24 março, 2013

Pequena orientação didática para ler mais e melhor as Memórias póstumas de Brás Cubas

Pequena orientação didática para ler mais e melhor as MEMÓRIAS PÓSTUMAS DE BRÁS CUBAS


Cláudio R. Duarte


1- Pode-se até tentar ler o romance Memórias póstumas de Brás Cubas (1880-1881) fora do seu tempo, fora de seu contexto. Mas muita coisa se perde dessa maneira em termos de análise formal e estrutural. Não se trata de um livro da "cultura universal", que fala para todos os lugares em qualquer tempo histórico -- mas antes do primeiro passo acertado de Machado de Assis para escrever um ciclo de romances sobre a História do Brasil. Um país particular, no conjunto do sistema capitalista mundial.
Vale relembrar, uma nação pós-colonial, com todas as mazelas e heranças negativas que nós conhecemos: o país do latifúndio monocultor e agrário-exportador, do escravismo, do poder oligárquico do patriarcado rural, o país do favor, dos privilégios e das relações de dependência, e que somente na aparência é um país moderno e civilizado.  (Vide foto do Senhor e seus escravos- sempre descalços -, na primeira metade do séc. XIX).
 Geograficamente, ainda, um país desmembrado em regiões fragmentadas e desconjuntadas, ou seja, mais ligadas comercialmente com o exterior do que com o próprio restante do país (arquipélagos regionais isolados, com pouca relação comercial, pouca interligação em termos de comunicações e transportes).

O contexto acima indicado importa e muito para a boa leitura do romance. Pois ele toma esse contexto como a substância de sua forma e de sua estrutura - como já apontaram críticos de peso como Roberto Schwarz, John Gledson e José Antonio Pasta.

Para Machado, o sentido do livro é narrar essa história malograda de uma nação escravista feita em pedaços. Trata-se de uma nação que ainda não nasceu, ou que nasceu morta nas mãos de uma elite descompromissada e de costas para a verdadeira nação, feita de escravos e dependentes, vivendo na miséria e sob a lógica do arbítrio e do favor. Uma elite caprichosa, cínica e autoritária, que apenas começou a morrer a partir da Lei do Ventre Livre (1871) e da modernização urbano-industrial, não obstante continue a falar ainda hoje, no país do trabalho precário, da marginalização, da exclusão social das massas em relação à cidadania. Por isso, Brás Cubas irá morrer em 1869, no limiar da lei de 1871, mas continua a falar no presente, eternamente, a partir do Além, no berço esplêndido da nação - vale lembrar, ainda escravista em 1881 (data da publicação do romance).


Em resumo, então, tínhamos um país estruturalmente dividido e repleto de condições negativas: liberal e escravista, moderno e atrasado, civilizado e bárbaro, cosmopolita e provinciano, ilustrado e prisioneiro do mito, da religião e do obscurantismo, enfim, um país que tinha em seu DNA contradições imensas, que não poderiam ser eliminadas por uma narrativa realista. Mas um realismo fantástico, cheio de humor e metafísica. Por isso, Machado não repete os erros românticos -- não enfeita, nem adocica como fazem Alencar ou Macedo. Machado destroó as ilusões românticas e nacionalistas.

 2- A chave principal da obra, portanto, é esta: Brás é o Brasil. Mas um Brasil morto ou em decomposição - daí o ponto de vista inusitado de um "defunto autor". O romance será então repleto de ambiguidades, ambivalências, confusões, disparidades, contrastes, despropósitos, que refletem essa condição brasileira dividida e negativa. O ser do Brás/Brasil é um ser-outro (alienado) ou um não-ser (morto). Daí o vazio e a esterilidade do livro, feito de descontinuidades, capítulos curtos, que não prosseguem e não levam a nada. Daí o saldo negativo do livro (capítulo das Negativas, no final da obra). A Lei do Ventre Livre prometia aparentemente um país novo, com liberdade de trabalho e mobilidade social. Mas é isso que Machado irá negar nos romances seguintes: em Quincas Borba, Dom Casmurro e Esaú e Jacó - quando retrata o malogro da liberdade e da ascensão social e os embustes e autoritarismos congênitos à classe dominante brasileira. Em Memorial de Aires, último livro do autor, a elite dá finalmente as costas para o país e retorna para Portugal, deixando os negros à sua própria sorte, após a Abolição. O que deu - como sabemos bem - em cortiço, favela, viração,  exclusão e racismo (vide foto ao lado, de favela no Rio, no início do séc. XX).
3- Voltando enfim ao Brás Cubas.
a) Brás Cubas é polarizado entre uma série de ideias móbeis e uma ideia fixa. A ideia móbil é tudo o que não para um segundo no lugar, hesitante, dando rasteiras no leitor e nos personagens do livro, ostentando um ar de superioridade. Estas ideias cabriolantes o caracterizam pela volubilidade, pela falta de caráter, inconstância de desejos, imprevidência, falta de perspectiva e de projetos sólidos, vontade de gozo imediatista, comportamento trapaceiro, perverso e violento contra o outro (Prudêncio, Eugênia, D. Plácida), enfim, uma mobilidade infinita de pensamentos sem propósito ou totalmente insensatos, com teorizações filosóficas ridículas ou rebaixadas, uma mobilidade aliás que atinge até o espaço (viagens, andanças, perambulações etc.). Trata-se do oposto da elite protestante europeia ou estadunidense. Além disso, Brás serve-se do discurso filosófico e iluminista para justificar práticas patriarcais e escravistas, completamente opostas ao decoro e à ideologia igualitária e libertária da civilização burguesa. Na realidade, todos os personagens são volúveis quase da mesma forma que Brás. Todos são muito bons e mesmo excelentes em termos de discurso, mas na prática são miseráveis e nada exemplares (com exceção de Eugênia). Mesmo os subordinados como Prudêncio ou Dona Plácida se transformam no seu oposto, conciliando-se com o sistema de dominação vigente. O próprio escravo de Brás, no final do romance, tem o orgulho de sua servilidade (o fato de ser escravo de um senhor muito rico).

