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24 março, 2013

Pequena orientação didática para ler mais e melhor as Memórias póstumas de Brás Cubas

Pequena orientação didática para ler mais e melhor as MEMÓRIAS PÓSTUMAS DE BRÁS CUBAS


Cláudio R. Duarte


1- Pode-se até tentar ler o romance Memórias póstumas de Brás Cubas (1880-1881) fora do seu tempo, fora de seu contexto. Mas muita coisa se perde dessa maneira em termos de análise formal e estrutural. Não se trata de um livro da "cultura universal", que fala para todos os lugares em qualquer tempo histórico -- mas antes do primeiro passo acertado de Machado de Assis para escrever um ciclo de romances sobre a História do Brasil. Um país particular, no conjunto do sistema capitalista mundial.
Vale relembrar, uma nação pós-colonial, com todas as mazelas e heranças negativas que nós conhecemos: o país do latifúndio monocultor e agrário-exportador, do escravismo, do poder oligárquico do patriarcado rural, o país do favor, dos privilégios e das relações de dependência, e que somente na aparência é um país moderno e civilizado.  (Vide foto do Senhor e seus escravos- sempre descalços -, na primeira metade do séc. XIX).
 Geograficamente, ainda, um país desmembrado em regiões fragmentadas e desconjuntadas, ou seja, mais ligadas comercialmente com o exterior do que com o próprio restante do país (arquipélagos regionais isolados, com pouca relação comercial, pouca interligação em termos de comunicações e transportes).

O contexto acima indicado importa e muito para a boa leitura do romance. Pois ele toma esse contexto como a substância de sua forma e de sua estrutura - como já apontaram críticos de peso como Roberto Schwarz, John Gledson e José Antonio Pasta.

Para Machado, o sentido do livro é narrar essa história malograda de uma nação escravista feita em pedaços. Trata-se de uma nação que ainda não nasceu, ou que nasceu morta nas mãos de uma elite descompromissada e de costas para a verdadeira nação, feita de escravos e dependentes, vivendo na miséria e sob a lógica do arbítrio e do favor. Uma elite caprichosa, cínica e autoritária, que apenas começou a morrer a partir da Lei do Ventre Livre (1871) e da modernização urbano-industrial, não obstante continue a falar ainda hoje, no país do trabalho precário, da marginalização, da exclusão social das massas em relação à cidadania. Por isso, Brás Cubas irá morrer em 1869, no limiar da lei de 1871, mas continua a falar no presente, eternamente, a partir do Além, no berço esplêndido da nação - vale lembrar, ainda escravista em 1881 (data da publicação do romance).


Em resumo, então, tínhamos um país estruturalmente dividido e repleto de condições negativas: liberal e escravista, moderno e atrasado, civilizado e bárbaro, cosmopolita e provinciano, ilustrado e prisioneiro do mito, da religião e do obscurantismo, enfim, um país que tinha em seu DNA contradições imensas, que não poderiam ser eliminadas por uma narrativa realista. Mas um realismo fantástico, cheio de humor e metafísica. Por isso, Machado não repete os erros românticos -- não enfeita, nem adocica como fazem Alencar ou Macedo. Machado destroó as ilusões românticas e nacionalistas.

