22 junho, 2007
10 junho, 2007
UM SCHOENBERG KITSCH-GROTESCO
UM SCHOENBERG KITSCH-GROTESCO
Expressionismo alemão e bandalheira geral brasileira
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Para Carlos e Lara,
que dividiram sua dor em comentários ou mutismo sábios
Cláudio R. Duarte
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O que esperar, Schoenberg no Brasil !?... com músicos e produtores renomados na organização (Gerald Thomas, Lívio Tragtenberg, Adélia Issa como solista, Orquestra de Câmara do Theatro São Pedro de Porto Alegre-RS), na boa infraestrutura do Sesc Pinheiros... assim vai-se confiante em ver uma boa apresentação... algo de interesse, em especial para quem vive num país culturalmente empobrecido como o nosso... o país do "jeitinho" e do funk carioca - e assim aproveitando o pretexto da peça expressionista - Pierrot Lunaire (1912) - com seu clima feérico e de absurdo organizados, os lunáticos brazucas aproveitaram para simular um hiper-desvario pós-moderno e forçar a coisa a sair dos eixos num desfile carnavalesco de monstruosidades kitsch. A cenografia exagerada de Gerald Thomas ironizava tudo a partir de uma apropriação usurpadora da obra, "transcriadora" no mau sentido -, desde a tomada da lua pela bandeira brasileira, uma bailarina dançando despropositalmente sem equilíbrio sobre o cenário lunar ou alguns pobres no chão lendo jornal ou fazendo macaquices - o que traía a atenção concentrada exigida pelo compositor mestre máximo dos contrapontos, atraindo o ouvinte para "cenas" terrivelmente banais e sem sentido -, até a presença irônica maior de Elke Maravilha na peça (uma espécie de síntese do kitsch dos gadgets anos 70 e dos programas de tv a ela associados), tudo moldado pelo discurso iluminado abre-alas/fim de linha de que simplesmente o mundo se tornou enfim pura mercadoria, ou um "país de ladrões" e "palhaços" enganados todos nós, como se diz no início, constatando-se cinicamente, ao gosto da ideologia sem estofo de hoje - ao menos o sentido como um todo dessa apresentação diz mais que seu suposto discurso crítico, inclusive folder explicativo -, enfim, a constatação de que não existe realmente mais ética e nem qualquer saída, nem mesmo, obviamente, na produção séria de música que um dia se quis séria...
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Com o injustificado apoio de Lívio Tragtenberg conseguiu-se desarmar completamente o impacto da música de Schoenberg, principalmente através do recurso de mau-gosto de intercalar a dissonância de Pierrot com composições eletrônicas vulgarmente esquisitas: musicando-se horrivelmente trechos dos poemas originais do francês Albert Giraud não-usados por Schoenberg na ocasião da composição; por outro lado, até mesmo pela tradução de Augusto Campos para o português, que apesar de cuidadosa e "transcriativa", é diminuidora da estranheza do alemão cantado (principalmente para nossos ouvidos), tal como cuidado por Schoenberg, aliás, nos mínimos detalhes da partitura... tudo ainda corroborado pela péssima mixagem do som do teatro, que engoliu completamente o instrumental (numa execução fiel, diga-se de passagem, mas abafada) colocando a cantora lírica em primeiro plano, com tiques involuntários de ópera bufa. Em suma, uma palhaçada digna dos Trapalhões - já que a intenção parcial talvez era trazer o atual mundo brasileiro, sobretudo o transfigurado pela tv e todos os sistemas e subsistemas da indústria cultural, para dialogar com o atonalismo do início do século ... com direito ainda a piorar do meio para o final, com a convidada de honra, "Deize Tigrona", a mais esdrúxula representante atual do funk carioca (!), cantando as baixarias da pior espécie dessa "música" nos intervalos que restavam (que soavam obviamente a título de piada, mas contada duas vezes, sem graça, iam ou deveriam ir até enjôo)... uma grande liqüidação, com efeitos calculados de circo grotesco, gargalhadas e aplausos obedientes de um público distraído, que já não sabia a que veio...
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Numa tal apresentação, um "happening" segundo justificativa de Gerald Thomas no final do espetáculo, a obra supostamente autônoma de Schoenberg é assaltada e se rende totalmente aos influxos vindos de fora... e foi isso que se teve muito bem encenado, com a proeza de converter música atonal em show trash de calouros, desde o signo bárbaro de abertura, a da apropriação brasileira da lua, até a intrusão proposital do barulho eletrônico, Elke dando sua palhinha no "canto" ou o funk carioca em constraste com o atonalismo de um minuto atrás. No palco, os "civilizados" atonais à esquerda, os bárbaros, brasileiros sem tom algum, à direita. Na próxima deveriam superpor as duas coisas, misturar tudo, liberar geral: talvez o resultado seria mais digno, se o objetivo dos produtores era significar que não se pode mais ter a experiência fiel da obra schoenberguiana num mundo completamente desolado e fim de feira como o nosso - assim a esculhambação seria total, não um mero gesto teatral inofensivo. Nalguma medida, porém, a ironia e o kitsch pertencem à própria obra intencionada por Schoenberg. Como diz Adorno,
"Não apenas o texto escolhido faz com que a obra-prima de Schoenberg possua a ameaçadora afinidade com o kitsch, situação paradoxal que atinge todas as obras-primas, mas a própria música, em sua tendência para a fluidez linear e efeitos surpreendentes, sacrifica algo daquilo que Schoenberg conseguiu desde a Erwartung. Apesar de toda a virtuosa espiritualidade do Pierrot, e ainda que nele se achem algumas de suas composições mais complexas, o propósito musical de produzir nexos de superfície faz com que ele imperceptivelmente se afaste de sua posição mais avançada" (Prismas, "Arnold Schoenberg, 1874-1951", S.Paulo, Ática, p.162).
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Tal posição mais avançada, segundo Adorno, seria uma espécie de "música sem imagens", uma música do absolutamente novo e não-idêntico, na compulsão autoral de "purificar a música de elementos previamente concebidos", que levava "não apenas a novas tonalidades, como os famosos acordes de quartas, mas também a uma nova esfera de expressão, distante da cópia de sentimentos humanos", - expressão mimética possível do Outro, do exterior, não totalmente subjetivo no sujeito, enfim, a uma ruptura com "um estrato fundamental da música", a recusa da "adaptação da linguagem musical à linguagem significativa dos homens"(ib., p.156). Os poemas expressionistas do ciclo escolhidos por Schoenberg são propositalmente obscuros, como a música, complexa, áspera, atonalmente livre, não obstante as remarcas já citadas de Adorno. Nesta apresentação, entretanto, nada mais vulgarmente clarificado e hiper-significado de sentimentos e sentidos vulgares - daí o monstro kitsch.
"A arte tornou-se vulgar pela condescendência: quando, sobretudo através do humor, invocou a consciência deformada e a confirmou (...). Do ponto de vista social, o vulgar é, na arte a identificação subjetiva com o envilecimento objetivamente reproduzido" (Adorno, Teoria Estética, Ed. 70, p.268).
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O Pierrot assim transfigurado torna-se a imagem fatal da impotência, a neutralização total do trágico em auto-ironia e niilismo cínico. A denúncia ética da reificação, como mera intenção, na prática tornou-se seu contrário, recaindo no mesmo. Partiu-se talvez do seguinte raciocínio de boteco fim de noite: se essa música já não significa mais nada para nós em geral, só um caminhão de imagens de choque (literalmente apresentado no final do espetáculo, aliás), arbitrárias e surpreendentes (tal como provavelmente soava a música do Pierrot em 1912), lhe traria novo alento. É como se a inteligência auditiva não existisse mais em nossas terras, só o olhar blasé do consumidor televisivo. Utilizando-se dos mesmos meios psicotécnicos da indústria cultural, não podia-se chegar senão na diversão vulgar. Monta-se então a ironia da ironia da ironia, que desarma completamente a peça, já que nada mais é para ser acreditado, nada tem mais força (des)estruturadora, nem mesmo o atonalismo - e o que sobra de Schoenberg nisso tudo ? Um espetáculo de massas grotesco que reintegra, com o gesto irônico hiper-sabichão mas moralmente tolo e completamente vulgarizador, aquilo que queria-se desintegração, ruptura da mônada-sujeito, libertação da dissonância e da dor do singular.
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(Espetáculo "Luar Trovado" a partir de Pierrot Lunaire de Arnold Schoenberg - Sesc Pinheiros, São Paulo, 09/06/2007).
01 abril, 2007
"TUDO É MENTIRA NESTE MUNDO"
"TUDO É MENTIRA NESTE MUNDO "
Ciência e sociedade em tempos de simulação especulativa de mercados
"Mentira lo que dice / Mentira lo que da / Mentira lo que hace / Mentira lo que va / (...)Todo es mentira en este mundo" (Manu Chao, Mentira)
"Mentira lo que dice / Mentira lo que da / Mentira lo que hace / Mentira lo que va / (...)Todo es mentira en este mundo" (Manu Chao, Mentira)
Cláudio R. Duarte
Em suas múltiplas versões as ciências sociais acolheram o fato social como garantia de objetividade e validade. De Comte a Durkheim, de Parsons a Luhman, de Bourdieu a Habermas, passando por todo o marxismo positivista e estruturalista, a ciência se fez da descrição e validação de leis e sistemas sociais coercitivos que se impõem aos sujeitos, além de seu controle e consciência. Para além do psicologismo e do historicismo, levou-se a sério o poder objetivo das estruturas.
