31 janeiro, 2006

A NOVA MÚSICA DE SUBSOLO (do punk ao pós-punk e novas derivações)

A nova música de subsolodo punk ao ex-punkamento do punk,
do pós-punk a algumas novas derivações

Cláudio R. Duarte



1- A miséria musical a partir dos 90: do punk ao ex-punkamento do punk



Histórias mal contadas

Muitíssimo mal contada é a história do rock de subsolo (´underground'). Por baixo do subsolo há mil outros pisos, por cima dele, antes da superfície, mais uns quinhentos. Mas ele mesmo pode se converter numa forma de corrente principal ("mainstream") da música - tudo depende do ponto de vista, ou melhor, da oportunidade de negócios do mundo. Business, sacaggement. O underground não é tão inocente quanto parece. Sem mistificações, ele deve ser avaliado sempre, desde o princípio, do ponto de vista da divisão do trabalho e das chances no mercado. Ele não está isento das marés de investimento, crise e recuperação. Como seus chefes, um "rockeiro" é também um (micro)empresário. Se for bom tentará ficar no ramo, se for ruim, logo perceberá, terá de trocar de ramo. Nem sempre os que ficam mereceriam ficar, mas é assim que a "coisa" capitalizada funciona.
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O estômago hardcore de avestruz do mercado
Na verdade, desde o início, o underground dava sinais de poder tornar-se um ramo econômico - certamente secundário, mas não desprezível - do ponto de vista do mercado capitalista. É daí que surgem as mercadorias e mais tarde os rótulos: punk, hardcore, grindcore, skacore, straight edge, crossover, emocore... A princípio, o que não tem altas vendagens é considerado "underground" - até que os ventos mudem e algum negociante esperto invente a onda que faltava e tudo vire "mainstream". Não foi exatamente isso que aconteceu com o punk e com o hardcore? O supostamente inclassificável - o sujo, duro, áspero, intratável - logo foi classificado e absorvido, corrompendo sua estrutura simbólica de resistência. A história, desde Ramones e Sex Pistols, Clash e Buzzcoks, não tem sido outra. O pretenso anormal virou enfim o que talvez sempre fora: o mais normal dos normais. "Normal", é assim mesmo que funciona o capital: como mera forma vazia que pode colonizar qualquer conteúdo, contanto que ele seja rentável. Tudo isso se complica ainda mais nos anos 1990 e 2000. O punk e o hardcore de hoje serão o lixo de amanhã, que ninguém mais se lembrará. Isso já se transformou em lenda: como se já estivesse escrito, como num mito, todo mundo sabe.

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Desqualificação do já desprovido de qualidade
Nesse percurso quase irresistível de lixiviação, ou melhor dizendo - lixificação - da música "sub", alguma coisa da antiga "qualidade" é perdida. A antiga rusticidade do punk é estandardizada, perdendo o outro lado do punk, que era a possibilidade da experimentação. No turbilhão de bandas algumas são selecionadas para se tornarem a mercadoria da vez. Nesse filtro da mercadoria a "qualidade" que, nos melhores casos, ainda restava será totalmente rebaixada. Muita coisa se adocica, se domestica. Algo disso é facilitado pela própria estrutura do punk. A estrutura singela do punk-hardcore é muito facilmente transformável, domesticável e assimilável. Aquilo que quase desde sempre nasceu "meia-boca" vai virar boquinha e meia na porta das gravadoras. De The Clash ou The Jam fomos para Green Day ou Offspring, de Minor Threat ou Descendents para Blink 182 e Millecolin, de Ratos de Porão e Safari Hamburguers para Raimundos e Fresno. Não que os primeiros sejam muito melhores "tecnicamente" ou mesmo musicalmente, mas é muito sintomático o movimento de simplificação, dulcificação, assimilação domesticadora e, finalmente, lixificação. O punk é dobrado e embrulhado em papel de presente, até perder o seu conceito.
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Apelando pro emocional
Há muito, porém, os renitentes tentaram criar algumas saídas para o subsolo do subsolo, tentando criar música, discos e shows de forma independente e, de modo um pouco mais radical, constituindo algo como uma forma estética autônoma, que exige para si um pouco mais de qualidade. Mas mesmo aqui o mercado tem o poder de devorar e deglutir. Há alguns anos atrás surgiu uma história de "hardcore melódico". O Bad Religion (que na sua época inovou introduzindo o vocal cantado do melhor punk a la Buzzcocks) gerou uma horda de seguidores fanáticos, como uma procissão de bandas zumbis, nascidas do estrume da boa religião defecada. O processo virou fórmula, uma banda copiando a outra. E surgem assim as gravadoras especializadas em "hc melódico". Outro dia ainda, tinha surgido bandas "viscerais" como Rites of Spring, Embrace, Sunny Day Real Estate, Samian etc. Músicas um pouco mais complexas, exigindo um pouco mais do ouvinte, uma assimilação mais lenta, com melodias mais bem elaboradas. Mas o que é mais fácil transformar-se em ideologia que o apelo ao emocional? Logo isso seria taxado retrospectivamente como os primórdios do "emo" (sinal de que as emoções da nova geração são de borracha, pois podem ser classificadas virarem facilmente um novo nicho de mercado). Talvez por isso todas essas bandas, honestas como eram, tenham terminado.

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O emocore, ou a astúcia da razão musical mercantilizada
Hoje está na moda esse diabo cheio de cosmético chamado "emocore", uma mistura absurda de gritaria e choradeira histéricas, totalmente teatralizadas, algumas guitarrinhas chatas cheias de oitavados e um monte de atitudes esteriotipadas, alguns até com vestimentas "poser" a la Poison e Mötley Crue. É quase inacreditável: a espetacularização capitalista do próprio sujeito, à procura de sua vez no mercado, é escancarada, perdeu toda a vergonha de si. Os "especialistas em emoção" tornam-se, muito friamente, mercadorias integrais. Tudo isso somado a letras que parecem mais pagodes românticos que letras da antiga estética "punk". Mas a "musicalidade" aqui é menos que aparência. O charlatanismo musical, por demais evidente, é transformado e sublimado em "atitude". Hoje, o "emo" é sobretudo um estilo de se vestir e de se comportar, prontinho, como remédio, para adolescentes em "crise de identidade". Até essa pode ser simulada, pois a necessidade, no fundo, é a de "estar-junto", perder a identidade, fundir-se nos grupos infantilizados e  no narcisismo coletivo. Como se intui, um filão enorme promovido pelo gigantesco aparato midiático de grandes empresários e gravadoras. Nada a ver com a tradição simbolicamente construída da música underground, com a qualidade da música em si. Procura-se desesperadamente, de alto a baixo, do produtor ao consumidor de música "emo", uma identidade: qualquer coisa serve, daí a sucessão ininterrupta de modismos exteriores, meramente imaginários, isto é, calcados na imagem e na aura de uma sonoridade irrisória e evanescente, para suprir esta necessidade de "estar-junto". Se alguns vão pro jogo com a torcida uniformizada, outros pro show de emocore. A moçadinha (hoje o público "punk" é cada vez mais adolescente), presa em seu narcisismo coletivo defensivo, como a média da população das grandes cidades selvagens, só pode então se identificar coletivamente, adorar a si mesma, a seu corpo, a seu "estilo", gerando uma vibração meio "homo" (a do homogêneo), infantilmente regredida e mesmo religiosa, no ar. Trata-se aqui, sobretudo, de um "eu débil", tal como descrito pela psicanálise clássica, com sua fenomenologia característica: a adesão fanática às bandas e aos seus líderes-pastores, aos amiguinhos e panelinhas, sempre com rivais cheios de semelhantes bem penteados e vestidinhos do outro lado. Se isso sempre esteve presente no universo punk, a coisa se concretiza e cristaliza ainda mais nos anos 2000, em que as tradições simbolicamente construídas da resistência são minadas e destruídas pela quase absoluta falta de interesse e falta de possibilidade de reprodução das bandas por meio da música underground (a internet praticamente eliminou as condições de vendagem de discos). As bandas que querem sobreviver abrem a mão da independência e se comercializam ou então permanecem num grau baixo de atividade, vivendo basicamente de shows. No mundo emo, ao contrário, temos uma dinâmica exclusivamente moldada por relações imaginárias (no sentido lacaniano), basicamente duais, girando em torno de amor e ódio, atração e agressão. Essas, afinal, as únicas "emoções" no ar. No limite, histeria em massa. Um conjunto de características que nos aproximam do fenômeno das massas fascistas, só que de forma mais atenuada e inocente. Entre os carecas abertamente nazi-fascistas e as massas hemorróidicas há diferenças de grau, não de qualidade. O "emocore" é a hemorróida nervosa do sujeitinho "sem o core" do antigo hardcore, que já tinha, por certo, uma qualidade duvidosa. 
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A indústria subcultural do mainstream emorock pseudo-underground brasileiro

Se a onda é estrangeira, no Brasil a coisa é ainda pior. O ouvido viciado em melodias pop e estruturas simplificadas das Fm´s se humilha até se arrastar no chão. Em alguns shows isso é literal. As bandas ruins formam futuras bandas péssimas. O público fanático, com dinheiro e possibilidade de comprar mais e melhores guitarras, baterias, camisetas etc. cria e recria a sua própria escória musical independente. Não basta a MTV e as rádios reproduzirem as bandas "da vez", como réplicas do rock internacional do momento. O próprio público classe média cria a sua própria "indústria cultural" particular, o seu "mundo subcultural industrializado", com a ajuda de meios como a internet. Surge algo que já não é mais underground, mas também não é exatamente "mainstream", pois é muito tosco para arrebanhar o povão. O esquema da mesmice se repete por inércia. Mas o clichê sonoro não é sentido como tal, a não ser com o tempo, com o tédio inescapável. Várias bandas que copiam a ralé do hardcore-punk americano se reproduzem aos montes, uma influenciando a outra, dando origem a coisas mais feias e desastradas ainda. O gesto básico, num ambiente tão socialmente regredido, é a imitação. A memória de uma certa "tradição punk e hardcore", nas bandas que herdam a "pose punk" ou metidinha a alternativo, desaparece completamente, até chegar o momento em que falar de Descendents ou Bad Religion é falar de ilustres dinossauros desconhecidos.
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O ouvido do sujeito hemo-rróidico nervoso sem core
Bobagem exigir de um público como este a concentração para a música. O que vem morrendo, junto com a forma artística, é o ouvinte minimamente exigente. Muitas vezes cantar em português é menos uma questão de forma que uma estratégia de mercado para fazer o público se concentrar e lembrar mais facilmente as músicas. Sim, cantar em inglês é sinal de "alienação", mas também de imitação de uma certa forma - o rock - que surgiu no exterior. Nem sempre a alienação é perversa se o imitado tiver algum valor ou necessidade intrínseca. Mas hoje cantar os que cantam em português redobram ainda mais a alienação - agora diretamente ao mercado e não mais a uma forma musical. A alienação, a abertura ao outro, virou pura adesão, não ao outro, mas ao mesmo, à fórmula esteriotipada capaz de vender e ser facilmente assobiável. Por isso, na mesmice reinante, pode-se esquecer de uma banda em meses como pode-se aplaudir e cabecear por horas num show, que tornou-se mero espetáculo imagético, apenas porque o vocal é lindo, o guitarrista é bonitinho, tem uma guitarra poderosa ou faz um barulho infernal, como uma espora na coxa do animal. Para ouvidos de consumidores tão feridos um ferimento a mais não é nada. Seus ouvidos "perderam a capacidade de ouvir", como já dizia Adorno no seu texto de 1938 sobre o "Fetichismo e a regressão da audição". O potencial de despolitização e empobrecimento cultural, face ao anteriormente conquistado pelo universo resistente do punk, é elevado à escala industrial. Pelo menos até que o tédio, inadiável, venha à galope.
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A estrutura histérica da cena des-corada
A parte instrumental é em si mesma qualquer coisa de insignificante. Os derrames "líricos" do emocore são o pancake da criação tosca, a cerejinha do bolo indigesto. Mas a alegada emoção do emocore é praticamente nula. Com uma forma estética destruída, expressa-se brutalmente o material recalcado no sujeito. O ódio visceral vêm à tona, "como no punk", mas tudo de forma muito mais teatralizada, no mais puro intelectualismo calculista. A emoção do emocore é pura ideologia. No esquema musical pré-fabricado do relaxamento-revolta-relaxamento, isto é, do cantar mansinho e choroso do bom moço penteado à gritaria e distorção infernais do refrão rockeiro descabelado, temos a mais pura astúcia da Razão Mercantil. Nada mais racionalizado que essa instrumentalização da emoção coletiva. Dizem que nalguns shows o choro coletivo é sistematicamente explorado. O esquema catártico e carismático é semelhante ao da dominação religiosa. Esta estrutura musical invariável, petrificada, é muito pior do que a dos filmes de Hollywood. A indústria subcultural do emocore é mais monolítica e terrível que a velha e "boa" indústria cultural (que ainda continha poros por onde se infiltram alguns conflitos produtivos). A tristeza melodramática de certas passagens é uma fachada para o mais puro otimismo conformista. Os usados (The used, aliás é o nome de uma dessas bandas) esquemas da indústria punk são abusados ao extremo. A independência do punk virou agora a mais pura dependência, a desglamourização transformou-se na mais pura glamourização e teatralização espetacular, encobrindo o inferno da indiferença e da tosquice.
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2- Do pós-punk ao pós-rock. Algumas resistências e contradições