b) A sua ideia fixa - o emplastro Brás Cubas - nada mais é que a tentativa de pôr um fim a essa movência vertiginosa de caráter e falta de propósito na vida. Mas o seu projeto é nada mais nada menos do que um "medicamento sublime", ou seja, um remédio milagroso para "aliviar a nossa melancólica humanidade" (cap. II). Ou seja, um projeto impossível - francamente maluco - , e nenhum pouco baseada na ciência e no trabalho. Essa ideia era nada mais então que uma "sede de nomeada" - isto é, a tentativa de obter fama e glória, de figurar na opinião pública como um cartaz nas ruas, como um rótulo de remédio. Um desejo de se tornar a pura superfície de uma propaganda publicitária. Como diz, no cap. II, ele buscava, de um lado, "filantropia e lucro" (interesse burguês), de outro "sede de nomeada" (interesse tipicamente pré-moderno, baseado na paixão por títulos honoríficos e hierárquicos).

c) Finalmente, como Brás não tem nenhum "ser" fixo, nenhum caráter valoroso e honrado, então, ele pode se misturar e se confundir com a esfera do Outro em geral. Para começar, ele violenta o próprio leitor, invade o seu espaço e o ameaça com piparotes e frases que simplesmente o desprezam (o leitor é o único "senão" do livro). Eis o capricho autoritário de nossa elite transformado em uma escrita violenta.

A falta de lei nesse país permite o vale-tudo, inclusive um morto narrar um livro. Uma passagem livre do Mesmo (ou do Eu) no Outro, sem respeito a qualquer limite (moral, social, legal, narrativo). Toda lei, toda resistência do real, é virtualmente abolida. Assim, Brás é por um lado um homem culto, por outro, pura casca e ornamento, rebaixando a filosofia à ignorância, à piada e a teoremas sem pé nem cabeça (filosofia narcisista da ponta do nariz, aforimas estúpidos etc.). Brás é tão sutilmente inteligente quanto abertamente louco ou paranoico, como seu amigo Quincas Borba. É tão refinado (citando Dante, Molière ou Shakespeare) quanto perverso e brutal (batendo em Prudêncio, legitimando o seu cunhado escravista Cotrim etc.). Assim, ainda, Brás é tão ativo e dominador quanto um ser passivo, deixando Marcela ou Virgília tomarem conta de si (aliás, Virgília faz o papel de homem do casal, - ela é Vir, viril). Na Câmara dos Deputados, o seu único projeto político é querer reduzir o tamanho da barretina da Guarda Nacional, algo que não tem nada de político. No fim da vida, a sua melhor ação não passa de filantropia medíocre (em que pisa mais uma vez em Eugênia) e desejo de fama e glória, sem nenhum compromisso verdadeiro para com o país. Algo que lembra diretamente a lei do Ventre Livre: cheia de boas intenções, mas na prática mantendo os filhos de escravos nas fazendas como mão-de-obra não-paga até os 21 anos.

Quando o Eu não se distingue do Outro, temos então instaurado um regime de confusão, perversão, loucura e violência, em que tudo é invadido pela esfera do outro. No fundo, um regime de exceção estrutural às leis e normas, o fruto estéril de um país em que o indivíduo burguês europeu não se constituiu plenamente - ou que se constitui apenas pela metade. A pior mazela dessa indistinção entre o Mesmo e o Outro é então esta: o Brasil moderno, que prometia já uma imensa riqueza com o café, dificilmente se separa e se distingue do atraso, ou melhor, só é possível com base nos elementos mais arcaicos e atrasados, em que a história falha e não acontece. Eis o Brasil Morto que ainda hoje segue vivendo e nos alienando.  


01 setembro, 2012

Ascensão, crise e resistência do indivíduo na pintura moderna

Ascensão, crise e resistência do indivíduo na pintura moderna
- um simples esquema didático -


Cláudio R. Duarte


1- A pintura pode ser lida como um fenômeno histórico, social e mesmo geograficamente determinado, como uma das camadas fundamentais que formam a cultura e o imaginário social. 

Por meio da representação pictórica, pode-se analisar como o conceito de indivíduo nasce lentamente no fim da Idade Média, como se afirma cada vez mais a partir do Renascimento e do pleno triunfo da burguesia, mas também como, de maneira contraditória, ele vai entrando em crise a partir do realismo e do impresionismo até finalmente explodir, se fragmentar e quase desaparecer na pintura modernista.

Na base desse processo há certamente as várias transformações históricas da economia, da política e da sociedade burguesa no Ocidente. 

Ao fim do trajeto, pode-se pensar que o modernismo, quando refletiu profundamente sobre a arte e a prática social de seu tempo, tentou imaginar um novo indivíduo e uma nova ideia de espaço social, expressando-se como uma crítica do indivíduo burguês isolado, abstrato, egocêntrico, sempre idêntico a si mesmo e separado do contexto social para fins de dominação do homem e da natureza.


2- Sabe-se como a idéia de indivíduo nasce como tal a partir do Renascimento europeu. É possível perceber isso perfeitamente quando se analisa imagens da Idade Média. Tome-se como exemplo a imagem da Fig. 1 a seguir. A falta do que nós, modernos, chamamos "indivíduo" torna-se imediatamente evidente em vários de seus elementos.

De início, notemos como a representação é anônima, típica de um tempo em que a arte não era ainda um ramo do mercado. O seu tema faz parte do imaginário coletivo tradicional: o sepultamente de Cristo, um tema típico de uma época histórica em que o indivíduo é inseparável da comunidade cristã medieval.