Na crítica da economia política de Marx a mentira tem pernas longas, longuíssimas. Tudo é virtualmente mentira no mundo fetichista das mercadorias, mas cada mentira abona outra, confirmando o sistema de valorização do capital como um sistema de ilusões e abstrações reais, que convivem lado a lado no paradoxo e raramente se resolvem na contradição dialética. A mentira, o fragmento autonomizado do todo, aqui, pesa muito mais que a mão de uma criança. É eficaz, cerca, constrange, molda, abala, destrói.
Quanto mais a ciência se prende ao mero fato mais ela recai na mentira que supostamente teria superado junto com a metafísica; sem se atentar para o negativo desses fatos, que nunca são dados primários nem últimos – sem aprendê-los conceitualmente em sua costura numa certa totalidade histórica há muito obsoleta – fatalmente ela se perde e legitima uma ordem falsa e podre da cabeça aos pés. Já dizia Marx que as posições no sistema, incluindo as classes e suas lutas, se fazia através de "máscaras de caráter" e "personificações" do capital. Da grande farsa da igualdade social e da troca de equivalentes no mercado de trabalho (a ideologia do "salário justo", desmentida a cada segundo pela espoliação descarada da mão-de-obra) ao engodo da liberdade e fraternidade (desmentido todos os dias pelas imposições de um trabalho insano e pela violência de todos os tipos), passando pelos trâmites sujos da política, pela empulhação da propaganda e da cultura industrializada monopolistas, pela "obsolescência planejada" de produtos e pelas práticas cotidianas de micro-embaçamentos e malandragens do "cada um por si" na concorrência global, finalmente, como um enorme castelo de cartas, o sistema se apóia, hoje sob uma forma econômica cuja substância tende a se perder: a forma de valor das coisas no mercado.
O valor, conforme a economia política clássica, funda-se no trabalho produtivo, medido em tempo de trabalho socialmente necessário para se produzir uma mercadoria. Ora, se cada vez é menor esse tempo socialmente necessário, dadas as tecnologias da 3ª Revolução Industrial, também deve ser tendencialmente cada vez menor, em proporção, a quantidade de mais-valia real acumulada pelo sistema global. Todo o edifício social armado sob essa economia é cada vez mais a ficção de uma hiper-acumulação especulativa, girando na superestrutura creditícia nas bolsas de valores, que antecipam em décadas o desenvolvimento futuro que ainda não existe. No âmbito social, é a bolha especulativa que mantém ainda em pé o poder de nações inteiras, das macro-estruturas estatais e empresariais até o fluxo comercial do sistema de objetos de consumo, das viagens às casas e carros da classe média, etc. Na universidade, seu sinal é o pragmatismo extremo dos cursos que só visam ao lucro e as falsas promessas de inserção no mercado de trabalho ou, por outro lado, a moda pós-modernista nas ciências humanas, que termina por estetizar ideologicamente as seqüelas simulativas desta grande mentira de base, nas mais diversas práticas cotidianas.
Mas o sistema mentiroso chega a um nível de esclarecimento e de desilusão, como anteviram Adorno e Horkheimer na Dialética do Iluminismo, que a mentira aberta não é mais levada a sério, mas aceita como mero fato bruto, como a naturalidade do poder existente. Por isso a ideologia hoje pode até ser descartada e tender a zero. O nazismo foi o precursor desta decadência da razão: pouco se escondia, tudo era visto através dum véu delgado e transparente. Entre nós, bem antes Machado de Assis anteviu algo dessa fusão de realidade, farsa e arbítrio na figura literária do “senhor de escravos liberal”, a subjetividade que goza perversamente na mentira, na máscara, no puro discurso e no capricho, sem as graves conseqüências que o efeito de realidade traria. Mas a realidade da mentira neste caso não pesava – não desta perspectiva de nossa classe dominante. A cara de pau sempre foi a condição de nossas elites.
Hoje, no auge do fetichismo dos mercados especulativos, o convívio diário com a simulação ou a franca aceitação da mentira em todos os níveis e âmbitos do cotidiano moderno, apenas escancara que a sociedade do “espetáculo integrado”, como dizia Debord nos Comentários da Sociedade do Espetáculo, é absurdamente irracional e debochadamente cínica. Neste momento se expande o "segredo generalizado" junto à "mentira sem contestação". É assim que a sociedade se reproduz em bloco, mesmo cheio de rachaduras, num "presente perpétuo": quando, por exemplo, a própria mentira desvendada é celebrada como fato estético ou humorístico. Todos riem das falcatruas de um Paulo Maluf ou dos balanços falsos de empresas como a Enron, mas esse riso é completamente apologético. Rir e ferir, "zombar da filosofia" diria Pascal, hoje é confraternizar-se com o embuste do poder.
(1º/ABRIL/2007).
03 março, 2007
FERREIRA GULLAR: PALAVRA SOLTA, ATADA À VIDA
Ferreira Gullar:
palavra solta, atada à vida
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"Ainda há pouco, quando atravessava a toda pressa o bulevar, saltitando na lama, através desse caos movediço onde a morte surge a galope de todos os lados a um só tempo, a minha auréola, num movimento precipitado, escorregou-me da cabeça e caiu no lodo do macadame. Não tive coragem de apanhá-la." (Charles Baudelaire, "A perda da auréola")
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Ferreira Gullar foi um dos poetas brasileiros que se deparou primeiro com os becos sem saída da estética neoparnasiana da chamada "Geração 45". Se em A Luta Corporal (livro de 1950-1953) ainda podíamos ouvir alguns ecos de literatice em alguns dos "Sete Poemas Portugueses" - que, segundo o próprio poeta, foi seu "acerto de contas com a tradição da poesia metrificada" -, no mesmo livro (aliás, nesse mesmo conjunto de poemas), e mais à frente, há uma importante ruptura, uma queda dos cumes etéreos da Poesia Monumental ao embate poético corpo-a-corpo com a vida. Já no segundo dos Poemas Portugueses (1), que abre o livro, se lê:
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Nada vos oferto
além destas mortes
de que me alimento
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Caminhos não há
mas os pés na grama
os inventarão
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Aqui se inicia
uma viagem clara
para a encantação
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Fonte, flor em fogo,
que é que nos espera
por detrás da noite ?
*
Nada vos sovino:
com a minha incerteza
vos ilumino
*
O poeta promete-nos assim uma palavra arrancada do vivido, do já não-presente (as "mortes"), uma poesia dúbia, incerta, mas com os pés no chão, no "gramado", uma "fonte" que incendeia, como uma "flor em fogo", com seu lume abrindo caminhos dentro-além da "noite".
Daí em diante no livro, como em Baudelaire, o poeta larga sua "auréola" na lama, precipita o vocabulário no chão duro da vida, pintando suas rimas com versos propositalmente brancos ou com rimas internas, muito mais sutis e tortuosas, procurando palavras e estruturas de choque para elas, chegando ao limite do vocabulário chulo, submergindo no rico conteúdo da vida, na velocidade do movimento negativo do tempo, com seu escoar infinitamente criador e destruidor, se atendo, assim, ao efêmero e ao perecível, como nos poemas tirados das coisas mais cotidianas: o galo, a galinha, as pêras apodrecendo no prato, a avenida da cidade. Seguindo sua matéria, a forma poética também se abre... daí outra tendência de ruptura no livro: o poema em prosa, linha reta, de influência surrealista:
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"Carta ao inventor da roda
O teu nome está inscrito na parte mais úmida de meus testículos suados; (...) tu inventaste o ressecamento precoce de minhas afinidades sexuais, de minhas probabilidades inorgânicas, de meus apetites pulverulentos; tu, sacana, cuja mão pariu toda a inquietação que hoje absorve o reino da impossibilidade visual, tu, vira-bosta, abana-cu, tu preparavas aquela manhã, diante de árvores e um sol sem aviso, todo este nefasto maquinismo sevicioso, que rói meu fêmur com uma broca que serra meu tórax num alarma nasal de oficinas de madeira.(...)" (A Luta Corporal, p.71).
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Como em Drummond, tal poesia só se produz no trabalho negativo duma linguagem corrosiva sobre os objetos do mundo, tirando-lhes de sua suposta naturalidade, de sua ilusão de transparência ou ar de inocente poeticidade. Só o objeto quebrado pela linguagem eleva-se à poesia:
"...despreza o mar / que amas, e só assim terás / o exato inviolável /mar autêntico" (ibid., "P.M.S.L.", p.34)
"...despreza o mar / que amas, e só assim terás / o exato inviolável /mar autêntico" (ibid., "P.M.S.L.", p.34)
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ou:
"(...) As frutas sem morte / não as comemos" (ibid., "A fala", p.92).
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Sua intenção parece já não ser mais a encantação, mas o desenfeitiçamento. Seu método é a colagem da expressão poética na ação materialista do tempo. Exemplar, neste sentido, será a análise de "Carta do morto pobre"(do conjunto "Um programa de homicídio"):
"Bem. Agora que já não me resta qualquer possibilidade de trabalhar-me (oh trabalhar-se! não se concluir nunca!), posso dizer com simpleza a cor da minha morte. Fui sempre o que mastigou a sua língua e a engoliu. O que apagou as manhãs e, à noite, os anúncios luminosos e, no verso, a música, para que apenas a sua carne, sangrenta pisada suja - a sua pobre carne o impusesse ao orgulho dos homens"(p.43).
A imagem predominante aqui é a do poeta em seu trabalho ininterrupto de composição - trabalho sempre vão - inconcluso - em sua tentativa de capturar a realidade. O que resta, negativamente, é a materialidade das coisas e do corpo lá fora.