Histórias pouco contadas

Ainda pouca gente conhece a história das bandas que, na aurora do punk, já podiam ser consideradas "pós-punk". O que as caracteriza é a experimentação real, isto é, a imaginação formal, a realização da independência relativa que o punk tinha supostamente em seu conceito, pelo menos na parte respeitável de sua "lógica". Pois na verdade, o punk nasceu podre, com sua história lógica mais ou menos prevista desde o início, visível desde a farsa do Sex Pistols, que agora se consolida na ralé internacional do emocore ou do pós-emocore (sabe-se lá até onde vai a onda). Sua estrutura simplificada tinha finalmente de se coisificar e se enrijecer como mero clichê mercantil. O que vemos nos anos 90 e 2000 é a conseqüência lógica desta podreira, a foto final do chiqueiro embolorado. E assim ela se esgota. Se assim é, então bandas como The Clash, Minutemen ou Dead Kennedys eram já outra coisa que o mero punk ou hardcore. Em quantos detalhes da composição os Dead Kennedys transformam a música numa verdadeira pintura para as letras extremamente irônicas e politizadas de Jello Biafra? Dead Kennedys fez álbums excelentes, inigualáveis dentro do estilo. Em quantas músicas do Clash temos a mistura radical de tendências, expelidas por alguns, naquele tempo, por ignorância musical? Quantas com a força do ritmo dançante mas não menos cortante? A que leva as diabruras do Minutemen senão à destruição da estrutura petrificada, do clichezão do hardcore?  Tais bandas têm o mérito de serem as criadoras de alguns novos valores, novas formas, de uma estética realmente mais livre e independente dentro do estilo rock.
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novas experiências, novos experimentos

Bandas como Gang of Four, Hüsker Dü, Sonic Youth, Fugazi e The Ex são grandes exemplos do chamado pós-punk e do pós-hardcore. Com elas, entre outras (a lista seria muito grande: The Fall, Pere Ubu, Residents, Stranglers, Contortions, Joy Division, Jawbox, Burning Airlines, Television, tanto o The Cure, o Talking Heads como o B´52 do início...), foi se formando uma nova experiência de rock underground, desta vez idealmente abaixo das correntes principais. Claro que algumas delas tiveram algumas derivas estranhas ou equivocadas em alguns discos, principalmente talvez o Gang of Four, que cai no mais puro plastic pop no final da carreira. Mas é o grande Gang of Four do white funk, da guitarra agudíssima e dos riffs monocordes de Andy Gill, o guitarrista mais copiado pela leva inglesa de bandas indie (como Raptures, Franz Ferdinand, Moving Units e Bloc Party) que será lembrado no futuro - e já está sendo. Mas a alegria dançante de seu ritmo vinha embebida numa ironia cortante, ausente da nova safra. Hüsker Dü e Sonic Youth estão entre as bandas mais copiadas da história. A experimentação formal, com timbres e afinações diversos, porém, não são facilmente copiáveis. Pra isso é preciso bom gosto e muita experiência. Suas guitarras complexas, cheias de harmonias desarmônicas, o vocal diversificado, as rifferamas sem fim, o estilo "garagem" das gravações, cheio do ar da improvisação, trazem uma espontaneidade para as músicas que poucas bandas conseguem ainda hoje obter. Aqui, o clichê era desdobrado para ser na maior parte das vezes negado e destruído por dentro. Talvez estas bandas tenham recriado a noção de acorde no rock underground. Já Fugazi é o sinônimo mais claro de banda independente, em todos os sentidos. Música intensa, cada uma delas diferente da outra, cheia da criatividade e emoção de quatro grandes músicos que, sem técnicas extraordinárias, tiram o máximo necessário de seus instrumentos. Não tocam algo, tocam o "seu algo". Cada disco é único, pleno de energia e indignação. Fugazi talvez seja a banda dos melhores arranjos de guitarra do rock. Idem para os vocais, inconfundíveis, ainda por cima com timbres diversos e privilegiados. The Ex se impôs a criação da música turbilhão e tumulto, a mímese crítica da confusão metropolitana, como se fosse a imitação da complexidade, da velocidade e do obscurecimento das grandes metrópoles. São uma espécie de Kafka do rock. Até mais que o Fugazi, e um pouco como o Sonic Youth, criaram um estilo próprio de tocar seus instrumentos, com guitarras em diálogo, dissonantes e "percussivas", sistematicamente integrada com a baterista, uma verdadeira percussionista (poucas músicas têm bateria com andamento 4x4), além de cantora impressionante. Mas é na voz do vocal principal do The Ex que reside a confirmação do conflito, da confusão, do emparademento do sujeito tentando resistir ao mundo da total alienação. Seu modo de cantar desgovernado, num ritmo falado, livre, quase flutuante, como nos melhores momentos de Jello Biafra, é a exposição a olho nu da forma social do sujeito encurralado entre os poderes do capital e do Estado.
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Uma ética lírica nova
Não por acaso, todas estas bandas, desde o pós-punk, tinham uma ética de esquerda, com temáticas políticas nas letras. Algumas mais, outras menos. A inteligência formal é reforçada pela inteligência lírico-política. Todas essas bandas, mesmo Hüsker Dü ou Sonic Youth, têm algo de desafogante, de um dizer espontâneo, de uma libertação do que fica entalado na garganta, como um desrecalque do inconsciente, de criação de uma lírica pontiaguda e mordaz, mais ou menos inédita no rock. Estamos em geral bem longe do primitivismo. E isso se dá até melhor nas bandas que mais sublimam a música punk, indo além do discurso politicamente direto: essa evolução pode ser vista claramente na trilha do The Ex. Em comparação a outros estilos de composição lírica, o pós-harcore seria uma espécie de revolução. Se no rock progressivo tínhamos a instrumentação bastante desenvolvida (como em Gentle Giant ou King Crimson), nas letras tínhamos geralmente o mais puro retrocesso e escapismo, a bem dizer, a tolice que os metaleiros iriam, mais tarde, desenvolver ao extremo no medievalismo, na simpatia pela bruxaria, os temas endiabrados, até o flerte com o fascismo etc. (O heavy metal, com efeito, é um rock progressivo sem talento, feito por músicos mais toscos ou mais escravos da técnica).
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Alguns passos depois do rock
Bandas como the ex, fugazi, hüsker dü ou sonic youth envelhecem, algumas acabam, se transformam em outras. Ou lentamente vão experimentando novas formas, até chegar em termos mais suaves, menos pontiagudos, mais introspectivos. Mas nunca se sabe se é o próprio rock que foi se esgotando em fórmulas e clichês. Uma das novas tendências recentes de repulsa à decadência do punk-hardcore tem sido, na seqüência direta ou indireta destas bandas, o chamado "pós-rock". Esta tendência surge nos anos 90 com Tortoise, Slint, Godspeed You Black Emperor!, Sigur Ros, Up On In, Isotope 217, Mogwai, Explosions in the Sky, From Monument to Masses, Volta do Mar, Pelé, Hurtmold etc. O pós-rock desenvolve o instrumental acima de tudo, a ponto de quase abolir os vocais. A um mundo estandardizado prefere-se o silêncio, ou a voz a-significante dos instrumentos. Estas bandas tentam incorporar aspectos do antigo rock progressivo e da música eletrônica, que não envelheceram. Seu som é deliberadamente mais calmo e devagar. Há um retorno portanto ao passado, desenvolvido agora, porém, pelas novas tecnologias eletrônicas, de instrumentação e de gravação. Trabalha-se intensamente sobre os três ou quatro elementos básicos de qualquer composição: timbre, harmonia, ritmo e tensão. A criatividade consiste na mescla singular disso tudo. Os timbres são cuidadosamente mais suaves e limpos, passando às vezes por um efeito de estranhamento deliberado. Algumas bandas afirmam simplesmente o estranho, o sinistro, o fundo musical obscuro, geralmente usando os efeitos eletrônicos modernos. Algo disso já estava no pós-punk de Pere Ubu ou Residents. A mudança de volume, a passagem do alto ao baixo volume, é como um jogo de luz e sombra. Sons de guitarra singulares, opacos, brilhantes etc., desenham frases marcantes. Mas aqui, o efeito buscado é a criação de nítidas e singulares texturas musicais. Por isso, talvez, o baixo (às vezes o teclado) seja quase sempre o grande condutor da música, predominando sobre todos os timbres, já geralmente mais graves, escolhidos para todos os instrumentos. A harmonia aqui é a arte de costurar diversos instrumentos em diálogo, tocados num modo que atinge o conflituoso ou o paradoxal (várias bandas juntam percussão, sax, trompete, violinos etc.). Há algo de "free jazz" nessa forma de costura harmônica embora o papel fundamental seja exercido pelo contrabaixo. O baixo tem papel literal de base, de marcação do tom principal (nada a ver portanto com música atonal). Mas diferente do jazz e mais ainda do free jazz está a repetição deliberada de frases pré-construídas e tocadas várias vezes - às vezes, tais temas são repetidos ad nauseam - como se o jazz passasse por uma redução aos temas principais. A repetição é o elemento básico do pós-rock. Também diferente do free jazz, o ritmo é meticulosamente construído, basicamente sem improvisos. É na tensão planejada entre repetição e diferença, entre harmonia e tensão, que reside a chave da construção, talvez como a melhor herança do elemento punk-hardcore.
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O perigo da volta infinita ao mesmo
É da monotonia da repetição o perigo latente em tudo isso. Todas as bandas de pós-rock vão se tornando iguais, ou no mínimo similares, quando abusam da repetição. A experiência vai se convertendo em clichê. Algumas mais novas parecem um tipo de plágio vergonhoso das mais velhas (os bons Tortoise, Slint etc.). Os deslizes são constantes, caindo na chatice e na mesmice; mesmo a criatividade pode se institucionalizar e se burocratizar. Como num disco de Brian Eno, algumas soam como "music for elevator", ou um tipo de fundo musical para o trabalho duro no escritório, uma espécie de música "no stress". De fato, qualquer abuso da repetição, fundada no timbre grave, na marcação de certo tom, terá esse efeito sedativo sobre o ouvinte. Essa música derivada do pós-punk leva a uma espécie de efeito catártico, contrário ao choque e ao estranhamento proposto em seu conceito. Era exatamente esse o efeito da repetição da melodia punk, principalmente no refrão punk decadente. Hipnose em massa, ou antes, hipnose de classe média massificada, algo ascética e descarnada. Mais a música é leve, mais ela se torna um substituto da ideologia faltante, face à vida danificada nua e crua do capitalismo atual. O fetiche repetitivo do belo fraseado, dobrado, desdobrado e redobrado, é levado ao infinito, como uma espécie de catarse, empatia, hipnose, envultamento, até a perda da consciência autônoma. A ausência de letras contribui para esta mono-tonia, e assim, talvez, para a afirmação da ordem existente, agora estetizada por um "belo" fundo musical. É como o efeito sedativo da bossa-nova, mas pior talvez, porque sem letras, que poderiam sugerir alguma reflexão. O pós-rock convertido em fórmula e sortilégio hipnótico pode sempre se tornar um tipo de ideologia pós-moderna. Somente os elementos de criatividade e tensão podem liberá-lo do conformismo em que o punk caiu.
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Alguns poros e aporias no math rock
Algumas bandas levam a lição do pós-punk e do pós-hardcore a outros caminhos, derivando a partir do pós-rock. Surge assim o chamado "math rock". Também um nome do mercado, colado em gravadoras e selos a quem tenta fazer som diferente, mais cabeçudo que o pós-punk, tanto quanto o dito pós-rock, mas com elementos do pós-hardcore de fugazi, jawbox etc. Bandas como Don Caballero, Shellac, Faraquet, Medications etc. cuidam principalmente do ritmo quebrado, múltiplo, torto, anguloso, geométrico, aparentemente desgovernado, desenhado pelas guitarras tensas a la Hüsker Dü, Minutemen ou Jawbox, pelo desequilíbrio geral harmonicamente costurado, às vezes, somente pelo vocal ou pelo baixo. Música meticulosamente construída. Novamente há muito de experimento em tudo: timbres, estruturas, formas, ritmos. Não se trata porém de ir além do rock, mas levar sua lógica interna a outros desenvolvimentos. Algo disso já estava nas bandas pós-punk e pós-harcore. Aqui predominam os sons agudos, menos distorcidos, chegando ao agudo estridente de um Shellac, um Ex-models ou um Faraquet. É o reinado das telecasters. A velocidade dos fraseados bem desenhados de guitarra é essencial aqui, o que transforma a música em algo de jogo, de raciocínio rápido, diálogo irônico, cheio de astúcia, de enganação e desengano deliberados. As guitarras "espertas" são correspondidas pelos ritmos percussivos da bateria, tal como no pós-rock. O velho balanço de Gang of Four e Minutemen é recuperado. Os elementos de tensão e mudança constante (não-repetição) de texturas, desenvolvendo temas até o limite da dissonância, predominam sobre a estrutura total, evitando, a meu entender, alguns impasses formais do pós-rock. Mas novamente a questão da forma que vira fórmula, da coisa repetível à escala industrial, ronda como uma sombra tal rock underground. São as novas aporias dos pequenos gênios da bateria, da guitarra e do baixo que, como todos os "cabeçudos", podem soar barrocos, chatos e pedantes. O abuso da racionalidade pode gerar, no pólo oposto, a irracionalidade, a fragmentação e o hermetismo sem sentido, a arbitrariedade, próprios de um mau gosto travestido de finura e genialidade. "E a melhor poesia", disse Drummond, "é um sinal de menos".
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A lição que se tira de tudo isso talvez seja a seguinte: quem foge da fórmula e do clichê pode não fazer sucesso no mercado ou nem mesmo sobreviver como banda, mas ao menos garante a boa música mesmo que nos limites irrisórios da subcena do subsolo do rock.