(Fig. 1 - ANÔNIMO. O sepultamento de Cristo. De um Saltério manuscrito de Bonmont. 1250-1300.)

Essa quase ausência do indivíduo se põe claramente nos vários elementos do quadro: o destaque dado à figura divina ao centro do quadro, a quase falta de expressão dos rostos, a própria semelhança de fisionomia entre eles (seja entre os anjos ou entre os apóstolos e as mulheres). Aliás, temos aqui uma semelhança geral: das cores (um quadro quase monocromático), das vestes, dos gestos, quase simétricos.  Assim, temos uma composição completamente em equilíbrio, feito de pares: dois anjos ao fundo, duas crianças no primeiro plano, os dois apóstolos, as duas Marias, e assim por diante. Trata-se, para nós modernos, de um quadro profundamente estático e monótono, traduzindo menos o desespero do que um congelamento do tempo e da ação, assegurado pelo congelamento das figuras com olhos vidrados. A falta da perspectiva linear (veja-se as linhas dessimétricas na linha do túmulo na cabeça de Cristo e a linha formada pela capa de João) restringe o espaço de cada ser, que se amontoam na tela. O fundo dourado limita a visão à superfície bidimensional, e a profundidade fica apenas esboçada.

Ora, cerca de algumas décadas após essa figuração, por volta de 1310, quase tudo se modifica. Na figuração de Giotto, temos um dos primeiros artistas que poderíamos denominar "moderno", ou melhor, protorenascentista e protomoderno. Agora, o indivíduo aparece como algo evidente, isto é, torna-se uma figura visível e palpável: Cristo e todas as figuras ganham uma figuração mais humana e realista, deixam de ser bonecos com olhos esbugalhados. As cores variam, as roupas ganham contornos precisos e mesmo particulares, a fisionomia das personagens se define, todos entram em movimento e esboçam gestos individuais, as cores variam bastante. Principalmente, como tema central, os rostos ganham expressão, uma profunda lamentação diante do corpo de Cristo. A árvore do saber colocada na ladeira, simbolicamente desfolhada, esboça uma ideia de razão e de mundo humano. A profundidade começa então a ser melhor delineada, sugerindo um horizonte humano. Assim também todos ganham espaço na tela, deixam de se amontoar uns sobre os outros.



(Fig.2- Giotto, A lamentação diante de Cristo, 1310.) 
3- Vejamos agora o que se passa no Renascimento. Tomemos dois quadros a óleo do pintor holandês Van Eyck, fruto de suas viagens pelo norte da Itália. Na Virgem do Chanceler de Rolin (fig. 3), o indivíduo moderno se insere literalmente no tema tradicional religioso.

  (Fig. 3. Jan VAN EYCK, A Virgem do Chanceler de Rolin, 1435.)
A virgem Maria, o menino Jesus, um anjo se materializam em plena cidade europeia, no seio do capitalismo comercial nascente. Ao fundo, a perspectiva linear perfeita, com ponto de fuga no meio do arco central, nos abre a visão detalhada da cidade, do rio, dos navios, da ponte, das propriedades, da catedral e dos prédios municipais, representando enfim cada indivíduo que vive na cidade (ver essa tela em alta definição no site do Museu do Louvre). O realismo é cabal, e tudo parece contar para um olhar dominador: desde os pássaros e flores até o mais ínfimo indivíduo ao longe, os detalhes do piso e da arquitetura, das roupas, da coroa etc. A fisionomia e a expressão piedosa do chanceler é completamente configurada.

O plano vertical, representado pelo anjo e pelas colunas, convive com a abertura total do plano horizontal, de uma perspectiva que leva ao infinito, para além das montanhas. O tema religioso se mistura ao tema secular. A burguesia é posicionada frente a frente com o sagrado, mas também se abre para a paisagem humana secularizada. O quadro anuncia assim o domínio do mundo pelo comércio, indicando de onde vem o seu poder de distinção social. A grande burguesia parece pedir aqui a autorização divina para conquistar o mundo em nome de Deus.



(Fig. 4- Jan Van EYCK. O casal Arnolfini, 1434.) No segundo quadro de Van Eyck, da mesma época e com a mesma técnica da tinta a óleo, temos uma cena íntima na vida de um jovem mercador italiano e de sua futura esposa. Os detalhes realistas desse quadro são impressionantes e quase falam por si mesmos. Notemos no entanto a figura detalhadíssima do cão, pintado pêlo a pêlo, como um símbolo da fidelidade, as frutas murchando na mesa, anunciando talvez a passagem do tempo, a noiva soltando as chinelas vermelhas ao fundo e erguendo o vestido delicadamente, fazendo um certo volume no colo e simbolizando talvez o nascimento de um possível herdeiro da fortuna da família.
As cores escuras e austeras caem para o lado do homem, as cores vivas (verde e vermelho, sugerindo fertilidade e paixão) para o lado da mulher; enfim, a janela e a porta abertas, o espelho ao fundo fazem refletir a imagem das costas do casal e de mais dois seres, que testemunham a cena das bodas no quarto, sugerindo também o próprio pintor no ato da pintura. De fato, Van Eyck assina o quadro acima do espelho, escrevendo "Johannes van Eyck esteve aqui, 1434", em latim. A janela e a porta de onde entra a luz anunciam uma paisagem exterior, o local de onde "surge" a riqueza desse novo mundo burguês em plena formação.  A comunidade que resta parece ser a comunhão do amor. Já o pequeníssimo detalhe da lama nos tamancos do jovem Arnolfini, aliás voltados para o lado de fora do quarto, não enganam: essa riqueza vem da sujeira mundana do comércio internacional, como que prenunciando as conquistas ultramarinas europeias.  

