05 setembro, 2014

Terror econômico, político e midiático: o Gigante integral da “ditadura”.

Terror econômico, político e midiático: o Gigante integral da “ditadura”. 


Últimas variações sobre o tema da formação, no país da eterna emergência.


(Elaborado para a Mesa: Terrorismo de estado, mídias e informação, no Seminário “Terrorismo de Estado, Direitos Humanos e Movimentos Sociais, FE/USP, 2, 3 e 4 setembro de 2014).

Cláudio R. Duarte

1-

Um olhar para a conjuntura, no Brasil, nunca pode se descolar de sua estrutura, que é sempre determinante. Vamos rever aqui os "acontecimentos de Junho" sob o prisma do conceito de formação – a partir da singularidade desse conceito no país.

Por que as Jornadas de Junho aparentemente malograram ou não tiveram a continuidade esperada dentro de um movimento de massas sonhado pela esquerda mais atuante e valorosa nessas mesmas jornadas? Ao que tudo indica, aliás, não teremos algo como um Novo Junho, pois as brechas para isso estão sendo sistematicamente fechadas pelo Estado policial-carcerário construído sob o guarda chuva dos governos existentes, culminando no evento da última Copa do Mundo.

E por que, ao contrário de um Novo Junho, estamos prestes a eleger, com forte apoio no voto jovem e supostamente inconformista, uma candidatura feita de improvisos, tergiversações, de fragmentos de ideologias em decomposição, sem base, sem estrutura, sem forma, sem programa – a não ser, por certo, os de uma agenda neoliberal, fundada na flexibilização, na privatização, nas Ongs e no auto-empresariamento? Ou, como alternativa, estamos na iminência de reeleger o Partido das alianças e conciliações difíceis de engolir, o Partido que, supostamente feito por trabalhadores, pôs o crescimento do capital em primeiro lugar, como condição para programas baratos de inclusão social e de respingos de orçamento para as questões sociais, mantendo a máquina econômica capitalista funcionando com base em dívidas cada vez maiores? Sem mencionar que ambos pautados em identificações ou concessões enormes ao senso comum reacionário. Se há um legado palpável de Junho -- apesar de contraditório -- eis aí o Gigante Coxinha como saldo.
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2-

Partimos do diagnóstico feito pelos bons pensadores do Brasil: o país é uma formação social moderna, capitalista, definitivamente incompleta, uma formação evanescente ou uma espécie de pseudo-formação de âmbito social nacional. Foi o que veio a se chamar subdesenvolvimento periférico (ou modernização conservadora, acelerada e forçada em 64, não obstante retardatária, hipertardia, dependente, e assim por diante).

Vale lembrar, uma formação moldada pelo traço negativo herdado do escravismo colonial: o que se forma aqui aparece sempre já em ruína, daí a marca de sangue e morte, exalando por todos os poros. Aquilo que se forma no país – seja em âmbito social, econômico, político, cultural, estético ou subjetivo -- dá sempre sinais de falta de substância, de inconsistência, de miséria. Uma ausência de forma propriamente dita, que marca o objeto formado com o signo do precário, do improviso, do insubsistente. Uma eterna emergência que leva a nada ou à ruína iminente. Uma “formação supressiva”, enfim, segundo o termo de José Antonio Pasta ("Volubilidade e ideia fixa", Sinal de Menos 5, 2010).

Não que falte qualquer forma. Há um processo particularmente moderno de formação em curso, avançado e vanguardista a seu modo, que se inverte em produção do retrocesso. Naquilo que se forma, portanto, talha-se a marca da violência, o horror de uma desfiguração incurável do conteúdo. Daí a fugacidade, a morte iminente, a descontinuidade em toda linha e em toda dimensão. Na economia, o sistema de plantations e a produção voltada para a exportação primária; na política, o Estado oligárquico; na sociedade, a rígida hierarquia, a desigualdade e o racismo brutal etc. É o oposto de um movimento bem logrado e enraizado de constituição dialética. Daí a busca das "raízes do Brasil" (Sérgio Buarque de Holanda), se é que esse empreendimento comercial tinha alguma. Um ser social que não se constitui é um ser que, passando no Outro, não volta enriquecido de seu processo de reflexão e alienação, mas um ser que se perde no Outro, e resta na “dialética rarefeita entre o não-ser e o ser-outro” (Paulo Emílio Salles Gomes, Cinema: trajetória do subdesenvolvimento, 1973).

Na base dessa lógica de alienação e morte, portanto, temos uma fraca distinção entre Sujeito e Objeto, o eu e o outro, o público e o privado, a ordem e a desordem, o real e a ideologia ou o real e a mais brutal irrealidade. Eis o que destroi todo limite, toda análise, todo ser propriamente configurado. Essa falta estrutural de limites vem da célula matriz do domínio colonial: Casa-Grande e Senzala. Aqui, desde sempre, a dimensão do Outro, da Diferença, do Tempo, e do Direito, o elemento que regula e impõe limites à fusão do mesmo e do outro, é como que posta entre parênteses e virtualmente suspensa, podendo ser sempre eliminada sob o capricho dos poderes e potentados do momento. Brás Cubas é o protótipo dessa formação supressiva e desse sujeito deformado, que tem na cultura apenas uma casca vazia e um meio para a transgressão da norma (Cf. Roberto Schwarz, Um mestre na periferia do capitalismo - Machado de Assis, 1990).