"(...) Oh não ultrajes a tua carne, que é tudo! Que ela polida, não deixará de ser pobre e efêmera. Oh não ridicularizes a tua carne, a nossa imunda carne! A sua música seria a sua humilhação, pois ela, ao ouvir esse falso cantar, saberia compreender: ´sou tão abjeta que nem dessa abjeção sou digna´. Sim, é no disfarçar que nos banalizamos,
"Vê o diamante: o brilho é banal, ele é eterno. O eterno é vil! é vil! é vil! //
Porque estou morto é que digo: o apodrecer é sublime e terrível. Há porém os que não apodrecem. Os que traem o único acontecimento maravilhoso de sua existência. Os que, súbito, ao se buscarem, não estão... Esses são os assassinos da beleza, os fracos. Os anjos frustrados, papa-bostas! oh como são pálidos!" (ibid., p.43).
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Daí sua desconfiança da estética institucionalizada:
"Ouçam: a arte é uma traição. Artistas, ah os artistas! Animaizinhos viciados, vermes dos resíduos, caprichosos e pueris. Eu vos odeio! Como sois ridículos na vossa seriedade cosmética!" (ibid., p.43).
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Daí também seu programa de estranhamento poético, um claro prenúncio da estética posterior de "Poema Sujo":
"Olhemos os pés do homem. As orelhas e os pêlos a crescer nas virilhas. Os jardins do mundo são algo estranho e mortal. O homem é grave. E não canta, senão para morrer"(ibid., p.43).
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Uma moral da história - a relação intrínseca de poesia, morte e libertação - se dissemina por outros poemas, como em:
"A beleza é mais frágil do que a vida // Esperamos a morte, sem defesa" ("A fera diurna", p.25).
Ou ainda:
"Era preciso que / o canto não cessasse / nunca. Não pelo / canto (canto que os / homens ouvem) mas / porque can- / tando o galo / é sem morte" ("As peras", p.38).
Só no frágil instante do dizer poético, em que cintilam as coisas miúdas da vida, há algo que lembre a verdade. O ato de compor para Gullar só se redime na tentativa do poeta "incendiar-se". Só isso leva também ao desengano de si:
"(...) construo, com os ossos do mundo, uma armadilha; aprenderás, aqui, que o brilho é vil; aprenderás a mastigar o teu coração, tu mesmo" (ibid., "Um programa de homicídio", parte 1, p.45). Ou ainda:
"O que somos é escuro, fechado, e está sempre de borco (...) O que somos não nos ama: quer apenas morrer ferozmente" (ibid., parte 4, pp.48-9)".
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Gullar se identifica várias vezes com o ponto de vista da morte. Sua visada é a da alegoria, no sentido benjaminiano do termo, mais que do símbolo: o ponto de vista da destruição da aparência de reconciliação. Só assim se reencontra, ecoando simultaneamente Manuel Bandeira e João Cabral, a integração com o ciclo natural:
"Vai o animal no campo; ele é o campo como o capim, que é o campo se dando para que haja sempre boi e campo; que campo e boi é o boi andar no campo e comer do sempre novo chão. Vai o boi, árvore que muge, retalho da paisagem em caminho. Deita-se o boi, e rumina, e olha a erva a crescer em redor de seu corpo, para o seu corpo, que cresce para a erva. Levanta-se o boi, é o campo que se ergue em suas patas para andar sobre o seu dorso. E cada fato é já a fabricação de flores que se erguerão do pó dos ossos que a chuva lavará, /
quando for o tempo." (ibid., parte 5, p.50).
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Como apontou João L. Lafetá, o poeta tende no final do livro, a um lirismo que beira o "solipsismo" (2), onde a desintegração do verso em palavras soltas, e da própria palavra em a-significantes, submerge mui facilmente a dureza do mundo numa linguagem opaca e hiperfluída, um enxurro demolidor - como no poema "Roçzeiral" ("Au sôflu i luz ta pom -/ pa inova´/ orbita / FUROR / tô bicho / ´scuro fo-/ go / Rra // UILÁN / UILÁN, / lavram z´olhares, flamas! (...)", ou naquele último que se inicia com o verso "negror n´origens" -, resultando em algo que o poeta não deixava de perceber, no poema anteriormente analisado, como um:
"(...) vertiginoso acúmulo de nadas!" (ibid., parte 4, p.48).
... enfim, como na fase intermédia de Drummond (de Claro enigma até A vida passada a limpo), uma diluição do ser no nada ou no amorfo: "O que somos, o ser, que não somos, não ri, não se move, o dorso velhíssimo de poeira (...)".
* * *
A partir de Vil Metal (1954-1960) o poeta retornará cada vez mais em direção ao mundo objetivo. Um dos melhores poemas dessa virada é "O escravo"(p.149):
O escravo
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Detrás da flor me subjugam,
Atam-me os pés e as mãos.
E um pássaro vem cantar
para que eu me negue.
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Mas eu sei que a única haste do tempo
é o sulco do riso na terra
- a boca espedaçada que continua falando.
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Como antes, o objeto hiper-poetizado, a coisa natural - a "flor", o "pássaro" - são tidos como suspeitos, imprestáveis se tomados ingenuamente. Novamente só a desnaturalização dos objetos pode os elevar à poesia. Mas a poesia verdadeira é a que fica atada à vida, ligada ao tempo por uma haste, que é, no belíssimo verso, "o sulco do riso na terra", um riso vindo de uma boca em pedaços, que continua dizendo a negatividade desse mundo.
Gullar irá aguçar cada vez mais uma perspectiva que poderíamos nomear como "poesia atada à vida exterior", abrindo-se para o mundo. Irá passar pelas estações do objetivismo poético, com a fase concretista/neoconcretista e pelo período da poesia diretamente engajada, como nos "romances de cordel". Mas é após o golpe militar de 64, a partir de "Dentro da noite veloz", que iremos ter com a maturidade desse grande poeta.
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Notas:
(1) Ferreira Gullar - Toda Poesia (1950/1980). São Paulo, Círculo do Livro, 1983, p.18. Todas as citações virão com o nome do livro ou do poema correspondente, seguido do número da página.
(2) "João Luiz Lafetá - "Traduzir-se. Ensaio sobre a poesia de Ferreira Gullar" in: ___. A dimensão da noite e outros ensaios. Antonio Arnoni Prado (org.). São Paulo. Duas Cidades/Ed.34, 2004.
(Dezembro - Fevereiro - 2007).
24 agosto, 2006
QUAL ´POLÍTICA´ APÓS O BLOQUEIO DA POLÍTICA ? (Obervações sobre teoria e práxis na época de falência das esquerdas)
Qual “política” após o bloqueio da política ?
Observações sobre teoria e práxis na época de falência das esquerdas
Cláudio R. Duarte
Ponto Zero (ou, onde estamos e nos posicionamos):
O voto nulo como forma de deslegitimação do processo político é uma negação abstrata da política. Será que realmente temos de escolher entre votar ou não votar ? Por que excluir da ação alguns campos de luta tradicionais ? Sempre achei que uma luta anticapitalista se dá em múltiplas frentes, da mais simples, paliativa, dentro da institucionalidade até a mais ampla e radical, fora da ordem estabelecida. Ora, hoje o capital esmaga-nos em todas as frentes. É claro que uma negação da eleição pode levar a algo importante em momentos mais radicais de um movimento emancipatório - mas hoje evidentemente não é esse o nosso caso. A antipolítica precisa da "paciência do conceito" para ser efetivada. Desta forma, acredito que neste momento precisamos escolher alguma via. Pense-se nos enormes recursos do Estado: no limite eles podem salvar vidas, dar ainda certa dignidade de vida para os mais pobres e abrir nichos de reflexão e democracia em frente ao autoritarismo latino-americano. Vamos entregar o Estado às mãos da burguesia mais uma vez ? (PSDB, PT, PSOL etc.: tout la même chose ?). Creio mesmo que a opção pelo "voto nulo" hoje é uma submissão ainda maior ao espetáculo: ficar assistindo aos grupos que controlam o poder estatal se perpetuando ad infinitum - sem contra-propostas de ação eficazes. Coroamos nossa impotência com mais impotência. Enfim, a ruptura com a máscara de "cidadão burguês" não se dá por mero voluntarismo e negações abstratas da ordem. Saber usar essa máscara imposta - ceticamente, sem deixá-la colar no nosso próprio rosto - também faz parte de uma educação anti-capitalista.
Ponto 1 (ou, como a teoria e o campo do político foram sendo sistematicamente bloqueados e neutralizados pela ordem do capital)
Comecemos pelo mais evidente: antigamente talvez os intelectuais jogavam no campo teórico. Estavam longe da práxis efetiva, tinham um ideal de formação herdado dos gregos, que passava pelas letras, pela filosofia, pela vida contemplativa - numa palavra, pela “ideologia” no sentido clássico. Mesmo o marxismo não se podia conceber como um puro movimento prático, sem teoria e sem valores éticos implícitos que lhe davam um sentido. O interesse era transformar o mundo depois de bem interpretá-lo, na justa confluência de crise necessária do sistema capitalista e movimento revolucionário consciente. Hoje cada vez mais, porém, os intelectuais passaram para o campo prático. E quase sempre do modo mais rasteiro, sem verdadeiramente incorporar a teoria outrora sustentada. É o fim da teoria, senão da própria crítica. Renascem o positivismo e o "realismo político" mais descarados. Formando meros técnicos, atuando como consultores diretos de empresa, ou virando políticos eleitoreiros, a coisa se inverteu: “nunca fomos tão engajados”, como diz Roberto Schwarz. Já sabemos no que deu: no Brasil, após o bom marxismo nacionalista, industrializante, desenvolvimentista desembocamos no neoliberalismo de FHC e no neopopulismo liberal, corrupto e assistencialista de Lula. Onde a esquerda “radical”, “socialista”, “democrática” ? Hoje, sabe-se que ela administra do alto os bons negócios para o grande capital. O Banco Central, blindado, comanda o executivo. O executivo apenas re(a)ge (a)o país globalizado com medidas provisórias e políticas emergenciais. Para ferrar tudo com o selo do mesmo, o congresso nacional tem base conservadora. O resto é estratégia de legitimação de tudo o que está aí, sob a ameaça da bancarrota pelo super-endividamento estatal. Esta parece ser a tendência do fim da instituição política, do “político”, sem sua verdadeira superação dialética.