 (Fig. 5- Hans HOLBEIN, Georg Gizse, um mercador alemão em Londres, 1532.)
Um século depois, um quadro de Hans Holbein, outro grande pintor renascentista holandês, permite-nos visualizar como a burguesia quinhentista já se deixava representar de forma "pura", sem mistura ao tema religioso, comunitário ou amoroso. O indivíduo burguês isolado -- Georg Gizse é um mercador alemão em Londres -- aparece representado de forma realista e muito detalhada. Note-se como é retratado num ângulo oblíquo, como que pego de surpresa em seu trabalho diário, com as moedas e os papeis de contabilidade nas mãos e na mesa (na realidade distribuídos pelos quatro cantos da tela), a pena, os livros, todos os apetrechos de seu mundo particular. Sem dúvida, aqui, temos uma grande valorização burguesa do trabalho. O roupão preto por cima do colete vermelho, a cor da distinção social da nobreza, o chapéu recobrindo os cabelos, o quarto aparentemente apertado - fazem conviver dois tempos sociais diferentes, mas a transição para o mundo burguês, do comércio e do trabalho, é muito clara. Na mesa, o vaso de flores parece querer lembrar nostalgicamente do campo, saudando ao mesmo tempo a conquista da distância e do afastamento em relação à natureza. Ele já configura aí o tema da coleção de objetos que irá predominar como tema no clássico gênero "natureza morta". As cores sombrias num quarto sombrio, o preto, o vermelho escuro, o metal e a madeira, reforçam esse distanciamento da natureza. Além disso, note-se como o burguês é agora menos um corpo do que apenas uma cabeça e uma mão que calculam e registram. Sua expressão é séria e mesmo triste. Seu espaço de vida pode se reduzir ao seu gabinete de trabalho, uma atividade abstrata por certo lucrativa, que se conecta ao mundo social por meio do dinheiro e da escritura comercial.

4- Resumindo muito e deixando de lado as grandes transformações da pintura nos séculos após a Renascença, abstraindo também toda a discussão das razões estilísticas e os contextos locais mais específicos dos pintores, voltemos os nossos olhos rapidamente para 4 momentos que anunciam a crise da burguesia consolidada e de sua ideia de indivíduo burguês isolado. Veremos assim um quadro de Pieter Brueghel (um "maneirista"), outro de Rembrandt (um pintor na transição para o barroco), por fim, um de Gustave Coubert ("realismo") e um de Claude Monet ("impressionismo"). 


Pieter Brueghel pinta quase sempre o indivíduo inserido no coletivo. Sem abandonar o retrato de indivíduos singulares e a visão em perspectiva da paisagem local, suas telas resistem à abstração do meio social e geográfico. Assim, o meio geográfico e social se impõe à forma de sua pintura: nas cores, nas linhas do desenho, na própria angulação do ponto de vista. O homem, a criança, o velho, fazem parte de uma comunidade, de um modo de vida, de um espaço social concreto, mesmo que em dissolução. O estilo maneirista dá um espaço para o outro existir independentemente do olho do sujeito que contempla a tela.
Assim, pode-se ver claramente como não há nada de estático ou de isolado em suas telas. Elas são dotadas de ação e movimento. Elas reúnem o alto e o baixo, a direita e a esquerda, perpassando as várias camadas da sociedade de seu tempo. Daí uma tendência ao detalhamento e à miniaturização do desenho. O camponês, o pastor, o pescador, as crianças brincando, o triunfo da morte sobre a multidão, a gente miúda povoando as ruas, nas quatro estações do ano, tudo isso vale tanto quanto figuras elevadas como José, Maria, os apóstolos (cf. O censo em Belém ou São João Batista pregando) ou Ícaro (cf. A queda de Ícaro).
 Nesse quadro de 1560, Brincadeiras infantis (fig.6), o que chama mais a atenção é o ângulo da representação, a partir do alto, que permite abarcar uma totalidade social e espacial em movimento, sem a subjugar completamente os objetos a um ponto de vista único, estático, centralizador, autoritário.
Ou pelo menos, nesta tela de Brueghel temos a ilusão de mais de um ponto de fuga: um na casa do meio, outro na rua lotada de crianças que se alonga em diogonal no quadro do canto inferior esquerdo ao canto superior direito (criando a perspectiva dominante da tela), outro ainda que conduz ao rio, às árvores e ao resto da cidade. Essa focalização plural, portanto, quebra a perspectiva centralizadora do retrato burguês e impõe ao espectador uma atividade contínua, um livre passeio do olhar pela tela em busca das crianças e de suas brincadeiras específicas. Talvez seja a comunidade que ainda resta no mundo moderno, um mundo que vai se fragmentando em indivíduos concorrentes e isolados, o mundo sério e totalmente ordenado do trabalho e dos negócios. Por isso, as telas de Brueghel não são nunca límpidas e inteligíveis de imediato, sempre impõem uma leitura atenta, pois retratam o movimento e mesmo a confusão da vida real.
  
Em Rembrandt, o jogo barroco de luz e sombra também oferece resistência ao olhar penetrante e sedento de transparência. Há no entanto retratos realistas hiperdefinidos, mais à maneira do estilo renascentista. Nesse retrato (fig. 7) de uma mulher burguesa, tipicamente puritana, temos a consolidação do retrato do indivíduo burguês, agora reduzido a um simples rosto. O indivíduo se reduz à pura face, num olhar vazio, quase morto-vivo, diríamos, se não fosse um leve esboço de sorriso. O corpo se esconde completamente. O burguês é uma cabeça que pensa.


(Fig.7- REMBRANDT, Haesje Von Cleyburg, 1634.)