As ideias modernas de cultura e civilização sempre tiveram a ver com a cidade, com o urbano, com os direitos de cidadania, num mundo ameaçador modelado pela guerra social instituída pelo capital. Ora, no Brasil, o que se pôs foi a cidade comercial, agroexportadora, depois a cidade industrial, finalmente explodida e implodida como uma espécie de anticidade (Henri Lefebvre, O direito à cidade, 1967), isto é, como repressão de demandas sociais, anticivilização ou cidadania restrita. A ideia de civilização torna-se aqui menos um conjunto de formas de desenvolvimento cultural ampliado e criação do sujeito autônomo e emancipado do que o louco império do mundo dos negócios – o reino absoluto da forma celular da alienação: a forma-mercadoria, que demole todo limite civilizatório. No pecado de origem, os indivíduos aqui não vendem “livremente” o "seu" tempo de trabalho, mas são vendidos por inteiro, como escravos. Da tortura e do estupro nas senzalas às salas de tortura nas ditaduras, à repressão policial militarizada e truculenta e à criminalização das lutas sociais, sem esquecer das mediação produtiva, feita de espoliação integral de recursos e descartabilidade do trabalhador nas grandes obras, eis o resultado dessa forma coisificada de socialização. Noutras palavras: no país, é como se a forma da economia suplantasse toda forma civilizacional (não puramente dedutível do sistema capitalista). 

No Brasil, o processo de "subsunção formal e real do trabalho ao capital" (Marx) tende, assim, a se tornar quase absoluta. É com ela que se instaura o estado de exceção permanente, que não precisa se converter em uma "ditadura" política em sentido técnico estrito do conceito. Mas se trata de um estado de exceção virtual, sempre iminente, enraizado numa base econômica violenta. Seu ideal ou finalidade seria flexibilizar toda forma contratual ou legislação social, política e ambiental, no limite eliminar todo contrato coletivo de trabalho e toda lei de regulação da exploração econômica. Na base social elementar, não temos uma "sociedade salarial" integrada como classe trabalhadora, constituída como camadas médias remediadas, tal como formada na Europa dos chamados "anos dourados", mas uma "superpopulação relativa" singular: um "proletariado precarizado" ou "precariado" permanente (Ruy Braga, A política do precariado, 2012, p.18), informal, flexível, móvel, migrante, social e politicamente instável, dificilmente constituindo-se como “classe” para si, como classe em luta. O "material humano" excelente para uma ótima extração de mais-valia absoluta, em composição com a mais-valia relativa. Segundo Chico de Oliveira, o capitalismo ornitorrinco brasileiro tornaria quase todo o tempo de trabalho em trabalho não-pago, em que “desaparecem os tempos de não-trabalho”, num entrelaçamento dessas duas formas de extração de mais-valor (Francisco de Oliveira, O Ornitorrinco, 2003, p. 136).

Nesse contexto, dominação pessoal e impessoal compõem um todo entrelaçado, de modo que os donos do capital são também os “donos do poder” (o Estado patrimonialista, de R. Faoro).

3-

Nossa tese é esta: por trás do terror político desse estado policial que se montou, herança da ditadura de 64, e dessa mídia monopolista e conservadora, que aterroriza a todos dizendo que o PT é “comunista”, a mídia monopolista que agora dirige a massa informe a mais quatro anos de consenso neoliberal, há uma espécie de totalitarismo ou terrorismo econômico de base. É este que ameaça e destrói toda forma antagônica, toda oposição, toda consistência política da esquerda.

Daí a persistência do "gigante" da ditadura: repressão política de movimentos sociais, coerção estatal sobre o todo, monopólio estatal ou privado da economia, incluindo monopólio midiático, moral conservadora e familista, abertura ao capital estrangeiro, industrialização em marcha forçada, sem liquidação das oligarquias regionais, endividamento externo, degradação ambiental monstruosa. O conceito de terrorismo, aqui antevisto, é o mesmo que Henri Lefebvre (A vida cotidiana no mundo moderno, 1967) anteviu no estado burocrático francês pré-maio de 68: um "terror difuso", que esconde sua violência latente e a guarda como último recurso supremo. O terror da economia política: um Estado que programa e codifica as necessidades sociais enquanto necessidades econômicas de crescimento e acumulação de capital, e que, para isso, bloqueia de saída o próprio pensamento de alternativas a tudo isso. Crescer, acumular, ampliar – mesmo saúde, educação ou moradia nada mais são, dessa ótica, do que meios de reprodução da força de trabalho, vale dizer: instrumentos de gestão biopolítica do precariado (escolas técnicas, moradias e saúde primários, abertura de frentes de trabalho selvagens, programas sociais emergenciais etc.) e de possível inserção do país como potência regional subimperialista na América do Sul. 

O “terror” instaurado pelo PT e pela mídia é nada mais, assim, do que o terror da economia autonomizada: o fetiche do crescimento cego, imposto pela globalização do capital, fundado em produção acelerada e destrutiva do espaço, em dívidas bilionárias e ganhos assegurados para as elites do agronegócio, da indústria e do setor financeiro, rentista e especulativo. Mas como sabemos, para o capital e sua mídia reacionária, isso nunca é o bastante. 0,9 de crescimento do PIB é pouco comparado ao patamares chineses, indianos ou chilenos, o dos 5, 7 ou 12% anuais. Como se 1% de US$ 2,5 trilhões, da maneira como é gerado, não tivesse impactos sociais e ambientais gigantescos (cf. os índices de desmatamento e poluição recentes na Amazônia, Nordeste e Centro-Oeste). Mais uma vez estamos imersos no "mito do desenvolvimento econômico", há muito apontado por Celso Furtado (1974), quando dizia durante a crise do milagre econômico brasileiro: "Cabe, portanto, afirmar que a ideia de desenvolvimento econômico é um simples mito. Graças a ela, tem sido possível desviar as atenções da tarefa básica de identificação das necessidades fundamentais da coletividade e das possibilidades que abrem ao homem o avanço da ciência, para concentrá-las em objetivos abstratos, como são os investimentos, as exportações e o crescimento". Além disso, é como se a crise estrutural do capital não estivesse instaurada e posta em nosso próprio horizonte, já tomando a própria América como um todo, a Europa e o Japão, como se os lucros e sobrelucros monopolistas pudessem ser mantidos a longo prazo sem uma brutal exclusão da massa e sem mais desemprego, políticas neoliberais, privatizações etc. A isso, o Estado responde com sua política de administração da pobreza, tomando a população como objeto político.