(Texto elaborado para uma "conversa" no "Carnaval-Revolução" em Fev. 2006, em Belo Horizonte).

30 janeiro, 2006

Sobre "O BANQUEIRO ANARQUISTA" de Fernando Pessoa

Inteligência e dissimulação
O imbróglio do mau infinito d´ "O Banqueiro Anarquista"


Cláudio R. Duarte

"O intelecto, como um meio para a conservação do indivíduo, desdobra suas forças principais no disfarce" (Nietzsche, "Sobre verdade e mentira no sentido extra-moral", 1873).

A escrita de Fernando Pessoa é bastante ambivalente e paradoxal. Foi um dos artistas que sentiu, no início do século 20, a importância de libertação de máscaras do sujeito moderno. Mas essa libertação, para ele, é igual à multiplicação das máscaras. A desidentificação vem da multiplicação de identidades. Pode-se ver em suas personas poéticas, em seus "heterônimos", toda uma tentativa de cindir a fortaleza do Ego, uma poesia que procura fazer aflorar singularmente o inconsciente social da modernidade. Publicado em 1922, "O Banqueiro Anarquista", uma espécie de conte philosophique, ou "conto de raciocínio" como denominava o autor, obra ainda hoje muito pouco lida e pouco analisada, sintetiza alguns destes aspectos. Trata-se dum diálogo botequinesco entre um personagem anônimo e um ex-operário, também anônimo, que se tornou banqueiro, apresentado desde o início como "um grande comerciante e açambarcador notável". No diálogo, o banqueiro narra seu processo de formação, procurando demonstrar logicamente porque é realmente "anarquista" na teoria e na prática. Trata-se, assim, de um conto sobre razões da ação prático-moral, em que desfilam inteligência e dissimulação, lógica e disfarce.
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Para a consciência esclarecida do Banqueiro, tal como para os filósofos e economistas do século das Luzes, a dominação social é assumida como mera fiction sociale, estranha à Natureza. Para ele, dinheiro, Estado, religião, família etc. são nada mais que normas arbitrárias que mascaram e dominam a verdadeira vida natural. Na vida natural, os homens tornam-se iguais e livres de todas as tiranias sociais. Defendendo esse princípio de modo puro e intransigente, ele pode recusar tudo aquilo que não lhe seja compatível. Algumas falas do banqueiro parecem contraposições diretas ao Manifesto Comunista de Marx e Engels (a recusa da "ditadura do proletariado" como apenas mais um "despotismo militar" que só pode gerar uma "sociedade guerreira do tipo ditatorial"); e é com rigor lógico que vários motivos anarco-comunistas vão sendo conseqüentemente apresentados – mas tudo construído sistematicamente para ser destruído no fluxo discursivo. Com efeito, a verve anárquica do banqueiro é, através de uma coerência lógica sistemática, algo totalmente iconoclasta, até o ponto de conduzi-lo ao completo isolamento, à maneira do anarquismo individualista de "O único e sua propriedade" de Max Stirner. É verdade, diz ele, que somente uma revolução social pode superar efetivamente a opressão, mas, na prática concreta, até mesmo os pequenos grupos anarquistas, sem muita influência, produzem novas formas de tirania, acrescentando-as às já existentes:
"Uns mandavam em outros e levavam-nos para onde queriam; uns impunham-se a outros e obrigavam-nos a ser o que eles queriam; uns arrastavam outros por manhas e por artes para onde eles queriam. Não digo que fizessem isto em coisas graves; mesmo, não havia coisas graves ali em que o fizessem. Mas o fato é que isto acontecia sempre e todos os dias, e dava-se não só em assuntos relacionados com a propaganda, como fora deles, em assuntos vulgares da vida. Uns iam insensivelmente para chefes, outros insensivelmente para subordinados".
Assim sendo, apenas a liberdade individual, na sua total pureza, pode dar início à libertação da tirania social. Só isso torna-se realmente, segundo ele, uma verdade prática, coerente com a teoria anarquista da liberdade, não uma verdade restrita ao nível teórico-discursivo. Como então agir efetivamente contra as convenções sociais ? Ora, o dinheiro, como a mais poderosa ficção, apenas poderá ser "subjugado" furtando-se a seu poder:

"Como subjugar o dinheiro, ou, em palavras mais precisas, a força, ou a tirania do dinheiro? Tornando-me livre da sua influência, da sua força, superior portanto à influência, reduzindo-o à inatividade pelo que me dizia respeito a mim. Pelo que me dizia respeito a mim, compreende V.?, porque eu é que o combatia; se fosse reduzi-lo à inatividade pelo que respeita a toda a gente, isso não seria já subjugá-lo, mas destruí-lo, porque seria acabar de todo com a ficção do dinheiro. Ora, eu já lhe provei que qualquer ficção social só pode ser ´destruída´ pela revolução social, arrastada com as outras na queda da sociedade burguesa".
Primeiramente, provou-se que uma revolução social só poderia se concretizar no esforço isolado, libertário, autenticamente individual. Por outro lado, não basta fugir à influência do dinheiro, virar-lhe as costas, ir para o campo, isolar-se completamente. Como na boa crítica imanente dialética, o combate precisa ser assumido no campo do adversário. Descartadas outras formas de ação, resta apenas uma:

"O processo tinha que ser outro - um processo de combate e não de fuga. Como subjugar o dinheiro, combatendo-o? Como furtar-me à sua influência e tirania, não evitando o seu encontro? O processo era só um - adquiri-lo, adquiri-lo em quantidades bastante para lhe não sentir a influência; e em quanto mais quantidade o adquirisse, tanto mais livre eu estaria dessa influência".
Furta-se então ao poder do dinheiro não pela fuga, mas através de enriquecimento pessoal: assim fazendo, acumulando-o, pode-se livrar-se de seu poder. Conclusão: o anarquista que se torna um banqueiro – só este realmente é um anarquista coerente, em sentido prático, não só no discurso teórico. Sem sofismas aparentes, o paradoxo se ergue claramente:

"Trabalhei, lutei, ganhei dinheiro; trabalhei mais, lutei mais, ganhei mais dinheiro; ganhei muito dinheiro por fim. Não olhei o processo - confesso-lhe, meu amigo, que não olhei o processo; empreguei tudo quanto há - o açambarcamento, o sofisma financeiro, a própria concorrência desleal. O quê?! Eu combatia as ficções sociais, imorais e antinaturais por excelência, e havia de olhar a processos?! Eu trabalhava pela liberdade, e havia de olhar as armas com que combatia a tirania?!"
Por fim, a "liberdade" é triunfalmente celebrada:
"Hoje realizei o meu limitado sonho de anarquista prático e lúcido. Sou livre. Faço o que quero, dentro, é claro, do que é possível fazer. O meu lema de anarquista era a liberdade; pois bem, tenho a liberdade, a liberdade que, por enquanto, na nossa sociedade imperfeita, é possível ter. Quis combater as forças sociais; combati-as, e, o que é mais, venci-as.''
Claro, diz ele, que não haverá contradição em se usar o dinheiro, até mesmo valendo-se de métodos desleais para obtê-lo e para atingir a liberdade, pois ninguém se torna um opressor por simplesmente usar uma "ficção social", que, pelo menos aparentemente, não tem origem em qualquer ação dum sujeito simplesmente individual.

