29 dezembro, 2008

Sobre ROBERT MUSIL

AS QUALIDADES D´O HOMEM SEM QUALIDADES
Notas sobre o romance de Robert Musil
Cláudio R. Duarte


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Quem é o Homem sem qualidades de Robert Musil ? A princípio, trata-se de um romance sobre o "homem indefinido"(1), sem atributos ou propriedades, isto é, sem substância, identidade, essência ou verdade. Um homem difícil de identificar, ao mesmo tempo exigindo uma forma complexa, difícil de caracterizar como romance, já por seu prolongamento pelas suas 2 mil páginas, com seu inacabamento e fragmentação final, não fosse ainda um misto complexo de longa narrativa, conto, ensaio filosófico, anedotas e digressões morais.
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Seria o homem como pura forma vazia e instrumental de uma certa razão, sobrevivendo num cotidiano opaco, alienado e sem sentido ? O "homem qualquer das grandes cidades, o homem intercambiável, que não é nada ou não tem o ar de nada, o ´se´ cotidiano, o indivíduo que não é mais um particular, mas se confunde com a verdade glacial da existência impessoal", como o caracteriza Blanchot (2) ? Um frio intelecto, a pura encarnação do espírito da teoria e da análise ?Um homem etéreo e experimental, mais aberto às possibilidades que às realidades e à realização de possibilidades ? Um homem indeciso, dividido entre projetos irrealizáveis ? Um homem deslimitado, transgressor de qualquer finitude ou fronteira dada a priori ? Um homem cuja unidade seria a reflexão e a participação em inúmeras qualidades, sem cristalização num caráter rígido e mortificante ? Ou um puro "nada" irônico, que procura ser tudo ao mesmo tempo, na busca perversa por um gozo qualquer, ao ponto de se tornar homem "volúvel", um parente longínquo da nossa conhecida família machadiana ? Salvo erro de perspectiva, a obra de Musil é a oscilação contínua entre todos esses aspectos, perpassando personagens, estilo, fios do enredo e finalmente o próprio ponto de vista narrativo.
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Sua definição só é possível quando delimitamos o tempo e o espaço de sua experiência. Onde e quando esses homens sem qualidades ? Estamos na "Kakânia", no Império Austro-Húngaro, às portas da Primeira Guerra Mundial - tempo de crise social, ética, política. Ulrich, o protagonista, tem as características do "homem supérfluo" na divisão do trabalho: engenheiro, matemático, secretário da Ação Paralela, intelectual raciocinador engajado em coisa alguma, dividido mentalmente entre exatidão e indeterminação.
(continua...)
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Notas
(1) Der Mann ohne Eigenschaften me parece ser melhor vertido por "O homem indefinido", tal como sugerido por Otto Maria Carpeaux (Tendências contemporâneas da literatura, São Paulo, Ediouro, 1968, p.278), embora o título O homem sem qualidades (na tradução de Lya Luft e Carlos Abbenseth pela editora Nova Fronteira, 1989) esteja já consagrado e não traga muitos inconvenientes, senão talvez a confusão com qualidades simplesmente degradadas. Maurice Blanchot (Le livre à venir. Paris, Gallimard, 1959, p.203) relaciona a tradução gideana "O homem disponível" e a da revista Mesures "O homem sem caracteres", mas propõe uma mais simples e mais próxima do alemão: "O homem sem particularidades". A questão para nós, no entanto, será mostrar que mesmo assim tal homem suporta a particularidade de uma certa época histórica.
(2) Blanchot, op.cit., p.207.