Ora, a grande mídia pressiona e aterroriza ainda mais os governos e a população se as metas econômicas absurdas não são cumpridas. Para ela, o céu é o limite. O que importa é fazer a roda da acumulação girar mais velozmente sempre. A corrupção petista, como se sabe, é apenas um álibi, para estigmatizar de vez os partidos de esquerda em geral – para tirar qualquer demanda social da agenda puramente neoliberal e economicista das classes dominantes (em que se encaixa confortavelmente parte das classes médias). Como se sabe, nesse Estado patrimonialista a corrupção é estrutural, ainda maior quando a direita o controla. Este então o terror econômico que elimina o dissenso político, no limite se tornando, como propõe Agamben, uma “guerra civil legal que permite a eliminação física não só dos adversários políticos, mas também de categorias inteiras de cidadãos que, por qualquer razão, pareçam não integráveis ao sistema político”. “O estado de exceção apresenta-se como um patamar de indeterminação entre democracia e absolutismo” (G. Agamben, Homo sacer, 1994, p. 13). Essa eliminação não precisa ser física, nem a democracia chegar de fato ao absolutismo. Ela tende a ser anulação política da oposição, o que é aliás bem mais "produtivo" para o sistema, que pode contar com massas permanentes no exército de reserva de trabalho precário e assim continuar a comprimir salários, obter consumo, manter sua máquina eleitoral, suas promessas de acumulação etc. (Cf. o argumento de Paulo Arantes, Extinção, 2007 e O novo tempo do mundo e outros estudos sobre a era da emergência, 2014). 

Desde 64, nunca se governou tanto com medidas provisórias, na estratégia de fuga para a frente: tanto para a aceleração do crescimento como para apagar incêndios sociais emergenciais, visando neutralizar a oposição anticapitalista, toda semente de anticapitalismo, com mais crescimento do capital.

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4-

As jornadas de junho podem malograr à medida que não conseguem, como exceção momentânea instaurada, se tornar a regra, ganhar não somente as ruas como acontecimento, mas inverter as regras do jogo de maneira permanente, polarizando a sociedade em campos antagônicos e instituindo novas formas de “governo” anticapitalistas. Hoje, tensionar o Estado exigindo re-formas radicais levaria, no limite, à explosão da forma vazia da mercadoria e da gestão estatal burocrática da miséria. O social contra o econômico e o político instituídos.

Em seu lugar, infelizmente, o gigante que se erige é o gigante de uma falsa unidade “nacionalista”, conciliatória, de fundo evangélico, neoliberal e/ou protofascista.(Cf. Cláudio R. Duarte, "O gigante que acordou - ou o que resta da ditadura? Protofascismo, a doença senil do conservadorismo", Revista Sinal de Menos, edição especial, 2013, on line). No fundo dessa falta de antagonismos explícitos, encontra-se o nosso velho problema de formação: ausência do trabalho de base e de politização das massas insurgentes de junho, que, assim, são mais ou menos facilmente capturadas pelo espetáculo midiático-partidário-oligárquico contínuo. O meio informacional hoje apenas reproduz o informe de nossa má formação constitutiva.

Como diz um companheiro militante simpático ao PT, sem descurar a autocrítica necessária do processo instalado:

“A verdade é que, apesar da retórica, a esquerda abandonou a luta ideológica e política militante com o povão. Para muitos militantes de partidos de esquerda, falar de mobilização de massas populares, numa perspectiva concreta, é grego. Para outros é melhor ficar esperando por explosões conjunturais como junho de 2013, pois em “tempos normais” não conseguem mobilizar quase ninguém para luta social. O resultado é que o povo brasileiro se encontra desorganizado, desinformado e desmobilizado, apesar de ter melhores condições para lutar hoje. 


Se tinha a faca e o queijo na mão para construir uma grande força social e política com as classes populares e parte das camadas médias,  percebe-se que a esquerda não teve prioridade no trabalho de base e encontra-se sem raízes nas comunidades, vilas, associações comunitárias e outras formas de vivencia das camadas trabalhadoras e populares. E só de luta ideológica e retórica de esquerda não se mobiliza ninguém”. (Fernando Marcelino ). 


Bibliografia

Giorgio Agamben, Homo sacer, Ed. UFMG, 1994.

Paulo Arantes, Extinção, Boitempo, 2007 e O novo tempo do mundo e outros estudos sobre a era da emergência, Boitempo, 2014.

Ruy Braga, A política do precariado, Boitempo, 2012. 

Cláudio R. Duarte, "O gigante que acordou - ou o que resta da ditadura? Protofascismo, a doença senil do conservadorismo", Revista Sinal de Menos, edição especial, 2013.

Celso Furtado, O mito do desenvolvimento econômico, Paz e Terra, 1974.

Paulo Emílio Salles Gomes, Cinema: trajetória do subdesenvolvimento, 1973.

Sérgio Buarque de Holanda, Raízes do Brasil, José Olympio, [1936], 1973.