"A tirania, que pode ter resultado da minha ação de combate contra as ficções sociais, é uma tirania que não parte de mim, que portanto eu não criei; está nas ficções sociais, eu não ajuntei a elas. Essa tirania é a própria tirania das ficções sociais; e eu não podia, nem me propus, destruir as ficções sociais. Pela centésima vez lhe repito: só a revolução social pode destruir as ficções sociais; antes disso, a ação anarquista perfeita, como a minha, só pode subjugar as ficções sociais, subjugá-las em relação só ao anarquista que põe esse processo em prática, porque esse processo não permite uma mais larga sujeição dessas ficções. Não é de não criar tirania que se trata: é de não criar tirania nova, tirania onde não estava. Os anarquistas, trabalhando em conjunto, influenciando-se uns aos outros como eu lhe disse, criam entre si, fora e à parte das ficções sociais, uma tirania; essa é que é uma tirania nova. Essa, eu não a criei. Não a podia mesmo criar, pelas próprias condições do meu processo. Não, meu amigo; eu só criei liberdade. Libertei um. Libertei-me a mim. É que o meu processo, que é, como lhe provei, o único verdadeiro processo anarquista, me não permitiu libertar mais. O que pude libertar, libertei".

* *
Encravados no tom sério da argumentação, donde vêm o humor e a ironia desse texto ? Da encenação de movimento ascendente à queda grotesca do final, na clara repetição do sempre o mesmo: se o banqueiro, sozinho, tornou-se melhor anarquista, ou pelo menos mais "coerente" que os outros anarquistas "de bombas e sindicatos" – claro que tudo muda para ele, mas nada de substancial muda no todo. Algo do inconsciente social da forma-mercadoria vêm à tona neste trajeto. A série de argumentos reunidos apresentados vai em direção à dispersão. O discurso que põe a necessidade da revolução social escorre inexoravelmente no sentido da individualização monádica do sujeito-monetário. Da presumida revolta à revolução social assumida, desloca-se à ação individual completamente equívoca, e, assim, à reafirmação do capitalismo pura e simples, com a constatação fatalista das irremediáveis desigualdades naturais (de inteligência e vontade) entre indivíduos. Como diria Hegel, apresentando a dialética da "consciência nobre" (edelmütige Bewusstsein) e "da consciência vil" (niederträchtig Bewusstsein): "a arrogância toma o lugar da revolta" (Fenomenologia do Espírito. Petrópolis, Vozes, vol. 2, p.55). O combate social efetivo se perde, nenhuma experiência coletiva se constitui, nenhuma síntese superior se produz. A anarquia libertária desliza e desemboca na velha anarquia da produção capitalista. O "riso alto" do banqueiro, no final de sua exposição, tem algo de sarcástico, cínico, perverso, com um ar de família do sobrinho de Rameau de Diderot, que, na sua consciência dilacerada, constatava: "Ouro, ouro. O ouro é tudo, e o resto, sem ouro, não é nada" (Diderot, Le neveau de Rameau). A vaidosa loquacidade do banqueiro, supostamente de um sujeito autônomo, era apenas dissimulação hipócrita do verdadeiro sujeito do processo, o equivalente-geral, o capital-dinheiro. Mantendo-se como mera "visão moral de mundo" ela tem de incorrer num constante "deslocamento dissimulado" (Verstellung), conforme outra figura crítica de Hegel na Fenomenologia. O banqueiro, enfim, apenas consegue reafirmar a gasta ideologia burguesa da liberdade pessoal pela concorrência e pelo trabalho. Mas, ao fim, revela seu fundo falso, cinicamente assumido, nos métodos desleais de açambarcamento comercial. Em suma, seu processo de formação não leva à autonomia social, mas ao cínico sujeito-monetário bem logrado (aliás, do latim: lucrum).

A retórica do banqueiro, no entanto, desde o início dava sinais de ser o disfarce astucioso da forma abstrata "egoísta" do proprietário. Desde o princípio, o banqueiro exprimia orgulhosamente sua superioridade arrogante: "Eles são anarquistas e estúpidos, eu anarquista e inteligente". Isto, aliás, um dom da natureza: uma "inteligência naturalmente lúcida e uma vontade um tanto ou quanto forte". Inteligência e vontade de devorar o outro, engoli-lo em sua argumentação: as "bestas que defendem a ‘ditadura do proletariado’", os tirânicos anarquistas de grupo, os concorrentes da selva capitalista, o próprio interlocutor e suas objeções lógicas – todos são esmagados pelo rolo compressor de sua retórica, de sua práxis real de capitalista. Assim, na malandragem de sua argumentação ele pode usar todas as "manhas" e "artes" que tinha rejeitado nos grupos anarquistas. O eu subjuga e anula o outro, pela força hipnótica da argumentação dissimuladora. Noutro momento de sua argumentação, dita "materialista", irá afirmar o egoísmo, a busca do prazer para si, como condição natural. Coloca, então, a noção de dever (de solidariedade e bem coletivo) sob suspeita: como seria ela natural se contraria nosso egoísmo, nosso instinto de autoconservação natural? Sua resposta será subordinar a meta social à individual:

"Esta idéia de dever, isto de solidariedade humana; só podia considerar-se natural se trouxesse consigo uma compensação egoísta."

Aqui vem à tona a forma social do moderno sujeito da concorrência. O interlocutor, ofuscado pelo raciocínio, ainda reclama: "V. não resolveu a dificuldade... V. foi para diante por um impulso absolutamente sentimental..." - mas está ali justamente para ser embrulhado por mais um deslocamento dissimulado: "É curioso...[diz o interlocutor] - É... Agora deixe-me continuar na minha história".

Nesses deslocamentos dissimulados, seu modo de existência é o do limite, claro-escuro, entre o moral e o imoral, a potência e a impotência, o ser e o nada. Por um lado, sua sóbria postura e seriedade, expostas em seus gestos firmes e límpida retórica, são disfarces de sua impostura e descaramento. Da hipócrita defesa da liberdade intransigente passa-se à defesa liberal totalmente cínica da dominação. De um argumento como este...
"Claro está que não temos que olhar a não estorvar a `liberdade' dos poderosos, dos bem situados, de todos que representam as ficções sociais e têm vantagens delas. Essa não é liberdade; é a liberdade de tiranizar, que é o contrário da liberdade. Essa pelo contrário, é o que mais devíamos pensar em estorvar e em combater."

... desloca-se e treslouca-se a este:
"A tirania, que pode ter resultado da minha ação de combate contra as ficções sociais, é uma tirania que não parte de mim, que portanto eu não criei; está nas ficções sociais, eu não ajuntei a elas. Essa tirania é a própria tirania das ficções sociais; e eu não podia, nem me propus, destruir as ficções sociais".

Mas esse poder é simulação ele próprio. No fundo, o banqueiro é tão impotente quanto os seus outros:

"eu não podia, nem me propus, destruir as ficções sociais", ou seja, "a ação anarquista perfeita, como a minha, só pode subjugar as ficções sociais, subjugá-las em relação só ao anarquista que põe esse processo em prática, porque esse processo não permite uma mais larga sujeição dessas ficções (...)O próprio processo me impedia de fazer mais. Que mais podia fazer?".

Em outras palavras, como diz o próprio banqueiro, se julgamos a sociedade anarquista impossível, pela "boa lógica", "seremos defensores do regime burguês". Potente de fato é o fetiche do dinheiro, que não tem nada de pura ficção: pois é a abstração terrivelmente real do "trabalho socialmente necessário" ou "trabalho social abstrato" (Marx, O Capital). Seu poder encarnado no indivíduo capitalista, sim, tem algo de fictício, de pura contingência, como uma mera máscara de seu "capital-fictício" (Marx, ibid.). Só assim, no imbróglio de sua argumentação paradoxal, ele pode se reconciliar cinicamente na mais absoluta dilaceração: "Eu libertei-me a mim; fiz o meu dever simultaneamente para comigo e para com a liberdade. Por que é que os outros, os meus camaradas, não fizeram o mesmo? Eu não os impedi".

Mas, por fim, o eu que subsume o outro e a si torna-se vazio. Por trás do anonimato do banqueiro (e de seu interlocutor) já se vislumbrava a vã máscara mercantil fetichista. Por trás da máscara do sujeito-monetário há o nada. "De telles gens ne sont ni parents, ni amis, ni citoyens, ni chrétiens, ni peut-être des hommes: ils ont de l’argent", dizia La Bruyère ("Tais pessoas não são nem pais, nem amigos, nem cidadãos, nem cristãos, nem homens, talvez: elas têm dinheiro"), num momento de consolidação da forma-dinheiro na sociedade européia. Não só o poeta dos heterônimos, mas também "Fernando Pessoa ele mesmo" constatava isso, num de seus escritos não-literários:

"o comerciante não tem personalidade, tem comércio; a sua personalidade deve estar subordinada como comerciante, ao seu comércio; e o seu comércio está fatalmente subordinado ao seu mercado, isto é, ao público que o fará comércio e não brincadeira de crianças com escritório e escrita" (Fernando Pessoa, "A essência do comércio").

* *
São conhecidos os pendores nacionalistas, místicos e mesmo autoritários de Fernando Pessoa, não obstante todo seu ceticismo moderno – típicos aliás de um leitor de Nietzsche. Definiu-se politicamente como liberal, anti-socialista e anti-comunista. Sabe-se também que apoiou indiretamente, em certo contexto histórico, o começo da ditadura de Salazar, apesar de mais tarde remedar saticaricamente dela. Talvez, "O Banqueiro Anarquista" estava inserido em tal contexto objetivo-subjetivo: rebaixando ideologias revolucionárias através do uso de seus próprios meios, isto é, da argumentação esclarecida, o texto poderia implicitamente ter a intenção de legitimar a necessidade de um Estado autoritário para o desenvolvimento moderno de nações periféricas; a mofa posterior do ditador sendo apenas a de uma ditadura que se tornou "mesquinha" demais, "menor" do que a "necessária", incongruente com a grandeza pátria imaginada pelo cantador de "Mensagem".

Mas não se pode julgar um texto simplesmente pelas intenções do autor, se é que essas eram elas. Em todo caso, o trabalho literário é mais que um documento histórico factual. Tal texto pode ser, talvez, libertado da voz pessoal do autor. Um texto é virtualmente múltiplo, ambivalente, tal como os heterônimos de Pessoa prometiam ser. O paradoxo armado não é simplesmente o falso ou o meramente ideológico. Contradições foram aparentemente dirimidas, mas para nós, nas entrelinhas, foram apresentadas e aprendidas: a esterilidade da verve esclarecida que gira em falso, na má infinidade do discurso lógico, sem teor prático efetivo, sem real superação (Aufhebung).
O leitor turco talvez encontrará no "Banqueiro Anarquista" um traço familiar em sua própria tradição narrativa. Tal forma narrativa paradoxal, fundada no regime da má infinidade, da contradição dissimulada, é algo comum às "periferias do capital"(Schwarz): pense-se na obra crítico-negativa do brasileiro Machado de Assis (especialmente em "Memórias Póstumas de Brás Cubas"), na obra de Goethe na Alemanha, ou em Dostoiévski na Rússia. Mas, talvez, na cultura pós-moderna do capitalismo mundializado atual, que patina em suas próprias contradições sem sair do lugar, não será difícil reconhecer por todos os lugares, em todos os níveis, as mesmas estratégias hipócritas e cínicas do discurso de nosso banqueiro.
(setembro/outubro 2005. Texto para uma apresentação da tradução turca do livro).