 2- A chave principal da obra, portanto, é esta: Brás é o Brasil. Mas um Brasil morto ou em decomposição - daí o ponto de vista inusitado de um "defunto autor". O romance será então repleto de ambiguidades, ambivalências, confusões, disparidades, contrastes, despropósitos, que refletem essa condição brasileira dividida e negativa. O ser do Brás/Brasil é um ser-outro (alienado) ou um não-ser (morto). Daí o vazio e a esterilidade do livro, feito de descontinuidades, capítulos curtos, que não prosseguem e não levam a nada. Daí o saldo negativo do livro (capítulo das Negativas, no final da obra). A Lei do Ventre Livre prometia aparentemente um país novo, com liberdade de trabalho e mobilidade social. Mas é isso que Machado irá negar nos romances seguintes: em Quincas Borba, Dom Casmurro e Esaú e Jacó - quando retrata o malogro da liberdade e da ascensão social e os embustes e autoritarismos congênitos à classe dominante brasileira. Em Memorial de Aires, último livro do autor, a elite dá finalmente as costas para o país e retorna para Portugal, deixando os negros à sua própria sorte, após a Abolição. O que deu - como sabemos bem - em cortiço, favela, viração,  exclusão e racismo (vide foto ao lado, de favela no Rio, no início do séc. XX).
3- Voltando enfim ao Brás Cubas.
a) Brás Cubas é polarizado entre uma série de ideias móbeis e uma ideia fixa. A ideia móbil é tudo o que não para um segundo no lugar, hesitante, dando rasteiras no leitor e nos personagens do livro, ostentando um ar de superioridade. Estas ideias cabriolantes o caracterizam pela volubilidade, pela falta de caráter, inconstância de desejos, imprevidência, falta de perspectiva e de projetos sólidos, vontade de gozo imediatista, comportamento trapaceiro, perverso e violento contra o outro (Prudêncio, Eugênia, D. Plácida), enfim, uma mobilidade infinita de pensamentos sem propósito ou totalmente insensatos, com teorizações filosóficas ridículas ou rebaixadas, uma mobilidade aliás que atinge até o espaço (viagens, andanças, perambulações etc.). Trata-se do oposto da elite protestante europeia ou estadunidense. Além disso, Brás serve-se do discurso filosófico e iluminista para justificar práticas patriarcais e escravistas, completamente opostas ao decoro e à ideologia igualitária e libertária da civilização burguesa. Na realidade, todos os personagens são volúveis quase da mesma forma que Brás. Todos são muito bons e mesmo excelentes em termos de discurso, mas na prática são miseráveis e nada exemplares (com exceção de Eugênia). Mesmo os subordinados como Prudêncio ou Dona Plácida se transformam no seu oposto, conciliando-se com o sistema de dominação vigente. O próprio escravo de Brás, no final do romance, tem o orgulho de sua servilidade (o fato de ser escravo de um senhor muito rico).

b) A sua ideia fixa - o emplastro Brás Cubas - nada mais é que a tentativa de pôr um fim a essa movência vertiginosa de caráter e falta de propósito na vida. Mas o seu projeto é nada mais nada menos do que um "medicamento sublime", ou seja, um remédio milagroso para "aliviar a nossa melancólica humanidade" (cap. II). Ou seja, um projeto impossível - francamente maluco - , e nenhum pouco baseada na ciência e no trabalho. Essa ideia era nada mais então que uma "sede de nomeada" - isto é, a tentativa de obter fama e glória, de figurar na opinião pública como um cartaz nas ruas, como um rótulo de remédio. Um desejo de se tornar a pura superfície de uma propaganda publicitária. Como diz, no cap. II, ele buscava, de um lado, "filantropia e lucro" (interesse burguês), de outro "sede de nomeada" (interesse tipicamente pré-moderno, baseado na paixão por títulos honoríficos e hierárquicos).

c) Finalmente, como Brás não tem nenhum "ser" fixo, nenhum caráter valoroso e honrado, então, ele pode se misturar e se confundir com a esfera do Outro em geral. Para começar, ele violenta o próprio leitor, invade o seu espaço e o ameaça com piparotes e frases que simplesmente o desprezam (o leitor é o único "senão" do livro). Eis o capricho autoritário de nossa elite transformado em uma escrita violenta.