20 maio, 2008

TRABALHO ABSTRATO E PATOLOGIAS DO SUJEITO MODERNO

TRABALHO ABSTRATO E PATOLOGIAS DO SUJEITO MODERNO
(Retalhos de ensaio para uma caracterização de formas estruturais da subjetividade moderna)

Cláudio R. Duarte

O trabalho abstrato e alienado, trabalho especificamente moderno e capitalista, é a condição determinada para a proliferação de todo tipo de patologias subjetivas. Produzir algo sem sentido em si, muitas vezes coisas supérfluas e destrutivas do homem e da natureza, apenas para que gere um lucro mediato no sistema, trabalhar incessantemente num ritmo insano, entregar a vida no portão às 8 e recobrá-la só no final do dia, trabalhar visando tão-somente ao dinheiro, sem nenhuma criatividade ou atração pelo que se faz, ou fazendo coisas simplesmente fragmentárias e desligadas do resto do que se produz, delegando aos outros as decisões mais decisivas da vida - tudo isso exige uma enorme cisão de corpo e mente, um enorme recalcamento da libido, do desejo e da própria consciência. As pessoas suportam tal carga somente quando ativam o modo "piloto-automático".
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A dominação técnico-racional da natureza atinge o ponto da completa separação do homem em relação a ela, exigindo do indivíduo uma espécie de elevação a um plano transcendental-racional que o eleva à condição de sujeito: aquele que precisa sobreviver só o faz dominando unitariamente a si mesmo como parte dessa natureza, antes de poder lutar para subjugar o contexto externo, sejam pessoas, sejam coisas ou situações. A apatia na ação é a condição de qualquer capitalista e de qualquer trabalhador na prática. Se pensarmos muito não fazemos as coisas absurdas que fazemos. Só aceita de bom o grado o trabalho capitalista quem foi disciplinado despoticamente para ele num mundo já completamente capitalista. Essa cultura da frieza burguesa teve de ser acumulada juntamente com os meios de produção, uma forma de "acumulação primitiva do sujeito moderno". A disciplina e a educação para o trabalho, como diz Marx em O capital, teve de ser aprendida a ferro e fogo até que pudesse aparecer na superfície cotidiana como modo natural de ser e agir.
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A apatia, a forma subjetiva de realização da norma objetiva burguesa, regulada pela lei do valor, é a condição pragmática de todos os personagens do Marquês de Sade. Neles, a interiorização da Lei é incompleta, seu traço é a perversão estrutural, daí sua compulsão automática para a transgressão e o prevalecimento sobre o outro, sem freios morais.
No mundo da mercadoria avançado, em que as referências simbólicas paternas e morais mais amplas se esfumam, embora a identificação com o poder abstrato permaneça ainda mais sólida (como lei da sobrevivência fundada em modelos de pertencimento e potência reconhecidos), algo dessa posição perversa se generaliza entre os neuróticos que, cinicamente, simulam fragilmente uma onipotência imaginária, brincando que o mundo externo é a extensão instrumental de seu corpo. O limite disso é a violência generalizada nos poros do cotidiano.
É esse sujeito que se torna um neurótico cada vez mais regredido às posições narcisistas e sintomas de neurose de angústia (dada a socialização defensiva num mundo do isolamento e competição férrea), com recuo das clássicas tendências obsessivas e anal-sádicas (retenção e acumulação para uma autoconservação sem sentido) e progressão a comportamentos explosivos, limítrofes, francamente sado-masoquistas -, no limite paranóicos (perseguir e ser perseguido na selva de pedras capitalista) e esquizofrênicos (perda total da identidade).
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O negativo surge da afirmação dessa negatividade ao limite: o sujeito padrão-normal, exigido pelo capitalismo para sua reprodução, dá sinais de desaparecer do horizonte. O resultado é a transformação do mercado pacífico na figura da luta de morte generalizada: a luta de todos contra todos hobbesiana. A recuperação da ordem só vem com o exército industrial de assistentes sociais, psicólogos e psiquiatrias, com seus reformatórios, suas terapias de adaptação e psicotrópicos. Na continuidade, em graus menores, a da casa classe média, com pai de família integrado, os livros de auto-ajuda cumprem essa mesma função, tal como a programação da tv, os shows olímpicos e os jogos de futebol.
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Bibliografia fundamental sobre o tema:
Christophe Dejours - A loucura do trabalho.
__________. - A banalização da injustiça social.
Deleuze e Guattari - O Anti-édipo: capitalismo e esquizofrenia.
Horkheimer e Adorno - Dialética do Esclarecimento.