21 janeiro, 2006

HISTÓRIA, ESTRUTURA E DIALÉTICA DO SUJEITO

História, Estrutura e Dialética do SujeitoProblematizações da relação entre Crítica Marxista e PsicanáliseCláudio R. Duarte

1- Abstração real, necessidades coisificadas, problematização do sujeito
Dentre as categorias fundamentais que orientam o discurso da economia política clássica temos valor-de-uso e necessidades humanas. Na ideologia liberal, o capitalismo funciona para atender às necessidades dos indivíduos em geral, visando produzir objetos de uso, tendo o lucro mais como um meio do que como um fim. Marx absorveu tais categorias como conceitos funcionais do modo de produção capitalista: estavam na base do sistema, como condição pressuposta da produção de valor e mais-valia: nas esferas da produção industrial (consumo produtivo) e do consumo final de mercadorias. Mas, em Marx, as necessidades são históricas, produzidas e reproduzidas, postas e repostas no interior do sistema. Os salários, por exemplo, variam conforme um "mínimo moral" necessário para a reprodução do trabalhador. Se nos Manuscritos de 1844 as necessidades e paixões do homem tinham ainda um significado antropológico e ontológico fundante, como base e sentido do Homem realizado (a formação dos "cinco sentidos" enriquecidos, como índice de progresso histórico), em O Capital trata-se de uma inversão de perspectiva: os valores-de-uso e as necessidades humanas atendidas são meros meios de produzir mais dinheiro – são necessidades sociais do capital. O sujeito fundado já não é o "Homem", mas o Capital, isto é, o fetiche da capitalização do dinheiro, o "sujeito automático" (O Capital, Liv. 1, p.126): as necessidades da acumulação de dinheiro sobredeterminam as necessidades humanas e sociais em geral. Não por acaso, já nos Manuscritos Marx mostrava, dentro do rol das alienações, a regressão antropológica do trabalhador – quando a necessidade de ganhar dinheiro torna-se a primeira necessidade dos homens em geral.
*
As necessidades produzidas dentro do sistema são, assim, tiradas da discussão social e coisificadas. O capital se funda numa enorme abstração dos contextos materiais de vida – o trabalho abstrato. Este se abstrai de uma relação racional e sensível com o corpo e a natureza; está portanto, alheio às necessidades sociais e individuais livremente comunicáveis. Os homens já não são "sujeitos", mas "personificações" e "suportes" (op.cit, p.80) de relações econômicas alienadas, impessoais, objetificadas. Só num sistema como esse podem conviver lado a lado abundância e miséria extremas. As grandes metrópoles são formas de vida monstruosamente artificiais, abstratas e estranhas à vida. O discurso do capital pode ser descrito metaforicamente como uma espécie de "delírio psicótico", descrevendo uma realidade alienada, abstraída da prática concreta, um mundo místico, mágico, imaginário ou simulado, mas terrivelmente eficiente e real. Por isso, Marx qualificou o discurso da economia política de metafísico, fantasmagórico, enlouquecido, irracional. O discurso fetichista naturaliza determinações histórico-sociais, toma relações sociais como relações eternas entre coisas, coladas às próprias coisas, no limite, reduzindo pessoas a coisas. Mas era um discurso que tinha sua necessidade histórica, sua razão de ser, sua objetividade relativa correspondendo a movimentos reais do capital. Mercadoria, valor, dinheiro, capital, Estado etc. são categorias ontologicamente objetivas de uma "segunda natureza" e, por isso também, são "formas de pensamento socialmente válidas" (op.cit., p.73) para os agentes econômicos, isto é, formas que estruturam objetivamente as formas de pensar dos sujeitos-sujeitados ao mercado e ao Estado.
*
A superação do capital foi pensada pelos comunistas a partir da práxis do proletariado, como a classe social negativa por excelência: excluída da propriedade, como pura força virtual de trabalho, era a única a ter "necessidades radicais", que iam além desse mundo das mercadorias. As forças produtivas humanas romperiam, assim, as cadeias de suas relações coisificadas. A ideologia e a coisificação fetichista nunca foram problemas realmente sérios para Marx. "Para a massa de homens, isto é, para o proletariado, tais representações não existem e não necessitam, portanto, ser dissolvidas, e embora esta massa ainda tenha representações teóricas desse tipo, tais como a religião etc., há muito tempo estas foram dissolvidas pelas circunstâncias" (A Ideologia Alemã, p.59). O proletariado tinha a "escola do trabalho" como modo de formação para a objetividade. A práxis revolucionária imanente do capital, contraditória, já se encarregaria de pôr abaixo uma parte das próprias idéias místicas e práticas que produz para se justificar. A lei tendencial de "pauperização" econômica era postulada como uma espécie de alavanca dialética, terminando por fazer ruir as fantasmagorias e simulações do dinheiro, suscitando condições para uma práxis revolucionária: da miséria social generalizada evidente, da falta de esperanças com o mundo existente, se ergueria a consciência prática revolucionária.
*
Sabemos que isso não se concretizou em nenhuma parte, nem mesmo na miséria absoluta da África. Mas a dita "sociedade de consumo" afastou esse diagnóstico otimista, quase-religioso: não só a miséria absoluta retrocedeu em grandes partes do mundo (claro que de modo desigual), como as próprias possibilidades de superação do capitalismo parecem-nos hoje fortemente bloqueadas. Isso pôs seriamente em questão a idéia do sujeito revolucionário comunista: as pessoas se identificam fortemente a suas formas de vida alienadas, atomizadas e sem-sentido, suportando ou mesmo afeiçoando-se a seus papéis sociais, regendo-se voluntariamente pelos valores do individualismo competitivo e do nacionalismo, da laboriosidade ou do prazer consumista, realmente investindo seu desejo nos objetos ou ideais consumidos e praticados. Como viu Adorno, a ordem capitalista hoje dispensa grandes discursos ideológicos para se sustentar, quando produz sua confirmação na própria produção/consumo em massa de mercadorias, incluídas as da indústria cultural. A dominação torna-se menos uma imposição despótica do que um "serviço" feito às massas. Por isso, ela é engendrada menos por "idéias da classe dominante" do que por práticas concretas de reprodução que contém em si mesmas a sua justificação discursiva – ou simplesmente nenhuma: o mundo capitalista tecnicamente simplesmente "funciona" e assim se justifica. A luta pela existência se dá num ambiente sem grandes ilusões, "niilista passivo" ou de "cinismo esclarecido": sobrevive-se, adapta-se, conforma-se à rotina fetichista da vida.
Após 150 anos, aparece-nos com mais clareza que a categoria de necessidade tem de ser profundamente revista, assim como a própria noção de sujeito revolucionário que nela repousa. No marxismo, o sujeito é uma noção ainda pouco problemática, pré-psicanalítica. A dominação parece não mais passar somente pelo discurso ideológico ao nível da consciência ou das emoções facilmente eleváveis a ela, seja o discurso da política, da religião, da cultura massificada ou o discurso racional fetichista da economia política. A coisificação da forma-mercadoria se escora talvez em outro nível, mais profundo, o das práticas de socialização e formação do sujeito. As categorias fundamentais do desejo e do inconsciente, introduzidas a partir da psicanálise freudiana, vêm então a primeiro plano.

18 agosto, 2005

ALGUÉM BATENDO À PORTA - Entrevista: Pra que serve a crítica do valor

ALGUÉM BATENDO À PORTA
Pra que serve a crítica do valor ?
(Entrevista ao Centro de Mídia Independente)