Mas, se nos voltarmos para a representação da classe dos trabalhadores modernos, que emerge tardiamente aliás, como na visão realista de Gustave Coubert sobre os quebradores de pedra (fig. 8), veremos já a crise avançada do indivíduo e da individualidade. Nos retratos de Coubert, o indivíduo aparece muitas vezes de costas ou de lado, absorvido pelo seu trabalho, que se estende da manhã até o fim da tarde, apagando a paisagem de nossa vista. Não há mais o foco nos indivíduos isolados, mas no seu esforço coletivo, nos corpos submetidos à atividade prática, sabemos que dominada pelo capital. Não o homem, mas o trabalho é quem ganha assim toda a dignidade e todo o valor. O homem agora vai se tornando um simples número, numa multidão informe.    

(Fig. 8- Gustave COUBERT, Os quebradores de pedra, 1849.)

Finalmente, no caso do impressionismo de Claude Monet (fig. 9), a cidade aparece como ela é, na superfície de suas ruas: como uma reunião de gente quase indistinta, em movimento, ofuscada pela luz intensa e as construções que se impõem ao campo de visão do observador, numa profusão de corpos vestidos com a casaca preta burguesa, vistos do alto por mais personagens indistintas, vestidas com a mesma casaca. O que há de belo no quadro -- o choque de luz em tons pasteis em contraste com o aspecto de formigueiro da multidão, em suma, a exteriorização visual de uma realidade urbana complexa -- é também o que há de triste e desolador quando se pensa no que realmente vai se convertendo a cidade moderna, que mais isola do que reúne as pessoas, após o fim desastroso da Comuna de Paris (1871), neste momento de triunfo do mundo capitalista e imperialista (com a expansão da dominação da África e da Ásia). O espaço tende então a grandes massas que se impõem ao campo de visão, explodindo a sua possibilidade de ordenamento e simbolização claras. Forçando um pouco a visão, talvez, eis o prenúncio figurativo das guerras imperialistas do século XX: de um lado, um espaço convertido em uma massa de luz ofuscante, sugerindo a riqueza e a possibilidade de descoberta de todo um mundo, de outro uma multidão opaca, evanescente e indistinta de concorrentes no mercado.

(Fig. 9- Claude MONET,  Le boulevard des capucines, 1873).





5- A partir desse momento, a representação pictórica do indivíduo começa a se  a se deformar, a se desintegrar até finalmente desaparecer da tela. Ao mesmo tempo, ela tende a ressurgir como problema e como pesquisa de uma nova subjetividade, de um novo indivíduo, não-burguês, coletivo e cooperativo, de várias outras formas, agora já abstratas, não figurativas, ou pelo menos não plenamente figurativas.

Trata-se de um processo de crise do indivíduo e do mundo que o possibilitou até aqui. Isso certamente tem a ver com um protesto diante do mundo capitalista, que constrange e deforma os indivíduos reais, tornando-o apenas parte de uma massa administrada pelo poder.

Os prelúdios da arte modernista estão, na virada do século, em Paul Gauguin, Henri Rousseau, Van Gogh, Edvard Munch e James Essor. Na era da ascensão do grande capital e do Imperialismo, os indivíduos reais começam a escapar ao desenho, à representação e à simbolização tradicionais. A arte não consegue mais representá-los de uma maneira clara e universal. Quando Paul Gauguin começa a representar os povos periféricos na América Central, na África ou no Taiti, ele tem de ampliar todo o acervo histórico da pintura até redescobrir o desenho, as cores, o ponto de vista. Veja-se essa tela de 1887.

 (Fig. 10 - Paul Gauguin, Um beira-mar na Martinica, 1887).
  A dificuldade da representação, nesse momento já pós-impressionista (simbolista, em vários quadros), torna-se evidente -- nenhum rosto vai plenamente delineado, uma perspectiva embaçada e deformada, em que sobressaem as manchas coloridas, dificilmente presentes na natureza real, em vez do desenho nítido. As cores vivíssimas sugerem um refúgio de vida e riqueza no mundo tropical: o vermelho, o verde, o rosa, o amarelo  nos trajes, nas árvores, nas flores, o belíssimo azul do mar, a montanha cinzenta e a cidade evanescente ao fundo. Tudo aqui, no entanto, apenas aparenta calma e harmonia - pois o que significa, nesse contexto histórico, o barquinho no mar senão o comércio colonial ou os negros na praia senão uma história de violência e escravidão? Temos então uma cena tipicamente colonial - pacificada de maneira ideológica, falsa, mentirosa, o que aparece nos detalhes um tanto contraditórios que permanecem na composição e permitem criticá-la a partir de si mesma: todos os negros estão ali a trabalho, ou pelo menos numa pausa para a rotina do trabalho. As flores e as vestes coloridas não escondem em primeiro plano o destaque da tábua de mercadorias a serem vendidas no mercado. Em suas telas, Gauguin revela e esconde as contradições do Novo Mundo, recria o mito da vida, da inocência e do erotismo dos "primitivos" em pleno domínio do morto e descolorido do Colonialismo.