08 janeiro, 2008

A sentinela da contradição
Marx e a crítica social contemporânea

Cláudio R. Duarte

"Hoje em dia, tudo parece levar em seu seio a sua própria contradição. Vemos que as máquinas, dotadas da propriedade maravilhosa de reduzir e tornar mais frutífero o trabalho humano, provocam a fome e o esgotamento do trabalhador. As fontes de riqueza recém-descobertas se convertem, por artes de um estranho malefício, em fontes de privações. Os triunfos da arte parecem adquiridos ao preço de qualidades morais. O domínio do homem sobre a natureza é cada vez maior; mas, ao mesmo tempo, o homem se transforma em escravo de outros homens ou da sua própria infâmia. Até a pura luz da ciência parece só poder brilhar sobre o fundo tenebroso da ignorância. Todos os nossos inventos e progressos parecem dotar de vida intelectual as forças materiais, enquanto reduzem a vida humana ao nível de uma força material bruta. Este antagonismo entre a indústria moderna e a ciência, de um lado, e a miséria e a decadência, de outro; este antagonismo entre as forças produtivas e as relações sociais de nossa época é um fato palpável, esmagador e incontrovertível." (Karl Marx, Discurso pronunciado na festa de aniversário do People´s Paper, em 14 de abril de 1856).
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1- A vigília do que se move: o método de armação das contradições