Ponto 2 (ou, as raízes podres da política socialista burocrática modernizadora)
É verdade que com o colapso do “socialismo real”, a esquerda já tinha sido abalada profundamente. Perdia-se definitivamente o horizonte das transformações históricas radicais prometidas pela teoria. Ninguém mais podia ser ingênuo em acreditar numa revolução socialista nos moldes russos, chineses ou cubanos. Revolução e terrorismo de Estado se identificavam. O marxismo soviético, na figura de seus portadores burocráticos, assumiu os papéis mais esdrúxulos e inesperados: o de acelerador da modernização retardatária industrializante, de parteiro de uma acumulação primitiva do capital, criando ex ante uma classe trabalhadora até ali incipiente, o de disciplinador das massas camponesas para o trabalho alienado, o de forjador de uma nação mítica, o de vigia e instigador de populações migrantes imensas, o de manipulador de uma cultura conformista e realista, o de torturador e carcereiro daqueles que lutavam pela livre expressão, oposição e auto-determinação de recursos sociais coletivos (sovietes). O socialismo real foi tudo, menos socialismo. A prática ficou aquém da teoria crítica, ou, identificou-se com uma forma congelada dela e se tornou paranóia ditatorial.
Ponto 3 - (ou, como os movimentos sociais de base foram perdendo força depois dos anos 90)
No mesmo período, na periferia latina, do lado de cá, de baixo, os movimentos sociais não-oficiais foram crescendo, já sem qualquer referência socialista ortodoxa, num suspiro renovador e libertador, sem ideologia estrita mas objetivos práticos bem precisos, para em seguida passar a uma fase de refluxo, já no final dos 90. Após as mobilizações sociais de massa no Brasil dos anos 70 e 80, aparentemente um verdadeiro renascimento da sociedade civil brasileira, indo do novo sindicalismo às comunidades eclesiais de base, dos movimentos por moradia aos movimentos mais fugazes, mas praticamente eficazes (luta por creches, melhorias na educação, transportes, luta pela democracia parlamentar etc.), entramos numa espécie de conservadorismo e conformismo manifestos. O MST talvez seja uma exceção a esse quadro de refluxo. Junto a esse, ou mediado por esse, vem um restabelecimento completo do poder de controle do capital sobre o trabalho, através dos métodos pós-fordistas ou flexíveis, além do desmonte neoliberal do Estado, dos direitos e das garantias sociais. Hoje, naturalmente estamos longe de um movimento global de recusa do sistema, nem mesmo de negação crítica da política institucional, já combalida. O governo Lula é, salvo engano, sinal claro disso. Enquanto isso, o pobre, isolado em sua casa, dessindicalizado, “despolitizado”, danado no trabalho mais precário e miserável, se sustenta como pode, colocando todos de casa para trabalhar, fazendo bicos e virações, se restabelecendo mental e corporalmente com a tv, a igreja, o futebol, as diversões baratas e os confortos minimamente cotidianos da vida moderna.
Ponto 4 - (ou, o problema objetivamente necessário de sustentar a negação anticapitalista sem base social):
Neste contexto, como pode-se sustentar a negatividade de uma teoria crítica “sem base social” ? A base social vai voando pelos ares, pela fragmentação e a individualização progressivas. O refluxo dos movimentos vivos se dá em meio ao fluxo pleno dos movimentos mortais e destruidores do capital. Um movimento emancipatório, porém, se cria apenas na prática coletiva e social mais ampla, não simplesmente com indivíduos isolados ou grupos “práticos” de agitadores profissionais, como no bolchevismo arqui-modernizador. Assim, que não alimentemos ilusões sobre nós mesmos, sobre nossa própria "forma-sujeito" de cidadãos burgueses: nossa circulação mercantil é baixa. Sejamos críticos também dos que querem imitar ipsis literis as táticas revolucionárias do passado, como se estivéssemos na França da Comuna, ou dos situacionistas, sem estar prestando atenção direito no tipo de sociedade que estamos vivendo hoje. Vivemos um individualismo de massa, com erosão acentuada do que foi uma vez um “sujeito” (mesmo burguês), com consciência autônoma, com tempo, espaço e disponibilidade para o debate formador, nem para o discurso cidadanista.
Os situacionistas, com efeito, provavelmente serão cada vez mais considerados os últimos “heróis” da modernidade, pois já eram de fato românticos e quase anacrônicos naquela época, pois contavam com uma subjetividade que há muito já estava solapada. Daí terem que estudar o marxismo a partir da alienação, do social e cotidiano não-capturado pela economia, da crítica ao fetiche etc. Também eles devem ter sido rotulados de pára-teóricos, grupo radical utópico etc. No nosso país isso talvez seria confundido, no dia seguinte, com apresentação terrorista ou uma espécie de circo popular de vanguarda (se na Praça da Sé, as pessoas dariam talvez esmolas no final, afinal todos querem a paz da troca justa até no lazer). E lá vamos nós às votações e passeatas contra a Alca, o Nafta (a favor do Mercosul talvez ?), contra os focos de guerra sanguinária, etc. às discussões e comícios do PSOL, PT etc., aos acampamentos do MST refletir, pesquisar, lendo e apoiando a imprensa do-contra, comprando livros de editoras subversivas ou socialmente menos subservientes ao deus-dinheiro. Mas, sobretudo, trabalhamos aqui na metrópole, onde a coisificação, a dessolidarização e a desumanizaçã0 parecem mais fortes, principalmente naquele trabalho que um dia parecia que “formava”.
Ponto 5 - (ou, a ilusão imediatista: a falsa resolução do "passemos diretamente à práxis")
É possível e é preciso pensar as contradições desse processo. As contradições se agravam, mas, paradoxais que são, não têm resolução, não armam grandes conflitos manifestos. A culpa é nossa, "meros intelectuais". Onde está a saída, a placa escrita “exit”? Daí, por um impulso inevitável, surge a velha solução nas mentes sem reflexão: então, vamos à práxis do possível ! Sim, mas engajar-se no que está aí, prestes a vencer, nas águas correntes ? Mas a quantas contra-correntes mais fundas e quantos redemoinhos estão sujeitos um rio ?
Ponto 6 - (ou, qual práxis dentro do sistema ainda é possível ?)
Ou seja, qual práxis possível ? Claro que todo esse processo de destruição social faz também rebaixar as esperanças utópicas e radicais, na teoria de cunho marxista em primeiro lugar (enquanto isso o pós-modernismo, o pragmatismo, a pop filosofia viram moda), e na prática social da esquerda em geral. Todos viram sociais-democratas, querem discutir apenas a cidadania incompleta e os direitos perdidos. Este movimento é geral, da filosofia ao socialismo de botequim. Todos parecem, no máximo, uns Mangabeira Unger disfarçados. A teoria da esquerda (tradicional) rebaixa-se: fica muito aquém de seu objeto e das possibilidades radicais que ele sugere. Se o PT ainda falava em socialismo em 89, hoje fala (na medida em que ainda pode falar sem parecer mentira descarada) em mercado consumidor de massas, conquista de governabilidade, em administração competente, ética na condução dos negócios (se é que ainda é possível algo assim !), em país competitivo e esquerda politicamente “responsável” (pelo menos o baixo escalão assim ainda se vê), ademais tudo isso sujeito a todo tipo de aliança para se manter no poder e se reeleger. Tudo tende à prática emergencial e assistencialista, que nem mais reformista é, mas apenas conservadora, estabilizadora de um patamar de inflação anual, de uma taxa de juros estável ou regulada, e, no grau mais alto de sua perpectiva, num retorno ao grau zero da circulação simples (o "Banco do Povo"), para que valha plenamente um mercado popular, com alguns direitos, enfim um fetichismo da mercadoria "mais humano", mas não o do grande capital explorador. A famosa reforma agrária é engavetada e vai sendo adiada. Porém, perto da avalanche neoliberal, isso não pareceu, na época, realmente uma conquista da esquerda ? Levar um ex-operário, líder de um partido de esquerda, à presidência!! (por mais besteiras que tenha dito ou feito, fora toda mentira e todo conservadorismo econômico que tenha praticado etc.). Muito do que se falava não é mera ideologia, tal como a reforma agrária e outras propostas de distribuição de renda. Representam espinhos para a administração capitalista do poder.