A falta de lei nesse país permite o vale-tudo, inclusive um morto narrar um livro. Uma passagem livre do Mesmo (ou do Eu) no Outro, sem respeito a qualquer limite (moral, social, legal, narrativo). Toda lei, toda resistência do real, é virtualmente abolida. Assim, Brás é por um lado um homem culto, por outro, pura casca e ornamento, rebaixando a filosofia à ignorância, à piada e a teoremas sem pé nem cabeça (filosofia narcisista da ponta do nariz, aforimas estúpidos etc.). Brás é tão sutilmente inteligente quanto abertamente louco ou paranoico, como seu amigo Quincas Borba. É tão refinado (citando Dante, Molière ou Shakespeare) quanto perverso e brutal (batendo em Prudêncio, legitimando o seu cunhado escravista Cotrim etc.). Assim, ainda, Brás é tão ativo e dominador quanto um ser passivo, deixando Marcela ou Virgília tomarem conta de si (aliás, Virgília faz o papel de homem do casal, - ela é Vir, viril). Na Câmara dos Deputados, o seu único projeto político é querer reduzir o tamanho da barretina da Guarda Nacional, algo que não tem nada de político. No fim da vida, a sua melhor ação não passa de filantropia medíocre (em que pisa mais uma vez em Eugênia) e desejo de fama e glória, sem nenhum compromisso verdadeiro para com o país. Algo que lembra diretamente a lei do Ventre Livre: cheia de boas intenções, mas na prática mantendo os filhos de escravos nas fazendas como mão-de-obra não-paga até os 21 anos.

Quando o Eu não se distingue do Outro, temos então instaurado um regime de confusão, perversão, loucura e violência, em que tudo é invadido pela esfera do outro. No fundo, um regime de exceção estrutural às leis e normas, o fruto estéril de um país em que o indivíduo burguês europeu não se constituiu plenamente - ou que se constitui apenas pela metade. A pior mazela dessa indistinção entre o Mesmo e o Outro é então esta: o Brasil moderno, que prometia já uma imensa riqueza com o café, dificilmente se separa e se distingue do atraso, ou melhor, só é possível com base nos elementos mais arcaicos e atrasados, em que a história falha e não acontece. Eis o Brasil Morto que ainda hoje segue vivendo e nos alienando.  


29 novembro, 2011

O orgulho de dominação e de servilidade

O orgulho da dominação e da servilidade

A problemática da escravidão patriarcal em Nabuco e Freyre sob uma ótica machadiana


Cláudio R. Duarte

Parece que Joaquim Nabuco foi quem cantou a pedra do que viria a ser a nossa estrutura social e mental mais resistente:


"A escravidão permanecerá por muito tempo como a característica nacional do Brasil" (Nabuco, Minha formação, [1900] 1999, p.163).

Como uma predestinação mítica, reproduz-se a estrutura de sociabilidade marcada pelo laço, pela força caprichosa, e pela relativa passividade e adaptação do corpo social perante a hierarquia e a mais gritante desigualdade, no Brasil e em toda a América Latina até o presente.

Com espírito tipicamente iluminista, Nabuco põe a questão do abolicionismo de forma ainda reduzida. Muito ainda pelo discurso humanitário, moral, social, filosófico, religioso etc., mas nada pela perspectiva de transformação social, econômica e política da nação (em nome do progresso civilizatório, da cidadania ampliada e da modernização capitalista da nação periférica) - mas sobretudo através da educação:

"Essa obra - de reparação, vergonha ou arrependimento, como a queiram chamar - da emancipação dos atuais escravos e seus filhos é apenas a tarefa imediata do abolicionismo. Além dessa, há outra maior, a do futuro: a de apagar todos os efeitos de um regime que, há três séculos, é uma escola de desmoralização e inércia, de servilismo e irresponsabilidade para a casta dos senhores, e que fez do Brasil o Paraguai da escravidão. (...) Depois que os últimos escravos houverem sido arrancados ao poder sinistro que representa para a raça negra a maldição da cor, será ainda preciso desbastar, por meio de uma educação viril e séria, a lenta estratificação de trezentos anos de cativeiro, isto é, de despotismo, superstição e ignorância. O processo natural pelo qual a escravidão fossilizou nos seus moldes a exuberante vitalidade do nosso povo durante todo o período de crescimento, e enquanto a nação não tiver consciência de que lhe é indispensável adaptar à liberdade cada um dos aparelhos do seu organismo de que a escravidão se apropriou, a obra desta irá por diante, mesmo quando não haja mais escravos."(Nabuco, O abolicionismo, [1883] 2000, p.3).

