02 novembro, 2014

A espuma, a onda e o mar conservador brasileiro (e mundial)


A tese da onda conservadora precisa ser criticada, mediada e superada. A dialética permite ver a mediação dos opostos dentro da práxis do que poderíamos denominar "homo economicus liberal": o mesmo no outro, o outro no mesmo, principalmente em países de modernização conservadora como o Brasil. 

1- 
As manifestações de hoje -- FORA PT - Impeachment - Intervenção militar -- foram minguadas, principalmente as de fora da capital reacionária maior, São Paulo. Mas, para eles, colocar 3 mil na avenida Paulista foi um verdadeiro sucesso. Inacreditável a dois anos atrás.

Estão comemorando loucamente pois nem eles creem que foram capazes de suspender seu individualismo de massa ordeira e passiva e gerar alguma coisa coletiva e (re)ativa. Disseram ser 35 mil nas ruas hoje. No Brasil, 125 mil, outros dizem 300 mil (!). Gostaram da coisa. Botam fotos de manifestações de junho como se fossem de hoje; a praga mitomaníaca os leva longe no delírio.

A mídia golpista que os alimenta (globo, veja, estadão, band) praticamente os desprezou, pois sua bandeira é demais agressiva, demais explícita neste momento. Mas servirão como um bom ensaio do que pode advir na sequência com o possível processo de impeachment.

Doravante, se provas forem urdidas, ela poderá destravar a língua e incitar a massa abertamente ao "fora PT" mundial. Numa imagem aproximada, os reacionários de extrema-direita foram hoje uma espécie de "gasolina incendiada" sobre o mar de óleo conservador da direita. Falta pouco para esse mar oleoso pegar fogo. Basta a chama -- e o chamamento --- da grande imprensa para atiçar o fogo do ódio e destruir tudo: não só o PT, mas desmoralizar e escorraçar a esquerda em geral para as catacumbas sociais. Combustível reforçado ainda mais por outros pontos de incêndio, assim que vierem os aumentos da energia (combustíveis e eletricidade).

Nessa hipótese, a esquerda não-petista pode se preparar de duas formas: enfrentar as manifestações mais brutas do fascismo e da direita nas ruas, distinguindo-se do governismo, e de maneira organizada, com apoio de bases ampliadas das classes espoliadas. O segundo ponto é o mais decisivo, porém: o ataque tem de ser dirigido menos ao céu da política do que ao chão da economia/ecologia política. A crise hídrica será o estopim desse confronto. Como em Junho foi o transporte público.

2- 

Mas, sem precipitações: não há fascismo algum nas ruas. Paremos diante desta obviedade. Esses setores de extrema direita são a minoria da minoria da sociedade. Deram vexame ontem e serão logo esquecidos nos submundos da internet, donde tramarão pela milésima vez seu golpe militar imaginário.

Analistas de esquerda do mainstream estarão hoje desprezando tais fenômenos micrológicos residuais, decantados e refinados a partir de tendências sociais profundas, como sendo mera superfície social.

Ora, não foi exatamente pela intervenção militar ou o separatismo (apenas a minoria folclórica sem noção radicalizou desse jeito), mas pelo "fora PT" que eles saíram às ruas.  Nesse sentido são sim representativos de algo muito maior. Basta ver os cartazes. Ecoam uma enorme insatisfação com o PT, o enorme desgaste da política, a vontade de poder do homem ressentido e das elites da casa grande contra as pautas populares e da esquerda, e coisas desse tipo.

Em termos nacionais, tais microfascismos e reacionarismos foram representados por bolsonaro e os nanicos Fidelix e Everaldo. Mas é bom lembrar: votaram fervorosamente em Aéreo e cogitaram até mesmo em Marinar. Suas bandeiras principais ontem eram as da revista Veja, ecoando o ódio moralista histórico da UDN: "Dilma sabia de tudo", "fora petralhas", "fraudes nas urnas" e "impeachment". Reinaldo Azevedo, no blog da revista do chrorume semanal, defendeu o golpismo do impeachment e o fora pt, mas disse que eles foram distorcidos pela mídia . Mas de fato, no palanque o filho de Bolsonaro, Lobão, Coronel Telhada e Paulo Martins vociferaram suas sandices golpistas. Eduardo Bolsonaro se superou: “Ele [seu pai] teria fuzilado Dilma Rousseff se fosse candidato esse ano. Ele tem vontade de ser candidato mesmo que tenha de mudar de partido”. E emendou: “Dizia na minha campanha: voto no Marcola, mas não em Dilma. Pelo menos ele tem palavra”.   