Isso mostra como os pararadoxos, quando lidos mais de perto, tornam-se ainda conflitos vivos com a ordem. O sociólogo do trabalho Ricardo Antunes tem razão: em 2001 houve manifestações anti-capitalistas no mundo inteiro. Certo, mas será que eles têm alguma discussão real ou um projeto anti-capitalista ? Depois de Davos, do Fórum Social de em Porto Alegre etc. “e daí”? Os zapatistas vão mais longe do que a média, certamente, pois lutam pelo direito legal das terras camponesas, pela democracia étnica, e em geral pela auto-determinação nacional do seu país (contra os EUA), enfim, nem separatismo anti-imperialista, nem socialismo. Lutam, por enquanto, para serem sujeitos burgueses "reconhecidos" e "diferenciados" - apesar de tudo, "dentro do sistema". Pouco ? Não, já escorreu muito sangue aí para algumas conquistas históricas relativas. Voltemos ao Brasil. No debate de 2002, para alguns esquerdistas do PT, num raciocínio correto do ponto de vista lógico, obter a presidência em 2002 seria uma expropriação do fundo público em nome do “social”, contra a burguesia e o capital rentista. Era uma possibilidade, mas de fato não ocorreu (por mais defensável que seja o projeto "renda mínima") e não ocorrerá... talvez por falta do tal fundo público (todo comprometido com a dívida do Estado) !? Questões a discutir ! De qualquer jeito, eis aí questões políticas abertas ainda atuais, mesmo que postas dentro da ordem existente.
Ponto 7- (ou, sobre uma posição não-ingênua da teoria em relação à práxis hoje)
Note-se que em todos esses casos de esquerdização do poder, a dita “crítica anticapitalista” não serve (ainda) para NADA, pois tudo seria muito bem feito do mesmo jeito sem ela (e melhor ainda sem ela), sem o apoio imprescindível de Marx, Lukács, Debord, Adorno, Kurz ou de fóruns sindicais ou internéticos de discussão. À boa teoria crítica resta o lugar afastado (mas não desligado) do não-imediatismo, estrategicamente recolhido nos textos e nas boas discussões de alguns grupos de intelectuais atuantes, mas que não se dobram simplesmente à ditadura da atualidade. É assim que ela guarda seu grão resistente de verdade teórica, que é potencialmente prática - já que se trata de uma teoria “crítica”. "Saber esperar" também faz parte da crítica que vai além do espetáculo, como lembra Debord (A Sociedade do Espetáculo, § 220).
É bonito ver a história do séc. 19 e perceber como Marx podia olhar quase para toda a Europa e ver as práticas socialistas que ele ajudou a construir com sua ação teórica se avolumarem, e de alguma forma, tornarem-se mundo. Salvo, é claro, naqueles pontos em que a teoria construída ia aquém da prática mais avançada (Comuna de Paris p.ex.), em que ela teve de aprender coisas fundamentais e se modificar (autogestão, crítica dos anarquistas ao Estado etc.). Salvo também naqueles pontos, numerosos, em que hoje se percebe que tal teoria nunca entrou em prática de forma radical (crítica efetiva ao fetiche da mercadoria, do trabalho abstrato etc.). De fato, a teoria pode ir além da prática possível exigindo o que hoje é impossível. Teoria e Práxis não coincidem sempre, apesar de nunca desaparecer o seu elo indissolúvel. A teoria mais avançada sempre se nutre da práxis - mas não vice-versa. O marxismo vulgarizou essa relação crítica, mediada, sob o mandamento da Unidade monolítica de teoria e práxis. Exigir uma correspondência imediata entre ambas, subordinando tudo à prática, é sufocá-la. É isso, aliás, que vemos todos os dias em nossa vida quotidiana, reduzida então à tautologia rotineira da vida administrada - literalmente, em quotas do sempre igual. Aí já se antevê inclusive um ódio por qualquer momento autônomo que não pertença ao trabalho produtivo, à banalização da semana de 5 dias de trabalho e 2 dias de descanso.
Ponto 8 - (ou, como é impossível uma crítica social pronta e acabada)
Mais a frente um pouco, também será bonito ver o movimento situacionista já em 58, mais ainda em 68, mas não muito mais do que 69 e 70, pois ele também envelhece e perde seu impacto social. É o indivíduo que depois de expurgar a todos se viu quase sozinho com sua vontade de sujeitar o mundo a sua própria vontade. Faltou-lhes a "paciência do conceito", diria um hegeliano mais experiente. Assim, há coisas teóricas dos situacionistas que estão aquém da práxis atual (que perderam seu momento histórico e foram ultrapassadas) e coisas para além dela (crítica da vida cotidiana alienada, das necessidades, do trabalho etc.). E isso se repete em toda a tradição crítica que ainda vale alguma coisa, após o enterro teórico-prático do bolchevismo e do socialismo real: no anarquismo, no marxismo “heterodoxo” (frankfurtianos, deleuzianos etc.), nos autores conselhistas, no socialismo utópico etc.
Assim sendo, num momento de reavaliação de significados e sentidos, deve-se reconhecer que não há “teoria crítica” suficientemente madura. Krisis ou Exit estão longe de ter analisado a fundo e com rigor o fôlego de reprodução do sistema. Mesmo a análise da "crise do valor" é complicada, sem evidências suficientes, pois as contra-tendências atuam o tempo todo. Subestima-se, a meu ver, a capacidade de reprodução da forma do valor, enquanto sobrestima-se o papel objetivo das forças produtivas da Terceira Revolução Industrial, inclusive no processo de erosão do trabalho abstrato. A administração política-estatal da crise, provavelmente, é mais resistente do que se decreta nos textos escatológicos sobre o fim de tudo e de todos, menos do fetichismo que faz tudo perdurar. Muitas vezes, Kurz desvaloriza por completo, numa atitude abstrata e insensível, todos os movimentos sociais, taxando-os de mero imobilismo imanente, totalmente impotente. Assim fica difícil às vezes, em questões práticas, de se diferenciar do estruturalismo objetivista de um Althusser, em que pelo menos ainda havia algum conflito, alguma "luta de classes". Desta forma, não se consegue e não se quer ver realmente o movimento que está debaixo, camuflado, pelo fetichismo do dinheiro especulativo ou sob a forma genérica do "sujeito mônada-dinheiro"(Kurz). Tende-se a localizar o movimento apenas no puro “fetiche automático” do capital, quase que depositando todas as esperanças numa quebra sistemática dos mercados, no "colapso objetivo". Kurz, aliás, não consegue explicar porque países como Japão, mesmo tendo a mais alta tecnologia microeletrônica, não têm grandes taxas de desemprego, e continuam a crescer. O caso da China também é uma incógnita. Arriscar tendências, além de um certo ponto, torna-se mera profecia, que nem mesmo as bruxarias do "método dialético" podem legitimar. Provavelmente não é possível dizer qual o limite absoluto do sistema, pois se ele existe se se baseia, em última análise, não no valor (que é um resultado sempre a ser reposto), mas na flexibilidade da prática humana (diria até do corpo humano) e nas relações sociais que daí se apóiam - pois as pessoas, para sobreviver, aqui na periferia, em São Paulo ou na África, nós já sabemos muito bem, se adaptam e suportam tudo, qualquer trabalho, mesmo na fome e miséria mais terríveis. Analisar as formas da crise na periferia e a reprodução precária do sistema é o mais importante, e mesmo aqui há limitações estruturais do que se pode ou não dizer.
Talvez possa-se falar em "colapso da valorização" (como tendência desigual no tempo-espaço, e nunca um limite absoluto!!), mas não da relação de valor ou mercantil (o que pressupõe a propriedade privada). Provavelmente é isso que acontece: as coisas continuam a "valer", simulando mais valor que possuem. É a ditadura da forma - sem substância. Ou para ser mais exato: ditadura do "valor de troca" e da "propriedade privada", de todas as cadeias de equivalência asseguradas pelo Estado. Isso me faz pensar que a crise econômica é muito contornável ainda pelo Estado. Não há, a rigor, crise econômica do capital... as taxas de lucro continuam estáveis (ou não ?!), o crescimento em várias regiões do mundo continua, mesmo que num nível menor que depois da segunda guerra. O crédito, por definição lógica, pode ser "infinito" (afinal, qual o limite da "crença" nas instituições democráticas do mercado ?) e, de fato, não acho que há limites práticos visíveis para ele hoje. O padrão ouro foi substituído, no limite, pelo padrão baioneta, isto é, força militar (EUA, OTAN etc.). Se ainda não estourou não é possível ficar fazendo fé que estourará. É a velha mania marxista de esperança na "tendência objetiva", como se as políticas reprodutoras do Estado não dessem também sinais infinitos de estarem mais vivas do que nunca. A meu ver, então, a crise da valorização, por enquanto, em vez de "crise econômica e política", é somente crise social (o desemprego, a miséria, reproduzindo uma desigualdade brutal, acirramento dos conflitos racistas, xenófobos etc.).
Neste sentido, não há bloqueio efetivo da política em geral, mas apenas da política de esquerda mais radical. Desconsiderar isso seria cair num determinismo economicista. Por isso acho que precisamos estudar seriamente: por que e como as pessoas se adaptam, mesmo na crise mais brutal ? Que estruturas culturais e psíquicas ainda sustentam a ordem existente (e isso em cada país, em cada cultura etc) ? Papel importante nesta reprodução é feita pela classe média, que opera controles fundamentais na ordem social (indústria cultural, pesquisa tecnológica etc.), mas também como horizonte sedutor de ascensão social para os mais pobres. É daí que a política reprodutora do sistema extrai sua força e sua legitimação. Por outro lado, a superação do capitalismo não ocorre por nenhuma "tendência objetiva". Só a crise subjetiva com uma correspondente organização e de-cisão coletiva "revolucionária", múltipla e não-hierárquica, poderia tentar a ruptura com o sistema, ou seja, a superação de nossa forma comum de "sujeitos monetários-sem-dinheiro", ou, na conceituação clássica, de nós, "proletários" (o termo aqui não indica especificamente algo como a classe dos operários industriais "produtivos", mas algo mais amplo: aqueles que, não tendo nenhum controle sobre sua própria vida, têm o interesse de destruir suas correntes para auto-abolir sua condição de suportes do sistema fetichista). Aquilo que os grupos Krisis e Exit chamam de "proletariado" e "luta de classes" são formas sociológicas completamente reduzidas e historicamente demarcadas (o operário fabril produtivo e a luta por salários e reconhecimento jurídico). Tais conceitos, apesar de tudo, podem ser reutilizados de forma negativa (tal como Marx os cunhou), para descrever as lutas transcendentes ("luta de classes anticapitalista"), acionadas por interesses sensíveis ("proletários", por que não ?) contra as abstrações reais do capital e seus representantes (as instituições burguesas e estatais).