O que se traduziria numa verdadeira "forma de ser" antropológica, negativa, do brasileiro:


"O nosso caráter, o nosso temperamento, a nossa organização toda, física, intelectual e moral, acha-se terrivelmente afetada pelas influências com que a escravidão passou trezentos anos a permear a sociedade brasileira. A empresa de anular essas tendências é superior, por certo, aos esforços de uma só geração, mas, enquanto essa obra não estiver concluída, o abolicionismo terá sempre razão de ser."(ibid., p.4).

E num momento de grande radicalidade, que não seria demais chamar de dialética, ele coloca:


"a emancipação não significa tão-somente o termo da injustiça de que o escravo é mártir, mas também a eliminação simultânea dos dois tipos contrários, e no fundo os mesmos: o escravo e o senhor"(ibid., p.14, grifos nossos).


Trata-se de abolir a identidade dialética de um ser social complexamente mediado, polarizado na condição social de senhor e de escravo. Assim, a "escravidão" para Nabuco será apreendida por um conceito muito amplo:

"Assim como a palavra abolicionismo, a palavra escravidão é tomada neste livro em sentido lato. Esta não significa somente a relação do escravo para com o senhor; significa muito mais: a soma do poderio, influência, capital e clientela dos senhores todos; o feudalismo, estabelecido no interior; a dependência em que o comércio, a religião, a pobreza, a indústria, o Parlamento, a Coroa, o Estado, enfim, se acham perante o poder agregado da minoria aristocrática, em cujas senzalas milhares de entes humanos vivem embrutecidos e moralmente mutilados pelo próprio regime a que estão sujeitos; e por último, o espírito, o princípio vital que anima a instituição toda, sobretudo no momento em que ela entra a recear pela posse imemorial em que se acha investida, espírito que há sido em toda a história dos países de escravos a causa do seu atraso e da sua ruína."(ibid.)


A escravidão, para Nabuco, é todo um sistema soldado à formação patriarcal brasileira, incluindo o centro, constituído pelas famílias proprietárias e a classe político-burocrática, o círculo periférico de agregados, homens livres e pobres ou profissionais liberais, e o círculo marginal dos escravos.


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O que faz Gilberto Freyre nos anos 30 em Casa-Grande e Senzala (1933) e em Sobrados e Mucambos (1936; nova edição ampliada e refundida de 1951) é uma série de tipos ideais polares, que buscam compreender e justificar a desigualdade e a hierarquia estrutural do regime patriarcal escravista.

Quais poderes entram em jogo na manutenção e acomodação inercial desse regime?

Surpreendentemente, pois de forma muito original, Freyre responde a isso na focalização do modo de funcionamento das relações sociais cotidianas, em sua concretização territorial. O pensamento gilbertiano é muito mais sincrônico, espacializante, na linha do historiador e do geógrafo do cotidiano e das mentalidades, do que uma perspectiva diacrônica, interessada nas grandes crises e rupturas do sistema. Daí a forma literária romanesca do ensaio freyreano, tão próxima à narrativa e a descrição realista. Salvo engano, é  uma perspectiva homóloga, mas diametralmente oposta, em sua segunda fase, que encontraremos Machado de Assis, deparando-se com a mesma problemática da apresentação literária de patriarcado, escravidão e dependência.


Como o regime patriarcal rural se legitima e se reproduz segundo esses três intelectuais - Freyre, Nabuco e  Machado?

Em Nabuco, parece haver uma resposta simples e direta: pela força discursiva cínica dos potentados rurais, que defendem racionalmente o irracional. Esta é também, em parte, a resposta machadiana, mas Machado vê também a coisa por dentro, isto é, da perspectiva das justificações ideológicas criadas pelo imaginário escravista-patriarcal, como veremos.