É moda antiga dizer que Marx ficou para trás, nos tempos idos do século XIX – como se a teoria marxiana não tivesse mais nada a dizer sobre o movimento vivo da sociedade atual, o sistema mundial produtor de mercadorias. Nada mais avesso ao bom marxismo do que considerar que a realidade existente não impõe necessariamente ao pensamento os seus próprios termos, com a rigidez de leis sociais quase naturais – portanto sem nenhuma chance para os desatinos do vale-tudo relativista, o oba-oba das filosofias pós-tudo, essas formas degradadas de fenomenologia do banal e pop-culturalismo. Doutro lado, nalguns marxismos mumificados, o erro inverso de considerar tal teoria incólume à mudanças: como se esta fosse um dogma enrijecido e não tivesse sua raiz mais funda na subordinação e abertura de seu ponto de vista, também e sobretudo o prático, às necessidades e possibilidades imanentes do tempo histórico. Nada mais avesso ao bom marxismo do que pensá-lo como uma philosophia perenis, uma visão de mundo imutável, um abre-te-sésamo, uma chave mestra ou molde qualquer que se aplica forçosamente na realidade, a qualquer objeto, à vontade do freguês. Se a realidade muda, a teoria marxista busca segui-la de perto e a ela se ajusta, para poder orientar uma práxis correta. Nada mais avesso ao marxismo, ainda, que reduzi-lo a um simples ativismo político cego, pior, a uma pura tática militar de conquista do poder.
A essência do marxismo é a atenção máxima à complexidade do mundo, na costura das várias mediações em jogo, com todas as contradições de seu objeto, que vão além do econômico – o que de mais complexo e contraditório que a sociedade capitalista ? – não só para contemplá-lo passivamente, mas, justamente lá onde ele se contradiz, poder apontar as possibilidades, para corretamente transformá-lo. A essa paciência teórica e astúcia prática deveríamos chamar dialética marxiana. Se há algo que define o pensamento marxiano é esse ato de vigília, sentinela da contradição no tempo, para a colheita do melhor do possível.
Assim, só o domínio impessoal, coisificado, abstrato (isto é, socialmente difuso e pulverizado) mas muito real do Capital – e que não pode ser reduzido ao domínio subjetivo da burguesia como classe, mas antes remete às relações de produção fetichizadas socialmente, como Sistema objetivo de coerções que subordinam todas as forças produtivas, toda a vida à produção contínua do lucro e reprodução do poder do capital – só esse domínio é que explica por que o progresso vira regressão social, por que a ciência e a técnica, as artes e inventos se convertem em seus opostos, isto é, em produção de miséria e ignorância, e, no limite, destruição do planeta em guerras e catástrofes ambientais incomensuráveis.
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2- A apreensão da contradição em gérmen
A atualidade de Marx é a atualidade de seu objeto: a do capitalismo como sistema mundial de dominação e exploração dos homens, desde há muito reduzidos a meros trabalhadores, a meros objetos, servidores e "suportes" da acumulação de capital. "O morto se apodera do vivo", diz Marx no prefácio de O Capital. O que o marxismo nos revela primeiro é essa alienação e objetificação social de tudo o que é vivo, até quase sua negação destruidora. O capital, "trabalho morto" acumulado, vive da dominação e exploração do "trabalho vivo" e demais forças produtivas sociais (natureza incluída) – e as vivifica ao tempo em que as mortifica como instrumentos e objetos consumíveis até o osso, tragáveis e descartáveis. Nessa sociedade os homens não são sujeitos, antes de mais nada porque subordinados objetivamente às coerções práticas dessa acumulação insensata de mais e mais dinheiro, ao infinito. O objetivo de um sistema como esse não é atender primariamente a nenhum fim humano, nenhuma necessidade ou desejo social e individual, mas é se reproduzir autonomamente como sistema, como meio sem fim, como domínio abstrato dos homens sobre os homens.
