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23 abril, 2016

Da crítica da corrupção à crítica do fetiche do dinheiro

Deu no Facebook: 

Camela Maria
"Se tá achando ruim a corrupção, imagina quando descobrir a mais valia"


Nestas horas de indignação monstro contra a corrupção você entende qual era o lugar da crítica da expropriação da mais valia num contexto de luta ou revolução popular. 

Ao mesmo tempo, você vê a limitação dessa crítica que deixa a forma do valor sem questionamento fundamental. Ocorre que na dialética as duas críticas são determinações reflexivas e uma conduz à outra, já que questionar a exploração é também questionar a forma fetiche pela qual esta transcorre, i.e., de maneira reificada e aparentemente natural, independente de certas relações sociais de produçao e propriedade. 

Se houvesse um avanço monumental da luta popular movida pelo controle do excedente, a forma de fazer política associada ao dinheiro poderia tornar-se finalmente transparente e, por alguns momentos, a sociedade perceberia o poder alienante do dinheiro em si, e não só o poder dos quem tem dinheiro na política.


Bob Klausen

09 março, 2014

A greve dos garis no Rio: são as lutas de março fechando o verão sangrento com vitória

Cláudio R. Duarte
 
 
"Que mesmo no tempo mais sombrio temos o direito de esperar alguma iluminação, e que tal iluminação pode bem provir, menos das teorias e conceitos, e mais da luz incerta, bruxuleante e frequentemente fraca que alguns homens e mulheres, nas suas vidas e obras, farão brilhar em quase todas as circunstâncias e irradiarão pelo tempo que lhes foi legado na Terra (...). Olhos tão habituados às sombras, como os nossos, dificilmente conseguirão dizer se sua luz era de uma vela ou a de um sol resplandecente." (Hannah Arendt)
 
"Toda vez que alguém falar que vivemos uma democracia racial, mostre essa foto"
(Garis em greve no centro do Rio de Janeiro - Foto: Mídia Ninja)
 
Durante essa semana de carnaval, os garis do Rio de Janeiro, após uma longa jornada de lutas difíceis sob a coação da prefeitura (apelando até mesmo para o uso vergonhoso de milicianos como novos capitães do mato) e da grande mídia, deram uma grande lição para as esquerdas neófitas na rua e para as velhas lideranças sindicais pelegas, totalmente arcaicas, alienadas e comprometidas apenas com o seu próprio umbigo.

Na boa análise de Idelber Avelar:

"Eles enfrentaram: um sindicato pelego, um prefeito truculento, uma das polícias que mais mata no mundo, o maior império de comunicação da América do Sul (que hoje dedicou três páginas inteiras de seu jornal a desqualificar a greve e puxar saco do prefeito) e as tradicionais milícias governistas, que disseminaram mentiras de todo tipo, como a de que a greve era ação de uma minoria de 300 pessoas.
...
E venceram! Obrigado, garis do Rio de Janeiro, por ensinar de novo o mapa da luta! Pelegos em todo o Brasil estão, neste momento, tremendo, porque sabem a enormidade do precedente que se abriu nesta semana. Notem que a derrota do governo foi tão retumbante que a reunião que selou a vitória dos garis aconteceu no TRT. Paes jamais os recebeu.

Que aqueles que desqualificaram luta tão justa se recolham agora à sua vergonha. E vem mais por aí!"


Gostaria ainda de somar a esta bela análise de Avelar a questão da força "ética" e "política" do trabalho proletário dos garis. Sim, o trabalho proletário - pois é disso mesmo que se trata e que infelizmente quase não ousa mais dizer o seu nome. Como sempre foi, esse trabalho é o inferno do negativo, e que se colocou de novo como negação em praça pública. Não se trata de moral privada, nem de amor a uma tarefa alienada, muito menos da vocação protestante para "servir". E com esse elemento decisivo que entra em jogo e que a esquerda tem esquecido. Trata-se do plano da ética, pois todos que os apoiaram sabem ou intuem muito bem o que se trata: uma luta autônoma, madura, independente. Segundo ponto: um trabalho público, necessário, árduo, sujeito à total invisibilidade e a condições e salários vis; enfim, terceiro ponto, um movimento vindo de gente "humilde", de baixo, que soube se articular contra o peleguismo. E venceu a sua vitória apertada, jamais redentora. Antes que os amigos kurzianos reclamem, diga-se que não é de modo algum a emancipação do mercado e do trabalho, mas uma ruptura intempestiva do continuum de servidão e coisificação. Algo que lembra a "Grande Recusa" marcuseana.

 

A emancipação social pressupõe essa formação, que o sistema existente suprime. E assim o faz começando pela supressão da memória social. Para nós, deve ela ficar na lembrança, tal como o MPL em junho e o enquadramento policial arbitrário de fevereiro passado.

 
Em tempos sombrios, à teoria que se perdeu, ou foi suprimida, só resta mergulhar na práxis alienada, negativa, escura. É lá que está a fonte da negatividade, é de lá que pode emergir em ato a negação determinada.
 
(Março de 2014)


 

23 fevereiro, 2014

De Junho a Junho: rumo ao pleno estado de exceção

Cláudio R. Duarte
 
Após a morte acidental do cinegrafista em fevereiro de 2014, a mídia burguesa rotinizou o que sempre foi sua especialidade, desde junho de 2013, data do início de todos os protestos: incriminou, julgou e convocou a polícia para descer o sarrafo em quem quer que estivesse na rua. Alckimin e sua polícia entenderam muito bem o recado e passaram à ação. Apareceu na rua, pronto, é black bloc, é baderneiro, vândalo, vagabundo comunista ou - que ironia sem graça - "petralha".
 
