"Grátis"O ato falho da maquinaria social capitalista
Cláudio R. Duarte
1- A troca sem troca: o(a) troço(a) de graça
A comunicação direta entre os homens vai se extinguindo na medida em que cresce a comunicação desenfreada entre as coisas. A era da informação global é a realidade do embuste ideológico após ter sido decretado sua extinção. Nas caixas de correios as pessoas não recebem mais cartas, mas apenas jornais dos supermercados. Nas caixas de correio eletrônico o que mais se encontra não são correspondências entre amigos, mas o marketing barato, reconhecido por todos como "lixo" (spam), inclusive pelos provedores oficiais, que hipocritamente não consideram as suas telas de marketing, jogos estúpidos e serviços inúteis como outras formas de lixo "gratuito" – ou "muito bem pagos" obrigado. Já por seus nomes, os provedores deste lixo, supostamente gratuitos e universalmente acessíveis, são um gracioso escárnio, nomes que passam despercebidos a cada nova conexão (Yahoo, IG, Terra, UOL etc.). No supermercado, a mocinha bem vestida representante da firma dá até o de comer e beber, tudo grátis, na zona de degustação. Nos shoppings, afora o ambiente laboratorialmente planejado para agraciar seus passantes com a hospitalidade de um útero mercantil, a cada metro e meio, mais e mais ofertas baratas, promoções relâmpago, liqüidações e queimas de estoque. Mas lá como cá, no trânsito cinzento da cidade, a adolescente cujo trabalho é entregar nos carros folhetos de apartamentos não precisa dizer uma palavra: é como se o folheto viesse direto às nossas mãos ao baixarmos (ou não) o vidro; a comunicação aumenta conforme aumenta o trânsito: mas esta não é entre eu professor/motorista e a ex-estudante entregadora de papel, ou o homem fantasiado esdruxulamente de folha de árvore, senão entre o folheto e o vidro do carro, ou para ser mais preciso, a comunicação secreta, quase-mística, entre o apartamento e minha conta bancária.
Nas ruas de qualquer centro comercial, o encontro fundamental hoje é o da mercadoria com o dinheiro no bolso alheio. A cidade torna-se o lugar do trânsito veloz da troca sem troca: não só o da troca da relação salarial, que é "mera aparência" (Marx, O Capital, Liv.I, cap.22) pois subjaz como relação de exploração, nem só essa da troca "gratuita" na esfera superficialíssima do consumo, feita sem a necessidade aparente da retribuição, mas sobretudo da troca feita absolutamente sem comunicação humana, a não ser a das próprias coisas, de onde se ergue nossa dominação social específica.
2- A democratização da coisificação
A coisificação se dissemina como um vírus informático, não por maldade de um programador, mas porque é cada vez mais barateada e, assim, banalmente aceita no vivido sem reflexão, facilmente integrando a todos - "democraticamente" como alguns cínicos ainda dizem. É como se esta mortificação silenciosa dos homens, o mutismo sistemático de seus interesses e desejos estivesse programado na lógica do grátis, como um cala-boca virótico embutido em cada mercadoria, em cada "serviço" prestado. Cada mercadoria não simplesmente "custa tanto" para atender a uma necessidade, mas aparece prestando um serviço a mais, como uma "cortesia", um "presente" extraordinário. Simula-se assim uma sociedade em torno da "dádiva" e da lógica do "potlatch", tal como analisada por Mauss (1). A mercadoria talvez confesse assim que, sem este brinde mágico, ela é tão trivial ou uma porcaria fungível quanto as outras. Na disseminação do brinde, no show culinário de fácil assimilação ou mesmo nos programas com certa alma cultural e filantrópica, onde a mercantilização parece menos direta e descarada, vai se propagando a aceitação do sistema como um todo. O consumido é menos uma mercadoria isolada, propagandeada no intervalo, ou o produto semi-cultural do horário nobre – o coquetel indigesto de diversão, empulhação e marketing cultural – que a gratificação antecipada de poder pertencer confortavelmente a esse todo, mesmo que de forma completamente abstrata e imaginária. As fofocas do star system deixam a todos com o sentimento íntimo de pertencer à Grande Família dos homens. O sistema da indústria cultural, esperto como é, apela para objetos do desejo de todos: só que este, no fundo, é cada vez mais um sistema completo de objetos, o pacotão espetacular representado pelo todo mercantilizado.