*1) Y.: Levando em conta que a produção material, a atividade humana, não tem possibilidade de ser suprimida, por ser de certa forma ela a base da sociedade, no que se fundamenta a idéia de negação do trabalho?*
Cláudio R. Duarte: Antes de mais nada, trata-se de uma negação dialética, não de uma anulação do mundo material - o que seria um absurdo. Qual é o papel da produção material na vida social? Será que ela sempre foi o "centro" da sociabilidade humana, como se diz hoje, no capitalismo? A "sociedade do trabalho" sempre existiu? Acho que não. Então, temos de historicizar o conceito de "trabalho" e limitá-lo às sociedades modernas, isto é, às que se cristalizam em torno do mercado e do Estado. Só a modernidade impôs a atividade produtiva como centro da sociabilidade, pois ela está fundada na produção incessante de mercadorias para a valorização de capital. Nas sociedades pré-capitalistas o "tripalium" sempre fora associado a sofrimento, como condição natural de escravos ou servos, isto é, de pessoas menores, sem autonomia moral e "política". Se o trabalho existia era de modo totalmente negativo, como escravidão e servidão, de forma muito diferente da nossa sociedade. Não havia um "mundo do trabalho", estética e moralmente avaliado como positivo tal como hoje fazemos, pois a vida social e "política", o ócio e as atividades reprodutivas, eram muito mais importantes que a dura labuta. E por isso mesmo ela era mais reduzida, não um fim em si mesmo, como no capitalismo. No extremo oposto, se estudarmos as sociedades indígenas, veremos que muitas reduzem a atividade produtiva ao máximo: a apenas um momento do todo de sua reprodução. São, por isso, "sociedades do ócio", que recusam o trabalho (tanto como o Estado, a propriedade e a acumulação), como desvendou Pierre Clastres. Digamos que nesse caso temos uma "cultura", muito mais integrada que a nossa, onde a produção material não determina nem domina os outros momentos da vida. Caçar, pescar, dançar, cultuar, cuidar dos filhos etc. não são atividades hierarquizadas e nem são esferas separadas.
*2) Y.: Como fica o marxismo nesse caso?*
CRD: O marxismo sempre tentou reduzir as formações sociais anteriores ao capitalismo, de forma funcionalista, a um apêndice de sua produção, como se as necessidades econômicas fossem as que imperavam sempre sobre o todo, tal como no capitalismo: nesse sentido, o marxismo da "ontologia do ser social", fundado antropologicamente, sempre cai num anacronismo funcionalista. Só a modernidade transformou o mundo em esferas funcionais, com espaços completamente separados: a do lazer, da cultura e da arte (com os museus, clubes etc.), a da política (com as arenas políticas especiais), a da vida privada (e o lar burguês), e, finalmente, a do trabalho (fábricas, escritórios etc.), que domina e determina todas as anteriores, como manifestações diretas ou invertidas de si mesma. Apenas na moderna "sociedade do trabalho", enfim, podem atividades qualitativas tão distintas como dançar, cozinhar, ensinar, pescar ou cultuar ser homogeneizadas sob o nome genérico de "trabalho". Isso é uma abstração, não como a palavra "fruta" ou "árvore", é claro, mas uma "abstração real" de todas atividades humanas sob um único conceito universal. E isso significa uma violência brutal. Quem abstrai é o mercado, através da lei do valor.
*3) Y.: Como definir o trabalho moderno, então?*
CRD: A moderna atividade produtiva é qualquer atividade que, abstraída de suas qualidades e do controle direto dos homens, pode se tornar equivalente a qualquer outra, porque é medida pelo valor, tornando-se um meio de produzir mercadorias e, portanto, de valorizar capital. No capitalismo, as atividades produtivas são sempre "trabalho abstrato" - e abstrato em vários sentidos: no sentido de que está separado completamente dos outros momentos da vida (arte, lazer, política, vida doméstica, destinada às mulheres etc.); no sentido de que é uma atividade produtiva genérica, completamente abstraída do controle e das necessidades reais dos produtores, do sentido ou da qualidade do que se faz, pois o que importa é o valor monetário que ela traz; no sentido de que o produtor é um ser abstraído - separado - dos meios de produção, isto é, tornou-se uma pura força de trabalho, um "sujeito" monádico, desenraizado, destinado a perambular pelo mundo atrás de seu sustento, sem objeto disponível diretamente; abstrato ainda porque cada trabalho concreto, já por si abstrato, é abstraído ainda mais uma vez na troca de mercadorias, sujeita aos padrões de produtividade sociais mais altas ao nível mundial. Este é o mundo do trabalho: o da abstração. "Trabalho", portanto, é a proto-forma da experiência social moderna, marcada estruturalmente pela abstração, pela insensibilidade e o desvario produtivista do homem moderno, constituindo sua alienação e cisão esquizofrênicas, no sentido marxiano e também psicanalítico destes termos. Vê-se como a crítica vai além do termo linguístico: chame-a produção ou economia, dá no mesmo. Só o capitalismo colocou a produção, a economia, no centro, com o cetro na mão.
*4) Y.: No livro "Manifesto Contra o Trabalho", o Grupo Krisis afirma que o trabalho está em crise e conseqüentemente o Estado também. De acordo com essa idéia, como se relacionam as duas crises?*
CRD: Trabalho, Capital e Estado são uma só coisa, isto é, uma identidade de contrários, através da forma-valor comum a todos eles. Se o valor entra em crise, esta tríade também tem de entrar em crise. A crise do trabalho tem a ver, no fundo, com as tecnologias da 3ª Revolução Industrial, que poupam cada vez mais trabalho produtivo na produção da riqueza. As máquinas avançadas substituem em massa o trabalho na produção de riqueza. Isso significa que cada vez mais teremos uma massa gigantesca de produtos (riqueza) com um mínimo de valor agregado em cada um deles. Surgem, então, grandes problemas para a realização dessa massa de mercadorias com valor unitário reduzido: daí a tendência à mundialização, à abertura transnacional de mercados, à concorrência bestial e nômade pelo mundo. É assim que surge também a tendência geral à desvalorização do capital, pois o valor real embutido nas mercadorias não compensa os gastos de sua produção e circulação. Daí a chegada dos "métodos flexíveis" de produção e circulação. O capital perde a capacidade de explorar e integrar trabalho abstrato em massa, e, no fundo, vai perdendo o seu alimento tão estimado, o trabalho, não por falta, mas por excesso de acumulação. Este então foge e "vagabundeia" no mercado financeiro, com custos baixos, impostos reduzidos e lucros altos, por incapacidade de manter as forças produtivas produzindo mais do que já produzem. Daí o crescimento econômico baixo, o desemprego estrutural, a desvalorização do próprio trabalho, com perda do poder de compra dos salários, a escalada do subemprego, da violência etc.
*5) Y.: Onde começa, então, a crise do Estado?*
CRD: Neste processo de crise, cheio de intermediações complexas e contraditórias, o Estado entra em déficit estrutural, pois já não consegue, e isso há tempos, arrecadar impostos suficientes para alavancar a produção nacional em crise, coisa de pelo menos 3 décadas. O Estado se endivida estruturalmente (lembre-se das dívidas brasileiras p.ex.), os países mais fracos em competitividade entram numa fase de "desindustrialização endividada", o Estado recorre ao mercado financeiro global para angariar fundos, é obrigado a cortar radicalmente os gastos públicos, fica refém das políticas neoliberais para conseguir novos empréstimos, tudo numa esteira fatal que leva ao fim declarado da política: quando o FMI e o Banco Central mandam ditatorialmente sobre o país, como vozes diretas do mercado, então vai se percebendo que o Estado perde sua antiga autonomia, já relativa, até ser esmagado pelas rodas desse totalitarismo econômico mundial. Há margens de manobras ainda, mas somente para os Estados em melhor posição na divisão internacional do trabalho. Esse processo portanto é muito contraditório, não totalmente sincrônico, pois se diferencia segundo o contexto nacional e regional.
*6) Y.: E como é que o marxismo, sem compreender a revolução microeletrônica, torna-se incapaz de compreender criticamente o desenvolvimento negativo do capitalismo?*
CRD: Antes de mais nada, a 3.a revolução industrial sozinha não explica nada. Isso seria repetir o esquema arcaico do marxismo mais tosco, que deposita todo o movimento da sociedade na evolução das forças produtivas. Ora, estas sempre são reguladas por relações de produção históricas. A robótica, a informática, a biotecnologia etc. aumentam a produtividade do trabalho, excluindo grande parte da mão-de-obra excedente para o exército de reserva, é certo, mas isso não acontece de forma direta, pois ocorre através da mediação de formas de regulação econômico-políticas "neoliberais" e "flexíveis", que desempregam e precarizaram ao máximo a condição dos trabalhadores, que vão perdendo todo tipo de segurança social e autonomia política. O proletariado é cada vez mais um sujeito sujeitado, fragmentado como classe, vivendo à caça de oportunidades individuais de ganhar seu dinheiro. Nesse ponto, o marxismo brasileiro tem feito análises críticas bastante corretas e precisas. O problema dessas análises talvez sejam as ilusões, socialmente justificadas, da possibilidade de um novo ciclo de desenvolvimento econômico nacional através de políticas neokeynesianas. Imagina-se ser possível, tanto quanto se passa a desejar realmente, a reconstrução de um Estado forte, economicamente investidor e politicamente antineoliberal: por um lado, um Estado que alavanque, com seus investimentos infra-estruturais, o crescimento econômico para gerar mais empregos e construir um mercado de massas; por outro, uma regulação nacional mais forte da concorrência mundial, tal como no modelo chinês, que possibilitaria ao país proteger sua indústria, taxar o capital especulativo, para este retornar ao investimento produtivo, recuperando então as políticas sociais, etc.
*7) Y.: De onde surge aquela velha e boa pergunta: o que fazer?*
CRD: Bem, cabe perguntar, primeiro, de onde surgiria a força política para exercer toda essa pressão democrática (sem romper com a ordem capitalista portanto) sobre o capital e a concorrência mundial - isso é uma incógnita. Aqui, nós da esquerda hoje patinamos (sem falar na crise do PT, que vinha de longe), já que o trabalho vivo objetivamente vai sendo cada vez mais desvalorizado pelo trabalho morto mundialmente acumulado em ciência e tecnologia, a classe trabalhadora vai se fragmentando etc. Em segundo lugar, cabe a pergunta sobre a fonte do crédito para tais mega-investimentos estatais, face a um Estado já estruturalmente endividado e demolido. Tudo isso nos mostra que o que está em jogo não é uma questão de pura e simples regulação política do sistema, no caso, o de uma rígida e perversa regulação neoliberal-flexível. Aqui, então, encontra-se o cerne da ilusão da esquerda (oposta ao economicismo da direita), a saber: o seu politicismo estatista. As forças produtivas tecnicamente superavançadas, para não dizer diretamente "revolucionárias" (pois máquinas não fazem revolução), tendem a limitar e repelir objetivamente os reformismos políticos da esquerda.
*8) Y.: Será que esse processo de crise é tão inevitável?*
Vamos fazer um raciocínio experimental, meio maluco: se a luta dos trabalhadores ressurgisse com força, se cortássemos pela raiz nossa atual flexibilização do trabalho, o desemprego provavelmente aumentaria ainda mais, pois o capital aumentaria ainda mais seus custos de produção (já muito altos, segundo o ponto de vista da concorrência mundial). A produtividade global bateria à nossa porta, causando falências em massa. Então, haveria uma contra-tendência maior ainda, por parte dos capitalistas, para revolucionar e automatizar a produção, ajustando-a a estes padrões mundiais, para contrabalançar o poder operário subitamente ascendente. Novamente teríamos a onda de desemprego e subproletarização. A objetividade histórica vai tornando-se incontornável: o trabalho deixou de ser uma forma de integração social garantida. Por isso, é positivo que vá surgindo na Europa a idéia de desvinculação entre trabalho e renda (programas de renda mínima, renda cidadã etc.). Assim, neste raciocínio hipotético, por incrível que pareça, a flexibilização, a precarização, o subemprego, acabam por nos ajudar a criar e a manter muitos empregos - precários, miseráveis e subhumanos é certo (na hipertrofia do setor de serviços por exemplo) - mas empregos reais, e, na verdade, quase sempre subprodutivos do ponto de vista da concorrência mundial. Eles já seriam, deste ponto de vista, a nossa "proteção social" contra o total desemprego (falências em masssa, etc., a degringolagem ao modo africano), que já estaria batendo a nossa porta.
*9) Y.: E a esquerda politicista, onde mais erra em tudo isso?*
CRD: A antiga esquerda socialista ou social-democrata que chega ao governo, agora totalmente nas vestes do velho populismo, tem de mostrar a verdadeira face desse seu antigo voluntarismo politicista: pode prometer a criação de 10 milhões de empregos, mas realmente apenas consegue administrar a crise do trabalho abstrato com medidas assistencialistas, e, justamente, flexibilizadoras do trabalho (pois estas são as únicas que geram realmente "emprego"), além de outras sob medida para a continuidade da hegemonia do capital especulativo. Isso tudo sob a ideologia deslavada da responsabilidade fiscal, da ética na política, do compromisso com o povo etc. Estamos vendo no que tudo isso se tornou com o afundamento do PT. A esquerda acadêmica, neste contexto, também não se cansa em apontar a sua derrota teórica e prática, de forma tácita é claro, com frases de valorização moral e quase-religiosa do trabalho, típicas do protestantismo e do produtivismo do século passado, em suma, de que só o trabalho das massas dignifica a vida humana, além de ser, "ontologicamente", o mais importante gerador da riqueza social em geral. Ora, no contexto da 3.a revolução industrial isso torna-se uma bela mentira: cada vez mais valores de uso (riqueza) são fabricados, só que com o mínimo de valor agregado por unidade, justamente pelo aumento do capital constante cientificizado em geral. As máquinas avançadas geram a maior parte da riqueza material, enquanto o trabalho vivo, mais e mais técnico-científico, reduzido a um mínimo, é responsável pelo restinho do valor real de cada produto. A esquerda, confundindo qualquer atividade humana (ou trabalho concreto), efetivamente produtor de bens, com o trabalho abstrato-produtivo, também confundirá riqueza e valor - como se estivéssemos na "idade de ouro" da acumulação da mais-valia real, e não na do capital especulativo, sem fundamento real econômico (valor), mero preço, dinheiro sem substância.
*10) Y.: E como retomar a crítica radical do capitalismo e do trabalho?*
CRD: A crítica neste tipo de esquerda é reduzida a um mínimo, à superfície. Ou seja, o pior em tudo isso, é que a velha e boa crítica do fetichismo da mercadoria, a da insanidade da acumulação de trabalho abstrato sem limites, isto é, sem qualquer relação viva com as necessidades reais e o controle dos homens, com todas as suas implicações desastrosas para a vida social, cultural e ambiental – o que mais deveria nos importar – esta crítica é quase totalmente desvalorizada, recalcada, esquecida ou simplesmente confundida com uma crítica estética e moral do consumismo. Quando muito é adiada ao infinito. A forma-mercadoria parece se naturalizar completamente, mesmo na esquerda política, já que a luta prioritária passa a ser a recomposição dos salários, a recomposição da classe, para lutar por mais crescimento econômico, portanto mais trabalho abstrato, mais integração de massas no "feliz" mundo das mercadorias. O programa radical de "auto-abolição do proletariado" é simplesmente apagado da história. O sonho "unidimensional" que resta, como diria Marcuse, seria tornar cada brasileiro um novo americano classe média, precisamente quando seu modelo original há muito já mostrou a face mórbida da decadência social e cultural, e agora também econômica. Mas se o frágil biombo da economia especulativa vir abaixo, talvez aí chegará a hora do acerto de contas. Daí renascerão as velhas ideologias do trabalho e da nação, da propriedade e da liberdade democrática, provavelmente com os EUA à frente. É aí, afinal, que a crítica do valor e do trabalho, feita hoje mais ao nível ideológico que na prática, encontrará a sua plena atualidade. Os movimentos sociais atuais terão então de encarar sua auto-crítica, passando pela crítica anti-capitalista e anti-estatal - ou definitivamente trancar a porta para a história que lá fora bate, lhes restando, então, se acotovelar em seu estreito quarto de despejos ideológicos, à procura das velhas fantasias rotas e rasgadas.
(JULHO/AGOSTO 2005)
Link do original:
http://www.midiaindependente.org/pt/red/2005/08/327224.shtml