O que se seguiu ontem então, sábado 22 de fevereiro, uma data que sem dúvida vai entrar para a história, é mais uma vez o velho "estado de exceção preventivo". Uma espécie de ensaio contra as manifestações durante a Copa de Junho de 2014 - ensaio de uma suspensão do direito de se reunir e de se manifestar nas ruas, seja qual for o motivo ou forma da ação. Não só manifestantes, mas também jornalistas e advogados foram presos ou coagidos pela polícia - pois a ideia é claramente aterrorizar a todos para expulsar toda "desordem" das ruas.  Enquanto isso, o cinismo midiático vai glorificando as manifestações que ocorrem lá fora, na Ucrânia e na Venezuela, como se reformas democráticas radicais estivessem realmente em curso, armadilha em que parte da esquerda brasileira mais cega ou mais brucutu também cai, como se houvesse algum lado realmente positivo para aderir. (1*)
 
Segundo um jornal, a polícia confirma cinicamente que irá continuar a agir da mesma forma daqui para diante. Com o que se conclui que o estado de exceção só não foi decretado e declarado abertamente - porém rege na surdina todo o corpo social. Na mídia, nas redes sociais, a vigilância ostensiva continua a suprimir qualquer conteúdo virtualmente subversivo. Quarenta lideranças foram convocadas no Deic, exatamente no dia e na hora dessa última manifestação.
 
Ontem, 22 de fevereiro, mais de 200 pessoas, ao que se sabe, foram presas no centro de São Paulo, sem motivo justificável. Em junho de 2013, como se sabe, a polícia foi arbitrária e violenta, socando o pau antes de ver ou perguntar qualquer coisa. Ontem, a mesma coisa se repetiu, de forma ainda mais clara. E dessa vez havia mais polícia do que manifestantes nas ruas. Conhecemos muito bem este filme da tela quente...


 
 
O que pensar e fazer a partir disso? Para onde vamos? Cenas assim, iguais ou piores que as de junho de 2013, vão virando rotina e se naturalizando. Infelizmente. É preciso reconhecer que o movimento insurgente, sem apoio da massa da classe trabalhadora nas ruas, vai inexoravelmente perdendo a legitimidade, sendo confundido irracionalmente com o desatino de moleques sem nenhuma  pauta concreta, senão o estilingue, a bola de gude e a paçoca inflamável. A tática black bloc, espontaneísta e voluntarista, parece que finalmente se esgotou, porque sem dúvida o inimigo de classe tem muito mais força. A estratégia estatal de desmonte dos movimentos sociais é clara: prender e autuar qualquer um de agora em diante para acuar a massa e afugentar qualquer oposição, pelo menos até junho de 2014. Enquanto na esfera federal, vale lembrar, vai sendo tecido o novo AI-5 que transformará manifestantes em terroristas.

 

Também é preciso reconhecer que o estado de exceção facilmente se justificará em termos ideológicos para as classes conservadoras da ordem - o que inclui o grosso da classe média e boa parte da classe trabalhadora despolitizada - enquanto não criarmos uma verdadeira alternativa política ao PT e à reaçada restante no poder. Noutras palavras, eles vencerão através da prática violenta, mas também através do discurso deles, mobilizado pela imprensa conservadora, que preenche sozinha a nossa ausência de discurso e de práxis política coerentes.

 
O começo dessa virada poderá ser aproveitada se a esquerda souber estudar as consequências e as reações possíveis à nova rodada de crise global que vai se afirmando no cenário internacional. União Europeia, Estados Unidos, Japão  - nenhum país ou região "vencedora" está seguro(a) de sair realmente da recessão, principalmente quando os próprios "emergentes" - e o megaendividamento chinês (mais de 220 trilhões de dólares!) é o barril de pólvora mais explosivo para o futuro - já dão sinais de desaceleração e de patinação no gelo da nova fase da crise estrutural. A crise ambiental, além do mais, ainda vai bater à nossa porta, mais cedo ou mais tarde. Nesse contexto, o modelo neokeynesiano de Dilma, assentado em gastos com obras públicas e crédito popular, irá fatalmente se esgotar, assim que as exportações caírem.

Para a esquerda, resta retomar as pautas radicais ligadas às necessidades da área social, da saúde, da educação, do transporte e da moradia e a retificação da carga tributária regressiva e injusta, que penaliza os mais pobres. O que demanda renovarmos a política partidária articulada aos movimentos sociais radicais, através da criação de um projeto claro e inventivo. Esta, a meu ver, a verdadeira pauta para a esquerda que ainda resta, que traria novamente a classe trabalhadora para as ruas, criando um novo consenso radical socialista, ou antes, "comunista" - pois o termo precisa realmente ser reinventado, para além de toda a mácula antidemocrática e antilibertária produzida pelo "socialismo real". O passo seguro para a crítica da sangria da dívida pública e a ruptura com o capital internacional, como estratégia de transição para além do capital.

O mais lamentável é constatar que o estado de exceção vem à tona com a condescendência ou mesmo pelas mãos das forças da velha esquerda decrépita, exatamente no aniversário de 50 anos do golpe de 64.

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Nota
(*1) Ver o texto de Joelton Nascimento, "Há saídas em disputa?", fev. de 2014, http://diariodocolapso.blogspot.com.br/2014/02/ha-saidas-em-disputa.html