Se nem tudo pode ser gratuito - e o gratuito confirma que quase todo o resto é muitíssimo bem pago, sim senhor, obrigado - restam os famosos "negócios da China", o "festival" de liqüidações e promoções, o único que esta perfeita sociedade do trabalho ainda conserva. É assim que se pode suportar uma vida recalcada: deixando o recalcado retornar à noite ou no final de semana no tempo "livre". Promoções não faltam para saldar o encalhe, que, mobilizando o consumidor, maltratam-no de dia como trabalhador mobilizado pelo capital, para o "bem tratar" à noite na "promoção do dia". O novo superego social difuso, que impõe o gozo, estabelece o "serviço dos bens" (Lacan, Seminário VII), produzidos de dia, sob a normalidade capitalista. Tal promoção, na verdade, é a pró-moção do dia, o movimento contínuo sob a luz da razão industrial, onde reina soberano o trabalho excedente. Neste mundo, assim, nada se afirma isoladamente, tudo tem um ritmo assim fortemente circular, atado a seu negativo (trabalho/vida privada/consumo). Assim é que o grátis se dá sobretudo à noite, como gorjeta para o rebanho bem-comportado, após o dia já ter cada vez mais se transformado em puro tempo custoso, desgastante, tempo do dispêndio abstrato de "cérebro, músculos, nervos, mãos"(Marx, O Capital, Liv.I, Cap.1) do produtor de mercadorias.
3- "Grátis": do ato falho à denegação e formação de compromisso
Quanto mais o sistema parece dar tudo grátis aos homens mais ele lhes tolhe sua relação social fundamental: a comunicação com o outro, o pensamento individual e coletivo, a discussão crítica sobre o sentido de todo esse encadeamento de coisas. Quanto mais mobilização do trabalho mais desmobilização social, quanto mais promoções da mercadoria e do espetáculo, menos moções sociais daquilo que realmente importa na vida. Há aqui, no entanto, uma expressão camuflada da contradição estrutural do sistema. Ora, quanto mais o mercado aparece sob a máscara da benfeitoria, do puro valor de uso, portanto do gratuito, mais domina a pura forma vazia do valor de troca, do preço sem valor correspondente. As coisas ganham um preço nominal, mas devem conter realmente cada vez menos valor - se levarmos a derivação lógica da teoria do valor até o limite histórico, que aparentemente foi alcançado (2). Numa economia em que a exploração do trabalho abstrato vai se esgotando, e, assim também, a grandeza de valor real unitária e da massa total de produtos, o gratuito deveria ser virtualmente tudo, não só o que aparece como tal na "agradável" promoção universal. É assim que a mentira sistêmica torna-se tão oca que é possível, às vezes, imaginar o outro por trás da parede espessa, mas cada vez mais transparente, de sua aparência. Apesar de tudo, a sedução da gratuidade pode não ser pura fantasia ideológica. Mas isso parece que requer precisamente aquilo que Lacan denominou "traversée du fantasme", a travessia da fantasia (3).