Henri Lefebvre, A vida cotidiana no mundo moderno, Ática, [1967], 1991 e O direito à cidade, Documentos, [1967], 1969.

Francisco de Oliveira, Crítica da razão dualista/ O ornitorrinco, Boitempo, 2003. 

José Antonio Pasta. "Volubilidade e ideia fixa", Sinal de Menos 5, 2010.

Roberto Schwarz, Um mestre na periferia do capitalismo - Machado de Assis, Duas Cidades, 1990.

23 março, 2014

O FIASCO DA MARCHA DOS REAÇAS COM DEUS PELA DITADURA É REAL, MAS TAMBÉM APARENTE

Cláudio R. Duarte



 

 
TOTAL FIASCO. Em algumas cidades a "Marcha da Família com Deus pela Liberdade - O retorno"(!) não teve nem cerca de 20 manifestantes. Em São Paulo, entre 500 e 700, esbravejando com a ajuda de um carro de som seus slogans non-sense tirados da velha propaganda anticomunista, provinda do velho udenismo, e mais recentemente, dos cursos paranoicos de Olavo de Carvalho e do caldo de cultura antiesquerda, alimentado por Veja, Globo, jornalões-jornalecos diários e organizações protofascistas de todo tipo nas redes sociais.
 
Por que o fiasco? Primeiramente, porque um golpe não interessa à atual classe dominante e a seus associados no mundo. Aliás, a elite empresarial brasileira - conservadora sim, mas liberal e cosmopolita, até por obrigação de seus negócios - tem nojo dessa gente semianalfabeta, reacionária, carola e provinciana, que foi ontem às ruas. O sonho de um novo golpe é simplesmente um delírio coletivo dessa massa "zé ninguém" (Reich), o resultado direto de um desespero diante da hegemonia petista, que parece por enquanto inabalável. Como não há candidato de direita, ou melhor, de extrema-direita que os represente, apelam brutalmente para o golpe. Não faltou quem defendesse a violência da PM, as execuções sumárias de bandidos, a pura e simples eliminação das organizações de esquerda e mesmo o louvor à civilização meritocrática dos "brancos" e suas organizações reacionárias secretas (como apareceu no link direto do Mídia Ninja, entrevistando a dita senadora biônica "Dulce Holanda").
 
Acontece que um golpe não se faz assim, de improviso. Isso é ingenuidade de gente despolitizada e sem conhecimento histórico algum. A ignorância política que foi às ruas é o fruto do próprio regime militar, dos anos de deseducação e desinformação. O golpe de 64, como mostrou René A. Dreifuss (1964: a conquista do Estado), foi o fruto de uma longa conspiração de classe, unindo forças da burguesia nacional e internacional, dos militares, de institutos como IPES e IBAD e, é claro, da CIA, envolvendo diretamente o embaixador norte-americano e o presidente Kennedy. É óbvio que o lulismo não assombra mais nenhum pouco as elites atuais, que vêm ganhando muito com o governo conservador e fiel aos investidores de todo o mundo. Além disso, o modus operandi fascista da PM e as leis de exceção (o novo AI-5 da Copa) estão em pleno curso. Não precisa de ditadura alguma para controlar a massa trabalhadora e a ralé dentro de certos limites. Basta o atual bota pra quebrar da PM e a criminalização dos movimentos em geral (é o que dá para sentir perfeitamente numa das últimas capas da revista Veja do mês de março).
 
Alguns colegas de esquerda dizem então que temos de parar de falar nisso e passarmos ao que interessa. Pois é. Só que não é bem assim. Se a ideologia fosse só o que aparece como fato nas ruas, seria muito fácil "transformar o mundo".
 
O "fascismo à brasileira" tem uma raiz autoritária e religiosa vinda do colonialismo escravista português. Este "formou" negativamente, a seu modo, a cultura e o povo brasileiros. Uma espécie de fascismo que, por isso mesmo, não consegue aparecer solidamente nas ruas. Daí também ele aparecer como uma massa tosca, dispersiva, cuja frágil unidade só pode ser a de um grito irracional por Ordem. 
 
Ou seja, na base, a mesma e velha necessidade reacionária de forma, diagnosticadas pela melhor literatura nacional (Machado de Assis, Mário, Drummond etc.), uma forma que essa gente sente estar ausente do país. Jamais perceberão eles que isso é o resultado da forma coisificada do mercado e do Estado vigentes, o fruto perverso de nossa formação capitalista singular, herdeira do vale-tudo escravista. Eles apelam então para o uniforme militar: a forma absoluta, ditatorial, aquilo que subjaz à ideia de um gigante nacional integralista. E isso talvez desde os primeiros anos da República, com a chamada República da Espada. A massa protofascista nacional não costuma vir às ruas apenas devido a fatores casuais, de organização ou falta de liderança etc., mas por razões objetivas, intrínsecas à sua de-formação cultural, num amplo sentido. Essa deformação constitui o espírito da massa popular brasileira, principalmente das classes médias, como um todo.

Trata-se de uma cultura essencialmente antipública, familista e privatista. Herdeiras da casa-grande e senzala, ela teme a ideia de socialização como se fosse o Capeta. A socialização aparece a ela como a ausência final da forma - a erosão de seu casulo de segurança, só possível em seus bunkers de classe. Daí o seu ódio irracional da política em geral, sua paranoia securitária, a quase impossibilidade de tomada de posições claras em praça pública e o desejo de retorno à ditadura ("intervenção militar constitucional" dizem eles, de maneira alucinada, sem nenhum respaldo jurídico-legal). O desejo dessa massa é reacionário em sentido integral: o de servir a um grande Pai autoritário que colocaria fim às suas angústias, trazidas pela desvalorização do trabalho, o desemprego, a falta de prazer na vida adulta há muito sacrificada, enfim, o medo da proletarização.
 