Assim sendo, não pode-se subscrever, vivendo num outro contexto diferente do alemão, todas as suas análises econômico-sociais. Há muitas coisas do contexto latino-americano e brasileiro que não se adequam à teoria geral da decadência do sistema tal como perpetrada pelos alemães, sempre instalada num nível muito alto de abstração teórica. (A própria questão da "crítica do sujeito iluminista", por exemplo, fica amiúde "fora do lugar" dentro da sociedade periférica, onde o tal sujeito não se efetivou completamente tal como na Europa: aqui entra em jogo, em termos muito amplos, a justa diferença entre a estrutura psíquica do neurótico e do perverso).
Se a teoria perde sua onipotência típica do iluminismo, então, não há passagem simples e imediata entre teoria e práxis, ou melhor, é preciso atentar para os diversos níveis em que elas são formuladas. Como diz Kurz, "com a crise e a crítica do sistema produtor de mercadorias, também se altera a posição da própria teoria. Enquanto crítica radical do valor, ela não pode mais obedecer ao real dogmatismo do dinheiro e tampouco carregar consigo um conceito de razão abstrato, dogmático e externo. A teoria capaz de conceber a si mesma não é mais o comitê central do espírito do mundo, e, por isso, não pode mais servir mais como instância legitimadora de nenhum comitê central político" (Os últimos combates - "A inteligentsia depois da luta de classes", pp.31-2). Mas apelar para uma "humanidade" ou "sociedade" em geral (como faz Kurz neste mesmo artigo) é recair na típica ilusão do sujeito humanista-iluminista, obviamente tão genérico e sem cor quanto o sujeito burguês mônada-dinheiro, que ele procura criticar. Pelo contrário, a noção mais concreta e sociologicamente mais flexível de "proletariado" começaria a englobar então, de modo bastante geral (mas qualitativamente), os interesses sensíveis daqueles que, auto-excluídos da racionalidade do valor (homens e mulheres concretos, com todas as suas peculiaridades: negros, mulheres, crianças, homossexuais, movimentos ecológicos, etc.), não aceitam mais sua posição imanente no sistema, sua posição de classe (sua classificação social hierárquica, como diz Holloway), enfim, sua sujeição ao mercado e ao Estado.
De toda forma, reforcemos mais uma vez: teoria pronta nunca haverá; o ojetivo explícito de uma teoria crítica geral não é se completar como teoria ou "filosofia" (da práxis) (para então se realizar), mas, sendo uma forma de crítica imanente resoluta (com intenções de transcender o sistema produtor de mercadorias), seu objetivo é se tornar paulatinamente desnecessária, porque as práxis emancipatórias específicas já irão criando as suas próprias teorias historicamente fundamentadas, os seus próprios objetivos prático-morais específicos, contextualizados, discutidos socialmente.
Ponto 9 - (ou, sobre a diferenciação de níveis de teoria e práxis):
Em todo esse caminho há um problema fundamental de método. Uma boa parte do pensamento de esquerda ainda confunde ou não diferencia suficientemente os vários momentos ou níveis de profundidade da práxis social, o que torna o debate, em geral, infértil. Na teoria crítica de Marx temos pelo menos dois níveis prático-discursivos rigorosamente interligados de forma dialética: o lógico e o histórico, isto é, o das leis estruturais imanentes da valorização do valor e o do processo de seu desenvolvimento temporal e espacial desigual. Não se trata de leis naturais separadas, abstratas, mas elas mesmas são a forma lógica da história acontecer, não como pura história da liberdade, mas como “história natural”, história coagida. O histórico, em Marx, não é a "pura história" do historicismo, pois é determinado pela lógica sistêmica coercitiva do valor. Dentro do nível lógico, temos também níveis da apresentação dialética das categorias: do livro I ao livro III de O Capital vamos do abstrato ao concreto, ou das determinações gerais à realidade efetiva (onde o fetichismo e a reificação aparecem em seu grau máximo), sem nunca poder esgotá-la.
Do mesmo modo, penso que há diversos níveis de atuação de uma práxis anticapitalista: há movimentos no nível do vivido cotidiano, pequenas lutas e conquistas que conseguimos na empresa, no bairro, na escola, na saúde etc. através da luta individual, de grupos, de classes inteiras. Há movimentos mais robustos, mas ainda no interior da reprodução do sistema capitalista, como o movimento por moradia, serviços básicos, a luta anti-racista, feminista, a tomada autogestionária de fábricas etc., as lutas pela inclusão cidadã (escolar, digital etc.), a luta dos sem-terra etc., além dos sindicatos e partidos (luta para governar, mesmo dentro dos limites estruturais da política hoje, os recursos públicos do Estado). E por fim, há um nível mais amplo e radical da transformação, que necessariamente passa pelo rompimento com as formas burocráticas fetichistas do Estado e do Mercado: mesmo aqui haverá que diferenciar momentos ainda internos, como o de negociação anticapitalista com a ordem estatal vigente, a superação do patriarcado moderno, até a atuação transcendente, como a produção para o auto-consumo, a organização autônoma e coletiva da própria vida, a liberação do tempo do trabalho etc.
Os bloqueios à política e à antipolítica, portanto, são muitos. É forçoso reconhecer que, após tantas derrotas, quase que voltamos ao ponto zero destas lutas.
(Agosto / 2006)
19 junho, 2006
FUTEBOL, CAPITAL, SADO-MASOQUISMO
Futebol, capital, sado-masoquismo
"Sob o ângulo da coação, a vida quotidiana é regida por um sistema econômico no qual a produção e o consumo da ofensa tende a equilibrar-se" (Raoul Vaneigem, Traité de savoir-vivre à usage des jeunes générations, 1967, chap.II, L´humiliation).
Cláudio R. Duarte
O futebol tornou-se um fenômeno exemplar de como o sistema capitalista pode transformar qualquer matéria em fonte de lucro e legitimação de si. No plano econômico, a chamada transição do "futebol-arte" para o "futebol-empresa", com direito a patrocínios milionários, conjugação com a tv, com times e jogadores valendo como títulos especulativos na bolsa de valores etc. é também sinal dos tempos de crise do capital mundial, que, na sua superacumulação, sobrecarrega-se mais no momento especulativo que no produtivo. Cultura e capital, simulação e negócios, são a mesma coisa hoje.
Naturalmente, nada há de "errado" com o futebol ou outro esporte em si mesmos, assim como nada há de "errado" com a "cultura popular". Trata-se então de fazer uma crítica da sua forma histórica. Nenhum esporte foi tão instrumentalizado, a partir dos anos 50, para servir aos interesses do capital e do Estado. Nesse entretempo ele se tornou uma das formas fundamentais de ideologia do sistema. Enquanto os campos de várzea iam sendo destruídos nas grandes cidades, o futebol ia virando profissão, depois puro negócio de uma elite de empresários, clubes e cartolas que vendem suas mercadorias semanalmente ao povo, duplamente expropriado, não só dos meios de produção mas agora também de seus meios de vida mais amplos (tempo livre, reprodução etc.). É claro que ele se mantém como o esporte coletivo mais popular e neste sentido a ideologia tem um fundo de realidade irredutível.
Seja como for, como ideologia, o futebol tende a se tornar a reunião forjada dos espectadores de um poderoso espetáculo da mercadoria. Atrelado à televisão e à propaganda global, torna-se o mais atual e eficaz "ópio do povo", atendendo, no contexto do mundo totalmente racionalizado, à fome de absoluto e transcendência das massas - fome ela mesma reproduzida por tal mundo racionalizado do capital, quando incessantemente engendra o isolamento individualista e a impotência coletiva. O principal serviço ideológico prestado pelo futebol é criar a ilusão de uma certa potência grupal ou nacional. É daí que o povo miserável extrai o que lhe resta de utopia de um mundo comum, no nacionalismo ou no tribalismo grupal. Este poder, contudo, não é mera ficção, pois senão a ideologia não teria eficácia. Da passividade espetacular passa-se a uma certa atividade: no futebol, a violência e a humilhação sofridas no mundo do trabalho são como que compensadas, numa forma de descarga coletiva de ódios e preconceitos raciais ou nacionais. É a famosa válvula de escape. É assim que o ideólogo pós-moderno Michel Maffesoli tem seu momento de razão quando diz que estamos no "tempo das tribos". O individualismo pós-moderno só sobrevive se desenvolvendo na formação patológica de "tribos" (no esporte, na música, na moda, etc.). Estas tribos impulsivamente "passam ao ato" (o acting out psicanalítico): o auto-sacrifício cotidiano isolado de cada um converte-se em paixão de destruir e de se auto-destruir coletivamente.