17 julho, 2005

O ENIGMA CLARO DA CIDADE NO SÉC. 21

O ENIGMA CLARO DA CIDADE NO SÉC. XXI

Cláudio Roberto Duarte*

“O mundo, valer não vale”
(Drummond, “Cantiga de enganar”, Claro Enigma)

Vivemos ou não vivemos no “mundo das mercadorias” ? – assim sugeria o tema mais geral para discussão nessa mesa. Afinal, será mesmo que habitamos um mundo urbano no sentido enfático do conceito, tal qual este pressupõe (e apenas o pressupõe) a livre associação e o usufruto social da riqueza aí concentrada ? Ou vivemos de fato no mundo fantasmagórico das mercadorias e esquecemos o que poderia haver fora dele ? Os estudos apresentados aqui não respondem com alternativas excludentes (“ou... ou”), mas com a conjunção dialética “e”: hoje, viver o mundo urbano é viver simultaneamente o mundo das mercadorias, pois o primeiro, o urbano, torna-se a matéria fundamental para as formas da reprodução do capital. Ou seja, o conteúdo do urbano é o do processo de valorização e acumulação capitalista.

Portanto, o que os trabalhos desta mesa estão dizendo é que fizemos o bolo, o bolo cresceu, mas, após nem bem reparti-lo um pouco, o bolo nos traiu...

Na mesa interminável comíamos o bolo / interminável / e de súbito o bolo nos comeu. / Vimo-nos mastigados, deglutidos / pela boca de esponja. // No interior da massa não sabemos / o que nos acontece mas lá fora / o bolo interminável / na interminável mesa a que preside / sente falta de nós / gula saudosa.
(Carlos Drummond de Andrade, O bolo, Lição de coisas).

Gula saudosa, porque quem pode pagar e viver o mundo das mercadorias, não vive ainda, no sentido pleno, o mundo urbano, eis a contradição. O urbano está apenas na sombra de nossa história de capitalização e modernização periférica. É um enigma . Aparece, assim, nos estudos apresentados nesta mesa como negação (determinada). Assim, extinção de direitos costumeiros sobre as águas públicas urbanas é a instituição da água como mercadoria e raridade programada em Fortaleza, sob a capa do mais moderno tecnicamente (como mostra o estudo de Ana Cristina Mota Silva); privatização e grilagem de terras públicas em São Paulo é exclusão evidente do “social” que resta(va) nas mãos do setor público (a ponto, aliás, de hoje vivermos em alguns bairros a escassez de terras públicas para expansão dos serviços básicos como escola, tamanha é a fragmentação da terra em São Paulo); assim como a criação de bairros e loteamentos, diferenciados e segregados, segundo as faixas de renda, é a conformação de uma cidade partida, espelho fiel da dominação das leis da valorização, que, para se realizarem concretamente, então, podem e precisam passar por expedientes considerados arcaicos, isto é, por políticas urbanas autoritárias e clientelistas (como mostrou Mônica Brito, e também Ana C. Mota Silva). E “experiência hotelar” é experiência restringida do urbano, aquela mesquinharia administrada de hotel turístico mais ou menos travestida de espontaneidade e gozo, que ecoa mais ou menos nas lembranças frustrantes de cada um (como ensaia mostrar José Augusto Pessoa).

Todos os participantes respondem enfim: viver na cidade moderna, e mais especificamente, nas grandes cidades brasileiras de hoje é participar em larga medida como espectador – seja como consumidor, trabalhador ou funcionário – desse mundo autonomizado, sujeito às duras leis da valorização do dinheiro. O que há de peculiar e substancial aqui é que os estudos verticais, com forte documentação histórica em arquivos e mapas, como os de Ana C. M. Silva e Mônica Brito, mostram como a valorização se utiliza da propriedade formal de reunião e aglomeração das cidades como seu instrumento para acumulação e formação de capital em bruto. E isso desde a emergência das cidades brasileiras. Assim, deve-se muito e há muito tempo ao mundo das mercadorias: infraestrutura, bairros inteiros, senão a totalidade da cidade moderna. Não teríamos na América, efetivamente, e nesse caso diferente do caso do Velho Mundo (Europa e Ásia), uma história e uma geografia da(o) cidade (urbano) muito distinta da que o capital e o correspondente poder estatista engendraram. Ambos mundos se confundem desde o início.

Ou como ensina Drummond em “América”, poeta “mestre de coisas”, que aliás foi também professor de geografia no início da vida em Minas Gerais,

"Tantas cidades no mapa... Nenhuma, porém, tem mil anos. / E as mais novas, que pena: nem sempre são as mais lindas. / Como fazer uma cidade ? Com que elementos tecê-la ? Quantos fogos terá ?/ Nunca se sabe, as cidades crescem, / mergulham no campo, tornam a aparecer / O ouro as forma e dissolve; restam navetas de ouro. / Ver tudo isso do alto: a ponte onde passam soldados (que vão esmagar a última revolução); / o pouso onde trocar de animal; a cruz marcando o encontro dos valentes; / a pequena fábrica de chapéus ; a professora que tinha sardas... / Esses pedaços de ti, América, partiram-se na minha mão. // A criança espantada / não sabe juntá-los (C. Drummond de Andrade, “América”, A Rosa do Povo).
* *

Mas se do início até o presente da sociedade moderna, a urbanização e as rendas fundiárias foram em geral modos fundamentais para a acumulação primitiva do capital (como mostram alguns historiadores para a Europa: F.Braudel, M.Dobb, H.Pirenne entre outros) – poderíamos então perguntar aos apresentadores: será isso hoje sinal de força da acumulação ou de fraqueza e crise permanente do capitalismo brasileiro ? Para uma perspectiva teórica mais abrangente, o estudo de Mônica Brito forneceria pistas de que haveria, na passagem do séc. XIX ao XX, certa força e dinamismo da acumulação, sinalizada pela diversificação dos investimentos do capital desde a agricultura, a indústria, o banco, passando pela urbanização (transportes, loteamentos etc.) até os lazeres. Mas não indicariam também uma fragilidade econômica fundamental do Brasil, uma fraqueza relativa do acúmulo de capital no país até aquele momento e a inadequação histórico-material relativa da cidade aos ditames da valorização capitalista (parca infraestrutura, escassez de habitats operários etc.) ?

O estudo de Ana Cristina Silva também sugeriria a força, de forma até mais enfática . Mas então, com essa nova questão, não seria preciso especificar a hipótese ? De fato, o capital inglês da Water Company, apontaria para a força histórica da acumulação no centro mundial (Inglaterra): a superprodução do capital no centro exigindo sua expansão imperialista para países periféricos, o que se faz aqui através dos setores econômicos ligados à urbanização, entre outros. (Assim, só mais tarde, os ramos da indústria de base e de bens duráveis aqui se instalariam). Quanto à capitalização da família Gentil, através do imobiliário, não tratar-se-ia, ao contrário, de uma acumulação ainda primitiva, parte incipiente duma acumulação nacional endógena, mais tarde socialmente mais ou menos malograda? Por outro lado, o “circuito secundário” da acumulação (imobiliário, urbanização), na terminologia de Lefebvre e Harvey , já deixaria naquele momento, virada do século, de ser menos relevante, isto é, “secundário”, para o centro mundial (sendo o circuito primário aquele da indústria e da produção de mercadorias reprodutíveis em massa)? Neste caso, acabariam as distinções entre um e outro circuito, passando o imobiliário a setor estrutural desde o início? Ou manter-se-ia a alternância entre os circuitos, conforme os ciclos de desenvolvimento (como nos afirma Harvey) ? Ou isso seria nada mais que uma possibilidade contida na forma persistente de subdesenvolvimento ou dependência externa da capitalização no Brasil (além do mais com imensos fundos territoriais “subdesenvolvidos” do ponto de vista capitalista) ? Ou ainda, a acumulação através do primado do circuito secundário não poderia ter sido um dos fatores do atraso e da lentidão da “revolução burguesa” no Brasil (caráter rentista do capital nacional etc.) ? Ou talvez correspondido a apenas uma etapa do desenvolvimento capitalista (o da formação de capital fixo e fundos de consumo) num país ainda descompassado com o centro ?
Não temos a resposta para todas essas perguntas. Tais perguntas e hipóteses são díspares e complexas pois envolvem a análise articulada das escalas geográficas (níveis e dimensões). Já os estudos de José A. Pessoa (sobre a expansão do turismo hoteleiro no nordeste) e em certa medida o de Sergio Martins (sobre a metropolização de Belo Horizonte) apontariam que hoje o “circuito secundário” não é mais, de fato, “secundário”, mas “estrutural” à acumulação. Mas então, pergunta-se: que fase da acumulação é essa ? Seria ela sólida, como sugere o termo “estrutural” ? Que acumulação global é essa em que a distribuição da mais-valia (renda fundiária, juros, capital-fictício, especulação) passa a ter mais importância que sua produção ? Seriam o setor turístico, o de serviços hoteleiros, o de infraestrutura urbana etc. produtivos em termos de capital social total, por ex. ? Por outro lado, os investimentos privados e estatais não tendem hoje a se restringir a certas zonas seletas da cidade, como no caso turístico-hoteleiro ? Qual a relação entre a especulação com imóveis e a com ações, ou seja, a especulação com base na propriedade fundiária (renda) e a com títulos mobiliários (vale dizer, com a mera forma do dinheiro por juros e dividendos) ? Neste caso, teríamos o urbano não só no mundo da mercadoria, mas também no da propriedade, isto é, sua “simulação” (sem substância de trabalho) – pois pode-se vender como mercadoria aquilo que não representa médias abstratas de trabalho social, mas representam monopólios; enfim, um mundo do fetiche “redobrado”, onde se remunera cada vez mais títulos patrimoniais e não algo que tenha algum lastro claro com o trabalho alienado.