Em Sobrados e Mucambos (cujo subtítulo é "Decadência do patriarcado rural e desenvolvimento do urbano"), focalizando a condição escrava, surge a polarização abstrata entre o escravo doméstico, supostamente mais bem tratado, do grande latifúndio dito "feudal" do Nordeste e da primeira fase da colonização e o "escravo-animal" ou "escravo-máquina" de produzir da fase de modernização capitalista da época das minas e do café, quando o eixo colonizador passa para o Centro-Sul, a partir do séc. XVIII. Com isso, ele justifica a escravidão mais antiga como sendo aquela "saudosa", mais dócil e mais humana que a do centro-sul modernizante. O pano de fundo disso é uma ideologia patriarcal, aristocrática, regionalista e romântica, com alguns traços anti-modernizantes e anti-capitalistas.

"O horror dos escravos do Nordeste mais docemente patriarcal (!), ou mesmo do Recôncavo da Bahia, ao castigo, de que os ameaçavam os senhores nos seus dias mais terríveis de zanga, de os venderem para as fazendas de São Paulo, para as minas, para as engenhocas do Maranhão e do Pará, representava, evidentemente, o pavor do negro ao regime de escravidão industrial, ao trabalho sob senhores pobres de fortuna apenas em começo. Havia escravos que fugiam de engenhos de senhores pobres ou sovinas para os de senhores mais abonados, moradores de casas grandes assobradadas e homens quase sempre mais liberais (!) nas suas relações com os escravos e nas suas exigências de trabalho que os menos opulentos. É que nesses engenhos grandes o trabalho era mais dividido e portanto menos áspero."(Freyre, Gilberto. Sobrados e Mucambos, 1951, v.2, p.386).

Se fosse realmente assim, o patriarcado nordestino não teria nenhum foco de contradição em si. Ele é legítimo em si, e entraria em crise não por ser falso, produzir a reificação ou mesmo por conter em si a sua própria ruína econômica, mas apenas por ter sido superado de fora, por outras formas de produzir e gerir a economia mercantil, formas vindas do centro-sul "capitalista".
A ideologia, no entanto, tem a função de apagar as contradições. O trabalho "menos áspero" não deixa de ser áspero e coisificador, e o senhor "mais liberal" dos grandes engenhos não é menos patriarcal, arbitrário, violento e sovina por não estar tão conectado à razão econômica de acumulação mundial como no Centro-Sul: e o próprio Freyre mostra a lógica economicista dos grandes engenhos, que nem terras para plantar alimentos tinham! Além disso, basta relembrar os quilombos nordestinos para eliminar a ideia de um paraíso patriarcal. Isso tudo posto, é fato ainda que a economia nordestina declinou conforme sofreu a concorrência externa (Cuba, Haiti e Antilhas), mas a sua ruína é também interna, por falta de produtividade.

Freyre cria então um dualismo falso entre o nordeste e o exterior (o Brasil e o exterior). Toda a produção escravista é parte de uma exploração colonial moderna, ao mesmo tempo capitalista e patriarcal, digamos que em medidas e formatos diversoss, com peculiaridades sociais, históricas e espaciais.
O patriarcalismo é sublimado, portanto, em uma forma de ideologia patriarcal. Uma racionalização do patriarcado? Não, isso se encontra no primeiro Machado de Assis, ainda vendo brechas no sistema, pelo ponto de vista dos dependentes (Helena, Estela etc.), tal como mostrou Roberto Schwarz (em Ao vencedor as batatas). Gilberto Freyre fala pelos de cima e suaviza a coisa toda, forjando uma identidade quase sem resto entre senhores e seus subordinados. Chamar isso de racionalização seria um eufemismo. Seria antes uma moralização ideológica, se pensarmos no misto de capricho, violência, tradicionalismo autoritário, obscurantismo e irracionalidade que há no "saudoso" paternalismo. Saudosismo sem dúvida: herança de família, quase não poderia ser doutro modo.