Naturalmente, nada há de "errado" com o futebol ou outro esporte em si mesmos, assim como nada há de "errado" com a "cultura popular". Trata-se então de fazer uma crítica da sua forma histórica. Nenhum esporte foi tão instrumentalizado, a partir dos anos 50, para servir aos interesses do capital e do Estado. Nesse entretempo ele se tornou uma das formas fundamentais de ideologia do sistema. Enquanto os campos de várzea iam sendo destruídos nas grandes cidades, o futebol ia virando profissão, depois puro negócio de uma elite de empresários, clubes e cartolas que vendem suas mercadorias semanalmente ao povo, duplamente expropriado, não só dos meios de produção mas agora também de seus meios de vida mais amplos (tempo livre, reprodução etc.). É claro que ele se mantém como o esporte coletivo mais popular e neste sentido a ideologia tem um fundo de realidade irredutível.
Seja como for, como ideologia, o futebol tende a se tornar a reunião forjada dos espectadores de um poderoso espetáculo da mercadoria. Atrelado à televisão e à propaganda global, torna-se o mais atual e eficaz "ópio do povo", atendendo, no contexto do mundo totalmente racionalizado, à fome de absoluto e transcendência das massas - fome ela mesma reproduzida por tal mundo racionalizado do capital, quando incessantemente engendra o isolamento individualista e a impotência coletiva. O principal serviço ideológico prestado pelo futebol é criar a ilusão de uma certa potência grupal ou nacional. É daí que o povo miserável extrai o que lhe resta de utopia de um mundo comum, no nacionalismo ou no tribalismo grupal. Este poder, contudo, não é mera ficção, pois senão a ideologia não teria eficácia. Da passividade espetacular passa-se a uma certa atividade: no futebol, a violência e a humilhação sofridas no mundo do trabalho são como que compensadas, numa forma de descarga coletiva de ódios e preconceitos raciais ou nacionais. É a famosa válvula de escape. É assim que o ideólogo pós-moderno Michel Maffesoli tem seu momento de razão quando diz que estamos no "tempo das tribos". O individualismo pós-moderno só sobrevive se desenvolvendo na formação patológica de "tribos" (no esporte, na música, na moda, etc.). Estas tribos impulsivamente "passam ao ato" (o acting out psicanalítico): o auto-sacrifício cotidiano isolado de cada um converte-se em paixão de destruir e de se auto-destruir coletivamente.
Sem dúvida, as torcidas organizadas são grupos proto-fascistas, que em momentos especiais, trazem à tona as tendências sádicas de seu narcisismo coletivo. Ocorre então uma espécie de canalização "produtiva" da violência social inconsciente, deslocada do conjunto das relações de dominação e exploração para bodes-expiatórios casuais. Rubem Alves, numa de suas crônicas, intuiu com clareza a relação entre futebol e prazer sado-masoquista, apesar de apagar sua especificidade histórica. O prazer obtido com o futebol competitivo, o da indústria cultural atual, não tem a ver diretamente com algum tipo de gozo estético. Daí a tendência irremediável à morte do "futebol-arte". Este não leva a nada. O futebol pragmático é um espetáculo de perversão grupal:
"É pra sofrer e fazer sofrer: um espetáculo depravado, perverso, onde o orgasmo acontece sobre o sado-masoquismo. Ninguém assiste a um jogo de futebol por razões estéticas. O tesão do futebol se encontra, precisamente, na possibilidade de fazer o outro sofrer. Pois o que é um gol? Um gol é um estupro. O prazer do gol é o prazer de ter estuprado o adversário, de ter metido a bola da gente no buraco dele contra a vontade dele. Uma partida de futebol é uma tentativa de estupro estilizada. Vai um time levando a bola, a bola tem de estar bem cheia, dura, vai o jogador ludibriando as tentativas de defesa, passando a bola no meio das pernas, o outro time faz tudo para evitar, fecha os buracos, todos lutando, não querem que a bola entre no lugar mais sagrado do seu time, aquele buraco guardado pelo goleiro, vem o chute potente, a bola vai, o goleiro se estira, inutilmente, a bola entra. Gol! O estupro aconteceu" ("O futebol e o estupro", 1998 http://www.releituras.com/rubemalves_futebol.asp ).
O futebol de massas se assemelha muito às touradas ou aos sacrifícios humanos no Coliseu. Há muito tornou-se um espetáculo de hipnose maníaca em massa. No futebol como no desenho de "Tom e Jerry" o riso provém do sofrimento inflingido ao vilão: desde cedo a garotada aprende que desenhos "bonzinhos" demais não têm graça. No futebol como no estupro, segundo o raciocínio genérico de Rubem Alves, o prazer é extraído da vontade de domínio, da sensação de força e controle total sobre o outro:
"A torcida grita de prazer. É o orgasmo. E geme a torcida do estuprado: qualquer penetração violenta dói muito. Mas o prazer do estuprador está precisamente nisso: é o sofrimento do outro que lhe dá uma medida da sua potência. Nada mais broxante para o estuprador que encontrar uma vítima que não ofereça resistência, que se abra toda e até goste. A tentativa de estupro terminaria na hora. O estuprador ficaria broxa. O mesmo com o futebol. É a resistência ao estupro que dá ao estuprador a medida de sua macheza. Cada prazer de gol é prazer de um estupro bem sucedido" (id. ibid.).
Por isso talvez futebol combine tanto com a conduta machista e com a racionalidade instrumental do valor-capital. Numa Copa o que se quer, antes que jogar bonito, é vencer inimigos poderosos como a Argentina, para exprimir um poder que não se tem no dia-a-dia -- e não os times fracos, os "café com leite". Pouco importam os meios estéticos portanto: jogando feio, 1 x 0, é isso que importa, se permitir a descarga social da violência contida.
Mas com o futebol de resultados, espelho perfeito do pragmatismo capitalista, é este último quem revela suas verdadeiras implicações psicológicas quotidianas. Quando a violência explode fora dos jogos, o sistema finge não saber de onde ela vem. A tortura e a renúncia acumuladas diariamente podem vazar a qualquer momento de seu recipiente espetacular: na atividade violentamente fanática das torcidas ou mundo afora, no trânsito, na escola, nos espancamentos racistas, no estupro ou no escapismo do álcool ou das drogas. Neste como noutros casos, como diz Vaneigem em seu Tratado de saber-viver,
"Aquilo que produz o bem geral é sempre terrível."
(jun./2006)
13 maio, 2006
UM ARCHOTE DOS TEMPOS SOMBRIOS - Karl Kraus e a crítica da linguagem da mercadoria
Um archote dos tempos sombrios
Karl Kraus e a crítica da linguagem da mercadoria
"La bourse est la vie" (Kraus)
Cláudio R. Duarte
Uma leitura concentrada no jornal diário com inflexível presença de espírito crítico sempre colhe absurdos lingüísticos da sociedade fetichista. Procurando a esmo, logo se encontra algo:
"Notícia boa: SP quebrou recorde de consumo de energia às 18h21 do dia 26: as indústrias, funcionando a pleno vapor, gastaram 19.639 W" (Folha de SP, 03/05/06, E-2).
A exatidão dos números, a do recorde na utilização de energia, apenas encobre a falta de questionamento de seu sentido: o dispêndio abstrato de energia serve a quem, para que, a qual custo prático e sensível ? A única questão nas outras linhas do jornal é, pelo contrário, o futuro desse crescimento, dada à dependência de termoelétricas movidas a gás boliviano. Ou seja, uma questão nacionalista.
Próximo à Primeira Guerra Mundial, um escritor de língua alemã, Karl Kraus (1874-1936), já divisava o mesmo tipo de fenômeno na linguaguem cotidiana:
"´Esta guerra tem servido...´Sim, sim, esta guerra tem servido!"; e comenta ainda sarcasticamente, o autor: "É com razão que, nas reflexões sobre cultura e a guerra, constantemente se ouve dizer que os outros é que são utilitaristas. Esta concepção provém do idealismo alemão, que cercou de uma aura mesmo os gêneros alimentícios e os laxantes". E noutro trecho: "Eu posso provar que se trata mesmo do povo dos poetas e dos filósofos. Possuo um rolo de papel higiênico publicado em Berlim e contém em cada folha uma citação de um clássico apropriada à situação."
Mas as situações do mundo burguês como que pedem e produzem seu próprio comentário, através da maquinaria da imprensa e da propaganda:
"Certa vez, por entre o barulho de uma rua de trânsito louco, ouvi este pregão: ´Bar cavaleiro da rosa - o cantinho mais aconchegante do mundo!´ Perante experiências destas, a posição mais favorável do ponto de vista estratégico de pouco sossego pode servir."
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Há 70 anos atrás morria o inclassificável escritor Karl Kraus, o principal responsável pela revista Die Fackel ("O archote"). Para se ter uma idéia da enormidade de sua produção, foram 922 números, em cerca de 30.000 páginas, na maioria escritas por ele mesmo, além de coletâneas de poemas e peças teatrais como Die Letzten Tage der Menschheit ("Os últimos dias da humanidade"), Die Dritte Walpurgisnacht ("A terceira noite de Walpurgis") e a comédia Die Unüberwindlichen ("Os invencíveis"), a primeira feita para ser encenada durante 9 horas seguidas. Tudo somado, nos deparamos talvez com a mais extensa obra literária jamais escrita.
Sua matéria predileta foi a linguagem - ou melhor, a anatomia da linguagem num determinado contexto social, o da imprensa burguesa de seu tempo: "O maior evento local, presente a cada momento em toda parte, é o menos observado: a irrupção do caixeiro na vida intelectual".