A verdade do período colonial parece muito menos ideológica na obra de Henri Rousseau, um ex-cobrador de impostos que se torna pintor autodidata aos 40 anos.  Sem a técnica cultivada e aperfeiçoada dos grandes mestres, Rousseau cria uma "arte ingênua", com traços de infantilidade. Vejamos a fig. 11.
(Fig. 11- Henri Rousseau - "A guerra", 1894)
 A figura mitológica da Discórdia passa velozmente por cima de tudo, portando uma espada e um archote incendiário que nada ilumina. Ela vem acompanhada de um Cavalo cego, na verdade sem olhos, saltando de um lado ao outro da tela. As pessoas nuas, aparentemente civis (e não soldados), estão um tanto deslocadas da cena, que parece se passar num campo de batalha descampado. Elas são como bonecos mortos, inexpressivos, como a própria Discórdia, todos traçados com linhas angulosas e petrificadas. Estão em pedaços e vão sendo comidas pelos pássaros, mas ao mesmo tempo já estão sendo engolidas pelos torrões de terra, nem bem a Discórdia tenha passado. É que ela nunca para de passar, parece sempre retornar ao mesmo ponto. Ela não pisa o chão e é captada num movimento congelado; aliás o vestido branco esfarrapado nos lembra algo desse congelamento. Aqui, não se trata de uma realidade que foi simbolizada, mas de um signo alegórico que desceu à terra e se abateu sobre a vida real. A natureza se desfigura nas nuvens vermelhas (de fogo e sangue?) e nas folhas negras e murchas das árvores; o fundo parece repetir eternamente o mesmo tema do quadro no primeiro plano. Eis aqui o prenúncio da Guernica de Picasso, que reconheceu sua dívida para com Rousseau. Muito pouco temos aqui, portanto, de "primitivo", de "infantil" ou de "ingênuo". O primitivismo da composição apenas reproduz o primitivismo da civilização industrial e seus conflitos.

Numa outra tela de Rousseau (fig. 12), em seu estilo mais característico, temos novamente um choque: uma fina dama em plena natureza selvagem equatorial? É o justo oposto das cenas coloniais de Gauguin. Rousseau nos faz lembrar que o luxo e a riqueza da Europa têm uma ligação obscena com o que acontece nos trópicos. As figuras chapadas, a proporção e a perspectiva deformadas se ajustam perfeitamente para a expressão de um mundo coisificado e deformado. Não se trata de uma natureza "idealizada", muito menos representada fielmente como um espelho. Em suas telas do período, essas florestas escondem caçadores, macacos, leões ferozes ou damas fantásticas como essa, que equivalem simbolicamente a essas mesmas feras selvagens.

(Fig. 12 - Henri Rousseau - Mulher caminhando na floresta exuberante, 1905).










Na passagem para o século XX, a pintura entra em crise. Por um lado, ela busca promover o espanto, desnaturalizar o olhar do observador e os objetos representados. Trata-se de furar a representação e o simbólico; no limite, trata-se de destruir a perspectiva e buscar a materialidade mais funda, mais crua e também mais enigmática do real, buscando o que escapa à representação.

Mas por outro lado, ela se torna simplesmente estéril e redundante, uma simples repetição por outras vias do que acontece no mundo completamente dominado pela indústria cultural, pela imagem e pelo espetáculo.

Isso pode ocorrer da forma mais paradoxal, como no díptico de Andy Warhol para Marylin Monroe, aparecida morta em 1962 (fig.13), em que a imagem estandardizada da atriz é atacada e como que desmanchada, mas resiste à prova afinal, perdendo a sua cor, aliás totalmente artificial, mas não o sorriso e os contornos. De um lado a Marylin "viva", como uma pura superfície construída pela mídia e a indústria cultural, de outro a Marylin que vai se desfazendo como estrela midiática. É como um mito moderno, que, sem nenhum conteúdo substancial, reproduz-se mecanicamente quase do mesmo jeito, como um puro esquema fantasmagórico nas cinquenta vezes em que se repete. Marilyn, Marilyn, Marilyn, Marilyn... o indivíduo burguês é esse nada superficial e intercambiável, tal como uma lata de sopa industrializada (outro tema famoso de Warhol). Ao mesmo tempo, não se sabe se Warhol critica ou ajuda a consolidar o mito. Provavelmente faz os dois ao mesmo tempo.

(Fig. 13 - Andy Warhol, Marilyn diptych, 1962). 

Uma crítica política mais fundamental ao indivíduo burguês isolado, sem as ambiguidades desconcertantes da art pop e do formalismo da arte abstrata, é encontrada na arte de Asger Jorn, Karel Appel e de outros pintores do grupo CoBrA (iniciais das cidades de Copenhage, Bruxelas e Amsterdã).  
(Asger JORN, É preciso vestir a fortuna da felicidade, 1962, 81 x 55 cm).
O gesto dominador  do burguês não poderia ser mais exemplar. O fraque típico, o cigarro no canto da boca, as duas mãos ocupadas segurando bonecas ou modelos de mulheres vestidas de maneira chique com peles ou penas de animais, o horizonte paisagístico inexistente. O segredo está nas pernas do sujeito. São as pernas de uma criança ou de um palhaço, bem como a máscara na lapela, que denunciam que o burguês não tem uma realidade própria e vive apenas da dominação do trabalho alheio.




Nos quadros de Jorn e Appel temos todo um outro conceito de sujeito e indivíduo: aqui o indivíduo é relido em sua multiplicidade formativa. Em "Tu eras tal" (Asger Jorn, 1956), temos múltiplas cabeças de mulher unidas a um centro difusor. A tinta espalhada conjuga desenho e cor:

Ou ainda, nessa Cabeça e pássaro de Karel Appel:

O olho direito (da figura humana), a boca e o pescoço aparecem em preto. Não há olho esquerdo bem definido, senão um tênue esboço. Quanto ao pássaro, temos de ver tudo projetado sobre o rosto, fazendo transformar partes do corpo humano em animal: o olho direito vira a cabeça do pássaro (o olho do pássaro está delimitado de azul), a boca se torna asa, o pescoço se torna a segunda asa. O corpo do pássaro aparece em vermelho.
O sentido inteiro do projeto CoBrA aponta para isto: um indivíduo que é coletivo e cooperativo, e que vive em harmonia com a natureza, redescobrindo o que há de natureza em si. Além disso, o desenho harmoniza o homem com o traço infantil, com a realidade do sonho e de criança resistente em cada um de nós, num desenho livre das convenções... uma espécie de expressionismo político, enfim, que emula o esforço de gente tão díspare quanto Miró e Pollock (Para um ensaio crítico sobre Pollock: ver meu ensaio - "Extratos de Pollock". Sinal de Menos nº9, 2013 (www.sinaldemenos.org). 
Nesse outro trabalho de Jorn temos uma População impopular (1956) - assim deve aparecer a multidão rebelde para o olhar do Poder estabelecido:   