3- "Grátis": do ato falho à denegação e formação de compromisso
Quanto mais o sistema parece dar tudo grátis aos homens mais ele lhes tolhe sua relação social fundamental: a comunicação com o outro, o pensamento individual e coletivo, a discussão crítica sobre o sentido de todo esse encadeamento de coisas. Quanto mais mobilização do trabalho mais desmobilização social, quanto mais promoções da mercadoria e do espetáculo, menos moções sociais daquilo que realmente importa na vida. Há aqui, no entanto, uma expressão camuflada da contradição estrutural do sistema. Ora, quanto mais o mercado aparece sob a máscara da benfeitoria, do puro valor de uso, portanto do gratuito, mais domina a pura forma vazia do valor de troca, do preço sem valor correspondente. As coisas ganham um preço nominal, mas devem conter realmente cada vez menos valor - se levarmos a derivação lógica da teoria do valor até o limite histórico, que aparentemente foi alcançado (2). Numa economia em que a exploração do trabalho abstrato vai se esgotando, e, assim também, a grandeza de valor real unitária e da massa total de produtos, o gratuito deveria ser virtualmente tudo, não só o que aparece como tal na "agradável" promoção universal. É assim que a mentira sistêmica torna-se tão oca que é possível, às vezes, imaginar o outro por trás da parede espessa, mas cada vez mais transparente, de sua aparência. Apesar de tudo, a sedução da gratuidade pode não ser pura fantasia ideológica. Mas isso parece que requer precisamente aquilo que Lacan denominou "traversée du fantasme", a travessia da fantasia (3).
É que o sistema coercitivo pode se travestir de seu contrário na lógica do grátis, mas esse contrário é uma forma de "retorno do recalcado", um meio de expressão de sua verdade mais profunda. O grátis opera, então, como uma espécie de ato falho, vindo diretamente como que do inconsciente dos sujeitos-apêndices da maquinaria social capitalista, como o sintoma de um conteúdo de verdade latente: a de que o "reino da liberdade", livre da forma-mercadoria, é cada vez mais possível. Algo dessa verdade vem à tona, então, inconscientemente na proliferação global do grátis. A ordem do capital, fundada no valor/cisão patriarcal, seria como que momentaneamente "transgredida" e "desmistificada" como produto e arbitrariedade social. Claro que numa forma velada e dificilmente percebida, pois o gratuito, o livre da coerção do valor e da propriedade, reaparece alucinatoriamente, mas sempre acorrentado pela forma vazia do valor de troca. Como pura forma fetichista, a etiqueta de preço atada a cada produto torna-se então uma espécie de "denegação" (a "Verneinung"(4) freudiana) do desejo social inconsciente; ou seja, uma forma de resistência e de defesa, que nega a sua plena gratuidade, virtual, mas que não deixa de vir à tona compulsivamente na promoção do grátis, na ética hedonista etc. Mas como um neurótico obsessivo "coletivo" (5), o sistema coercitivo afirma compulsivamente o seu desejo, o seu fim – o gratuito, o livre de coerção – mas denega suprimindo terminantemente aquilo que afirma, pois o grátis acaba servindo apenas para reconfirmar que tudo o mais deve ser eternamente pago para ser usado; no limite desta lógica, no ambiente cultural pós-moderno, tem-se a aceitação cínica do fetiche do valor/cisão como mera convenção ritual-simbólica, como forma sem substância, que virtualmente não deveria regular mais nada: uma espécie de "negação da negação" (6), e menos que isso - falsamente reconciliadora; ou seja, a admissão forçada do não-gratuito e do não-livre como uma sorte de "formação reativa", isto é, uma "formação de compromisso"(7) bastante curiosa, em que se persiste ativamente na afirmação ascética do trabalho contra a realização não-sublimada do desejo. Ao neurótico - que não quer saber nada d´isso - resta "gozar de seu sintoma"(8). Acaba vencendo, assim, o velho hábito neurótico-religioso da sociedade burguesa, tornado ditado popular: por um lado, "de graça até injeção na testa", mas "quando a esmola é demais o santo desconfia".