Karl Kraus foi um mestre do aforismo, composto pela frase cortante, pelo dito sarcástico, pela ironia ácida, pelo jogo com o duplo sentido, e por isso também, um cultor da crítica de tradição dialética, como reconheceram Benjamin e Adorno. "Há escritores que podem expressar em vinte páginas", diz ele, "aquilo para o que, às vezes, preciso de até duas linhas".
Kraus fitou de perto o poder na linguagem e armou a linguagem para combater o poder. Sente isso no corpo. "Uma antítese", diz ele neste sentido, "parece apenas uma inversão mecânica. Mas que conteúdo de experimento, de sofrimento e de conhecimento é preciso adquirir até que se possa inverter uma palavra!"
Pioneiramente percebeu ele a conexão, tão contemporânea nossa, entre ideologia liberal, pragmatismo (ou Realpolitik) e cinismo, cristalizados no reino da opinião massificada. "O pensamento é um filho do amor. A opinião é reconhecida na sociedade burguesa". Kraus não suporta as meia-verdades do que ele chama "opinião". Julga as coisas sem concessões, pelo seu próprio conceito. Do mesmo modo, "o aforisma", diz ele, "jamais coincide com a verdade; ou é meia-verdade ou é verdade e meia." Seu gesto é de resistência à identificação, negatividade em relação ao que parece positivo. Daí as variações, a profusão de aspectos de uma mesma coisa, de aforisma para aforisma.
A ele, o jargão jornalístico ou científico, a frase feita, o estereótipo, o decalque adjetivado do mundo existente, a busca estratégica do efeito retórico eram sinal freqüente de coisificação do espírito. Contra isso, uma longa argumentação poderia ser ineficaz. Kraus divisou bem a impotência da crítica face ao cinismo atual, para o qual tudo vale, contanto que seja a favor do interessado. Daí talvez o recurso à tirada seca e ágil. "Um aforisma não pode ser ditado à máquina de escrever. Demoraria muito".
Kraus imerge nas deformações históricas da linguagem e se utiliza de seus próprios meios para expor seu ridículo. "Eu só domino a linguagem dos outros. A minha faz de mim o que quer". Nosso autor, um "artista servidor da linguagem" (como se autodenomina), tem uma sorte de "ouvido absoluto" ("Um escreve porque vê; o outro, porque ouve") para a barbárie circulante na linguagem da imprensa e das ruas. "O verdadeiro inimigo do nosso tempo é a linguagem. Ela vive em entendimento direto com o espírito que o tempo faz revoltar-se. É aqui que pode gerar-se a conspiração que a arte é". A forma krausiana do aforismo, neste sentido, imita o poder para desconcertá-lo; nas suas tijoladas, sente-se a sentenciosidade, a imponência, a rigidez, a agilidade e a força do próprio poder. Com o tempo, porém, basicamente depois da Primeira Guerra, ele foi cada vez menos se utilizando do aforisma, adotando textos mais longos, cada vez menos fechados em si, explodindo sua aura de completude. Sinal de que até mesmo a forma breve pode se tornar utilizável para a repetição do mesmo, para o poder ?
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Ponto culminante da lógica da mercadoria para Kraus foi a eclosão da grande guerra na Europa. "O que agora mais importância tem é aquilo que agora menos importa: o sangue e o dinheiro". Mas este tipo de hipocrisia é coisa de tempos antigos. A guerra tem diretamente a ver com o comércio, e só o diabo pode agora se envergonhar disso:
"Se tivessem contado ao diabo, que sempre teve uma enorme paixão pela guerra, que um dia haveria homens para quem a continuação desta representa um interesse comercial, que eles nem se dão ao trabalho de disfarçar e cujo produto ainda os ajuda a ocupar um lugar de destaque na sociedade, ele teria dito para irem contar isso à avó dele. Mas depois, quando se tivesse convencido do fato, o inferno teria ficado abrasado de vergonha e ele não teria outro remédio senão reconhecer que por toda vida fora um pobre diabo!"
A convivência promíscua de cultura e barbárie, esclarecimento e destruição, não se envergonha mais de si. "O mal nunca prospera melhor", diz Kraus, "do que quando lhe põem um ideal à frente."
A relação entre discurso, mercado e guerra, foi amiúde observada por ele:
"´Conquistar o mercado mundial´; por os negociantes assim falarem é que os soldados assim agiram. Desde então fazem-se conquistas, embora não a do mercado mundial".
Ou neste texto mais longo, cheio de apontamentos interessantes:
"Entre a linguagem e a guerra pode verificar-se por exemplo a seguinte relação: o fato de a língua que mais cristalizou na frase feita e no artigo de armazém declarar também a propensão e a disposição para substituir a substância por um sucedâneo da inflexão de voz, para achar convictamente irrepreensível em si própria aquilo que nos outros só é motivo de crítica, para denunciar indignadamente aquilo que também se tem o hábito de fazer, para prender toda a dúvida num emaranhado de frases, e para afastar sem custo como um ataque inimigo toda a suspeita de que nem tudo está em ordem".
Nestas condições, todo discurso é discurso do poder, cheio de táticas de camuflagem e estratégias de ataque e contra-ataque:
"Eis a eminente qualidade de uma língua que hoje se parece com aquele produto acabado cujo escoamento constitui o objetivo na vida daqueles que a falam; ela brilha como uma auréola e já não tem senão a alma simples do honrado burguês que nem por sombras tinha tempo para cometer uma ação reprovável, porque a sua vida só foi dedicada e gasta no negócio e, se não foi bastante, fica uma conta a descoberto".
Como na guerra, no discurso quotidiano reina a pura falta de tempo qualitativo, isto é, o tempo abstrato do utilitarismo. A guerra, com toda sua brutalidade e velocidade de escoamento, é só a continuação mais extrema da barbárie vivida diariamente no mercado dos homens. A normalidade capitalista já é este mercado: "Tudo o que é alegado falsamente contra uma condução bárbara da guerra tem por alvo, sem que o ódio disso se dê conta, uma condução bárbara da paz."
Daí um de seus mais fortes veredictos, constante de seu livro Nachts ("Noite Fechada", de 1919):
"O estado em que vivemos é o verdadeiro apocalipse: o apocalipse estável."
Daí também uma sentença desesperadora como esta, no final de seus Sprüche und Widerspruche ("Ditos e desditos", de 1909):
"Não se vive nem uma vez."
Só que isso não precisa ser entendido metaforicamente. A morte lenta dos sentidos, segundo Kraus, é diária:
"A missão da imprensa é a de difundir o espírito e, ao mesmo tempo, destruir toda a capacidade de assimilação." Isto é, na verdade, "o jornalismo serve apenas aparentemente ao dia-a-dia. Na verdade, destrói a receptividade espiritual da posteridade."
A destruição da experiência e o desencantamento são reais,
"As palavras de um poeta, o amor de uma mulher, são sempre coisas que acontecem pela primeira vez."
Ou ainda:
"Logo fará dez anos que nunca mais recobrei os sentidos. A última vez que tornei a mim, fundei um jornal de combate".
É que Kraus não se resigna à mera contemplação da mercadoria:
"Os povos que ainda adoram fetiches jamais descerão ao ponto de supor que a mercadoria tem alma."
A crítica da "sociedade do espetáculo", da mesma forma, foi prenunciada muitas vezes por ele:
A crítica da "sociedade do espetáculo", da mesma forma, foi prenunciada muitas vezes por ele:
"Política é efeito cênico (...) política e teatro: o ritmo é tudo; o significado nada."
ou ainda, "Não há mais produtores, apenas mais representantes".
E apesar da alienação social geral, Kraus tinha claro para si a participação ativa dos homens na reprodução do sistema que os aprisiona. Numa época de cinismo generalizado, a ideologia perde seu sentido original. Como que parafraseando o Evangelho e Karl Marx, ele escreve:
"Senhor, perdoai-os, porque eles sabem o que fazem."
Mas isso, sem manter ilusões com o sistema democrático capitalista. Aliás, de passagem, diz numa seção de Ditos e Desditos: "´Deixar de ilusões´: é então que elas começam". Já numa bela definição das origens da democracia burguesa, ele desfere:
"A democracia divide os seres humanos em trabalhadores e ociosos. Ela não foi instituída por aqueles que não tem tempo para o trabalho."
Reconhece ele, assim, como fundamento do sistema e da própria democracia, a divisão alienada do trabalho:
"Nossa cultura de três gavetas: trabalho, lazer e instrução; quando uma está aberta as outras se fecham."
Ou nesse outro texto: "Toda vida no Estado e na sociedade reside na pressuposição tácita de que o ser humano não pensa. Uma cabeça que, em todas as situações, não represente um receptáculo vazio terá dificuldades no mundo."
Numa inversão dialética, é justamente da falta de tempo - do tempo abstrato do mercado -, a posição da qual o autor fala e pode sustentar sua escrita:
"Desprezemos as pessoas que não têm tempo. Lamentemos as pessoas que não têm trabalho. Mas os homens que não têm tempo para o trabalho, que sejam invejados!"
Pois é da alienação básica do tempo, convertido em mercadoria, que se erige todo um sistema social, com suas coisificações lingüísticas. Já não se escreve, nestes tempos, "a bolsa e a vida", mas "a bolsa é a vida". A arte de Kraus se converterá então em algo negativo:
"A arte só pode nascer da recusa. Só do grito, não da aquietação. A arte, chamada como conforto, abandona com uma maldição o quarto onde a humanidade agoniza. Faz da desesperança o caminho para a realização plena."
(janeiro - maio /2006).
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