 1970, os melhores críticos já viam que, apesar dos progressos urbano-industriais qualitativos, o processo autoritário de modernização era desigual e conservador, combinando “altas taxas de incorporação [de trabalho], expulsão e marginalização [social]”, concentrando a renda e “visando implícita ou explicitamente ampliar o mercado das classes médias, intensificar a capitalização e promover uma nova onda de expansão” fundada necessariamente nessa desigualdade (TAVARES, Maria da Conceição. Da substituição de importações ao capitalismo financeiro. Rio de Janeiro: Zahar, 1975, p. 194). Ou ainda, como apontava Paul Singer: “Não há como desconhecer que a política trabalhista posta em prática após 1964 foi um importante fator para que a economia alcançasse elevadas taxas de crescimento de 1968 em diante. Os autores da proeza – os trabalhadores – sofreram sensível piora em suas condições de vida”, vale lembrar, assentadas no “arrocho salarial”, na “intensificação da exploração”, no “avultado número de acidentes de trabalho”, enfim, na “maior subordinação e controle do trabalhador à disciplina da empresa e da polícia”, e que ao longo das décadas levou à superconcentração do capital, à superinflação e ao megaendividamento do país. (Singer, Paul. A crise do ‘milagre’. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1976, 77-88). Para Narloch, o milagre brasileiro teria muitos “números saborosos” e seu mérito “não é tanto dos militares e sim dos empresários, dos trabalhadores e da multinacionais” (p. 333). Ou seja, aqui, os trabalhadores são apenas mais um elemento da equação montada por verdadeiros parceiros sociais, postos em igualdade abstrata com o capital e a classe dominante, agentes que teriam sido beneficiados amplamente – sim, pode-se rebater, basicamente a classe média e o empresariado, que constituem hoje o público alvo de seu livro, as classes ainda hoje saudosas do regime que fez crescer os seus privilégios.
[3] Cf. Novais, Fernando. Portugal e Brasil na crise do Antigo Sistema Colonial. São Paulo: Hucitec, 1979. Cf. Alencastro, Luiz Felipe. O trato dos viventes. Formação do Brasil no Atlântico Sul – séculos XVI e XVII. São Paulo: Cia. das Letras, 2000.

[4] Adorno, Thedor W. & Horkheimer, Max. “XI-Preconceito” e “XII-Ideologia” in:__. (org.). Temas básicos da Sociologia. São Paulo: Cultrix, 1973, pp. 203 e 176, respectivamente.

[5] OLIVEIRA, Francisco de. Os direitos do antivalor. (A economia política da hegemonia imperfeita). Petrópolis: Vozes, 1998, pp. 220-1.
[6] SCHWARZ, Roberto. "Cultura e política - 1964-1969" (n:__. O pai de família e outros estudos. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1978.
[7] OLIVEIRA, op. cit., p. 203.