Nós somos, assim, sujeitados corporal e mentalmente ao trabalho alienado, a uma produtividade sem ou quase sem nenhum sentido social e individual verdadeiro, atados às condições heterônomas da fábrica e do escritório, ao ritmo cego da concorrência, às normas rígidas de tempo e espaço do sobreviver, às limitações e misérias produzidas a mil por hora, de todas as espécies, coerções que excedem o universo da economia e penetram no tempo de lazer, no consumo, no cotidiano, no campo das artes e da cultura em geral. Desde há muito que o mundo das mercadorias não é mais só o mundo do operário fabril, o do homem dito proletário, que perdeu tudo, todos os meios de produção e por isso mesmo foi obrigado a se sujeitar a trabalhar para um outro, o capitalista. Hoje esse outro é literalmente o mundo inteiro como tal, o mundo globalizado pelo Capital, o grande Outro, presente-ausente como relação social fetichista-sistêmica. Assim, tudo tende a essa degradação, tudo se proletariza: não só o trabalho em geral é cada vez mais pobre, um "trabalho abstrato"(Marx), mero meio para se obter algum dinheiro, que dê para o gasto, como tudo e todos viram meios para se conseguir mais dinheiro e poder, sejam pessoas, coisas, situações, a esfera inteira das artes, da música, literatura, cinema, a moda, as viagens etc.etc. Criou-se um modo de vida capitalista inteiriço, blindado à vácuo, que simula e dissimula muito bem aos trabalhadores-consumidores-cidadãos, principalmente à classe média pseudo-culta, menos movida pela ideologia do que a crédito bancário, que a riqueza produzida socialmente é não só apropriada desigualmente, por uma minoria mundial ridiculamente pequena, como ela mesma é uma riqueza cada vez mais estúpida e destrutiva, feita sob as coerções de um trabalho social insano e constituída por objetos degradados (com obsolescência planejada), social e culturalmente assassinos, além de ecologicamente destrutivos, que perderam o sentido de ser. Tal como Marx prevê n´A Ideologia Alemã, as forças produtivas vão se tornando forças destrutivas, o que abala materialmente e deslegitima o capitalismo como sistema, pondo a contradição social máxima do domínio do deus-capital, nascido e renascido como "fetiche automático", diariamente da mão dos homens.
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3- O desenvolvimento real das contradições
Marx sempre conduz seu pensamento alegoricamente para os termos do desenvolvimento temporal e espacial das contradições da sociedade capitalista. O potencial técnico-científico produz quantidades enormes de riqueza material (valores de uso) que são medidas pelo dinheiro (valor de troca), que é expressão do valor econômico. Ao mesmo tempo que desenvolve as forças produtivas, criando empregos, incluindo trabalho vivo e espaços capitalistas dentro do sistema, o Capital rebaixa isso tudo a instrumento de seu poder. Nesse nível a contradição aparece como conflito social real, sem colocar o sistema em xeque, ao contrário, desenvolvendo-o. O morto se apodera do vivo. E assim cria contraditoriamente um mundo de riqueza e miséria, razão e logro, vida e morte, ou aquela sobrevida que é morte em vida.
Pois esse "vivo" é sobretudo o tempo de vida social extorquido pelo capital (a famosa "mais-valia"), a flama do tempo de produção, trabalho qualitativo, trabalho concreto, subordinado à produção de mercadorias. O trabalho social converte-se, assim, em dinheiro e mais dinheiro acumulado, reencetado na espiral dialética da produção capitalista. A contradição essencial do capital, porém, não surge, primariamente, nesse "vivo" por si só, ou seja, como simples revolta do trabalho vivo, que subitamente despertaria contra o Capital, o trabalho morto. Marx não é um filósofo vitalista, nem, muito menos, politicista – e isso, sem excluir de sua análise o corpo e a natureza, a ética e a política do jogo de interações dialéticas. A contradição do sistema capitalista, que se expressa em vários âmbitos da existência, tem de ser essencialmente posta como contradição econômico-social. Marx apostava que um modo de produção só tomba e pode ser superado quando esgota sua lógica interna e já não consegue mais desenvolver as forças produtivas (cf. Grundrisse, "Introdução"), sob risco das revoluções socialistas reproduzirem o mesmo sistema anterior com novas vestes. Marx se previne, assim, contra todo idealismo e utopia revolucionários. Se assim não fosse, Marx seria um mero profeta socialista conjurador dum novo messias, o proletário esfarrapado, que se insurgiria de forma voluntarista, num golpe de Estado feito a esmo, contra o poder alienado da Burguesia como um suposto Sujeito do poder central. Ora, se é um Sistema cego, abstrato, impessoal, isto é, um sistema sem sujeito, o que nos domina (certamente que impondo na prática o domínio burguês de classe sobre o proletariado), então, é esse próprio sistema, enquanto Sistema, que tem de emperrar, se contradizer e começar a ruir – e isso não se faz por decreto, nem por revoluções voluntaristas, cheias de espírito cristão ou ódio reprimido.