Assim, uma coisa é contar essa meia dúzia de "revoltados on line" que tiveram o despudor de ir para a rua defender o horror e que felizmente foram ridicularizados até pela mídia mainstream, bem outra é compreender o HORROR instalado na cultura e no psiquismo do cidadão médio (o mal-estar da civilização brasileira, aqui, para situarmos o conceito de Freud), embutido na ideologia racista e meritocrática (aliás, não havia praticamente negros nessas passeatas), enfim, implantado no modo de ser de instituições patriarcais e autoritárias do país, cuja maior expressão é essa glorificação cínica da violência da PM e dos torturadores de 64, em nome de Jesus. A caixa de comentários da Veja e do Uol saiu às ruas, mas continua em casa, como uma massa reacionária invisível, com ódio de toda luta pela emancipação.
 
Nesse sentido, o fiasco não foi total. Eles foram à rua e trouxeram à tona demandas reacionárias que calam fundo na "alma" da classe média, a classe que saiu às ruas em Junho e que a esquerda otimista existente insiste em não querer compreender em seu profundo reacionarismo.

Basta assistir a este vídeo do FACEBOOK para reconhecer o reacionário em seu habitat original:
 
 
 
Isso vale como uma micrologia do fenômeno em pauta. Esse cidadão não foi para a Marcha, deve estar cuidando de seu carrão aqui ou nos EUA, mas é o idiota protofascista nacional típico, que apoiaria qualquer intervenção militar que aparecesse no horizonte. Não nos enganemos quanto ao fenômeno de rua. Uma crise maior na reprodução do capital trará à tona esses mesmos sentimentos reacionários à praça. Ele é muito mais latente e radical do que se imagina. Por isso mesmo sua manifestação é se dá de dentro das casas, das redes sociais e, aqui, dentro de um automóvel.
 
 
Subestimar o ovo da serpente autoritária nacional é um positivismo ingênuo. A ação antifascista, que reuniu seus 1500 manifestantes em São Paulo, fez a sua parte ontem. Fascistas não passarão!
 
























































09 março, 2014

A greve dos garis no Rio: são as lutas de março fechando o verão sangrento com vitória

Cláudio R. Duarte
 
 
"Que mesmo no tempo mais sombrio temos o direito de esperar alguma iluminação, e que tal iluminação pode bem provir, menos das teorias e conceitos, e mais da luz incerta, bruxuleante e frequentemente fraca que alguns homens e mulheres, nas suas vidas e obras, farão brilhar em quase todas as circunstâncias e irradiarão pelo tempo que lhes foi legado na Terra (...). Olhos tão habituados às sombras, como os nossos, dificilmente conseguirão dizer se sua luz era de uma vela ou a de um sol resplandecente." (Hannah Arendt)
 
"Toda vez que alguém falar que vivemos uma democracia racial, mostre essa foto"
(Garis em greve no centro do Rio de Janeiro - Foto: Mídia Ninja)
 
Durante essa semana de carnaval, os garis do Rio de Janeiro, após uma longa jornada de lutas difíceis sob a coação da prefeitura (apelando até mesmo para o uso vergonhoso de milicianos como novos capitães do mato) e da grande mídia, deram uma grande lição para as esquerdas neófitas na rua e para as velhas lideranças sindicais pelegas, totalmente arcaicas, alienadas e comprometidas apenas com o seu próprio umbigo.

Na boa análise de Idelber Avelar:

"Eles enfrentaram: um sindicato pelego, um prefeito truculento, uma das polícias que mais mata no mundo, o maior império de comunicação da América do Sul (que hoje dedicou três páginas inteiras de seu jornal a desqualificar a greve e puxar saco do prefeito) e as tradicionais milícias governistas, que disseminaram mentiras de todo tipo, como a de que a greve era ação de uma minoria de 300 pessoas.
...
E venceram! Obrigado, garis do Rio de Janeiro, por ensinar de novo o mapa da luta! Pelegos em todo o Brasil estão, neste momento, tremendo, porque sabem a enormidade do precedente que se abriu nesta semana. Notem que a derrota do governo foi tão retumbante que a reunião que selou a vitória dos garis aconteceu no TRT. Paes jamais os recebeu.

Que aqueles que desqualificaram luta tão justa se recolham agora à sua vergonha. E vem mais por aí!"


Gostaria ainda de somar a esta bela análise de Avelar a questão da força "ética" e "política" do trabalho proletário dos garis. Sim, o trabalho proletário - pois é disso mesmo que se trata e que infelizmente quase não ousa mais dizer o seu nome. Como sempre foi, esse trabalho é o inferno do negativo, e que se colocou de novo como negação em praça pública. Não se trata de moral privada, nem de amor a uma tarefa alienada, muito menos da vocação protestante para "servir". E com esse elemento decisivo que entra em jogo e que a esquerda tem esquecido. Trata-se do plano da ética, pois todos que os apoiaram sabem ou intuem muito bem o que se trata: uma luta autônoma, madura, independente. Segundo ponto: um trabalho público, necessário, árduo, sujeito à total invisibilidade e a condições e salários vis; enfim, terceiro ponto, um movimento vindo de gente "humilde", de baixo, que soube se articular contra o peleguismo. E venceu a sua vitória apertada, jamais redentora. Antes que os amigos kurzianos reclamem, diga-se que não é de modo algum a emancipação do mercado e do trabalho, mas uma ruptura intempestiva do continuum de servidão e coisificação. Algo que lembra a "Grande Recusa" marcuseana.