Notas:
1- Mauss, Marcel - "Ensaio sobre a dádiva. Forma e razão da troca nas sociedades arcaicas" [1925] in:___. Sociologia e Antropologia. São Paulo: Cosac & Naify, 2003, pp.183-314. A dádiva e o potlatch são formas básicas de troca entre grupos das sociedades primitivas, que envolvem múltiplas dimensões da vida (sociais, econômicas, políticas, religiosas, morais, jurídicas, estéticas etc.), que Mauss chamou de "sistema de prestações e contraprestações totais". Através deles são trocados, sob a forma de regalos e presentes, toda a forma de riqueza comunitária (não só bens úteis, mas também "amabilidades, banquetes, ritos, serviços militares, mulheres, crianças, danças, festas, feiras", p.191). No potlatch propriamente dito, tem-se uma prestação total de tipo agonístico, onde as coletividades trocam entre si com rivalidade e antagonismo guerreiro (entre nobres e chefes) até a "destruição puramente suntuária" de suas riquezas excedentes, e no limite, até a morte, para assegurar um lugar mais alto em prestígio e poder na hierarquia de clãs. Mauss observou claramente a racionalidade abstrata, formal e instrumental já pressuposta nesta lógica social concreta: "o caráter voluntário, por assim dizer, aparentemente livre e gratuito, e no entanto obrigatório e interessado, dessas prestações. Elas assumiram quase sempre a forma do regalo, do presente oferecido generosamente, mesmo quando, nesse gesto que acompanha a transação, há somente ficção, formalismo e mentira social, e quando há, no fundo, obrigação e interesse econômico" (op.cit, p. 188).
2- Ver em específico - Kurz, Robert - "A ascensão do dinheiro aos céus. Os limites estruturais da valorização do capital, o capitalismo de cassino e a crise financeira global" ["Die Himmelfahrt des Gelds", Krisis 16/17, Horlemann Verlag, Bad Honnef, 1995] in: http://obeco.planetaclix.pt/rkurz101.htm
2- Ver em específico - Kurz, Robert - "A ascensão do dinheiro aos céus. Os limites estruturais da valorização do capital, o capitalismo de cassino e a crise financeira global" ["Die Himmelfahrt des Gelds", Krisis 16/17, Horlemann Verlag, Bad Honnef, 1995] in: http://obeco.planetaclix.pt/rkurz101.htm
3- A travessia da fantasia implica num processo "dialético" de desidentificação do sujeito em relação ao seu fantasma fundamental, que o estruturava, e uma nova identificação com seu desejo, para algo além do ego ideal e do ideal do ego, na ordem do Real e do Ato. "A análise, ao levar o sujeito a atravessar a fantasia, promove um abalo e uma modificação, nas relações do sujeito com a realidade, levando-a a uma zona de incerteza, pois ele é largado pela âncora da fantasia, liberado das amarras das identificações [imaginárias] que mapeavam sua realidade. Nesse momento, nada pode escamotear sua castração. Esse sujeito destituído encontrará sua certeza em seu ser de objeto (...) O que está em jogo na travessia da fantasia no final da análise é a perda do ser de toda sua substância de objeto. O fim de análise deve permitir ao sujeito renunciar ao que lhe dava a impressão em sua fantasia de lhe oferecer esse complemento de ser" (Quinet, Antonio - As 4 + 1 condições da análise. Rio de Janeiro, Zahar, 2002, p.104). Pensando no contexto social atual, Zizek escreve: "Na vida diária, estamos imersos na ´realidade´ (estruturada e suportada pela fantasia) e essa imersão é perturbada por sintomas que atestam o fato de que outro nível reprimido de nossa psique resiste a ela. ´Atravesssar a fantasia´, então, significa identificar-se totalmente com a fantasia - a saber, com a fantasia que estrutura o excesso que resiste à nossa imersão na realidade diária" (Zizek, Slavoj - Bem vindo ao deserto do real ! , São Paulo, Boitempo, 2003, p.32). Bruce Fink completa: "Onde uma vez reinou o discurso do Outro, dominado pelo desejo do Outro o sujeito é capaz de dizer ´Eu´ (...) A travessia da fantasia é o processo pelo qual o sujeito subjetiva o trauma, chama a si a responsabilidade do evento traumático, e assume a responsabilidade por aquele gozo." (O sujeito lacaniano: entre a linguagem e o gozo. Rio de Janeiro, Zahar, 1998, p.86).