29 novembro, 2011

O capitalismo como estado de exceção permanente


O capitalismo como estado de exceção permanente




Cláudio R. Duarte


1-


Viver na sociedade moderna é estar sujeito a inúmeras ordens coercitivas. Ordens econômicas, políticas, sociais, morais, psicológicas. Ordens gerais que comandam o fazer, o viver, o agir, o pensar e até o sentir e o sonhar. A primeira dessas coerções é o trabalho, o trabalho em abstrato, para fins de aumentar um capital. Trabalhar sem parar, fazer coisas insensatas, inúteis, sem sentido, num ambiente de competição selvagem, sem consideração para com os reais interesses sociais ou se as coisas produzidas terão consequências ambientalmente destrutivas. Apesar de estarmos numa suposta sociedade livre e democrática, temos de nos ajustar às normas sociais alienadas, decididas por ninguém mais senão o mercado e o Estado.







Claro que não há sociedade sem lei, sem normas, sem valores éticos. Porém, a sociedade que busca o lucro para a infinita acumulação de capital nos impõe cegamente uma lei, uma ordem social que, no fundo, violenta incessantemente a própria noção de lei. O dinamismo da sociedade burguesa é o movimento abstrato e violento de capitalização de lucros -- contra os homens e contra a natureza. Em O Capital, Marx denominava o movimento autônomo do capital - D-M-D' - como desmedido (masloss) e infinito. Não há limite passível de controle social consciente quando a ordem é a exploração e a dominação social sem fim.

(Em grande medida, a questão marxiana principal no primeiro volume de O Capital é sobre os limites do capital: os limites da jornada de trabalho, os limites da exploração do corpo do trabalhador e do corpo da terra, por fim, as leis da acumulação e seus limites, que só podem surgir na exposição mais adiante, no volume 3, quando passamos ao aumento da composição orgânica do capital e à queda tendencial da taxa de lucro).


2-


A insaciabilidade da capitalização do valor pré-forma toda ação social e atinge as raias do impossível e do completo absurdo. Não deveríamos nos espantar, por exemplo, que o capitalismo tenha feito renascer a escravidão em pleno mundo moderno, na Europa humanista, no século XVI. No Brasil, a escravidão chegou quase até o século XX. A abolição da escravatura ocorreu apenas em 1888! Também não é de se estranhar que ainda hoje mais da metade da população mundial viva com menos de dois dólares por dia, em condições muito piores do que a de um escravo ou de um servo da Idade Média. Nós, os modernos, é quem vivemos na verdadeira “idade das trevas”.






De fato, o capitalismo não é um sistema de produção racional feito para atender às necessidades humanas. Seu alvo primordial é produzir sem limites para o lucro privado. Para isso, o capitalismo sempre está se excedendo e sempre empurrará a sociedade para o excesso. Em sua mais íntima essência, o capitalismo pode ser definido como um estado de exceção permanente: a produção de excedentes, de um excesso além da medida que o mercado pode absorver - sem que isso signifique o atendimento das necessidades sociais fundamentais da imensa maioria dos homens! A falta de limites, ou a falta de medida consciente, é a regra fundamental do capitalismo.





Claro que há leis sociais que o buscam regular. Mas estas são leis que o autorizam a funcionar como tal, isto é, leis que o legitimam a explorar e a dominar as populações e a natureza. Leis que o autorizam, portanto, a pilhar, danificar, arruinar e destruir, sim, até um certo ponto mais ou menos extremo, previsto pela própria lei. As leis jurídicas capitalistas apenas proíbem e punem a exploração e a dominação quando a pilhagem, o dano e a destruição se tornam totais e completamente irracionais, impedindo a continuação do ciclo reprodutivo do capital. Enquanto esta autodestruição não acontece, praticamente tudo é permitido e liberado.



3-



Na verdade, porém, a transgressão da lei subjaz no coração da forma social capitalista: a lei da troca de equivalentes só se realiza invertendo-se em seu contrário, isto é, como a realização de uma não-troca entre capital e trabalho, com a exploração de trabalho não-pago, sem equivalente. A regra geral fundamental é a infração da norma (a da troca justa). A troca de equivalentes é só uma regra aparente: poderíamos dizer que ela é, na prática, uma exceção da verdadeira regra geral, constituída pela exploração da força de trabalho alheia sem equivalente.   





Numa sociedade que tem a produção do excedente e a violação da regra como sua essência sistêmica, o viver e o pensar também não terão limites racionais, dentro de uma realidade sensível, socialmente compartilhada. O sistema modela cegamente uma forma de vida geral, uma cultura, um modo de vida, que tende a transcender todas as barreiras e limites, inclusive as de classe, regulando o pensamento e a vida de todos os que se sujeitam ao mercado e ao Estado. Em tais condições a ordem social transfigura-se em uma ordem de gozo ilimitado – embora o gozo seja para muitos mais uma imagem evanescente do que uma realidade propriamente dita.