 

A emancipação social pressupõe essa formação, que o sistema existente suprime. E assim o faz começando pela supressão da memória social. Para nós, deve ela ficar na lembrança, tal como o MPL em junho e o enquadramento policial arbitrário de fevereiro passado.

 
Em tempos sombrios, à teoria que se perdeu, ou foi suprimida, só resta mergulhar na práxis alienada, negativa, escura. É lá que está a fonte da negatividade, é de lá que pode emergir em ato a negação determinada.
 
(Março de 2014)


 

23 fevereiro, 2014

De Junho a Junho: rumo ao pleno estado de exceção

Cláudio R. Duarte
 
Após a morte acidental do cinegrafista em fevereiro de 2014, a mídia burguesa rotinizou o que sempre foi sua especialidade, desde junho de 2013, data do início de todos os protestos: incriminou, julgou e convocou a polícia para descer o sarrafo em quem quer que estivesse na rua. Alckimin e sua polícia entenderam muito bem o recado e passaram à ação. Apareceu na rua, pronto, é black bloc, é baderneiro, vândalo, vagabundo comunista ou - que ironia sem graça - "petralha".
 
O que se seguiu ontem então, sábado 22 de fevereiro, uma data que sem dúvida vai entrar para a história, é mais uma vez o velho "estado de exceção preventivo". Uma espécie de ensaio contra as manifestações durante a Copa de Junho de 2014 - ensaio de uma suspensão do direito de se reunir e de se manifestar nas ruas, seja qual for o motivo ou forma da ação. Não só manifestantes, mas também jornalistas e advogados foram presos ou coagidos pela polícia - pois a ideia é claramente aterrorizar a todos para expulsar toda "desordem" das ruas.  Enquanto isso, o cinismo midiático vai glorificando as manifestações que ocorrem lá fora, na Ucrânia e na Venezuela, como se reformas democráticas radicais estivessem realmente em curso, armadilha em que parte da esquerda brasileira mais cega ou mais brucutu também cai, como se houvesse algum lado realmente positivo para aderir. (1*)
 
Segundo um jornal, a polícia confirma cinicamente que irá continuar a agir da mesma forma daqui para diante. Com o que se conclui que o estado de exceção só não foi decretado e declarado abertamente - porém rege na surdina todo o corpo social. Na mídia, nas redes sociais, a vigilância ostensiva continua a suprimir qualquer conteúdo virtualmente subversivo. Quarenta lideranças foram convocadas no Deic, exatamente no dia e na hora dessa última manifestação.
 
Ontem, 22 de fevereiro, mais de 200 pessoas, ao que se sabe, foram presas no centro de São Paulo, sem motivo justificável. Em junho de 2013, como se sabe, a polícia foi arbitrária e violenta, socando o pau antes de ver ou perguntar qualquer coisa. Ontem, a mesma coisa se repetiu, de forma ainda mais clara. E dessa vez havia mais polícia do que manifestantes nas ruas. Conhecemos muito bem este filme da tela quente...


 
 
O que pensar e fazer a partir disso? Para onde vamos? Cenas assim, iguais ou piores que as de junho de 2013, vão virando rotina e se naturalizando. Infelizmente. É preciso reconhecer que o movimento insurgente, sem apoio da massa da classe trabalhadora nas ruas, vai inexoravelmente perdendo a legitimidade, sendo confundido irracionalmente com o desatino de moleques sem nenhuma  pauta concreta, senão o estilingue, a bola de gude e a paçoca inflamável. A tática black bloc, espontaneísta e voluntarista, parece que finalmente se esgotou, porque sem dúvida o inimigo de classe tem muito mais força. A estratégia estatal de desmonte dos movimentos sociais é clara: prender e autuar qualquer um de agora em diante para acuar a massa e afugentar qualquer oposição, pelo menos até junho de 2014. Enquanto na esfera federal, vale lembrar, vai sendo tecido o novo AI-5 que transformará manifestantes em terroristas.

 

Também é preciso reconhecer que o estado de exceção facilmente se justificará em termos ideológicos para as classes conservadoras da ordem - o que inclui o grosso da classe média e boa parte da classe trabalhadora despolitizada - enquanto não criarmos uma verdadeira alternativa política ao PT e à reaçada restante no poder. Noutras palavras, eles vencerão através da prática violenta, mas também através do discurso deles, mobilizado pela imprensa conservadora, que preenche sozinha a nossa ausência de discurso e de práxis política coerentes.

 
O começo dessa virada poderá ser aproveitada se a esquerda souber estudar as consequências e as reações possíveis à nova rodada de crise global que vai se afirmando no cenário internacional. União Europeia, Estados Unidos, Japão  - nenhum país ou região "vencedora" está seguro(a) de sair realmente da recessão, principalmente quando os próprios "emergentes" - e o megaendividamento chinês (mais de 220 trilhões de dólares!) é o barril de pólvora mais explosivo para o futuro - já dão sinais de desaceleração e de patinação no gelo da nova fase da crise estrutural. A crise ambiental, além do mais, ainda vai bater à nossa porta, mais cedo ou mais tarde. Nesse contexto, o modelo neokeynesiano de Dilma, assentado em gastos com obras públicas e crédito popular, irá fatalmente se esgotar, assim que as exportações caírem.