4- Negação ou (de)negação: "Processo pelo qual o indivíduo, embora formulando um dos seus desejos, pensamentos ou sentimentos, até aí recalcado, continua a defender-se dele negando que lhe pertença" (Laplanche, J. & Pontalis, J.-B., Vocabulário de Psicanálise. 10ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 1988, p.373). No texto "A Denegação" (Die Verneinung, 1925) Freud diz: "O conteúdo de representação ou de pensamento recalcado pode abrir passagem até a consciência, com a condição de que ele possa ser (de)negado. A denegação constitui um modo de tomar conhecimento do recalcado; de fato, já é uma suspensão do recalcamento (eigentlich schon eine Aufhebung der Verdrängung), embora não, é claro, uma aceitação do recalcado. Vê-se aqui como a função intelectual separa-se do processo afetivo. Com o auxílio da denegação apenas uma conseqüência do processo da repressão é anulada, de modo que seu conteúdo de representação não chega à consciência. O resultado disso é uma espécie de aceitação intelectual do recalcado, com a persistência do essencial do recalcamento" (Gesammelte Werke, vol. XIV, p.12; Standard Edition Brasileira, vol. XIX, p.296). Ou ainda: http://www.khristophoros.net/verneinung.html
5- Aqui é claro que se trata de uma metáfora, já que o "sistema" como tal não "tem" um inconsciente psicanalítico, mas apenas "é" inconsciente, no sentido preciso em que é um processo social fetichista e realmente coisificado. Mas a metáfora parece minimamente válida na medida em que os sujeitos que o mobilizam, como "apêndices da maquinaria" do capital, o fazem expressando o seu inconsciente em determinado contexto, em certas relações objetais de uma mesma totalidade, expressando assim os seus conflitos psíquicos comuns, que podem ser formalizados num nível metapsicológico. Aqui se trata da relação obscura, pois difícil de determinar, entre o inconsciente dos sujeitos particulares e o inconsciente social da forma-mercadoria (que constitui formas "objetivamente válidas" de pensar e agir no interior do sistema, segundo a análise de Marx). Se os dois inconscientes não coincidem, tal como o recalcamento não coincide com a dominação/repressão social, ao menos pode-se supor que o inconsciente do sujeito burguês, sujeitado a certas relações objetais etc., não é totalmente "a-temporal", "estrutural" num sentido completamente genérico e antropológico como assume o lacanismo, ou pior, "arcaico", com traços "filogenéticos", como ainda Freud postulou.
6- Curiosamente, na seqüência de "Die Verneinung", acima citado, analogamente Freud diz: "No curso do trabalho analítico, criamos amiúde uma outra modificação muito importante e bastante estranha da mesma situação. Nós conseguimos vencer também a denegação e impor a aceitação intelectual completa do recalcado, mas o processo de recalcamento ele mesmo não é, com isso, ainda suprimido (aufgehoben)". Jean Hyppolite comenta esse texto assim: "Se o psicanalizado aceita, desdiz sua denegação, e portanto o recalcamento segue estando ali !, eu concluo que é preciso dar ao que foi produzido um nome filosófico, que é um nome que Freud não enunciou; é a negação da negação. Literalmente, o que aparece aqui é a afirmação intelectual, mas somente intelectual, enquanto negação da negação" ("Commentaire parlé sur la Verneinung de Freud par Jean Hyppolite" in: Lacan, Jacques. Écrits. Paris, Seuil, 1966, p. 881; Lacan, Escritos. México, Siglo XXI, 1988, vol.2, p.862). Hyppolite interpretará tal negação, seguindo Freud, como gênese histórica do pensamento e da inteligência, aproximando-a à "sublimação" (fr.: p.880; cast.: p.861); segundo Freud: "A condenação (Verurteilung) é o substituto (Ersatz) intelectual do recalque, o ´não´ é uma marca, um certificado de origem, tal como ´made in Germany´(!). Através do símbolo de negação, o pensar se libera das limitações do recalque e se enriquece com conteúdos indispensáveis a seu desempenho (Leistung)". Basicamente daí surgiria a diferença entre interior e exterior, objetivo e subjetivo para o indivíduo. E no final do texto: "A realização da função de julgamento não foi possível senão pela criação do símbolo da negação que permitiu um primeiro grau de independência em relação às conseqüências do recalcamento, e assim também da compulsão (Zwang) do princípio do prazer" (G.W., XIV, p.15; S.E.B, XIX, p.300). Diante disso é que Lacan, pelo menos nesta etapa de sua obra, irá interpretar o simbolismo como imposição "sadia" (para não dizer "sádica") da lei. Na falta disso haveria a gênese da psicose, segundo o conceito de "Verwerfung" extraído de Freud, isto é, a "forclusion" (repúdio, preclusão ou "foraclusão") do significante da castração, do "Nome-do-Pai" (op.cit., fr.: p.386-7 e 557-8; cast.: p.371-3 e 539-540).
