10 junho, 2005

CRÍTICA DA TOTALIDADE: crítica do "ponto de vista do trabalho"

Crítica da totalidade: crítica do "ponto de vista do trabalho"

"O que a consciência do proletariado ´reflete´é, pois, o elemento positivo e novo que brota da contradição dialética da evolução capitalista. Não é, portanto, algo que o proletariado invente ou ´crie´ a partir do nada, pelo contrário, é a conseqüência do processo de evolução na sua totalidade. (...). Não se pode esquecer: só a consciência de classe do proletariado, tornada consciência prática possui função transformadora." (G.Lukács, "História e consciência de Classe", Porto, Elfos, p.227).

1-
Por que o movimento operário teria o acesso privilegiado à totalidade ? E se isso não for mais possível, não teríamos mais qualquer condição de luta contra o capital, seria o fim da luta, ou melhor, da picada ?

Enterrando essas perguntas, os velhos "marxistas" tradicionalmente tentam deter a discussão e deslegitimar todas as lutas que saem do seu controle, de sua "centralidade" - geralmente a opinião meramente subjetiva de uma cúpula de Partido, a quem Lukács, aliás, teve de imputar a consciência de classe revolucionária. Acontece que a chamada "questão da práxis" não está simplesmente posta ou dada apenas levando em conta posições de classe na divisão do trabalho. Porque a própria divisão do trabalho muda e destrói as posições privilegiadas que dariam acesso à totalidade. O movimento operário, hoje, parece cada vez menos capaz de expressar qualquer totalidade, muito menos falar em termos de humanidade: a luta do/pelo trabalho tornou-se a mais irracional. Totalidade e humanidade se desvinculam. Talvez porque o proletário nunca foi a humanidade, mas, segundo seu próprio conceito, a exclusão dela. Ele só pode desconfiar de quem fala em seu nome como sendo a pura "humanidade" contra o capital. Só o capital pretende-se à totalidade; os homens - sujeitos do trabalho e da mercadoria - são o material estraçalhado sob suas rodas.

2-

Está mais que na hora do velho marxismo sair desse essencialismo ontológico das classes em si, confiando na estática de "posições" prévias, pretensamente objetivas, e assumir que a luta é ação concreta, de modo algum determinada por lugares na produção. Como ensinou o próprio Lukács o processo deve ter prioridade sobre a forma. É preciso reconhecer as múltiplas linhas de combate, os múltiplos níveis de luta pela emancipação social, para além do capital. Pois é o próprio movimento incessante do sistema, da produção social de capital, que torna possível triturar as ideologias, inclusive as da esquerda operária, auto-estilizada em sujeito absoluto (revivendo o idealismo hegeliano), pretensamente mais próxima da verdade, porque mais próxima da "produção" da realidade. Com a Terceira Revolução Industrial, é essa posição pseudo-metafísica do trabalho operário, como produtor de toda a riqueza, que vem abaixo.


3-

O ponto de vista da totalidade, em Marx, não era simplesmente um ponto de vista sociológico de uma classe privilegiada, i.é, possível apenas aos oprimidos, mas um ponto de vista descentrado, crítico-negativo, feito a partir das tensões internas da forma-mercadoria, ou melhor, do valor-capitalizado, que, como o "sujeito automático", estende necessariamente suas mediações por uma rede infinita de equivalências, de modo a tudo prender nas malhas da valorização do dinheiro. A totalidade está sempre em processo de absorver todas as diferenças na imanência do capital social total: é, assim, esse processo de totalização da dominação pela equivalência geral. Como disse Adorno: "o todo é o não-verdadeiro". As classes (e suas lutas), aliás, sempre são mediadas e movimentadas por determinações do processo fetichista da valorização, não algo simplesmente "ontologicamente primeiro", como o marxismo correntemente pensa, prestes a reduzir todo o processo fetichista da acumulação à luta consciente entre as classes, isto é, ao esquema "playmobil" de burguesia x proletariado. Muitas das lutas operárias, feitas por dentro das categorias dominantes, ou seja, "do ponto de vista do trabalho", são funcionais ao capital e não rompem de forma alguma com essas categorias de mediação: uma melhoria nos salários, na distribuição de renda, ajuda apenas a realizar com mais rapidez a venda das mercadorias estocadas. Várias destas lutas econômicas e políticas, do "ponto de vista do trabalho", estão presas à totalidade do sistema. Por isso, é preciso diferenciar as lutas no interior do sistema, necessárias mas não libertárias, e as que apontam para além dele. A reificação é, por certo, aparência, mas não é uma pura aparência fácil de se descartar: ela constitui a nossa própria luta, quando lutamos dentro das categorias formais do sistema.
4-
Pertencer à classe trabalhadora não é motivo de orgulho ou júbilo, mas um destino terrível: a abstração e subsunção de todas as nossas potencialidades e diferenças num conceito genérico-abstrato de homem, como eterno trabalhador, não é motivo de honra alguma. Ser sujeito é estar separado dos meios de produção objetivos, reduzido à subjetividade desterritorializada do trabalho, como mera força, virtual, de trabalho abstrato. "Trabalho", "trabalho em geral", "trabalho sans phrase", assim, não é algo "primeiro", "natural", "imediato", que possamos nos identificar positivamente, mas uma categoria produzida pelo sistema: a categoria-chave que, enquadrando os homens vivos e sua energita vital, faz com que estes o sustentem e o reproduzam. Para romper com esse fetiche que põe o abstrato e o morto determinando o concreto e o vivo, os homens teriam de jogar fora suas máscaras de suporte do capital - superar a própria classe e a forma tradicional da luta de classes - parar o jogo, quebrar a totalidade, como ponto de vista teológico-antropocêntrico, superando as identidades de "sujeito" que o sistema lhes imputa, não simplesmente realizá-la.
(fevereiro - 2005).

2 comentários:

Viny Rodrigues disse...

Nunca entendi direito o que você quer dizer com:
Por um Materialismo Iconoclasta.
O materialismo em si já não é iconoclasta?

Abraços

Cláudio R. Duarte disse...

Viny,

Minha idéia de iconoclastia, de "destruir imagens", é a de triturar nossos ídolos, tudo que se cristaliza alienadamente em imagem e que se volta fantasmaticamente contra nós mesmos. Mas isso não quer dizer o fim da imaginação. Ao contrário. Na sua cruzada contra o espírito, a especulação, a imaginação, o materialismo foi sempre tributário do que meramente existe (daí por exemplo a "teoria do reflexo" do marxismo, da teoria como pura e perfeita cópia "objetiva" do real). O "realismo socialista", por exemplo, é essa forma de materialismo na estética, que erigiu a realidade existente em dogma a ser respeitado, através da sua cópia ostensiva, onde já não havia lugar para efeitos de estranhamento ou para a criação de um outro mundo.

A idéia de um materialismo iconoclasta então seria "dialética", no sentido que almeja "estilhaçar" as imagens do real existente, que residem lá no fundo de nossa mente, em nosso modo de vida burguês, e que nos dão segurança de que esta é a única forma de vida possível. Mas para destruir isso tem de colocar a imaginação num outro patamar, o da procura do possível no interior do existente; não para erigir mundos utópicos, mas para jogar luz sobre a realidade supostamente monolítica e sem alternativas.

A idéia do materialismo iconoclasta me veio do livro "Dialética Negativa" de Adorno. Uma das seções do capítulo "Categorias" é chamada precisamente "materialismo sem imagens".