Só que a ideologia patriarcal, aqui, não é um discurso simplesmente falso. Tem necessidade histórica de ser. É, antes, uma justificativa moral da realidade tal qual se apresenta na superfície do vivido, cortando as mediações mais fundas. Não é preciso chegar a questionar se trabalhar na grande fazenda do Nordeste talvez fosse melhor, para o escravo, do que trabalhar para um médio ou pequeno proprietário mesquinho e superexplorador. Deve-se questionar, ao contrário, se o patriarcado escravista pode ganhar os adjetivos de "doce" e "mais liberal". A ideologia aparece assim, nesse trecho, como justificativa, cortando laços com o presente (o sofrimento, as fugas, a rebeldia nos grandes latifúndios se explicariam de que forma então ?) e o possível (uma nação não-escravista e não-patriarcal). Gilberto Freyre não questiona criticamente, ou pelo menos aceita muito sem pestanejar esse mundo dito "feudal" (sic) - "afirmando a vida" diria um nietzscheano tropicalista - e chafurda na lama das "positividades". Ele pisa na jaca. Ou melhor, onde tem jaca Gilberto mergulha, deita e rola. Há aí, então, um orgulho quase patriótico de nossa condição histórica funesta. Roberto Da Matta interpreta exatamente assim as "positividades" de Freyre, em seu prefácio à última edição de Sobrados e Mucambos. Gilberto talvez tenha o caráter paradoxal de seu objeto: um sensualista, hedonista, um autor "revolucionário" em seu tempo, um sociólogo inovador, além do saudosista, tradicionalista e regionalista, de fundo patriarcal.

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Agora chegamos na saída do Mestre. Nesta comédia ideológica, Machado de Assis entrará com método. Ironicamente, antevê toda a ideologia paternalista e clientelista, reproduzida no próprio meio escravo, pondo-a na boca do amigo ensandecido de Brás Cubas, Quincas Borba, o filósofo do Humanitismo:

"O que o teu criado tem é um sentimento nobre e perfeitamente regido pelas leis do Humanitismo: é o orgulho da servilidade. A intenção dele é mostrar que não é criado de qualquer. - Depois chamou a minha atenção para os cocheiros de casa-grande, mais impertigados que o amo, para os criados de hotel, cuja solicitude obedece às variações sociais da freguesia, etc. E concluiu que era tudo a expressão daquele sentimento delicado e nobre, - prova cabal de que muitas vezes o homem, ainda a engraxar botas, é sublime" (Memórias Póstumas de Brás Cubas, Cap. CLVI, Orgulho da servilidade).

(Para quem não lembra, eis uma passagem do capítulo anterior, em que o escravo aparece como mais um maníaco do Pireu, que acha que tudo é sua propriedade, mesmo em sua condição de total despossessão: "De fato, era um dos meus criados que batia os tapetes, enquanto nós falávamos no jardim, ao lado. O alienista notou então que ele escancarara as janelas todas desde longo tempo, que alçara as cortinas, que devassara o mais possível a sala, ricamente alfaiada, para que a vissem de fora, e concluiu: - Este seu criado tem a mania do ateniense: crê que os navios são dele; uma hora de ilusão que lhe dá a maior felicidade da terra.").

Machado corta a jaca e a oferece a quem quiser se lambusar. A ilusão e o delírio da identidade entre senhor e escravo é nomeada expressamente. O que em Machado de Assis aparece com gume crítico, enquanto ficção que escarnece das classes dominantes e dominadas, e isso a partir de dentro da consciência de ambos os lados da relação de dominação, em Gilberto aparece apologeticamente, com sentido completamente positivo. Nada mais que ideologia da boa, "doce" e "saudosa" casa patriarcal ou da boa, astuta, malandra (mas não menos condenável) servilidade...