Nesses termos, parecem todos eles no momento muito mais parte de um microfenômeno imaginário e ideológico do que prático e concreto. Isto é, são irracionais e inconsequentes do ponto de vista imediato.

Mas e a esquerda e a extrema esquerda? São outra minoria, embora organizada e politicamente orientada por uma estratégia mínima comum. Mas é, sim, outro fenômeno muito mais imaginário, teórico-ideológico do que prático, queiramos ou não, sem larga base social ampla. Em alguns setores, a "ideologia do movimento" confina com simples ilusões de grêmio estudantil.

Estes setores de ultradireita são a espuma de uma onda conservadora de classe média dentro de um mar conservador nacional, que eu diria de dimensões mundiais. Não se ganha nada em diagnosticar que são mera miragem, e que juntos os venceremos. Aliás, contra Alckimin e a crise hídrica em São Paulo, no mesmo dia, tivemos 150 pessoas. Está aí o resultado das eleições na Europa, e está aqui o nosso congresso e os governadores de centro-direita. Está aí, sintomaticamente, sob o ataque especulativo midiático e financeiro, a direitização esperada de Dilma logo na primeira semana após as eleições. Não há mar conservador? Falta dialética nessa miopia teórica: a capacidade de ver além do imediato, segundo a lógica do tempo, a mediação de opostos, e sobretudo a reversão do outro no mesmo, típica de nossa modernização conservadora.

Vi jovens imaturos. Politicamente desorganizados e inconsequentes nas ruas. Mas não vi só jovens, não. Vi setores simpáticos à extrema direita, de meia idade e saudosos do regime de 64. Mas vi também setores da classe média antipetistas ferrenhos, esses que se declararam de maneira agressiva e virulenta nas redes quando Dilma venceu. É um rastilho de pólvora, ou a gasolina incendiada dentro do tonel de óleo cru. Pode incendiar os Jardins e os bairros de classe média como em Junho. Basta o comando dos meios midiáticos golpistas, como foi com Collor. São assim um germe de outra coisa, que não será evidentemente a radicalização à extrema-direita, ao golpismo de 64. O capital não precisa disso por enquanto.

Mas vi aí o ensaio para uma possível campanha pelo impeachment, se provas forem urdidas ou forjadas, em que estará posto a completa hegemonia da direita no país. No entanto, segundo corre nos bastidores, essa campanha levaria vários políticos e partidos, inclusive da oposição, ao mar de lama conjunta da direita e do estado burguês, colocando a legitimidade do governo da República em xeque.

E com todas as suas consequências - desastrosas em termos de reconstrução da política a partir de uma nação alienada, em frangalhos, isto é, alijada de bases teóricas críticas e da práxis política enraizada. Está aí a Ucrânia como exemplo: uma massa nacionalista, liberal-individualista unida a uma extrema direita neonazista clamando por se integrar no matadouro da União Europeia com autonomia nacional. Está aí a nova direita populista europeia (ver sobre isso o dossiê esquerda.net: http://www.esquerda.net/topics/dossier-221-nova-direita-populista-europeia). Esta aí a Venezuela dividida entre elites neoliberais, a massa popular e um governo social-populista muito frágil, está aí a Grécia patinando entre esquerda e direita neonacionalista, ou o republicanismo americano, e muitos outros países recentes, como exemplos. Do quê?

Exemplos de frutos maduros de um homo economicus liberal sem raízes ou que perdeu suas raízes na globalização, que se inverte à direita e espuma na costa como fenômenos coligados a tendências de protofascismo. O protofascismo é a tendência maior neste mar. E tendência a não se desenvolver por completo. Tendência à fragmentação de manifestações parecidas com as fascistas. O fascismo pode não desabrochar nunca mais. E de fato creio que será o caso. Basta legitimar um Estado autoritário, penal-carcerário, que impeça toda transformação social, principalmente nos tempos de crise e urgência que se seguirão. 

É isso que os analistas ainda não perceberam em casos como estes: não o liberalismo se subordinando a um conservadorismo de direita, que seria externo a ele, mas o liberalismo se transformando no que ele sempre traz em germe: o conservadorismo. Em suma, o individualismo esclarecido do homem-tempo-trabalho-dinheiro liberal revertendo-se em seu contrário: obscurantismo, elitismo, machismo, racismo, autoritarismo, fascismo.

2 comentários:

Rubens Aparecido disse...

Estou lendo com muito prazer sua tese e gostaria de ter contato, sou militante há mais de vinte anos da escola pública.
Grato
Rubão

Cláudio R. Duarte disse...

Sinta-se à vontade:
cduarte2000@gmail.com