Para a esquerda, resta retomar as pautas radicais ligadas às necessidades da área social, da saúde, da educação, do transporte e da moradia e a retificação da carga tributária regressiva e injusta, que penaliza os mais pobres. O que demanda renovarmos a política partidária articulada aos movimentos sociais radicais, através da criação de um projeto claro e inventivo. Esta, a meu ver, a verdadeira pauta para a esquerda que ainda resta, que traria novamente a classe trabalhadora para as ruas, criando um novo consenso radical socialista, ou antes, "comunista" - pois o termo precisa realmente ser reinventado, para além de toda a mácula antidemocrática e antilibertária produzida pelo "socialismo real". O passo seguro para a crítica da sangria da dívida pública e a ruptura com o capital internacional, como estratégia de transição para além do capital.

O mais lamentável é constatar que o estado de exceção vem à tona com a condescendência ou mesmo pelas mãos das forças da velha esquerda decrépita, exatamente no aniversário de 50 anos do golpe de 64.

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Nota
(*1) Ver o texto de Joelton Nascimento, "Há saídas em disputa?", fev. de 2014, http://diariodocolapso.blogspot.com.br/2014/02/ha-saidas-em-disputa.html

10 setembro, 2013

O fetichismo na mídia virtual e a regressão da leitura


O fetichismo na mídia virtual e a regressão da leitura



por Cláudio R. Duarte




Quem utiliza a internet todo dia, em especial as redes sociais, já percebeu o modelo de percepção e de capacidade intelectual solicitado, incentivado, exigido e imposto pelo meio. Os traços básicos são conhecidos: predomínio da imagem sobre o texto, grande fragmentação da informação, proliferação de publicidade e de mensagens diretas do tipo “memes”, “palavras de ordem” ou "hashtags", redução de mensagens a poucos caracteres, resultando em: atenção fluída ou baixo nível de concentração, baixa retenção espontânea do que foi lido, ouvido ou visto, grande isolamento do espectador ou leitor. Quem entra em sala de aula todo dia também já percebeu que algo ainda muito mais complicado parece estar ocorrendo a partir disso: essa mesma forma de percepção e consciência fragmentada domina a consciência e a sensibilidade de crianças e jovens, aparentemente os moldando desde a primeira infância.

Na literatura de negócios vão aparecendo títulos como: “3 minutos para o sucesso”, “Como apresentar as suas ideias em 30 segundos – ou menos”, “Por que as pessoas de negócios falam como idiotas”, “Apresentações eletrizantes”, “Ideias que colam: por que algumas ideias pegam e outras não”, “Como fazer apresentações espetaculares”, “Detalhes que são mágicos para o sucesso da comunicação”...

Quando Theodor W. Adorno escreveu "O fetichismo na música e a regressão da audição" na década de 30, ele descortinava uma tendência universal de regressão dos sentidos e da experiência social, que esboçava de modo certeiro as linhas de uma grande mudança antropológica. A música se fetichizava como mercadoria do entretenimento e do marketing e os homens perdiam a capacidade de ouvir composições complexas. O material de Adorno era a música no rádio e no cinema, ambos correspondendo, em termos de estruturas sociais mais fundas, à vivência apropriada e arruinada pelo trabalho alienado nas fábricas e nos serviços desqualificados.[1]

 

Na verdade, o ensaio adorniano compartilhava do diagnóstico elaborado pelas pesquisas de Walter Benjamin sobre a Paris do Segundo Império napoleônico: o diagnóstico da "atrofia da experiência”, tal como formalizada pela lírica de Baudelaire. Nesta cidade sitiada, bombardeada pela propaganda, esquartejada pelas reformas urbanas do barão de Haussman, sob o domínio da censura da imprensa e da pura informação, a experiência coletiva se reduzia cada vez mais à mera "sensação" e à "recepção de choques”.[2]

 

Nos anos 60, Herbert Marcuse aprofundava ainda mais esse diagnóstico frankfurtiano observando, nas tendências do capitalismo avançado, o novo papel da tecnologia como racionalidade administrativa:
“a dominação se transfigura em administração” (...) Com o progresso técnico como seu instrumento, a não-liberdade – no sentido da sujeição humana ao seu aparelho produtivo – é perpetuada e intensificada na forma de várias liberdades e confortos. A nova característica é a racionalidade irresistível nessa empresa irracional, e a profundidade do precondicionamento que modela as pulsões e as aspirações dos indivíduos e obscurece a diferença entre a falsa e a verdadeira consciência.”[3]

 

O diagnóstico dos pensadores de Frankfurt estaria ultrapassado? Para alguns ideólogos de nosso tempo, o mundo “pós-industrial” teria instaurado uma nova “era das redes” e uma nova “sociedade do conhecimento”, estando em vias de superar a problemática da alienação e dessa espécie de mutação antropológica regressiva. Após o apogeu do jornal impresso e da televisão, as mídias virtuais prometeriam, por meio da radical descentralização de sua produção e consumo, a sonhada emancipação do seu espectador como produtor de cultura. No entanto, é possível questionar se aquela tendência regressiva não se completa ainda mais gravemente, em muitos pontos, através desse novo meio técnico.

 

Isto menos por causa da nova técnica, que certamente contém boas possibilidades de comunicação e aprendizagem, e muito mais pela hegemonia das relações sociais coisificadas e espetacularizadas no coração da sociedade capitalista mundial. Essas relações ainda geram muito provavelmente a alienação cognitiva e psíquica, a partir do alto das hierarquias empresariais e do controle sobre a forma de organização do novo meio, isto é, moldando o formato das redes sociais e condicionando estruturalmente a percepção e a formação do juízo crítico. Isso sem falar na alienação dos trabalhadores da sociedade da informação e das redes, que impera do mesmo jeito que na sociedade industrial. A despolitização das recentes manifestações de junho de 2013 é somente a ponta desse iceberg da pseudoformação.
 