06 março, 2011

Sobre dois contos de Machado de Assis - "Na Arca" e "O empréstimo"

Ruínas alegóricas machadianas em "Na arca" e "O empréstimo"

Cláudio R. Duarte




Na coletânea Papeis Avulsos (1882), Machado de Assis parece estar interessado em produzir retratos que identifiquem determinados tipos sociais brasileiros. Ainda mais até, na esteira da virada da segunda grande fase, parece que temos aqui o mesmo impulso crítico de representar alegoricamente o Brasil. A ideia já foi sugerida por grandes intérpretes machadianos (John Gledson e Sidney Chalhoub). É o que se evidencia em contos como "O Alienista", "Teoria do Medalhão (Diálogo)", "D. Benedita (Um retrato)", "O segredo do Bonzo", "A Sereníssima República (Conferência do Cônego Vargas)", "O Espelho - Esboço de uma nova teoria da alma humana" e "Verba testamentária". Nesse sentido, o nome desta coletânea é ambíguo. O próprio autor nos avisa em sua Advertência: "avulsos são eles, mas não vieram para aqui como passageiros, que acertam de entrar na mesma hospedaria. São pessoas de uma só família, que a obrigação do pai fez sentar à mesma mesa" (Obra Completa, II, Rio de Janeiro: Aguilar, 1959, p. 253).



Dois outros contos -- "Na Arca - Três capítulos inéditos do Gênesis" e "O Empréstimo" -- são um pouco mais gerais, mas sem dúvida tratam de estruturas econômicas fundamentais da sociedade moderna. O primeiro trata da propriedade privada da terra, o segundo do dinheiro e a forma-mercadoria. Apesar da temática genérica, eles não são simplesmente "atemporais" e creio que ganhariam em ser lidos no contexto da modernização conservadora brasileira.




NA ARCA - TRÊS CAPÍTULOS INÉDITOS DO GÊNESIS

O primeiro conto é uma paródia da vida após o Dilúvio, no Gênesis. Dois filhos de Noé, Jafé e Sem lutam pela propriedade da terra, uma terra completamente livre e despovoada. Jafé pensa como um típico proprietário:

"6. - Aprazível vida vai ser a nossa. A figueira nos dará o fruto, a ovelha a lã, a vaca o leite, o sol a claridade e a noite a tenda".

"7. - Porquanto seremos únicos na terra, e toda a terra será nossa, e ninguém perturbará a paz de uma família, poupada do castigo que feriu a todos os homens".

"8.- Para todo o sempre" (...).

Lá onde tudo parece apropriado, quer dizer, possuído e usufruído coletivamente, ressurge a velha forma da propriedade privada, ao mesmo tempo em que a mediação da atividade produtiva tende a desaparecer da consciência. O tom bíblico reforça a eternidade das relações. Os homens "castigados" foram privados e excluídos da propriedade. Termo mudo e ausente da relação, eles são os não-proprietários e, no fundo, pelo nosso contexto, remetem aos dependentes e aos escravos, aqueles cujo estatuto é o do não-ser, a "vida nua",  matável e insacrificável (Agamben). No conto, são os que deixaram de existir, afogados, por vontade divina.


Na sequência do conto, desenrola-se o tema, muito especialmente machadiano, da "luta de morte" entre os irmãos Sem e Jafé. Um terceiro filho de Noé, chamado Cam, se intromete e tenta conciliar os dois irmãos, mas é zombado e excluído da discussão. A luta chega às vias de fato, no capítulo B:

"21- Na luta, caíram e rolaram, esmurrando-se um ao outro; o sangue saía dos narizes, dos beiços, das faces; ora vencia Jafé,

"22. - Ora vencia Sem; porque a raiva animava-os igualmente, e eles lutavam com as mãos, os pés, os dentes e as unhas; e a arca estremecia como se de novo se houvessem aberto as cataratas do céu".