7- Para Ruy Fausto, no mecanismo da denegação teríamos em vez de Aufhebung (superação), na verdade, uma espécie particular de Umschlagen (isto é, de "interversão": "o movimento ´automático´ de passagem no oposto, como resultado da posição plena de um termo"): "A denegação", diz Ruy, "é do ´registro´ do sintoma. E o sintoma, pelo seu próprio caráter de automatismo, está mais próximo da interversão do que da Aufhebung. A posição da pulsão redunda no seu bloqueio. A originalidade é que não se tem aqui propriamente a passagem num contrário, mas a ´conversão´ da pulsão em uma formação de compromisso. A denegação, como o sintoma em geral, é a expressão desse compromisso, algo como a ´mistura´ entre a satisfação da pulsão e a não-satisfação" (Fausto, Ruy - "Dialética e psicanálise" in: Safatle, Vladimir (org.). Um limite tenso: Lacan entre a filosofia e a psicanálise. São Paulo, Ed. Unesp, 2003, pp.120-1).
8- No quadro da psicose o próprio Freud dirá em "Die Verneinung": "O prazer geral de negar, o negativismo de alguns psicóticos, é verdadeiramente compreensível como índice da desfusão das pulsões através da retirada (Abzug) dos componentes libidinais" (G.W., XIV, p.15; S.E.B, XIX, p.300), vale dizer, como predomínio livre, "desintrincado", das chamadas "pulsões de morte". Jean Hyppolite (op.cit., fr. p.880; cast.: p.861) irá comparar esse "apetite de destruição", levado até o fim, à "luta de morte" da Fenomenologia de Hegel (na versão "kojéviana" da dialética do senhor e do escravo), no caso, à morte absoluta (sem vencedor nem derrotado), que não passa, segundo ele, numa "negação ideal" (ou seja, numa negação determinada). Não seria este o limite dos "narcisismos de morte" (André Green), das personalidades fronteiriças (borderline), da toxicomania etc. ? Ainda neste sentido, para completar nosso tour pelos registros patológico-sociais, no quadro da perversão talvez teríamos, dançando fantasmaticamente no limite entre a lei e a "paixão pelo real" (Zizek, op.cit.), a "transgressão" erótico-mística batailleana, levada ao extremo da violência, do sacrifício e da morte na "consumação" da "parte maldita"- sem poder destruir propriamente o interdito, mas o confirmando, na lógica imanente fantasmática de uma Aufhebung esquisita (que Bataille compreende expressamente como hegeliana): "a transgressão difere da ´volta à natureza´: ela suspende o interdito sem suprimi-lo", ou seja, ainda segundo Bataille: "A experiência leva à transgressão realizada, à transgressão bem-sucedida que, sustentando o interdito, sustenta-o para dele tirar prazer" (Bataille, Georges. O erotismo. Porto Alegre, L & PM, 1987, pp.33 e 36).