Não, Marx procede de forma muito mais imanente, isto é, dialeticamente: ele tenta apontar, como boa sentinela paciente da contradição, como o sistema usurpador vai, em seu movimento, rachando por dentro, e se auto-sufocando, por suas próprias contradições cegas – que clamam pela práxis transformadora: é o próprio capital, como "sujeito automático"(Marx, O Capital), que é a "contradição em processo" (Marx, Grundrisse), que suscita a necessidade da luta de classes radicalizada, para além dos reformismos e revoluções modernizantes. A crítica, antes de ser algo subjetivo, arbitrário, criado na mente de algum maluco visionário socialista, é feita pelo próprio sistema, que se auto-critica e começa a ruir. Marx não pensa isso ser possível senão nos limites de uma superacumulação de capital mundial. "O limite do capital é o próprio capital", diz ele.
Vejamos como isso se tornou a essência da atualidade. É ele mesmo, Capital, como Sistema de objetos e ações e relações sociais, quem produz, no tempo, o seu próprio esgotamento, por exclusão do trabalho vivo de dentro de si. O trabalho morto acumulado, como capital, se enrijece e fica cada vez mais paralisado (como meios de produção privados), por não conseguir mobilizar e incluir dentro de si mais trabalho vivo: são as tecnologias da 3.a revolução industrial (microeletrônica, robótica, bioengenharia etc.) que trazem consigo essa contradição incurável. Pela primeira vez as tecnologias mais dispensam que incluem trabalho vivo. Eis o momento em que a expansão do capital retrocede, entra em forte crise e recessão, com o mercado incluindo cada vez menos trabalho (desemprego estrutural), ou o incluindo sob condições aviltantes, com rebaixamento dos preços e direitos dos empregados (precarização das leis trabalhistas, terceirização etc.), isto é, desvalorizando socialmente o trabalho, e, por isso mesmo, desvalorizando a sua própria substância: assim, ao lado do tecido social morto do desemprego permanente surge o setor cancerígeno do subemprego. Com o que se alimenta a crise social. Ao mesmo tempo, crescem os trabalhos improdutivos, no setor estatal e terciário sobretudo, que mais representam gastos que apenas servem para reproduzir o capital social como um todo (infraestruturas, circulação etc.), mas não o fazem exatamente crescer – "custos mortos", que mais empatam ou dão prejuízos do que somam dinheiro no final, de um ponto de vista capitalista mundial. Também tornam-se improdutivos os trabalhos (nas empresas) que não estão na média da produtividade mundial, e são excluídos pela concorrência global (falências etc.). A saída impotente dessa crise de superacumulação de capital passa a ser a globalização selvagem dos mercados para escoar a megaprodução, criando consumidores seja onde estiverem (já que o sub/desemprego é algo estrutural), com a extensão elástica do crédito, simulando economias e mercados sadios, além da privatização neoliberal dos bens públicos (rapina de valores sociais em bruto, sem equivalente) e desregulamentação da força de trabalho para criar mais empregos miseráveis, mais mercados etc. Será esse também o atual momento da hegemonia apoteótica do capital financeiro, o "capital fictício" como nomeava Marx, simulando uma liqüidez irreal, sob risco constante de quebra, em que as moedas e as mercadorias só continuam a valer o que valem – sobrevalorizadoras – por efeito político-militar (o "estado de exceção mundial") e ideológico da propaganda e da indústria cultural, sem qualquer fundo econômico real. Entre valor de troca e valor de uso desata-se uma contradição gritante. O valor de troca (dinheiro) simula uma saúde que não tem, no corpo de um valor de uso banal (aliás cada vez mais inútil e destrutivo), e que vale economicamente muito pouco, porque é coagulação de pouquíssimo trabalho social produtivo.
4- Crise e movimento: da superação possível da contradição
É essa crise estrutural do Capital, como sistema econômico-social – agravada ainda mais pela crise ambiental planetária – que hoje nos dá a deixa para a insurgência do vivo contra o morto, da práxis social contra o sistema fetichista do Capital. Nenhum "sujeito transcendental" faz a história em Marx, portanto. São os homens reais, vivos, enraizados no mundo prático-sensível, quem produzem e agem praticamente seja contra ou a favor de seu modo de vida. A contradição antevista teoricamente vai se tornando condição prática de todos. A irrealidade e a abstração do capital vai tornando-se realidade efetiva. É a auto-contradição incurável do sistema quem sugere, e como que "alavanca", movimentos anti-sistêmicos, que podem – ou não – conseguir eliminar a acumulação insensata de dinheiro ao