Tendo, de minha parte, a pensar na hipótese de que tudo isso que nossa vista está abarcando hoje nesta monstruosa paisagem urbana é mais sintoma de fraqueza e crise do sistema produtor de mercadorias que de vigor da acumulação global do capital; que talvez esteja apontando, então, para o abalo (e o afundamento) da valorização real do valor, de sua capacidade expansiva e integrativa, ou, nos termos de Robert Kurz, um sinal de “colapso da modernização” . Talvez até mesmo sinalizando para o fato de que hoje o colapso da periferia mundial em termos de desenvolvimento moderno capitalista acaba suscitando e determinando formas arcaicas e irracionais de extração de mais-valia (trabalhos precarizados, sub-remunerados) e novas formas de sua divisão social (particularmente a renda fundiária urbana), neste ponto, aliás, elemento bem afinado com o movimento de especulação com ações e títulos públicos nas bolsas, enfim, com o enorme cassino global que toma o mundo de assalto após os anos 80. Isso teria sua base material no excesso de capital-dinheiro, na superacumulação do capital em termos globais, porém, agora, numa fase de muito maior desenvolvimento das forças produtivas técnico-científicas (microeletrônica, robotização etc.), impondo-se, pela globalização e pela superconcorrência mundial, a produtividade do trabalho mais forte do centro mundial para todas as regiões do globo. Tal crise do trabalho abstrato rebate no território. Deste modo, resultaria numa espécie de “urbanização” sem base material sólida, daí sua precariedade, um pouco como já se falou das “idéias” liberais” como “fora do lugar” no Brasil escravista e patrimonialista (Roberto Schwarz), ou como se falava, nos anos 60-70, numa “urbanização sócio-pática” na América Latina e Brasil, causada por uma “urbanização sem industrialização” (Cepal, Luiz Pereira). Tudo isso seriam esquemas interpretativos, que me parecem mais que hipóteses, mas menos e muito diferente de certezas (positivistas): antes, colocar-se-iam no estatuto de tendências e contra-tendências do processo geral de acumulação.

A expansão para o imobiliário, por isso, estaria inserida nessa contradição interna da valorização, que a colocaria como sendo um tipo de ilusão real, mas ainda uma ilusão. A gigantesca urbanização teria o seu “fundamento” mais na “propriedade da terra” (e o fetiche da renda fundiária) que na mediação das relações sociais pela forma-mercadoria, isto é, pelo valor, expressando uma média social de trabalho produtivo real. Os preços não teriam fundamento num valor correspondente, mas em títulos jurídicos da terra, formando-se assim pelo monopólio das localizações especiais, pelo ardil publicitário, pela propriedade de patrimônios culturais e tecnológicos etc. Caberia, porém, perguntar se a indústria da construção pesada e civil, até hoje setor sabidamente com menor composição orgânica de capital que outros, teria a potência de criar a mais-valia social (que cede aos proprietários ou se apropria novamente) e insuflar o sistema global. Mas de novo cabe a questão: qual sua posição dentro do esquema produtivo/improdutivo do capital social total? Ou seja, o que parece diretamente produtivo (lucro industrial da construção etc.) também é produtivo do ponto de vista da totalidade do processo? Habitação social, hotéis, asfaltamento, hospitais, escolas, barragens, presídios, quartéis, enfim, capital social fixo e fundo de consumo, são diretamente produtivos hoje ? Ou a sua resolução se dá no tempo (“indiretamente”) ?

Em todo caso, a reprodução social daí resultante é, como sugeria já Lefebvre, um processo crítico, mas ainda “reprodução”: qual é a capacidade aquisitiva de nossas classes médias para realizar e justificar tais investimentos urbanos (verticalização, shoppings, turismo, hotelaria, aeroportos etc.) ? Quais efeitos negativos teria uma queda drástica das bolsas nos preços imobiliários e na urbanização, seja no setor de habitação (desvalorização imobiliária) seja do setor produtivo em geral (desvalorização de capital diretamente produtivo) ? Ou seria isto, de novo, como sempre foi, um refúgio seguro para o capital-dinheiro paralisado ? Quais são as implicações sociais e espaciais da proletarização e empobrecimento generalizado para estas cidades que crescem sem poderem mais integrar proletários no processo produtivo formal ? (A indústria da construção teria qual papel nisso?). Dentre estas conseqüências não estariam principalmente os bairros hiper-segregados, os mercados paralelos (circuito informal ou inferior da economia, inclusive de moradia precária), a imensidão dos “trabalhos concretos” irracionais e a violência urbana com seus poderes “integradores fragmentados” (tráfico de drogas, máfias, tribos etc.) ? Não está aí o peso e a gravidade da reprodução das relações anacrônicas e abjetas que passam desapercebidas, pois totalmente inquestionadas pela opinião pública e “científica” (“direito ao trabalho”, “inclusão social”, políticas tradicionais etc.) ? A ilusão aqui, como se vê, pesa bem mais que a mão de uma criança, apesar da aparência de transparência. Ou como Drummond, que neste trajeto nos acompanha, nos diz:

"Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus. / Tempo de absoluta depuração / Tempo em que não se diz mais: meu amor. / Porque o amor resultou inútil. / Os olhos não choram. / E as mãos tecem apenas o rude trabalho. / E o coração está seco / És todo certeza, já não sabes sofrer.// (...) Teus ombros suportam o mundo / e ele não pesa mais que a mão de uma criança / As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios / provam apenas que a vida prossegue / e nem todos se libertaram ainda (...) / Chegou um tempo em que a vida é uma ordem / A vida apenas, sem mistificação". (Drummond, “Os ombros suportam o mundo”, Sentimento do Mundo).

Enfim, estamos condenados a lutar eternamente pela modernização burguesa mais que tardia das relações (crescimento capitalista, luta pelo governo do Estado, cidadania “orçamento participativo” etc.), como etapa para quê ? Como ampliar a visão e dar um salto maior? Lutar pelo possível-possível (pragmaticamente) sem olhar mais ao possível-impossível ?

* *

É que no interior daquele bolo não podemos saber se vivemos no mundo urbano ou no da mercadoria/propriedade. Lá tudo é escuro. Gostaríamos de uma resolução formal clara, enfática, ou um pé fora do “bolo” da acumulação, o imbróglio da alienação. Lefebvre, porém, já nos prevenira que o mundo urbano moderno quando entrava num ponto crítico passava por uma caixa preta, um campo cego (A revolução urbana). Talvez uma caixa de Pandora onde o que sai é o mais formidável e o mais horrível, sistematicamente. Como objeto em formação o urbano não nos é claro. Não há o que dizer de positivo dele. Nem aos geógrafos que querem definições claras dos conceitos, como se já se tratasse de coisas fundamentadas e postas autonomamente sobre seus próprios pés. Por isso, aqui, só conseguimos dizer o que ele não é, apesar de podermos apontar para alguns embriões detonadores, agentes que perfurariam de dentro para fora o velho “bolo”. Mas, sem garantias teleológicas, o enigma permanece.

Enfim, como ensinar às crianças, tal qual Drummond evoca em “América”, um modo de juntar esse quebra-cabeças e decifrar o enigma ? Como educá-las para não respeitar como um ídolo a cidade e o solo urbano sob a forma fetichista da mercadoria e da propriedade privada ? É preciso talvez criar uma “cantiga de enganar”, fazê-las desaprender o que se tornou tão natural, instruí-las sobre aquele riso alegórico que despreza esse “mundo” ? :

"O mundo não vale o mundo, / meu bem. (...) // O mundo, / meu bem, / não vale / a pena, e a face serena / vale a face torturada. / Há muito aprendi a rir, / De quê? De mim ? ou de nada ? / O mundo, valer não vale. / Tal como sombra no vale / a vida baixa..." (C. Drummond, “Cantiga de enganar”, Claro Enigma).

Enfim, como fazê-las aprender a questionar os direitos de herança patrimonial violentos e anacrônicos ? Como mostrar que a cidade pode se tornar obra coletiva, também para além das garras do Estado ? Mas antes, como fazê-las crer que este não se trata do urbano, mas do “mundo das mercadorias”, onde porém o trabalho social abstrato deixou de ser, em potência, o elo essencial de socialização e, portanto, a condição central que define a vida ? Só os dominados crêem numa necessidade “objetiva” deste mundo. Mas, é certo que

"Trabalhas sem alegria para um mundo caduco, / onde as formas e as ações não encerram nenhum exemplo" (Drummond, “Elegia 1938, Sentimento do Mundo).

São muitos os enigmas para o urbano neste milênio que se abre. Mas uma coisa é certa. Se o espaço seria algo assim como o nosso corpo social, a extensão e a potencialização de nosso próprio corpo biológico, agora então talvez só estejamos ficando com a parte insignificante dele, com a individualidade humilhante, embora ainda sensível, de nosso próprio corpo privado. Nosso poeta lírico captou o social tout court quando dizia,

"Escurece, e não me seduz / tatear sequer uma lâmpada. / Pois que aprouve ao dia findar, / aceito a noite. / E com ela aceito que brote / uma ordem outra de seres / e coisas não figuradas. / Braços cruzados. // Vazio de quanto amávamos, / mais vasto é o céu. Povoações / surgem do vácuo./ Habito alguma ? // E nem destaco minha pele da confluente escuridão. / Um fim unânime concentra-se / e pousa no ar. Hesitando / E aquele agressivo espírito / que o dia carreia consigo, / já não oprime. Assim a paz, / destroçada./ Vai durar mil anos, ou / extinguir-se na cor do galo ? / Esta rosa é definitiva,/ ainda que pobre. // Imaginação, falsa demente, / já te desprezo. E tu, palavra. / No mundo, perene trânsito, / calamo-nos. / E sem alma, corpo, és suave" (Drummond, “Dissolução”, Claro Enigma).

Talvez o enigma maior seja esse: fazer a práxis social dizer o indizível, com as palavras que nomeiem o social lá onde se vê e sente apenas o corpo individual mutilado e isolado no espaço, o sujeito cidadão-burguês acorrentado em seu fundamento fetichista do trabalho social e da propriedade privada. Na dialética de nosso tempo, ainda o mesmo de Drummond, isso se expressa assim:
“Este é tempo de partido, / tempo de homens partidos.” (“Nosso Tempo”, A Rosa do Povo).


NOTAS

* Ex-membro do Labur-USP. Prof. do Ensino Fundamental. Comentário dos trabalhos apresentados na 7ª sessão de debates do VII Simpósio Nacional de Geografia Urbana. "Pensar e projetar a cidade do século XXI: desafios para a construção da problemática urbana", realizado em São Paulo, USP, de 15 a 19 de outubro de 2001.

1 - Deve-se a Henri Lefebvre (La Revolution Urbaine. Paris, Galimard, 1970) a dialetização do conceito de urbano: nestes termos ele se converte numa forma social que se determina historicamente de modo vário, mas que, sendo um objeto em formação, em devir, torna-se um pressuposto que pode ser posto efetivamente na história, isto é, superado em suas limitações, após a supressão das contradições da sociedade da mercadoria e do trabalho abstrato. Seria a realização do humano como reunião de diferenças (não contraditórias). Como forma geral, o urbano implica sempre, assim, a reunião e a concentração da riqueza social, embora nem sempre tal reunião tenha até aqui sido plena: p. ex., a produção capitalista de mercadorias reúne na cidade o que foi separado mas enquanto separado – capital e trabalho; as forças produtivas aparecendo sob a forma fetichista do capital.

2 Com efeito, o nome do segundo capítulo do livro citado de Lefebvre, chama-se “O campo cego”.

3 “...Isto significa dizer que o imobiliário deixa de ser um circuito secundário, tanto no capitalismo industrial como no financeiro e que, de maneira desigual, esses novos investimentos, a partir da constituição da cidade como negócio, significam uma mobilização do espaço inteiro, para além da simples mobilização das matérias- primas no espaço...”, diz Ana Cristina em seu texto apresentado.

4 Circuito secundário, ligado ao imobiliário, não se confunde com setor secundário de Clark (indústria). Vide Lefebvre (op.cit.). E também Harvey, D. Urbanization of Capital (Oxford, Basil Blackwell / J.Hopkins Univ. Press, 1985) e Los límites del capitalismo y la teoria marxista (México. Fondo Cultura Economica, 1990).

5 Kurz, Robert. O colapso da modernização. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1996.