Como apontou Adorno, o fetichismo musical consiste na perda da experiência da música como síntese compositiva. A totalidade de uma peça rebaixa-se à mera coisa isolada, fragmentada, desconectada das ligações complexas da chamada música séria. Esta mesma pode se degradar em adaptações e arranjos palatáveis para o grande público. A música popular perde também o seu caráter artesanal, rústico, resistente. Uma música que, no final das contas, nem mais é usufruída e consumida como tal, mas simplesmente celebrada por seu valor de face, seu valor publicitário. No limite, consome-se o valor de troca do ingresso e o status social de ter presenciado um concerto clássico. Na internet, a difusão de mensagens que podem ser “curtidas” e “compartilhadas” à vontade, segundo a lógica do status e do simples sinal de positivo (o like ou  curtir) tem um forte ar de semelhança com esse processo de degradação da música.
 

Quanto ao momento da produção, conforme Adorno, a construção musical qualitativa é substituída pelo "emudecimento dos homens", pela "morte da linguagem como expressão", pela "incapacidade de comunicação", reduzindo-se a esquemas repetitivos, a linhas melódicas adocicadas, encantatórias e ofuscantes, levando à liquidação da dissonância e da tensão entre as partes da composição, em suma, à predominância do efeito, exemplificado pelo refrão de fácil absorção. Aqui, a comparação da internet com a indústria cultural há muito degradada, por exemplo, o meio jornalístico, é arrasadora: a internet passa à fetichização de segundo grau, ao reencantamento do coisificado pela mera informação ou pelo empirismo e o positivismo científicos, no início do século XX.

Pelo lado do consumidor, ainda segundo Adorno, a música nem mais conseguia “entreter”; antes virava mero fundo musical para uma audição atomística e desconcentrada, que rejeitava tudo o que saía do costumeiro:
 
“se é verdade que, em se tratando da música superior, a audição atomística significa decomposição progressiva, também é inquestionável que no caso da música inferior já nada mais existe que seja suscetível de decomposição. Com efeito, as formas dos sucessos musicais são tão rigidamente normalizadas e padronizadas, até quanto ao número de compassos e à sua duração, que em uma determinada peça isolada nem sequer aparece uma forma específica. A emancipação das partes em relação ao todo e em relação a todos os momentos que ultrapassam a sua presença imediata inaugura o deslocamento do interesse musical para o atrativo particular, sensual. É significativa a atenção que os ouvintes dispensam não somente a determinadas habilidades acrobáticas instrumentais, mas também aos diversos coloridos dos instrumentos enquanto tais”.[4]

Como na internet, há quase nada mais a decompor ou, com perdão da ironia, ler en abyme: as partes de um “meme” se tornam via de regra imediatamente inteligíveis, padronizadas por uma verdadeira indústria de rótulos, frases feitas e gracinhas, remetendo às vezes a velhos ícones da indústria cultural, variando somente detalhes insignificantes, destacando-se a técnica ou o traço isolado em si mesmo. A grande incomunicação cotidiana sai “tecnicamente enobrecida" por essa comunicação aviltada, com o plus prazeroso do “véu tecnológico” para as mesmas relações de dominação de sempre. Por meio do “fetichismo tecnológico”, Marcuse dirá mais tarde, os homens perpetuam o reino da necessidade, dos meios, do trabalho alienado, do capital.[5]

Por outro lado, o ouvinte “regressivo”, tentando fugir à pura coisificação do espírito, contido no bem cultural, se caracterizaria segundo Adorno pela “pseudoatividade” e pela identificação masoquista com o poder ou com as estrelas do espetáculo. Na internet, o meio sugere uma nova democracia do estrelato: tornando-se aficionados, experts ou amadores, alguns sonham com o sucesso repentino de uma megacompartilhamento ou megacurtida – o sucesso por definição de uma “estrela cadente” do veloz espetáculo da desleitura ou da leitura "em diagonal", que se sucede diariamente.  

Na música ligeira, coisificada, o espaço abstrato predomina sobre o tempo qualitativo da música séria. A questão para o crítico é sempre objetiva, contudo, pois a música serial teve de internalizar essa experiência social do choque e fragmentar-se no espaço, abrindo tensões e cicatrizes na composição tradicional. O mesmo parece se pôr para Adorno com a forma do ensaio, que já não pode ter nem a forma positiva do tratado ou do sistema acabado. Não obstante, o ensaio visa ainda ao todo antagônico, por meio da visão hiperconcentrada do particular. As redes sociais levam ao paroxismo a vivência de choque como vivência do espaço e da imagem – mas desconectadas, descontraídas, relaxadas pela recepção basicamente isolada (mas não individualística).

A tarefa do crítico, do ensaísta, do prosador, do professor, do educador talvez seja, como no gesto lírico heroico de Baudelaire, transformar esse espaço de voragem do leitor crítico, sob a coação dessas vivências de choque, ainda uma vez numa experiência do negativo, a começar pela crítica do meio tecnológico como um fim em si, seu desvelamento como meio efetivo atual de dominação social e adiamento da “pacificação da existência”[6].



Notas:




[1] Theodor W. Adorno, “O fetichismo na música e a regressão da audição” [1938] in:___. Textos

 escolhidos (Os pensadores). 2ª ed. São Paulo: Abril Cultural, 1983.

[2] Walter Benjamin, “Sobre alguns temas em Baudelaire” [1938] in: Textos escolhidos, op. cit., p. 31 e 33.


[3] Herbert Marcuse, One-Dimensional Man – Studies in the ideology of advanced industrial society [1964]. London/New York: Routledge, 2002, p. 35.


[4] ADORNO, ibidem, p. 184.


[5] MARCUSE, ibidem, p. 239.

[6] Idem, ibidem.