infinito, que aliena a todos, até a quem mais se beneficia dela. Questão de vida ou morte, expresso no velho lema: "socialismo ou barbárie" (Rosa Luxemburgo). A emancipação social só pode ser a "expropriação dos expropriadores" (Marx), com a superação do Capital e do Estado, da dominação e exploração do trabalho alienado. Ou seja, pressupõe-se que os homens ainda sejam capazes de associação para produzirem coletivamente, de forma consciente e dialogada, o seu próprio contexto de vida, muito além do domínio das leis fetichistas do Mercado e do Estado Burocrático; e que assim, possam decidir, de modo autônomo, o que, como, quando, onde e quanto produzir e distribuir. Claro que a polarização da luta de classes, simplificada entre proletariado e burguesia, não surge senão no acirramento das contradições, entre reformas e contra-reformas, revoluções e contra-revoluções mundiais, até um possível estouro final da contradição sistêmica. Isso tudo fica, porém, no reino das tendências possíveis. Nada impede o caminho para a descivilização e a barbárie: que o capitalismo perca toda a sua substância econômica e se torne um regime de força e exceção permanente, num mercado miserável e sub-humano de mera subsistência para viradores, migrantes, jagunços, traficantes, mafiosos ou simples malandros (um pouco o que vem se tornando as periferias das grandes metrópoles), ao lado de bairros altamente policiados, condomínios fechados e resorts, numa mega-cidade finalmente segregada e bunkerizada.
Um socialismo superador, na mais alta efetivação de sua possibilidade, não teria nada da igualdade abstrata, simplificada e opressiva entre os homens, reduzidos novamente a meros proletários, a trabalhadores formalmente iguais, de um novo rebanho socialista, tal como no socialismo do capital burocrático (estalinismo, maoísmo etc.). Ao contrário, suporia uma igualdade substantiva através da identidade ou universalidade de condições entre as pessoas para a máxima individualização e diferenciação concreta de modos de vida, com o controle local ou regional de meios de produção e vida etc. A contradição resolvida, portanto, não significaria um aumento em conformismo e massificação, mas em diferença e autonomia.
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5- Marx e a minoridade da crítica social contemporânea
A crítica social contemporânea flerta continuamente com a crítica da razão e do sujeito moderno, sem atinar para suas bases materiais, vira-e-mexe caindo em novas mitologias irracionalistas e individualistas (desde as filosofias espíritas, zen-budistas, novas ondas de existencialismo de shopping center, eroticismo sade-batailleano ou foucauldiano de grupelhos intelectuais pequeno-burgueses etc.). No melhor dos casos resvala para um discurso ético ou cidadão, visando certa autonomia individual, que tapeia-nos com a reedição patrioteira do contrato social em meio à deflagração da guerra universal de todos contra todos na selva do capitalismo globalizado. Marx foi o primeiro a colocar sob bases materiais precisas, como crítica da totalidade do Capital, a crítica do utilitarismo e do produtivismo modernos, a crítica da razão instrumental e do sujeito cartesiano. Se não levou a cabo toda a possibilidade dessa crítica (suas noções de sujeito e subjetividade ainda se mantém obviamente pré-psicanalíticas), é forçoso reconhecer, no entanto, que se mantém a crítica social mais poderosa e afiada dos modos de viver, ser e pensar modernos ainda vigentes. Lá onde o pensamento vigente vê uma coleção de fatos isolados, Marx ajuda-nos a tecer a teia de fatores que os comanda em seu conjunto; e lá onde se vê simples positividades existindo por si mesmas, Marx ajuda-nos a ver sua relação com o seu outro, seu negativo, sua virtual contradição, seu possível desaparecimento histórico. Mesmo lá, no espaço social administrado pelo Estado capitalista, onde a contradição aparece sob a forma diluída, relaxada, dissuadida, distensionada da ambiguidade, da antinomia e do paradoxo. Como tudo é para um outro, tudo é meio, com nenhum fim em si e para si, tudo já passou ou passará adiante. Nos tempos modernos, "tudo o que é sólido desmancha no ar", diz Marx numa célebre passagem do Manifesto Comunista. Cada totalidade historicamente produzida pelo capital, cavando sua identidade consigo mesma, cava ao mesmo tempo sua ruína. Ou nas palavras de um fino marxista sentinela das alegorias da modernidade, Walter Benjamin:
"Nas comoções da economia de mercado, começamos a reconhecer como ruínas os monumentos da burguesia, antes mesmo que desmoronem".