Como dizia Guy Debord, o capital atinge um tal grau de abstração e de alienação que se torna uma ordem de gozar a mera imagem espetacular das coisas deste mundo, de simular o gozo do produto social que nos foi arrancado. A riqueza se torna então algo supremo, exterior, separado, fora de nosso controle, com a força de um fetiche. Na sociedade espetacular a ordem é, mais do que ter, aparecer como vencedor e gozar a qualquer preço a imagem do sucesso. Nenhum futuro humanitário nos olha e nos espera, mas apenas a careta violentamente cínica e ameaçadora do já existente, como dizia Adorno. Aqui, o céu, convertido em inferno social real, é o limite. Tanto como na esfera concreta do trabalho e da produção de capital nenhum valor ou limite deve ser objetivamente aceito, e já nada mais é legítimo por si só. O capitalismo se torna um gigantesco processo de dessacralização e de profanação de limites socialmente partilhados, um processo ele mesmo "místico" e "sagrado".




Pois qual é hoje o limite do comércio humano? Estamos talvez atingindo o ápice da mercantilização do mundo. Tudo pode ser comprado e vendido. Tudo pode ser medido em dinheiro e transformado em uma reles ou uma caríssima mercadoria. Não há limite que impeça alguém de comprar e vender qualquer coisa. Pense-se na mídia de nosso tempo, nos programas de televisão, nos filmes, nas novelas, nas músicas, nos reality shows, no turismo, nas propagandas, nos jogos eletrônicos. Pense-se em toda a esfera de valores, determinada pelo consumo desenfreado. Mas pense-se, antes de tudo, na esfera insana do trabalho capitalista, que a determina: as horas perdidas em frente de um computador ou do volante de um carro ou de uma escrivaninha vagabunda, enquanto populações inteiras não sabem nem o que é comer, vestir, morar, ler ou ter saúde. Não só os executivos não se importam e são frios calculistas, puros zumbis da produção de mercadorias. O sistema econômico molda totalitariamente o pensamento de todos. O motoboy cachorro-louco, se precisar, passa por cima da perna da avó que passeava pela rua, o caminhoneiro, sem muita questão senão a do seu salário mensal, pouco se importa se a carga que ele leva contém a história da destruição de uma região rural e o lucro para outras regiões mais distantes, tanto quanto o marqueteiro ou o manager se importam se as suas mega-vendas irão poluir e enterrar o mundo sob imensas pilhas de sucata.




O excesso mercantil é, porém, completado pelo estado de exceção político, que fica sempre pressuposto como tela de fundo. A infração econômica cotidiana, sempre posta e reposta socialmente, é então completada pelo estado de sítio, sempre que a socialização pelo valor entra em crise e a bancarrota geral aparece.




4-





Romances latino-americanos "pós-realistas" tais como Esaú e Jacó (1904), de Machado de Assis, ou El recurso del método (1974), de Alejo Carpentier, apontavam claramente a relação entre febre especulativa e excesso imaginário e real de poder no contexto latino-americano. A representação literária de potentados escravistas e de regimes de exceção rompe então todos os postulados lógicos da verossimilhança realista tradicional. No fundo, a forma "cômico-fantástica" de Machado é precursora do "real maravilloso" de Carpentier e da literatura latino-americana em geral. Ambas as formas literárias têm seu nervo estético concreto nas noções de capricho, excesso e desmedida, que geram a contínua transgressão dos limites e uma forte sensação de aclimatação postiça de normas e ideologias europeias no contexto periférico; daí também a sensação de não-história, a força da  alegoria ou da repetição mítica em tais processos de "modernização conservadora". O descompasso gigantesco entre a norma e a sua aplicação prática, as


 contradições sociais sempre recorrentes, a fragilidade econômica e a inevitável bancarrota da periferia trazem consigo, no entanto, a crítica objetiva da ideologia, mas também a necessidade política de regimes de exceção para conter a sociedade, sempre em vias de ruptura e dissolução, dentro de certos limites artificiais. O informe (social) como que invoca o uniforme (militar-estatal). É então o poder de polícia do Estado que traz a realidade para dentro dos eixos: o estado de sítio de Floriano Peixoto, representado com destaque em Esaú e Jacó, a intervenção ianque no país sul-americano, em El recurso del método.



5-



O que se depreende daqui, contudo, é que o regime de exceção, sempre pressuposto na base constituída pela forma-mercadoria (ou a troca de equivalentes), torna-se a norma capitalista explícita, principalmente lá onde a dominação e a exploração não podem mais se sustentar e se legitimar por conta própria. A América Latina, a Ásia e a África são os lugares máximos de realização dessa lógica inscrita no próprio conceito de capital, lá onde o capital pode celebrar suas orgias sem se preocupar muito com as leis, a moral e os bons costumes. Carpentier chega a contar 27 ditadores

em um país do Caribe e mais de mil golpes e quarteladas na América Latina, em pouco mais de um século e meio.




A violência econômica estrutural portanto vêm à tona e se realiza também politicamente. É nesse sentido que o estado de exceção se tornou a regra mundial permanente hoje: globalizado, o capital atinge seu objetivo máximo, que é eliminar em massa o trabalho vivo da produção de mercadorias, superando todas as barreiras sociais que buscam o controlar (contratuais, legais, etc.). É o que permite mediar e conectar fenômenos de um processo único de instauração da exceção normativa: políticas neoliberais, privatização e hiperburocratização das políticas do Estado, flexibilização das relações de produção, políticas imperialistas, retorno de estratégias de acumulação primitiva, imaginário pós-moderno, afirmação do imperativo do gozo e hegemonia de um vínculo social perverso. O capital atinge o limite de reduzir e identificar todo outro a si próprio.


Mas assim também o Capital excede quaisquer limites naturais e sociais, destruindo seu próprio fundamento econômico e social - exigindo então um estado de emergência permanente para recolocar em ordem uma sociedade em completo caos e desordem. Viver nesse limite negativo, em que tudo é mobilidade mas nada se resolve, é também estar vivendo talvez, possivelmente, a transição para o declínio da espécie humana na terra.







(maio-junho-novembro de 2011)