Cam relata a Noé a luta entre os irmãos. Noé é obviamente a figura da lei paterna ("eu verei do que se trata, e ordenarei o que for justo") -- a metáfora da lei social, que falha especialmente no país e já não rege as relações entre pais e filhos ("Teoria do medalhão") ou, num âmbito mais geral, entre superiores e subordinados ("O Alienista", "O Espelho", "Verba Testamentária"), potências mundiais e zonas coloniais etc. O horizonte, inteiramente rebaixado, é o da lei sob as determinações burguesas, a luta selvagem pela autoconservação, a omnium bellum contra omnes.

Os irmãos logo se engalfinham de novo. Só no capítulo C, Noé, Cam e as mulheres de Sem e Jafé conseguem conter os dois combatentes ensanguentados. O final do conto alegoriza o contexto de guerra sem lei através de um conflito histórico moderno, no caso, os vários conflitos entre Turquia e Rússia (desde o século XVI, até o auge na Guerra da Criméia e do conflito de 1877-78):


"22. - Noé, porém, alçando a voz, bradou: - Maldito seja o que me não obedecer. Ele será maldito, não sete vezes, não setenta vezes, mas setecentas vezes setenta.

23. - Ora, pois, vos digo que, antes de descer a arca, não quero nenhum ajuste a respeito do lugar em que levantareis as tendas".

24. - Depois ficou meditabundo.

25. - E alçando os olhos ao céu, porque a portinhola do teto estava levantada, bradou com tristeza:

26. - Eles não não possuem a terra e já estão brigando por causa dos limites. O que será quando vierem a Turquia e a Rússia?"


A maldição está lançada "para todo o sempre". As guerras russo-turcas, guerras recorrentes entre os dois impérios dos mais conservadores do mundo moderno, servem como cifragem alegórica de contextos coloniais de dominação e exploração, ou seja, de relações entre senhores e escravos/dependentes (presentes-ausentes na relação).



O EMPRÉSTIMO

"O empréstimo" é outra anedota moderna. Tal como a vida social alienada e miserável de Jacobina, em "O Espelho", a vida de Custódio, em "O empréstimo", pode ser "apertada" em uma curta anedota sobre um pobre diabo. Mas, assim, a forma do conto machadiano imita criticamente a vida social regida pela forma-mercadoria, que reduz a vida singular dos homens ao dinheiro e à função econômica. Esta abstração ou redução real de uma vida a um micro-episódio alegórico também não admite réplica. Só por isso Sêneca deve ser "emendado": tal como a vida toda de Jacobina se resume ao episódio da Farda e de seu desvanecimento diante do espelho, recalcando a sua própria situação de escravo (analisada por mim, em outro ensaio, nota 1), a de Custódio se resume à de de um pobre-diabo que necessita de um empréstimo. Aliás, como Jacobina, a vida deste general/pedinte se reifica, no limite, numa "carteira": "Oh! a carteira! Custódio viu esse utensílio problemático, apalpou-o com os olhos, invejou a alpaca, invejou a casimira, quis ser algibeira, quis ser o couro, a matéria mesma do precioso receptáculo" (OC, II, 335).

A história de Custódio e dos filhos de Noé se reduz, assim, à velha anedota, ao esquema surrado, à lenda, numa palavra, ao mito -- a repetição do sempre-igual. Relações históricas se petrificam e se naturalizam. Nos dois contos, o objeto ganha vida em detrimento do sujeito e de suas ações. As personagens se coisificam e se mortificam, enquanto a propriedade e o dinheiro ganham poder sobre a vida social. Paul Dixon ("Modelos em movimento: os contos de Machado de Assis", Revista Teresa, 2006) percebeu esse traço dicotômico, esquemático, estrutural, às vezes abstrato e caricatural das personagens do conto machadiano, sem perceber que este é o traço fundamental da alegoria -- o modo de exposição de um mundo arruinado pela abstração social da forma enfeitiçada da mercadoria.





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Nota 1: Vide: Duarte, Cláudio R. "O Brasil n'O espelho de Machado de Assis". Sinal de Menos, nº 4, 2010. www.sinaldemenos.org