4- Negação ou (de)negação: "Processo pelo qual o indivíduo, embora formulando um dos seus desejos, pensamentos ou sentimentos, até aí recalcado, continua a defender-se dele negando que lhe pertença" (Laplanche, J. & Pontalis, J.-B., Vocabulário de Psicanálise. 10ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 1988, p.373). No texto "A Denegação" (Die Verneinung, 1925) Freud diz: "O conteúdo de representação ou de pensamento recalcado pode abrir passagem até a consciência, com a condição de que ele possa ser (de)negado. A denegação constitui um modo de tomar conhecimento do recalcado; de fato, já é uma suspensão do recalcamento (eigentlich schon eine Aufhebung der Verdrängung), embora não, é claro, uma aceitação do recalcado. Vê-se aqui como a função intelectual separa-se do processo afetivo. Com o auxílio da denegação apenas uma conseqüência do processo da repressão é anulada, de modo que seu conteúdo de representação não chega à consciência. O resultado disso é uma espécie de aceitação intelectual do recalcado, com a persistência do essencial do recalcamento" (Gesammelte Werke, vol. XIV, p.12; Standard Edition Brasileira, vol. XIX, p.296). Ou ainda: http://www.khristophoros.net/verneinung.html
5- Aqui é claro que se trata de uma metáfora, já que o "sistema" como tal não "tem" um inconsciente psicanalítico, mas apenas "é" inconsciente, no sentido preciso em que é um processo social fetichista e realmente coisificado. Mas a metáfora parece minimamente válida na medida em que os sujeitos que o mobilizam, como "apêndices da maquinaria" do capital, o fazem expressando o seu inconsciente em determinado contexto, em certas relações objetais de uma mesma totalidade, expressando assim os seus conflitos psíquicos comuns, que podem ser formalizados num nível metapsicológico. Aqui se trata da relação obscura, pois difícil de determinar, entre o inconsciente dos sujeitos particulares e o inconsciente social da forma-mercadoria (que constitui formas "objetivamente válidas" de pensar e agir no interior do sistema, segundo a análise de Marx). Se os dois inconscientes não coincidem, tal como o recalcamento não coincide com a dominação/repressão social, ao menos pode-se supor que o inconsciente do sujeito burguês, sujeitado a certas relações objetais etc., não é totalmente "a-temporal", "estrutural" num sentido completamente genérico e antropológico como assume o lacanismo, ou pior, "arcaico", com traços "filogenéticos", como ainda Freud postulou.
6- Curiosamente, na seqüência de "Die Verneinung", acima citado, analogamente Freud diz: "No curso do trabalho analítico, criamos amiúde uma outra modificação muito importante e bastante estranha da mesma situação. Nós conseguimos vencer também a denegação e impor a aceitação intelectual completa do recalcado, mas o processo de recalcamento ele mesmo não é, com isso, ainda suprimido (aufgehoben)". Jean Hyppolite comenta esse texto assim: "Se o psicanalizado aceita, desdiz sua denegação, e portanto o recalcamento segue estando ali !, eu concluo que é preciso dar ao que foi produzido um nome filosófico, que é um nome que Freud não enunciou; é a negação da negação. Literalmente, o que aparece aqui é a afirmação intelectual, mas somente intelectual, enquanto negação da negação" ("Commentaire parlé sur la Verneinung de Freud par Jean Hyppolite" in: Lacan, Jacques. Écrits. Paris, Seuil, 1966, p. 881; Lacan, Escritos. México, Siglo XXI, 1988, vol.2, p.862). Hyppolite interpretará tal negação, seguindo Freud, como gênese histórica do pensamento e da inteligência, aproximando-a à "sublimação" (fr.: p.880; cast.: p.861); segundo Freud: "A condenação (Verurteilung) é o substituto (Ersatz) intelectual do recalque, o ´não´ é uma marca, um certificado de origem, tal como ´made in Germany´(!). Através do símbolo de negação, o pensar se libera das limitações do recalque e se enriquece com conteúdos indispensáveis a seu desempenho (Leistung)". Basicamente daí surgiria a diferença entre interior e exterior, objetivo e subjetivo para o indivíduo. E no final do texto: "A realização da função de julgamento não foi possível senão pela criação do símbolo da negação que permitiu um primeiro grau de independência em relação às conseqüências do recalcamento, e assim também da compulsão (Zwang) do princípio do prazer" (G.W., XIV, p.15; S.E.B, XIX, p.300). Diante disso é que Lacan, pelo menos nesta etapa de sua obra, irá interpretar o simbolismo como imposição "sadia" (para não dizer "sádica") da lei. Na falta disso haveria a gênese da psicose, segundo o conceito de "Verwerfung" extraído de Freud, isto é, a "forclusion" (repúdio, preclusão ou "foraclusão") do significante da castração, do "Nome-do-Pai" (op.cit., fr.: p.386-7 e 557-8; cast.: p.371-3 e 539-540).
7- Para Ruy Fausto, no mecanismo da denegação teríamos em vez de Aufhebung (superação), na verdade, uma espécie particular de Umschlagen (isto é, de "interversão": "o movimento ´automático´ de passagem no oposto, como resultado da posição plena de um termo"): "A denegação", diz Ruy, "é do ´registro´ do sintoma. E o sintoma, pelo seu próprio caráter de automatismo, está mais próximo da interversão do que da Aufhebung. A posição da pulsão redunda no seu bloqueio. A originalidade é que não se tem aqui propriamente a passagem num contrário, mas a ´conversão´ da pulsão em uma formação de compromisso. A denegação, como o sintoma em geral, é a expressão desse compromisso, algo como a ´mistura´ entre a satisfação da pulsão e a não-satisfação" (Fausto, Ruy - "Dialética e psicanálise" in: Safatle, Vladimir (org.). Um limite tenso: Lacan entre a filosofia e a psicanálise. São Paulo, Ed. Unesp, 2003, pp.120-1).
8- No quadro da psicose o próprio Freud dirá em "Die Verneinung": "O prazer geral de negar, o negativismo de alguns psicóticos, é verdadeiramente compreensível como índice da desfusão das pulsões através da retirada (Abzug) dos componentes libidinais" (G.W., XIV, p.15; S.E.B, XIX, p.300), vale dizer, como predomínio livre, "desintrincado", das chamadas "pulsões de morte". Jean Hyppolite (op.cit., fr. p.880; cast.: p.861) irá comparar esse "apetite de destruição", levado até o fim, à "luta de morte" da Fenomenologia de Hegel (na versão "kojéviana" da dialética do senhor e do escravo), no caso, à morte absoluta (sem vencedor nem derrotado), que não passa, segundo ele, numa "negação ideal" (ou seja, numa negação determinada). Não seria este o limite dos "narcisismos de morte" (André Green), das personalidades fronteiriças (borderline), da toxicomania etc. ? Ainda neste sentido, para completar nosso tour pelos registros patológico-sociais, no quadro da perversão talvez teríamos, dançando fantasmaticamente no limite entre a lei e a "paixão pelo real" (Zizek, op.cit.), a "transgressão" erótico-mística batailleana, levada ao extremo da violência, do sacrifício e da morte na "consumação" da "parte maldita"- sem poder destruir propriamente o interdito, mas o confirmando, na lógica imanente fantasmática de uma Aufhebung esquisita (que Bataille compreende expressamente como hegeliana): "a transgressão difere da ´volta à natureza´: ela suspende o interdito sem suprimi-lo", ou seja, ainda segundo Bataille: "A experiência leva à transgressão realizada, à transgressão bem-sucedida que, sustentando o interdito, sustenta-o para dele tirar prazer" (Bataille, Georges. O erotismo. Porto Alegre, L & PM, 1987, pp.33 e 36).
(outubro/dezembro 2005)